Testemunhos da cat‡strofe: mem—rias do trauma em Vozes de Tchern—bbil

 

 

Catastrophy testimonies: memories of trauma in Voices from Chernobyl

 

 

Joyce Rodrigues Silva Gon�alves[78]

https://orcid.org/0000-0003-4643-1810

 

 

Resumo: Este artigo tem como objetivo realizar uma breve an‡lise da obra de Svetlana AleksiŽvitch, Vozes de Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear, a partir da perspectiva dos estudos memorial’sticos. O livro reœne relatos orais de pessoas que vivenciaram, direta ou indiretamente, a maior cat‡strofe tecnol—gica do sŽculo XX, ocorrida na usina de Tchern—bil, na ent‹o Uni‹o das Repœblicas Socialistas SoviŽticas em abril de 1986. O g�nero testemunho permite que sejam ouvidas as mem—rias traum‡ticas de pessoas comuns, como camponeses, residentes das aldeias no entorno da usina nuclear, donas de casa, m‹es e pais de fam’lias, bem como de profissionais ligados ˆ produ�‹o de energia em Tchern—bil, como engenheiros, f’sicos nucleares, professores, bombeiros e militares soviŽticos.

Palavras-chave: Hist—ria; Oralidade; Cat‡strofe; Testemunho; Tchern—bil.

 

Abstract: This article aims to conduct a brief analysis of the book of Svetlana AleksiŽvitch, Voices from Chernobyl: the oral history of a nuclear disaster, from the perspective of memorialistic studies. The work gathers accounts of oral speech from people who experienced, directly or indirectly, the greatest technological catastrophe of the 20th century, that occurred at the Chernobyl nuclear power plant, in the Union of Soviet Socialist Republics, in April 1987. The testimony genre allows the memories of ordinary people, such as peasants, residents of the villages around the nuclear power plant, housewives, mothers and fathers of families, as well as professionals related to energy production in Chernobyl, as engineers, nuclear physicists, teachers, firefighters and Soviet military.

Key-words: History; Orality; Catastrophe; Testimony; Chernobyl.

 

 

Escolhi o g�nero das vozes das pessoasÉ espreito e ausculto meus livros nas ruas, atr‡s das janelas. Nelas, pessoas reais contam os principais acontecimentos de seu tempo: a guerra, a queda do impŽrio socialista, Tchern—bil, e todos eles conservam na palavra a hist—ria do pa’s, a hist—ria comum. Tanto a antiga, como a mais recente. E cada um guarda a hist—ria de seu pequeno destino humano.

Svetlana AleksiŽvitch, autora bielorrussa, se dedicou ˆ escrita de testemunhos traum‡ticos, registrando em suas obras as mem—rias de centenas de pessoas que vivenciaram as guerras e as demais tragŽdias soviŽticas. AleksiŽvitch afirma, em seu discurso proferido na Academia Sueca, Estocolmo, na ocasi‹o do recebimento do pr�mio Nobel de literatura em 2015, que a mem—ria do povo soviŽtico Ž uma mem—ria sempre traum‡tica, que a hist—ria da (s) na�‹o (›es) soviete (s) nunca foi tranquila, e que a isso essas pessoas est‹o familiarizadas: ÒA mem—ria nos inspira. N—s sempre vivemos no terror, somos capazes de viver no terror; Ž o nosso habitat. E nisso, o nosso povo n‹o tem rivais...Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 227).

Na obra Hist—ria, Mem—ria, Literatura: o testemunho na era das cat‡strofes, M‡rcio Seligmann-Silva (2003) avalia que o sŽculo XX Ž considerado um per’odo catastr—fico, uma vez que ocorreram v‡rias revolu�›es, duas guerras mundiais, tragŽdias humanas, pol’ticas e tecnol—gicas. Em Cat‡strofe e representa�‹o, Seligmann-Silva e Nestrovski (2000) reœnem ensaios que tecem considera�›es a prop—sito dos limites da linguagem, do pensamento e da imagina�‹o na representa�‹o da cat‡strofe nas artes. A Žtica da representa�‹o Ž um ponto crucial, principalmente na estŽtica da recep�‹o, uma vez que a cr’tica das artes, e aqui privilegiamos a literatura, exerce seu papel tambŽm em rela�‹o ˆs escritas de si, em que a voz narrativa se coloca em primeira pessoa, como nos g�neros autobiogr‡ficos, memorial’sticos. A obra de Svetlana AleksiŽvitch Ž constitu’da por testemunhos, em que os lembradores se colocam a rememorar suas experi�ncias traum‡ticas. A despeito de esses sujeitos n‹o escreverem suas pr—prias mem—rias, concederam entrevistas ˆ autora para que ela o fizesse.

Embora a pequena cidade de Tchern—bil seja localizada na Ucr‰nia, as consequ�ncias da explos‹o do reator nœmero quatro de sua usina nuclear se estenderam por grande parte da Europa, particularmente e de modo mais intenso pela Bielorrœssia, j‡ que a cidade se localiza muito pr—ximo ˆ fronteira com esse pa’s. Os impactos do desastre na popula�‹o vulner‡vel v‹o desde os danos f’sicos, psicol—gicos, sociais, atŽ o desamparo dos direitos humanos, que foram, de modo geral, negligenciados.

Svetlana AleksiŽvitch utiliza em suas obras a tŽcnica da metodologia oral, do discurso falado atravŽs dos testemunhos que recolhe de pessoas comuns. Em Vozes de Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear, os relatos nos permitem ter uma no�‹o do que essas pessoas sentiram ao vivenciar tamanha tragŽdia e os impactos dela desde sua deflagra�‹o atŽ os dias atuais, j‡ que a Òzona de exclus‹oÓ, extens‹o territorial no entorno da usina, est‡ permanentemente condenada. ƒ sua Òterra envenenadaÓ. Sendo a autora uma das pessoas atingidas pelo desastre de Tchern—bil, ainda que indiretamente, no cap’tulo inicial da obra em an‡lise ela tece suas pr—prias considera�›es acerca do que significou o incidente e como suas vidas foram definitivamente mudadas a partir de ent‹o. A primeira rea�‹o foi um emudecimento diante do fato tr‡gico: ÒEntre o momento em que aconteceu a cat‡strofe e o momento em que come�aram a falar dela, houve uma pausa. Um momento de mudez. E todos se lembram dele...Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 41).

O sil�ncio que se instaurou Ž perfeitamente compreens’vel, considerando que em situa�›es traum‡ticas Ž normal que as pessoas fiquem em estado de choque, que n‹o saibam nem mesmo como reagir. Ademais, aquelas que, mesmo perplexas, poderiam vislumbrar alguma explica�‹o, que poderiam de algum modo elaborar o trauma, n‹o encontravam meios para tal. A ci�ncia, a literatura, a filosofia tambŽm n‹o as possibilitavam uma sistematiza�‹o racional da cat‡strofe, o que explica o porqu�

[C]alaram-se os fil—sofos e escritores, expulsos de seus canais habituais da cultura e da tradi�‹o. Naqueles primeiros dias, era mais interessante conversar n‹o com cientistas, funcion‡rios ou militares com muitas medalhas, e sim com os velhos camponeses. Gente que vivia sem Tolst—i e DostoiŽviski, sem internet, mas cuja consci�ncia de algum modo continha uma nova imagem de mundo. E ela n‹o se destruiu (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 42).

Os camponeses, pessoas simples em sua maioria, tambŽm n‹o sabiam ao certo o que havia ocorrido, mas o impacto em suas vidas foi tamanho que alterou seus destinos. A maioria foi evacuada dois, tr�s dias depois, umas e outras acabaram retornando ˆ revelia das orienta�›es do Estado. Mesmo as que emigraram tiveram a saœde seriamente comprometida, fam’lias destru’das, planos arruinados. ƒ esse o principal enfoque da obra de Svetlana: ÒEu quero narrar a hist—ria de forma a n‹o perder de vista o destino de nenhum homemÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 50).

Em Vozes de Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear, a autora privilegia mem—rias que s‹o, simultaneamente, individuais e coletivas. Do ponto de vista do coletivo, importa dizer que as reflex›es de Maurice Halbwachs (2004) em seu livro A mem—ria coletiva contribu’ram imensamente para a compreens‹o das quest›es sociais que comp›em a mem—ria. Para o te—rico franc�s, a mem—ria aparentemente mais particular remete a um grupo. O indiv’duo carrega em si a lembran�a, mas est‡ sempre em intera�‹o com a sociedade, seus grupos e institui�›es. ƒ no contexto dessas rela�›es que nossas lembran�as s‹o constru’das. Como na�‹o, o pensamento coletivo predominou durante muito tempo entre os soviŽticos: Ò[M]as isso Ž tambŽm a imagem da barb‡rie, essa falta de medo pela pr—pria vida. N—s sempre falamos Òn—sÓ e n‹o ÒeuÓ: Òn—s mostraremos o hero’smo soviŽticoÓ, Òn—s revelaremos o car‡ter soviŽticoÓ para o mundo todo! (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 333).

Do ponto de vista individual, Svetlana AleksiŽvitch permite que hist—rias particulares sejam conhecidas, que sejam contados destinos conduzidos pela cat‡strofe. O pensamento individual surge mesmo nas amarras do coletivo: Ò[D]epois de Tchern—bil, sente-se isso. N—s temos aprendido a dizer ÔeuÕ. Eu n‹o quero morrer! Eu tenho medo!Ó [Nat‡lia Roslova, presidenta do Comit� Mulheres de Moguilov] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 334).

O primeiro dos relatos na obra de Svetlana Ž de Liudmila Ign‡tienko, esposa gr‡vida de um dos primeiros bombeiros que foram enviados ao reator para tentar apagar o inc�ndio ap—s a explos‹o. A mulher descreve como tudo aconteceu e como se deram as duas semanas seguintes, em que viu o esposo se esvanecer rapidamente em um hospital de Moscou em consequ�ncia da s’ndrome aguda radiativa. A descri�‹o Ž chocante, carregada de horror. Ap—s a morte do marido, a esposa encontra nos sonhos uma alternativa para sobreviver, neles ela se encontra novamente com seu amado e com a filha que nascera morta em raz‹o da radia�‹o a que esteve exposta enquanto acompanhava e cuidava do homem. Liudmila confessa: ÒAssim vou vivendo. Vivo ao mesmo tempo num mundo real e irreal. N‹o sei onde me sinto melhorÓ, e completa: ÒAs pessoas n‹o querem ouvir falar da morte. Dos horrores [...] Mas eu falei do amor, como eu ameiÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 37-38).

A fuga da realidade Ž bastante recorrente ao longo do livro e se mostra de diversos modos. A pr—pria autora reconhece: ÒA realidade resvala, n‹o cabe no homemÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 49). H‡ um relato interessante que exemplifica esse resvalamento do real, em que a voz que testemunha o desastre se coloca alŽm da realidade, que parece viver uma vida imagin‡ria, surreal:

E eu me lembro do duende. Ele vive h‡ muito tempo aqui comigo, n‹o sei exatamente onde, saiu do forno. De capuz preto e roupa preta com bot›es brilhantes. N‹o tem corpo, mas se move. Durante um tempo eu pensei que fosse meu marido que vinha me ver. Veja s—... Mas n‹o. ƒ um duendezinho... Vivo sozinha e n‹o tenho com quem falar, de modo que ˆ noite eu conto para mim mesma o dia que passou. [Maria Fed—tovna Vel’tchko, cantora popular e contadora de hist—rias] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 210).

A alucina�‹o surge, nesse caso, como consequ�ncia do trauma vivido e da solid‹o p—s-cat‡strofe. Ali‡s, muitas pessoas vivenciaram/vivenciam a solid‹o p—s-Tchern—bil, pois v‡rias perderam suas fam’lias ou acabaram se isolando de algum modo.

Ap—s o per’odo inicial em sil�ncio, os atingidos pela cat‡strofe come�aram a retomar o fato e elaborar suas mem—rias traum‡ticas. Mas, afinal,

[P]ara que as pessoas recordam? Para restabelecer a verdade? A justi�a? Para se libertar e esquecer? Ou por que compreendem que participaram de um evento grandioso? Por que buscam no passado alguma prote�‹o? E, alŽm disso, a recorda�‹o Ž uma coisa muito fr‡gil, ef�mera, n‹o Ž um conhecimento exato, Ž uma suposi�‹o do homem sobre si mesmo. Isso ainda n‹o Ž conhecimento, Ž apenas sentimento. [...]. Para que as pessoas recordam? ƒ a minha pergunta. Mas eu falei com voc�, pronunciei algumas palavras. E compreendi alguma coisa... Agora n‹o sinto t‹o sozinho. Mas o que acontece com os outros?Ó [Piotr S., psic—logo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 55-57).

O relato acima Ž bastante consciente da dificuldade da assimila�‹o dos fatos; considerando-se que foi proferido por um psic—logo, Ž perfeitamente compreens’vel. Mas, como a testemunha j‡ sinalizara em sua fala, como as pessoas lidam com suas pr—prias lembran�as, de modo geral, Ž algo problem‡tico a ponto de se questionarem: Ò[E]nt‹o, o que Ž melhor: lembrar ou esquecer?Ó [Evgu�ni Aleks‡ndrovitch Br—vkin, professor da Universidade Estatal de G—mel] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 131).

H‡ uma rela�‹o intr’nseca entre lembran�a e esquecimento. O sujeito que rememora est‡ sempre colocando em evid�ncia uma mem—ria selecionada, consciente ou inconscientemente, enquanto recha�a outras partes das experi�ncias vividas. Quando o lembrador n‹o se d‡ conta desse movimento, Ž como se houvesse uma amnŽsia decorrente do trauma vivenciado. O relato abaixo exemplifica essa falha da mem—ria, uma lacuna que pode ser considerada em termos neurol—gicos e tambŽm psicol—gicos/psicanal’ticos:

[E]u me esqueci de tudo. S— lembro que estive ali, mas n‹o me recordo de mais nada. Eu me esqueci de tudo. No terceiro ano depois da desmobiliza�‹o, aconteceu uma coisa na minha mem—ria... Nem os mŽdicos entendem... N‹o consigo sequer contar dinheiro, me perco. Perambulo de um hospital a outro... J‡ contei isso, ou n‹o? [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 104).

Trauma e amnŽsia est‹o, portanto, frequentemente e intimamente relacionados, assim como as Òlembran�as encobridorasÓ, sinalizadas por Sigmund Freud et al. (1969) como uma forma de escamotear mem—rias traum‡ticas ao se rememorar fatos mais triviais do passado.

Algumas pessoas tinham a no�‹o da contribui�‹o que seria prestar seus testemunhos para a hist—ria oficial: Ò[L]embrar? Eu quero e n‹o quero lembrar. Se os cientistas n‹o sabem nada, se os escritores n‹o sabem nada, ent‹o os ajudaremos com a nossa vida e a nossa morteÓ [K‡tia P.] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 147). Outras precisavam contribuir consigo mesmas: ÒN‹o me pergunte. N‹o vou dizer. N‹o vou falar nada sobre isso... N‹o, eu posso conversar com voc� para tentar entender, se for poss’velÓ [Nina Kovaliova, esposa de um liquidador] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 269).

Por outro lado, houve aqueles que sentiam necessidade de testemunhar suas experi�ncias traum‡ticas, como Nikolai Kalœguin (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 65): Ò[E]u quero testemunhar. Isso aconteceu h‡ dez anos e todo dia se repete comigo. Agora mesmo. Carrego isso sempre comigo. N‹o sou escritor, n‹o saberia como contar... Mas sou testemunhaÓ. Observamos nessa fala que o trauma se repete na mem—ria, que n‹o foi elaborado nem superado. No caso desse personagem, a fatalidade maior se concretizou na morte da filha, motivo pelo qual o homem se revolta e reitera: Ò[E]u quero testemunhar, a minha filha morreu por culpa de Tchern—bil. E ainda querem nos calarÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 68). Percebemos nesse discurso que houve um silenciamento imposto pelos respons‡veis pela tragŽdia e pelo pr—prio Estado, por isso a import‰ncia da hist—ria oral para preencher as lacunas da hist—ria oficial.

Um motivo muito comum que leva alguŽm a testemunhar sobre determinado acontecimento Ž a consci�ncia da finitude da vida. Ë medida que o tempo passa, sente-se a necessidade de revelar algo importante, principalmente quando se trata de um fato hist—rico, como Ž o caso do acidente em quest‹o. Os documentos com registros sobre o desastre de Tchern—bil foram destru’dos por v‡rias raz›es: primeiro porque, burocraticamente, os papŽis oficiais na Uni‹o SoviŽtica s— eram arquivados durante tr�s anos, depois porque eram radiativos, e, por œltimo, porque houve a reestrutura�‹o do exŽrcito e a dissolu�‹o das unidades administrativas e militares depois da Perestroika. PorŽm, alguns conjecturavam uma circunst‰ncia muito plaus’vel: Ò[Ž] poss’vel que tenham sido destru’dos para que ninguŽm soubesse a verdade. E n—s somos testemunhas. Mas em breve morreremosÓ [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 117).

AlŽm da omiss‹o de documentos, houve tambŽm omiss‹o de verdades. As autoridades diziam que estava tudo sob controle, enquanto os habitantes de aldeias ao redor de Tchern—bil recebiam alt’ssimas dosagens de radia�‹o. Algumas comunidades foram evacuadas, outras n‹o. Os camponeses continuaram a cultivar, colher e consumir normalmente os alimentos que plantavam. Muitos deles foram persuadidos a permanecerem em suas casas, pois eram tambŽm m‹o de obra para o Estado.

N‹o apenas pessoas comuns, que viviam no campo e em pequenas aldeias foram enganadas, tambŽm militares tiveram informa�›es omitidas enquanto serviam ao Estado, alguns foram enviados para o trabalho em Tchern—bil ap—s o acidente sem ao menos terem conhecimento disso, apenas foram convocados e encaminhados. Um dos militares que testemunha na obra de Svetlana afirma que n‹o os informavam sequer os valores das doses radiativas que estavam recebendo durante o trabalho: Ò[o]s roentgen que nos tocavam eram segredo militar. [...]. Nem sequer ao partirmos disseram quanto... Cachorros! Filhos da putaÓ [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 68). V‡rias denœncias da mesma natureza s‹o encontradas ao longo das narrativas na obra em an‡lise.

Havia ainda controvŽrsias entre cientistas sobre os riscos que corriam os militares em servi�o. Alguns afirmavam que n‹o havia problema nenhum, outros alertavam para o mal que faria a exposi�‹o ˆ radia�‹o. Uns acreditavam que estavam seguros, outros sabiam do perigo e das prov‡veis consequ�ncias.

De fato, era plenamente compreens’vel que as pessoas fossem facilmente ludibriadas pelas autoridades, e atŽ mesmo que n‹o acreditassem, quando eram advertidas, no perigo a que estavam sujeitas com a alta radia�‹o, uma vez que estavam lidando com um inimigo invis’vel:

A culpa Ž da radia�‹o ou de quem? Como ela Ž? Vai ver, mostraram-na em algum filme. Voc� viu? Ela Ž branca ou o qu�? De que cor? Uns contam que ela n‹o tem cor nem cheiro, outros contam que Ž negra. Como a terra! Se n‹o tem cor, Ž como Deus: est‡ em todo lugar, mas ninguŽm v�. Querem nos assustar. As ma�‹s est‹o penduradas nas ‡rvores e as folhas tambŽm, as batatas est‹o crescendo no campo... O que eu penso Ž que n‹o houve nenhum Tchern—bil, que inventaram isso tudo. Enganaram as pessoas [Anna Petr—vna Bad‡ieva, residente na zona contaminada] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 83).

Podemos observar no trecho acima a descren�a naquilo que n‹o Ž materializado, no que n‹o Ž visto a olhos nus, o que acentuou o perigo das part’culas radiativas. Para a personagem, se a vida continua seguindo seu curso normalmente, ent‹o n‹o houve cat‡strofe, est‡ tudo certo. Em outro relato percebemos tambŽm essa necessidade de materializa�‹o do perigo. Duas idosas garantem ter visto o monstro da radia�‹o:

Pois olhe: est‡ vendo aquela casa ali meio constru’da? Os moradores a abandonaram e foram embora. Por medo. Uma noite dessas fomos ver por dentro. Olhamos pela janela. E ali estava, debaixo de uma viga, a radia�‹o. Com uma cara ruim e olhos de fogo! Negra, negra! (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 317).

Tal fala soa como uma alucina�‹o, uma neurose traum‡tica, como descrita pela psican‡lise de Freud et al. (1969) em seu texto O mecanismo ps’quico do esquecimento. Esse mesmo mecanismo pode ser observado no caso do relato da mulher que v� um duende em casa. Enfim, cada um encontra uma forma para conduzir suas experi�ncias traum‡ticas, seja para lembr‡-las ou para esquec�-las, ainda que atravŽs de uma puls‹o de morte, que seria uma solu�‹o e, para uns, atŽ mesmo uma b�n�‹o: Ò[D]e alguns Deus se apieda, mas a mim ainda n‹o concedeu a morte. Continuo vivaÓ [An™nima] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 71).

A morte, ali‡s, Ž um tema predominante nos relatos reunidos na obra de AleksiŽvitch e estava presente entre indiv’duos de todas as faixas-et‡rias, inclusive os natimortos. Como consequ�ncia do desastre aumentaram os ’ndices de abortos, tanto espont‰neos quanto induzidos, e houve um grande desequil’brio entre as taxas de natalidade e mortalidade na regi‹o no per’odo p—s-cat‡strofe.

Alguns soldados que estiveram nas guerras em que a Uni‹o das Repœblicas Socialistas SoviŽticas lutou afirmam que a tragŽdia de Tchern—bil se equipara ˆ situa�‹o bŽlica. Ë medida que as pessoas iam morrendo em decorr�ncia de doen�as desencadeadas pela radiatividade, os enfermos j‡ imaginavam seus momentos finais: Ò[N]‹o est‡ claro como vou morrer. Se eu pudesse escolher a minha morte, seria uma morte comum. N‹o como as de Tchern—bil. A œnica coisa que sei Ž que com o meu diagn—stico n‹o se dura muito. [...]. Estive no Afeganist‹o. Ali a coisa era mais f‡cil. Com uma bala... [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 120).

A imin�ncia da morte pairava sobre todo o povo de Tchern—bil, atŽ mesmo as crian�as tinham consci�ncia disso. Uma das testemunhas relata uma cena que presenciou em um ™nibus, em que um menino n‹o cedeu seu lugar a um idoso, que o repreendeu dizendo: ÒÔQuando voc� for velho, tambŽm n‹o v‹o te ceder o lugarÕ. ÔEu nunca vou ficar velhoÕ, respondeu o menino. ÔE por qu�?Õ. ÔTodos n—s vamos morrer logoÕÓ [L’lia Kuzmenkova, professora] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 299).

Um dos cap’tulos finais de Vozes de Tchern—bil Ž dedicado ao coro de crian�as e adolescentes que a autora entrevistou em um hospital, e os relatos s‹o profundamente tristes, tr‡gicos. Um adolescente conta como v‡rios de seus amigos e colegas de tratamento j‡ se foram e se mostra resignado com a morte iminente:

Mas como me aborrecem essas paredes cinza do hospital. Como estou fraco ainda. [...]. E a minha chega. Ontem ela (a m‹e) pendurou um ’cone na enfermaria. Cochicha alguma coisa naquele canto, se p›e de joelhos. Todos se calam: professores, mŽdicos, enfermeiras. Acham que eu n‹o suspeito de nada. Que n‹o sei que vou morrer em breve (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 348-349).

Em v‡rios dos testemunhos orais podemos observar a perspectiva infantil da morte, como uma crian�a que sabia que o av™ estava morrendo e queria ver como Ž que sua alma sairia voando. As brincadeiras frequentemente giravam em torno da cat‡strofe da usina: Ò[E]u tenho um irm‹ozinho pequeno. Ele adora brincar de Tchern—bil. Constr—i um abrigo, cobre de areia o reator. Ou ent‹o se veste de espantalho e corre atr‡s de todo mundo: Uh-uh-uh! Eu sou a radia�‹o!Ó ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 348). Na escola desenhavam a Tchern—bil submersa no caos do acidente nuclear, ainda que pouco ou nada fosse dito sobre a quest‹o. O sil�ncio sobre a cat‡strofe nas escolas era uma realidade, uma vez que havia falta de informa�›es para repasse, censura do Estado e atŽ mesmo um bloqueio psicol—gico que impedia que as pessoas em Tchern—bil conversassem entre si sobre o desastre. Geralmente falavam sobre o fato com estrangeiros, jornalistas e parentes que n‹o residiam na zona contaminada.

As mem—rias de crian�as s‹o realmente impactantes, das mais singelas ˆs mais tr‡gicas e desoladoras. Viam tudo que possu’am ser enterrado em grandes buracos, suas casas com todos os seus pertences, livros, brinquedos:

[E]enterram tudo com areia e barro e comprimem. No lugar da aldeia fica um campo liso. A nossa casa est‡ enterrada l‡. E a escola, o soviete local. E tambŽm o meu herb‡rio e dois ‡lbuns de selos, que eu sonhava em buscar. Eu tinha uma bicicleta. Tinham acabado de comprar para mim (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 346).

O desastre significou uma guerra at™mica, desde a movimenta�‹o de pessoas na regi‹o atŽ a luta pela vida. Alguns utilizavam a express‹o Òcampo de concentra�‹oÓ, Òcampo de Tchern—bilÓ para se referirem ao territ—rio contaminado pelos elementos qu’micos radiativos. Ò[...] hoje a guerra Ž outra. No dia 26 de abril de 1986, n—s sobrevivemos a uma guerra. Uma guerra que n‹o terminouÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 120). Os militares e todos os que serviram em Tchern—bil foram considerados por muitos como her—is:

Eu os considero her—is, e n‹o v’timas de guerra, de uma guerra que Ž como se n‹o tivesse acontecido. Chamam de acidente, de cat‡strofe. Mas foi uma guerra. AtŽ os nossos monumentos de Tchern—bil parecem militares [Serguei Vass’lievitch S—boliev, diretor da Associa�‹o Republicana Escudo para Tchern—bil] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 222).

Assim como acontece em um cen‡rio de guerra, as pessoas serviam, muitas voluntariamente, outras por press‹o. Contudo, n‹o recusavam a miss‹o, atŽ mesmo cientistas se dispuseram ao trabalho bra�al, como conta uma testemunha ˆ Svetlana:

[S]ou engenheiro qu’mico, doutor em ci�ncias qu’micas, e me obrigaram a abandonar o emprego de respons‡vel por um laborat—rio qu’mico num importante complexo industrial. E como me utilizaram? P›em nas minhas m‹os uma p‡. Esse foi praticamente o meu œnico instrumento. Foi aqui que nasceu o aforismo: contra o ‡tomo, a p‡ [Ivan Jm’khov] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 247).

Aqueles que sobreviveram ˆ cat‡strofe tiveram que lidar, como se n‹o bastasse o trauma imensur‡vel do desastre e as condutas de guerra, com o preconceito e a discrimina�‹o. Ò[A]s pessoas t�m medo de n—s. Dizem que somos contagiosos. Por que Deus nos castigou?Ó [An™nima] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 74). O fato de terem sido altamente expostos ˆ radia�‹o os tornou um povo t—xico:

Pod’amos ter ido embora daqui mas considerei com meu marido e decidimos ficar. Temos medo das outras pessoas. Aqui ao menos s‹o todos de Tchern—bil. N‹o assustamos um ao outro; se alguŽm oferece ma�‹s ou pepinos do seu jardim, da sua horta, n—s pegamos e comemos. N‹o escondemos os alimentos com vergonha no bolso para depois jog‡-los fora. Todos n—s temos a mesma lembran�a, a mesma sorte. Em qualquer outro lugar, em qualquer parte n—s somos estranhos. Apestados. Olham para a gente de rabo de olho. Com receio. As pessoas nos chamam Ògente de Tchern—bilÓ, Òcrian�as de Tchern—bilÓ, Òevacuados de Tchern—bilÓ. J‡ estamos acostumados [NadiŽjda Burakova, habitante do povoado urbano de J—iniki] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 290).

Podemos observar no relato supracitado que os danos foram muito alŽm de f’sicos, psicol—gicos e materiais, mas tambŽm foram morais, afetaram a vida humana, social, e atŽ ’ntima. Sabendo da impot�ncia sexual masculina como uma das sequelas da alta radia�‹o, um jornalista tentou tratar do assunto com alguns militares que atuaram no acidente; entretanto, nenhum deles se abriu para falar sobre a quest‹o; conseguiu somente confid�ncias de algumas mulheres que os conheciam:

[O]lhe, agora mesmo estavam sentados aqui com voc�s uns rapazes (elas riem), pilotos. Uns caras de dois metros. Cheios de medalhas. Para os sovietes eles s‹o bons, mas para a cama n‹o prestam [Serguei Vass’lievitch S—boliev, diretor da Associa�‹o Republicana Escudo para Tchern—bil] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 222).

O fantasma da consequ�ncia ’ntima, sexual, cercava os homens que trabalharam diretamente no acidente nuclear, pois as mulheres, tendo conhecimento disso, n‹o desejavam se unir a eles para namorar nem casar:

[G]ostei de uma garota: ÒVamos namorar?Ó. ÒPara qu�? Voc� agora Ž um dos de Tchern—bil. Quem vai querer casar com voc�?Ó. Conheci outra garota. Nos beijamos, namoramos. A coisa estava ficando sŽria. ÒVamos nos casarÓ, eu propus. E ela me perguntou algo mais ou menos assim: ÒSer‡ que voc� pode? Est‡ em condi�›es?Ó. Eu iria embora daqui, e certamente ainda vou. Mas tenho pena dos meus pais... [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 115).

Tchern—bil passou a ser considerada como doen�a:

[U]m dia, morreu inesperadamente uma jovem gr‡vida. Sem diagn—stico algum, nem sequer o patologista deu o diagn—stico. Uma menina se enforcou. Do quinto ano. Assim, sem mais nem menos. Os pais ficaram loucos. O diagn—stico era o mesmo para todos: Tchern—bil, quando acontecia algo, todos diziam: Tchern—bil... [Nina Konstant’novna, fil—loga, professora] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 165).

AlŽm de diagn—stico mŽdico, Tchern—bil passou a servir tambŽm como justificativa para os problemas da na�‹o, assim como as guerras. A cat‡strofe trouxe novamente as medidas extremas por parte do governo, redistribui�‹o e racionamento: Ò[a]gora surgia a possibilidade de jogar tudo na conta de Tchern—bil. ÔSe n‹o fosse Tchern—bil...ÕÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 335).

A cat‡strofe criou um povo, surgiu um novo grupo: Ò[o] mundo se dividiu: h‡ os de Tchern—bil, n—s; e h‡ voc�s. O resto dos homensÓ [Nikolai J‡rkovi, professor] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 172).

A metodologia de coleta de informa�›es e testemunhos utilizada por Svetlana AleksiŽvitch proporciona a exposi�‹o de v‡rios casos, crendices e supersti�›es, o que Ž comum na hist—ria oral. Essas vozes reunidas formam um ÒcoroÓ, como denominado pela pr—pria autora em alguns cap’tulos do livro. Muitas ressoam a religi‹o e a fŽ, um suporte comum e efetivo para a sobreviv�ncia daqueles que recorrem ˆ cren�a e se apegam a ela.

O humor, apesar de contradit—rio, ˆs vezes, se tornava tambŽm um modo de escapismo, uma espŽcie de fuga da realidade cruel em que Òo povo de Tchern—bilÓ estava inserido. H‡ certo estranhamento quando refletimos sobre um fato tr‡gico ser ou n‹o ris’vel, mas anedotas eram comuns entre a popula�‹o da regi‹o. H‡ um epis—dio c™mico que exemplifica a possibilidade de Òrir para n‹o chorarÓ:

[C]hora quem n‹o labora... Veja uma ucraniana que vende no mercado umas ma�‹s grandes e vermelhas. Ela grita: ÒComprem ma�‹s! Ma�‹s de Tchern—bil!Ó. AlguŽm a aconselhou: ÒN‹o diga, mo�a, que Ž de Tchern—bil. Assim ninguŽm vai comprarÓ. ÒQue nada! Compram sim, e como! Uns levam para a sogra, outros para o chefeÓ [An™nima] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 78).

Ao mesmo tempo, as pessoas enxergavam a beleza e o horror que as rodeava. As terras soviŽticas no entorno de Tchern—bil s‹o descritas no livro como paisagens belas: Ò[E] essa mesma beleza era o que fazia daquele horror algo ainda mais pavoroso. O homem tinha que abandonar aqueles lugaresÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 136). Alguns dos testemunhos registrados pela autora lamentam que as pessoas n‹o puderam mais desfrutar dos prazeres cotidianos, como nadar nas ‡guas l’mpidas de seus rios, ou colher flores e frutos dos seus bosques.

O que percebemos nos registros de Svetlana AleksiŽvitch Ž que houve muita neglig�ncia e desordem por parte das autoridades e dos respons‡veis pela condu�‹o do caso: Ò[N]‹o escreva sobre as maravilhas do hero’smo soviŽtico. TambŽm houve, Ž verdade. Mas primeiro voc� deve falar da neglig�ncia e da desordem, depois das proezasÓ [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 111), e que, apesar da disposi�‹o ao sacrif’cio que o povo demonstrou, o descaso do governo Ž o que tiveram em troca:

[S]omos pobres, sobrevivemos de donativos. O comportamento do Estado, por outro lado, Ž de pura vigarice, abandonou essa gente por completo. Depois que morrem, inscrever‹o o nome delas em ruas, escolas ou alguma unidade militar, mas s— depois que morrerem (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 216).

[E] nas sess›es da comiss‹o governamental, informava-se de maneira simples e habitual que: Òpara tal coisa deve-se perder duas ou tr�s vidas; para outra, uma vidaÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 220).

Nem mesmo ˆ beira da morte era comum o arrependimento por ter servido a p‡tria em Tchern—bil: Ò[U]ma vez eu lhe perguntei: ÔVoc� agora se arrepende de ter ido?Õ. E ele moveu a cabe�a, dizendo: Ôn‹oÕÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 359).

A censura era uma constante em rela�‹o ao acidente nuclear. Jornalistas, cinegrafistas, fot—grafos eram recha�ados durante sua atua�‹o, tinham seus instrumentos de trabalho confiscados: Ò[E]ra proibido filmar a tragŽdia, s— se podia filmar o hero’smo!Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 219). Assim como todas as inst‰ncias sociais eram controladas pelo governo, tambŽm a medicina e outras ci�ncias eram submissas ˆ pol’tica, por isso geralmente se omitiam as informa�›es mais pol�micas e a verdade sobre os ’ndices de radiatividade na regi‹o.

Mesmo em meio ˆ cat‡strofe, a cultura de privilŽgios continuava reinando. Um relato de Vozes de Tchern—bil denuncia um caso de desamparo de uns em favor de outros, que tinham prioridade por serem ricos:

[V]�m ˆ minha mem—ria alguns fragmentos. Cenas. Um presidente de colcoz retira em dois caminh›es todas as suas coisas, a sua fam’lia, os m—veis; e o respons‡vel do Partido exige um carro para eles. Exige justi�a. Eu sou testemunha de que por v‡rios dias n‹o conseguiam sequer retirar de l‡ as crian�as da creche. N‹o havia transporte (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 159-160).

Houve em torno do desastre nuclear muitos mitos. As consequ�ncias da tragŽdia eram difundidas entre as pessoas locais e as que n‹o residiam na regi‹o. O imagin‡rio Ž sempre um espa�o fŽrtil, e, diante de um fato como esse, a mitologia passou a fazer parte do cotidiano popular:

[O]s jornais e as revistas competem entre si para ver quem escreve as coisas mais terr’veis, e esses horrores agradam, sobretudo ˆqueles que n‹o os viveram. Todo mundo leu algo sobre os cogumelos do tamanho de uma cabe�a humana, mas ninguŽm os encontrou. Como os p‡ssaros de duas cabe�as (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 173).

Mitologias ˆ parte, mudan�as de fato aconteceram tanto na paisagem, quanto no car‡ter nacional:

[N]‹o apenas a paisagem mudou, pois onde antes se estendiam campos, cresceram novamente bosques e arbustos, mas tambŽm o car‡ter nacional mudou. Todos est‹o depressivos. O sentimento Ž de estarem irremediavelmente condenados. Para uns, Tchern—bil Ž uma met‡fora, um s’mbolo. Para n—s, Ž a nossa vida. Simplesmente a vida (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 291).

A cat‡strofe de Tchern—bil gerou um trauma mais amplo, alŽm dos aspectos f’sicos, psicol—gicos e sociais, surgiu um trauma da cultura:

Por que se escreve t‹o pouco sobre Tchern—bil? Os nossos escritores continuam a escrever sobre a guerra, sobre os campos de trabalho stalinistas, mas calam sobre Tchern—bil. H‡ um, dois livros e acabou-se. Voc� acha que Ž mera casualidade? O acontecimento ainda est‡ ˆ margem da cultura. ƒ um trauma da cultura. E a œnica resposta Ž o sil�ncio. Fechamos os olhos como crian�as pequenas e acreditamos que assim nos escondemos, que o horror n‹o nos alcan�ar‡ [Evgu�ni Br—vkin, professor universit‡rio] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 130).

Como j‡ sinalizado por Svetlana em seu discurso na Academia sueca na cerim™nia do pr�mio Nobel de literatura, a cultura da tragŽdia Ž inerente ao povo soviŽtico. Outro relato de uma testemunha tambŽm chama a aten�‹o para a quest‹o quando reflete Ò[s]obre o destino da cultura russa, sobre a sua inclina�‹o para o tr‡gico. Sem a sombra da morte, n‹o se podia entender nada. S— sobre a base da cultura russa seria poss’vel entender a cat‡strofe. S— a nossa cultura estava preparada para entende-laÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 296).

Embora o povo soviŽtico estivesse sempre acostumado ˆ cultura da tragŽdia, houve um estado de choque decorrente do desastre de Tchern—bil, uma impot�ncia coletiva diante do trauma: Ò[M]e incomoda a minha experi�ncia como professora. [...] Eu me sinto impotente. H‡ cultura antes de Tchern—bil, e nenhuma cultura depois de Tchern—bil. [...] onde est‹o os nossos escritores, os nossos fil—sofos?Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 283).

Quando lidamos com testemunhos de viol�ncia, com lembran�as traum‡ticas, Ž comum nos depararmos com o discurso do indiz’vel. Faltavam palavras para descrever as experi�ncias, a l’ngua n‹o d‡ conta de traduzir a mem—ria, como afirma Giorgio Agamben sobre a tragŽdia da Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. Em sua obra O que resta de Auschwitz, Agamben (2008, p. 11) observa as dificuldades dos testemunhos de guerra em que Òtrata-se de narrar Ôo que aconteceuÕ e de afirmar que Ôo que aconteceuÕ n‹o faz parte do narr‡velÓ. Algumas testemunhas encontram outras formas de express‹o quando o discurso n‹o Ž poss’vel ou suficiente: Ò[P]or que me tornei fot—grafo? Porque me faltam as palavrasÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 298).

Apesar das experi�ncias do horror e do trauma, houve um aprendizado da humanidade depois do desastre. Na concep�‹o de uma testemunha entrevistada por Svetlana AleksiŽvitch: Ò[N]‹o s— n—s, mas toda a humanidade se tornou mais s‡bia depois de Tchern—bil. Amadureceu, entrou em outra idadeÓ [Guen‡di Gruchev—i, deputado bielorrusso] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 185).

As pessoas, geralmente, passam a refletir mais sobre sua exist�ncia quando ocorrem desastres como em Tchern—bil. ƒ poss’vel reconhecer em situa�›es extremas a efemeridade da vida e a import‰ncia do registro dos fatos hist—ricos, pois esses normalmente se consolidam como verdades do mundo e entram para a Hist—ria oficial, como exemplifica o excerto abaixo:

[E]u sonhava! Lamentava n‹o estar l‡ em 1917 ou em 1941. Hoje penso de outra forma: eu n‹o quero viver a hist—ria, no tempo hist—rico. A minha pequena vida ficaria imediatamente sem defesa. Os grandes acontecimentos a esmagariam sem sequer not‡-la. Sem se deter. Depois de n—s, restar‡ apenas a hist—ria. Restar‡ Tchern—bil. E onde est‡ a minha vida? O meu amor? (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 270).

Apesar da consci�ncia da finitude de suas vidas an™nimas, alguns se apegam ˆ cren�a na hist—ria, de modo que esperam a justi�a com o passar do tempo: Ò[E]u creio na hist—ria. No julgamento da hist—ria. Tchern—bil n‹o terminou, apenas come�aÓ [Vass’li NesterŽnko, ex-diretor do Instituto de Energia Nuclear da Academia de Ci�ncias da Belarœs] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 328).

As imagens apocal’pticas de Tchern—bil s‹o como uma vers‹o tecnol—gica de fim do mundo. N‹o obstante, Svetlana AleksiŽvitch pondera sobre a possibilidade de incidentes catastr—ficos como esse se repetirem:

Antes de tudo, em Tchern—bil se recorda a vida Òdepois de tudoÓ: objetos sem o homem, paisagem sem o homem. Estradas para lugar nenhum, cabos para parte alguma. Voc� se pergunta o que Ž isso: passado ou futuro? Algumas vezes parece que estou escrevendo o futuro (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 51).

Podemos concluir que a contribui�‹o da tŽcnica de coleta de testemunhos orais Ž fundamental para preencher as lacunas da hist—ria oficial, que frequentemente n‹o privilegia alguns discursos populares importantes. A tentativa de silenciamento e exclus‹o das vozes que denunciam os horrores e as injusti�as de uma na�‹o encontra resist�ncia quando esses sujeitos marginalizados social e culturalmente encontram um lugar de fala como o que oferece a obra de Svetlana AleksiŽvitch.

 

Refer�ncias

 

AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz. Trad. Selvino J. Assmann. S‹o Paulo: Boitempo, 2008.

 

ALEKSIƒVITCH, Svetlana. Vozes de Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear. Trad. Sonia Branco. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 2016.

 

FREUD, Sigmund; STRACHEY, James; FREUD, Anna, STRACHEY, Alix; TYSON, Alan; SALOMÌO, Jayme. Edi�‹o Standard brasileira das obras psicol—gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. 24v.

 

HALBWACHS, Maurice. A mem—ria coletiva. Trad. Beatriz Sidou. S‹o Paulo: Centauro, 2004.

 

SELIGMANN-SILVA, M‡rcio (org.). Hist—ria, mem—ria, literatura: o testemunho na era das cat‡strofes. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.

 

SELIGMANN-SILVA, M‡rcio; NESTROVSKI, Arthur (org.). Cat‡strofe e representa�‹o. S‹o Paulo: Escuta, 2000.

 

[Recebido: 21 jul 2020 – Aceito: 25 set 2020]



[78] Professora da Universidade Federal de Minas Gerais, doutoranda em Letras/Estudos liter‡rios, ‡rea de concentra�‹o Teoria da Literatura e Literatura Comparada.