Tamo junto, Favela! A arte
perifŽrica como um mŽtodo educacional
WeÕre in together,
Favela! Peripheral art as an educational method
Ana Carolina de Souza Silva
https://orcid.org/0000-0001-5099-1058
Resumo: Neste trabalho,
apresentamos alguns resultados de uma pesquisa realizada no[34] Centro de Estudos
Lexicais e Terminol—gicos (Centro LexTerm) da
Universidade de Bras’lia. TambŽm divulgamos alguns relatos de experimenta�›es
vivenciadas em institui�›es educacionais e em casas de cultura do Distrito
Federal. A primeira pr‡tica trata de uma experi�ncia educacional e Ž de car‡ter
mais cient’fico-especulativo; a segunda envolve, fundamentalmente, a poesia e a
performance. Nosso objetivo Ž, a partir da estŽtica art’stica das periferias,
verificar estratŽgias eficazes que buscam resgatar uma popula�‹o marginalizada
e em condi�‹o de vulnerabilidade, alŽm de tornar acess’veis conteœdos fundamentais em busca de
conscientiza�‹o e justi�a social. Dessa forma, constatamos que, mesmo em
condi�‹o de subalternidade, o povo perifŽrico n‹o Ž passivo, uma vez que
rejeita os saberes do opressor, assim como resgata e forja saberes pr—prios. Pelo
exposto, podemos observar a import‰ncia de trabalhar a arte com narrativas e
linguagem que contemplem a realidade de falas perifŽricas.
Palavras-chave: Periferia; Linguagem;
Arte; Pol’tica; Educa�‹o.
Abstract: In this
work, we present some results of a research carried
out at the Center for
Lexical and Terminological Studies (LexTerm Center) of the University
of Bras’lia. We also publish some reports of experiments
experienced in educational institutions and in cultural houses in the Federal District. The first practice deals with an educational
experience and has a more scientific-speculative
character; the second fundamentally involves poetry and performance. Our objective is, based
on the artistic
aesthetics of the peripheries, to verify effective
strategies that seek to rescue
a marginalized and vulnerable population, in addition to making
fundamental content accessible
in search of awareness and social justice. Thus, we find
that, even in a condition of subordination,
the peripheral people are not passive, since they reject
the knowledge of the oppressor,
as well as rescue and forge their
own knowledge. From the above,
we can observe the importance of working art
with narratives and language that
contemplate the reality of peripheral speech.
Keywords: Periphery; Language; Art; Politics; Education.
Considera�›es iniciais
Minha gera�‹o av— Ž
come�o, minha gera�‹o filha Ž meio e minha gera�‹o neta Ž come�o de novo (BISPO DOS SANTOS,
2019, p. 27).
Dona Julita, minha v—, nascida no sert‹o da Ema,
no munic’pio de Pianc— (PB), Ž uma mulher sisuda de 93 anos. Ela casou-se aos 18 anos para poder sair de
casa. Minha bisa, Aurora, foi uma mulher abandonada pelo biso em 1983. Essas
mulheres muito t�m a contar, mas trarei foco especial a Dona Julita, pois Ž
minha maior inspira�‹o nessa trajet—ria educacional, acad�mica, pol’tica, art’stica,
ativista e existencial.
Vov—, a mando de bisa Aurora, teve de abandonar
os estudos logo cedo para poder cuidar dos irm‹os mais novos. Mas n‹o s—. As
m‹ozinhas pequenas que sonhavam decodificar as letrinhas tiveram que catar bolas
de algod‹o para garantir a subsist�ncia da fam’lia. Hoje, vov— conta essa
hist—ria com muito rancor e l‡grimas nos olhos. Era 1967 quando ela e o v™ Jo‹o chegam ao Distrito Federal – depois
de tentar a vida em S‹o Paulo − e, achando espa�o para existir na
capital, se juntam a tantas e tantos outras (os) Severinas
(os) nas vilas operacionais em busca do sustento. Foi sustenta�‹o capitalizada.
Vov— limpou casas e vov™ ergueu muros.
A maioria dos
trabalhadores optou por continuar na regi‹o, mesmo que o plano fosse de que
todos retornassem aos seus estados ap—s a constru�‹o de Bras’lia. Nas vilas
operacionais, um novo termo foi criado para designar esses trabalhadores:
candangos. Segundo Tavares (2009), essa terminologia Ž de natureza pejorativa. O
termo ÒcandangoÓ Ž africano (quimbundo[35]);
ele foi usado pelos portugueses para se referir aos negros no per’odo colonial.
No contexto da constru�‹o de Bras’lia, uma das hip—teses levantadas por
Tavares, a partir de sua investiga�‹o, Ž a de que o termo fora inspirado no
nome de um cachorro que habitava o Pal‡cio do Catetinho. Tendo Kubitschek
sabido disso, chamava os oper‡rios – em especial os nordestinos – de
tal forma. Outra hip—tese Ž a de que o termo Òoper‡rioÓ era designado aos
trabalhadores de maior prest’gio (como arquitetos e engenheiros) e ÒcandangoÓ ˆ
m‹o de obra explorada nas jornadas de trabalho (TAVARES, 2009).
Depois da constru�‹o, nordestinas (os), mineiras
(os) e goianas (os) foram erradicados do ÒlarÓ a partir da campanha da senhora
Vera Prates[36]
e realocados a cerca de 30km de dist‰ncia do centro. Como diria o rapper X, a Ceil‰ndia Ž resultado de
Òsangue, suor e l‡grimasÓ[37];
essa fala confirma a dificuldade dos moradores em se estabelecerem na Regi‹o Administrativa
– doravante RA. Isso ocorre n‹o somente por serem despejados, contra a
pr—pria vontade, de seus lares que ficavam pr—ximos a Bras’lia, mas tambŽm por
terem diversas limita�›es que impediam sua dignidade enquanto pessoas. A luta
dos candangos que constru’ram a capital foi em prol da garantia de Òum peda�o
de ch‹oÓ, como afirma o cantor X.
ÒPau que nasce torno, nunca se endireitaÓ, Ž o
que dizem. Com o destino manco, vov— seguia sua travessia ˆs cegas. Como Ž
poss’vel uma pessoa analfabeta sobreviver diante de uma cidade urbanizada,
diante de uma capital nacional, diante de uma complexa burrocracia? Sem ao menos assinar
o pr—prio nome?
Dos
destinos que a vida tem, eu, calanga, nasci no
cerrado. Vejo a hist—ria de Dona Julita como o ponto inicial para mostrar que
pau que nasce torno pode ser modificado e que cada passo dessa peregrina foi
essencial para construir uma narrativa diferenciada. N‹o se trata da regra, mas
da exce�‹o. No entanto, foram necess‡rias apenas duas gera�›es ˆ frente das de
Dona Julita para que o pau fosse forjado em caneta. E caneta ativa.
Comunidade e pol’ticas aut™nomas
Vou
aprender a ler pra ensinar meus camaradas
(MENDES, 2005).
Dona Julita e Seu Jo‹o chegaram ao Distrito
Federal com seus cinco filhos ainda pequenos. Eles estavam em um territ—rio
desconhecido e diante de uma complexa configura�‹o de culturas. O natural Ž
que, a tudo que nos pare�a estranho, haja repuls‹o. Mas, mesmo diante da
misŽria comum a todos, estava tambŽm um forte instinto de sobreviv�ncia entre
esses seres greg‡rios.
Vivemos
resqu’cios da coloniza�‹o. Uma das estratŽgias de domina�‹o est‡ em controlar e
distribuir de forma desigual os direitos b‡sicos. çgua, alimenta�‹o, saœde,
lazer, transporte e educa�‹o s‹o apenas alguns dos direitos garantidos a qualquer
cidad‹o em territ—rio nacional, mas essa garantia torna-se ironia quando
observamos a realidade. Como bem afirma a poeta Meimei
Bastos (2017),
mas, mais ensino mŽdio pra qu�?
se no fundamental os menor j‡ t‹o se
perdendo
na falta do professor.
o corre na esquina
Ž o plano de exterm’nio,
manuten�‹o da opress‹o
E como as comunidades sobrevivem diante da
neglig�ncia do Estado? Podemos pensar na Ceil‰ndia e na campanha de erradica�‹o
que ocorreu em 1970. Ao chegarem ao novo territ—rio, n‹o havia sequer ‡gua
encanada dispon’vel para a comunidade, de forma que as fam’lias recorriam a
po�os e nascentes, tendo de caminhar alguns quil™metros carregando baldes de
‡gua na cabe�a. A Caixa dÕçgua, monumento da cidade, Ž um marco hist—rico para
a RA, pois foi sinalizada como um direito ˆ cidadania.
A nossa sociedade n‹o Ž igualit‡ria. Os direitos
s‹o escolhidos a alguns e pincelados nos jogos de privilŽgios. Como afirma a
intelectual Sueli Carneiro (2005), essa estrutura social hierarquizada Ž baseada
em par‰metros raciais e de classe. Nessa conjuntura, negar a educa�‹o aos
marginalizados Ž o trato de manuten�‹o das desigualdades. A educa�‹o Ž a chave
de acesso a cidadania, a igualdade, ao mercado de trabalho. Esse plano de
exclus›es Ž um plano genocida.
Vov— sobreviveu,
mam‹e tambŽm, assim como tantas e tantos outros que n‹o tiveram o direito de
estudar. Mam‹e saiu precocemente da escola para poder ajudar financeiramente em
casa. Essa hist—ria Ž plural. A maioria na Ceil‰ndia (34,1%) tem o primeiro
grau incompleto. Estou na exce�‹o. Se o desejo foi de mudar a hist—ria desse
ciclo peregrino, ele n‹o foi consciente, mas, por ironia ou n‹o, formei-me
professora. Pensava eu, desde o trabalho de conclus‹o de curso da gradua�‹o,
desde a produ�‹o de minhas poesias para publica�‹o, em cortar o problema pela
raiz. E, nessa constitui�‹o, compreendo-me comunicadora. Arte-educadora. Gri™.
ƒ na conclus‹o
de curso que decido trabalhar com um grupo pouco explorado no Instituto de
Letras da Universidade de Bras’lia: os quilombos. Mas n‹o relatava os quilombos
rurais, tradicionalmente conhecidos pelas pr‡ticas ancestrais, a cultura de
subsist�ncia e o modo alternativo de viver uma economia em comunidade. Tratava
do quilombo em um espa�o urbano, com maioria negra vivendo, tambŽm, a partir do
esp’rito de comunidade. Esse territ—rio Ž chamado favela, periferia, quebrada,
gueto. Nesse ’nterim, eu escolhi meu quilombo, a Ceil‰ndia.
Chamar a
periferia de quilombo Ž resgatar uma simbologia de resist�ncia e luta. Nesses espa�os,
alguns dispositivos s‹o utilizados a fim de garantir a resist�ncia e
sobreviv�ncia diante da condi�‹o de despejados. O que na periferia representa fortemente
essa luta Ž a cultura Hip Hop[38].
Para nossa pesquisa, focamos em um elemento: o rap. Ao longo da investiga�‹o,
percebia que os cantores traziam analogias da Ceil‰ndia enquanto um espa�o de
resist�ncia, tendo como refer�ncia o quilombo. Esse aquilombamento
ocorre quando a periferia se identifica como um corpo negro escravizado em
busca de liberta�‹o. A exemplo, vejamos a letra do grupo ceilandense
Sobrevivente de Rua:
Pois
somos um desde a Revolta dos Mal�s
A uni‹o
do povo em um povo s—
Quando
existir o que vai reduzir o opressor a p—
Um salve
a todos os levantes, insurgentes, populares
N—s
somos um desde o Quilombo dos Palmares[39]
Esse material
precioso foi utilizado como mŽtodo de educa�‹o lingu’stica em minha experi�ncia
acad�mica. Escolhi uma escola[40]
de Ensino Fundamental II para pensar o contexto urbano de Ceil‰ndia em uma
perspectiva quilombista[41],
uma vez que essa tomada de consci�ncia contribui para apropria�‹o do termo dentro
de uma nova concep�‹o, uma transforma�‹o na l’ngua. Isso porque, com a
transforma�‹o lingu’stica, h‡ expressamente uma modifica�‹o nas pr‡ticas e
cultura do povo. Levar materiais como letras de rap que valorizam a
cultura, os saberes, a realidade e a particularidade lingu’stica de uma
comunidade, ent‹o, contribui para a conscientiza�‹o e emancipa�‹o de um povo.
Quando os
saberes de um povo s‹o negados, desmoralizados e inferiorizados, culturas s‹o
mortas. Em contraposi�‹o, quem est‡ no lugar de domina�‹o tem seus saberes
supervalorizados, e quem quer que queira sobreviver diante do caos social deve
seguir as regras de quem Ž posto como senhor. Vov— n‹o estudou, como consequ�ncia,
muito pelejou. Mam‹e n‹o concluiu a educa�‹o b‡sica e teve sŽrias consequ�ncias
no mercado de trabalho. Minha gera�‹o (filha) precisou de cada passo das
ancestrais para segurar um diploma de educa�‹o superior. Muito foi superado,
mas Ž imposs’vel seguir essa trajet—ria sozinha.
A no�‹o de
comunidade dentro das favelas faz com que n—s, os moradores, a partir do que temos,
contribuamos uns com os outros. Seja o p‹o, uma roupa em desuso, um dinheirinho
para a passagem, um conhecimento e ombro amigo, essa dan�a coletiva Ž
fundamental para a exist�ncia de nossos territ—rios marginalizados. O que eu tinha
em m‹os era o conhecimento formal, uma veia art’stica latejante e a necessidade
de distribuir a consci�ncia pelas esquinas de meu quilombo. Felizmente, na
Ceil‰ndia, a cultura Ž pulsante. Espa�os como o Jovem de Express‹o, a Casa Akotirene e o Sarau VA s‹o ambientes que disponibilizam
atividades culturais para nossa comunidade. Em todos esses locais, h‡ o momento
do palco aberto, ocasi‹o em que o microfone e o palco est‹o dispon’veis para
que pessoas compartilhem sua arte, seja ela a poesia, a mœsica, a dan�a, ou
mesmo uma fala de consci�ncia.
Foi no palco
aberto que permiti que minha arte fosse publicada. AtŽ ent‹o, n‹o me entendia
como artista, mas era bom ver a rea�‹o das pessoas ao ouvirem minha palavra
que, a princ’pio, muito t’mida, queria dizer algo. Muitos artistas relatam que
a oportunidade de compartilhar sua arte cura. Comigo n‹o foi diferente. Mas
quanto mais eu pegava no microfone, mais sentia o peso da responsabilidade em
minha fala. Como costumamos dizer, o microfone Ž como uma arma. Com essa
consci�ncia, procurava e ainda procuro elaborar poesias e performances que
estejam de acordo com a justi�a social, que denunciem as mazelas cometidas,
sobretudo, contra a popula�‹o negra e que elevem nosso povo no sentido de
contribuir com nossa autoestima.
Dessa forma, a
poesia Ž uma arma sutil de combate, Ž um livro, Ž consci�ncia. ƒ no microfone
que quebro o sil�ncio de gera�›es. Digo o que as minhas de antes n‹o puderam
dizer e desafio o opressor a refletir sobre seu lugar. O sil�ncio Ž adoecedor. Ele Ž imposto em qualquer rela�‹o hierarquizada,
seja chefe e empregado, professor e aluno, pobre e rico, branco e preto, homem
e mulher. Quem
quebra o sil�ncio cura a si e aos ouvintes que se identificam com o conteœdo da
fala. Quanto mais representativas forem a forma e conteœdo da fala, mais
pol’tica e comunit‡ria se torna a a�‹o do verso.
A linguagem Ž perifŽrica, o conteœdo Ž desalienante. Portanto, busco relatar um mundo que n‹o
corresponda aos padr›es capitalistas, patriarcais e crist‹os, para quebrar com
a hegemonia colonial europeia. ƒ preciso contar a hist—ria por outra
perspectiva. Chimamanda Ngozi
Adichie j‡ nos chama a aten�‹o do perigo da hist—ria
œnica. Como ela afirma, Òmostre um povo como uma coisa, uma coisa s—, sem
parar, e Ž isso que esse povo se tornaÓ (ADICHIE, 2009, p. 12).
A hist—ria
do Brasil Ž contada de forma que o povo pindor‰mico[42] e o povo africano s‹o
carregados de preconceitos. Para Adichie (2009), os
estere—tipos s‹o problem‡ticos por serem concep�›es incompletas que tomam nossa
dignidade, nossa humanidade. Os r—tulos que carregamos s‹o de selvagens,
inferiores, desumanizados, bestiais, ignorantes, coitados, tutelados, sœditos. Quanto
a isso, j‡ nos chama a aten�‹o o mestre quilombola Ant™nio Bispo dos Santos:
No plano individual, as pessoas afro-pindor‰micas
foram e continuam sendo taxadas como inferiores, religiosamente tidas como sem
almas, intelectualmente tidas como menos capazes, esteticamente tida como
feias, sexualmente tidas como objeto de prazer, socialmente tidas como sem
costumes e culturalmente tidas como selvagens. Se a identidade coletiva se
constitui em di‡logo com as identidades individuais e respectivamente pelos
seus valores, n‹o Ž preciso muita genialidade para compreender como as
identidades coletivas desses povos foram historicamente atacadas (BISPO DOS
SANTOS, 2015, p. 37).
O argumento do colonizador, ao atacar a cultura
de povos afro-pindor‰micos, Ž o de que Žramos (e
ainda somos) um povo sem hist—ria, sem civiliza�‹o. ƒ preciso questionar qu‹o
equivocado o conceito de civiliza�‹o pode ser. Ser‡ mesmo que uma rela�‹o de
explora�‹o com a terra e seus recursos naturais, assim como uma rela�‹o
violenta com povos e animais que habitam a terra pode ser constitu’da como
civiliza�‹o? O desequil’brio na produ�‹o e no consumo configura civiliza�‹o? Escrever
configura civiliza�‹o?
Ao que diz respeito ˆ hist—ria, s— tem direito ˆ
sua quem tem o dom’nio da escrita. No senso comum, a hist—ria do Brasil come�a
em 1500, quando o colonizador come�a a escrev�-la com uma —tica vampiresca e
distorcida. A escrita ser‡ o saber que legitima a concep�‹o de desenvolvimento.
Por traz desse quiproqu— est‡ uma estratŽgia perfeita que autoriza a domina�‹o
de uns sobre outros. N‹o basta que os saberes leg’timos sejam brancos,
masculinos e crist‹os (ou seja, eurocentrados),
tambŽm devem ser escritos? O grafocentrismo nada mais
Ž do que uma pol’tica genocida de l’nguas e culturas de povos que n‹o
correspondem ao povo europeu.
A
linguagem que utilizamos na periferia Ž diversa. Gosto de como a intelectual LŽlia
Gonzalez a categorizava, colocando-a como o pretogu�s,
que Ž esse portugu�s da gente, sincretizado, modificado, Ž a Òmarca de africaniza�‹o do
portugu�s falado no BrasilÓ (GONZALEZ, 1988, p. 70). O signo Ž latino, mas a
ess�ncia Ž carregada de pindoramas e africanidades.
Essa linguagem Ž o nosso pretogu�s e nos representa.
Ela est‡ viva. Concluo este t—pico com a sabedoria de Bispo, quando diz:
Muitos s‹o os autores que escreveram sobre a trajet—ria dos povos afro-pindor‰micos e sobre a sua import‰ncia para a hist—ria do
Brasil. Portanto, o que vamos falar pode ser encontrado em v‡rias
bibliografias. Poder’amos aqui fazer refer�ncias a v‡rias delas, mas n‹o ser‡
necess‡rio, porque a trajet—ria desses povos transp›e qualquer texto cient’fico
ou liter‡rio. Ela Ž vis’vel e palp‡vel materialmente e pode ser sentida
imaterialmente, tanto quando olhamos para o passado e fazemos refer�ncia aos
nossos ancestrais, como hoje quando visitamos as comunidades da atualidade e
dialogamos com as suas organiza�›es e manifesta�›es culturais (BISPO DOS
SANTOS, 2015, p. 38).
A arte perifŽrica engajada
Miss‹o cumprida ent‹o
palmas pra n—is mesmo
Periferia a’ palmas pra n—is mesmo
A todos os maloqueiros palmas pra n—is mesmo[43].
A can�‹o acima
Ž do grupo de rap Viela 17. Trata-se de rap da Ceil‰ndia, rap
de quebrada, rap que salva vidas. O rap, o funk, o samba,
s‹o sons que ecoam em periferias como a Ceil‰ndia; s‹o educadores de um povo.
Como diriam Cidinha e Doca, ÒO povo tem a for�a, precisa descobrir / Se eles
n‹o fazem nada, faremos tudo daquiÓ[44].
Mas qual a import‰ncia de considerar tal discurso dentro das periferias? ƒ
poss’vel que essas narrativas contribuam na educa�‹o formal?
A arte da
periferia Ž engajada. A tomada de consci�ncia dos moradores Ž vivida na pr‡tica
ao sentirmos, no cotidiano, a aus�ncia do Estado. A representatividade nos
espa�os de poder Ž m’nima, se pensarmos em termos estat’sticos. Maioria negros,
maioria mulheres, maioria pobres, e essa maioria continua a ocupar os espa�os minorizados. No entanto, como j‡ mencionado anteriormente,
a periferia se mantŽm pela coletividade e esp’rito de luta. Como bem j‡ declarava
o professor Abdias do Nascimento:
A
continuidade dessa consci�ncia de luta pol’tico-social se estende por todos os
Estados onde existe significativa popula�‹o de origem africana. O modelo quilombista vem atuando como ideia-for�a, energia que
inspira modelos de organiza�‹o din‰mica desde o sŽculo XV. Nessa din‰mica quase
sempre heroica, o quilombismo est‡ em constante reatualiza�‹o, atendendo exig�ncias do tempo hist—rico e
situa�›es do meio geogr‡fico (NASCIMENTO, 2019, p. 282).
Um exemplo
muito evidente disso Ž a escritora negra Carolina Maria de Jesus e suas
denœncias dentro de um minœsculo quarto de despejo. Os quartos de despejo s‹o
mœltiplos, as denœncias mais ainda, plurais e singulares, pois, como diria Gog, Òperiferia Ž periferia em qualquer lugarÓ[45].
Os males daqui s‹o como os de l‡. Nas dores nos encontramos, tra�amos
estratŽgias e sobrevivemos. TambŽm nos encontramos nos amores de sermos
verdadeiramente coletivos, soci‡veis.
Nas periferias
do Distrito Federal, h‡ diversas vozes, sobretudo de mulheres negras, que s‹o
muito inspiradoras. Essas vozes s‹o est’mulos para a luta de emancipa�‹o de um
grupo t‹o marginalizado. Apesar dos recortes de cor e g�nero, Ž poss’vel crer
que, com o empoderamento da base, toda uma estrutura
pode ser melhor equilibrada. Isso porque o modelo triangular hier‡rquico social
pressiona os que est‹o no topo (homens brancos, hŽteros,
cat—licos, ricos) a ceder, voluntariamente ou n‹o, espa�o ˆs (aos) que est‹o
chegando. Estamos chegando e, como diz a can�‹o de BKÕ, Rael,
Emicida, Rincon Sapi�ncia, Djonga e Mano Brown, Òo cŽu Ž o limiteÓ:
Melhor irem se acostumando
V‹o ter que se adaptar
Os pretos com o din gastando
Sem se preocupar
E pra contrariar seus planos
Nas grades n‹o vamos ficar
Unidos, se fortificando
Ei, quem vem l‡[46]
Consideramos
did‡tica essa arte que se manifesta como instrumento de luta e discurso
ideol—gico: a arte dos ocultos. Um bom exemplo de mission‡ria nas
periferias do Distrito Federal Ž Meimei Bastos. Ela Ž
poeta, atriz e arte-educadora, idealizadora do Slam[47]
Quebrada. O trabalho de Meimei se estende a todos os
cantos da capital. Das periferias aos espa�os de poder, tive a oportunidade de
acompanhar esse encargo enquanto poeta em locais como o Imagin‡rio Cultural
(Samambaia), o Complexo Cultural (Samambaia), o CCBB (Plano Piloto), a Universidade
de Bras’lia (Plano Piloto) e o Jovem de Express‹o (Ceil‰ndia).
O Slam Quebrada me deu a oportunidade de competir no
campeonato nacional (Slam BR) em dezembro de
2018. Essa foi uma porta aberta para que eu me lan�asse enquanto poeta e
performer. Na disputa nacional, percebo que a multiplicidade discursiva no Slam BR Ž impressionante e o esp’rito de luta Ž
quase uma regra. A maioria dos participantes s‹o negros e negras de periferias de
18 estados brasileiros. Vejo nesse evento uma forma de disseminar a literatura
da quebrada que ecoa em vozes desocultadas.
Esse movimento
Ž pol’tico e aut�ntico. A linguagem Ž representativa e busca o reconhecimento,
a alteridade. Em meu trabalho enquanto poeta e arte-educadora, procuro levar
comigo mulheres como Meimei Bastos e Thabata Lorena, para citar alguns exemplos. Abaixo, segue
um trecho do poema de Meimei Bastos (2017, p. 19) que
utilizei no projeto Parada Sociocultural[48]:
aqui, no cumprimentar
n—s olha nos —i,
d‡ bom dia pra tia,
pro menor na quina,
pra mina da padaria,
pro tio do verdur‹o.
n‹o tem bisu
errado,
n‹o tem de querer ser,
pois n—s
j‡ Ž
Outro projeto o
qual tive a oportunidade de participar foi o bip – bRASêLIA iNSPIRA pOESIA[49].
Foram selecionados poemas de artistas do/no Distrito Federal que falassem, em
suas narrativas, sobre como Ž viver nessa regi‹o; como resultado, foi publicada
uma antologia poŽtica. Para alŽm da publica�‹o, foram idealizados saraus para que
artistas e seus poemas fossem apresentadas (os) ˆs escolas pœblicas nas regi›es
administrativas Cruzeiro, Candangol‰ndia e Nœcleo
Bandeirante. Paralelamente, trabalhei como poeta e mestre de cerim™nias, o que
me deu a oportunidade de uma intera�‹o mais ’ntima com as (os) alunas (os).
Sempre que as (os) questionava se gostavam de poesia, elas (es) diziam que n‹o.
Essa resposta autom‡tica Ž o reflexo da ideologia que se tem de que poesia Ž
literatura de elite, dif’cil de ser compreendida, chata, entre outros
estere—tipos. Mas bastava que eu perguntasse se as (os) alunas (os) gostavam de
rap e a grande maioria levantava as m‹os em alegria.
A palavra rap advŽm da sigla em ingl�s rhythm and poetry[50] (ritmo e poesia), ou seja, a poesia est‡
nos emaranhados do rap. Recursos como mŽtrica, rima e linguagem figurada
podem ser facilmente encontrados nas can�›es. A exemplo, a cantora e
compositora Thabata Lorena:
Eu n‹o sou a tal, nem sou aquela
Sou mais uma menina que sobe a favela
S— pago um pau pra ela
Minha ama de leite
Favela[51]
Enquanto
educadora, s‹o essas as narrativas que considero primordiais no processo de
ensino e aprendizagem nas periferias. Dentro da cultura das quebradas, a l’ngua
Ž carregada de particularidades e as express›es utilizadas pelos falantes s‹o,
cotidianamente, aceitas nos contextos de fala.
A forma
altamente violenta e impositiva do colonizador, ao chegar nesse territ—rio
nacional, desconsiderou todo o saber ancestral e cultural de povos pindor‰micos e africanos. Essas marcas se apresentam na
contemporaneidade. Afro-pindor‰micos s‹o sempre
colocados ˆ margem e s‹o inferiorizados dentro das rela�›es verticais na
sociedade. Sobretudo, ˆs mulheres negras, foram atribu’das as fun�›es maternas.
Somos as m‹es de toda uma popula�‹o, cuidamos de nossos filhos e dos filhos
alheios nas casas de luxo. Temos um papel primordial de base e, por sermos
base, somos desqualificadas.
Eu, mulher negra
e perifŽrica, m‹e, procuro quebrar esse ciclo. De vov— analfabeta, de m‹e
domŽstica: filha educadora. Eu educo a favela com poesia e denœncia. De
qualquer forma, reconhe�o que trabalhar com jovens de escola pœblica de
periferia Ž desafiador e extremamente delicado. Reflito sobre os dados da Infopen[52]
divulgados em 2014, que destacam que o perfil da popula�‹o carcer‡ria Ž
constitu’do por 31% de cativos entre 18 e 24 anos, sendo 67% de cor negra; e
53% t�m o Ensino Fundamental incompleto. A maioria dos crimes cometidos Ž por
tr‡fico (27%) e roubo (21%), sendo o tempo total das penas da popula�‹o
prisional condenada entre 4 e 8 anos (26% dos casos). Por isso, em meu processo
de conclus‹o na gradua�‹o, a escolha por uma institui�‹o de Ensino Fundamental na
Ceil‰ndia n‹o foi ocasional.
A escola selecionada
fez parte de meu hist—rico escolar. Enquanto ceilandense
e negra, pude vivenciar pr‡ticas de exclus‹o na institui�‹o quando cursara o
Ensino Fundamental II. Compreender a experi�ncia vivida nessa pesquisa, no
caso, dependeu da combina�‹o com experi�ncias passadas. Diante da profiss‹o que
tive possibilidades de exercer, posso perceber a responsabilidade social que
carrego. Voltar ˆ Ceil‰ndia, agora em condi�‹o de professora, Ž retribuir todo
o conhecimento adquirido em minha caminhada.
Observo o
material did‡tico dispon’vel, que Ž decepcionante. A gram‡tica tradicional
ainda Ž a mais utilizada na institui�‹o. Essa gram‡tica Ž de car‡ter
preconceituoso em rela�‹o ˆs variantes que fogem do padr‹o do portugu�s e tem a
necessidade de estabelecer par‰metros em busca de um uso idealizado da l’ngua,
ocorr�ncia arcaica que se inicia desde os gregos antigos (MARTELOTTA, 2016, p. 45).
Esse atributo
se reflete atŽ hoje em nossa l’ngua. Sempre que se aponta um portugu�s ÒerradoÓ
Ž por estar fora dos padr›es de um portugu�s idealizado e elitizado, chamado
portugu�s culto. Se observarmos mais criticamente, Ž averigu‡vel que a quest‹o
da erudi�‹o da l’ngua est‡ ligada ˆs rela�›es de poder. Efetivamente as classes
altas s‹o as que t�m mais contato com estruturas ÒcorretasÓ (MARTELOTTA, 2016,
p. 47) e, portanto, s‹o tambŽm as classes com mais oportunidades e privilŽgios.
Para
compreender o funcionamento da l’ngua, Ž preciso assimil‡-la ao contexto com o
todo (MARTELOTTA, 2016, p. 63). Trata-se de uma an‡lise mais aprofundada que a
gram‡tica faz; trata-se da pr‡xis
e, por isso, considero a linguagem perifŽrica essencial e significativa nessa
pesquisa.
E onde est‹o,
nas escolas, materiais did‡ticos que se relacionam com a realidade dos alunos?
Onde est‹o os materiais que acompanham o movimento, a mudan�a, a din‰mica na
linguagem deles? Onde est‹o, ao menos, as pr‡ticas que contemplam o universo
dos jovens perifŽricos?
Professor, me refiro a voc�: se parar para repensar na
sala de aula, perceber‡ o qu‹o desprendido est‡ o material disponibilizado para
os aprendizes. E n‹o Ž preciso refletir muito profundamente para compreender
que suas pr‡ticas tambŽm est‹o. ƒ vulgar e desumano culpar apenas a institui�‹o
de ensino, assim como o material did‡tico. O ju’zo come�a olhando para si
mesmo, no qu‹o compromissado socialmente est‡ ao entrar em uma sala de aula para
come�ar esse culto, que Ž o ensinamento.
Considera�›es
finais
a real Ž que eles t�m
medo
do formigueiro se
ati�ar,
da gente se armar de
conhecimento.
eles t‹o ligado que
quando n—s
respirar n—s,
eles morrem sem ar
(BASTOS, 2017, p. 47).
A voz da periferia Ž som que ecoa e cura. N—s
falamos, e a tradi�‹o da oralidade vem dos de antes, de ontem. Dandara falou, Carolina Maria de Jesus falou, minha av—
falou. Hoje eu falo. As pr—ximas falar‹o. ƒ sentando no ch‹o e ouvindo que
aprendemos. A minha arte Ž a palavra. AtravŽs dela me curo, curo os de antes,
curo quem vir‡. E a partir dessa cura, procuro ser uma refer�ncia de ancestral
curada.
O corpo que se move na favela Ž um corpo
pol’tico. Mover-se Ž um ato pol’tico em si. Se pensarmos sobre as estratŽgias
genocidas, quando nos movimentamos, estamos agindo contra a colonialidade
exterminadora. Cada corpo Ž um arquivo, pois contŽm mem—ria, contŽm hist—ria,
contŽm narrativas.
Como a palavra por si s— n‹o d‡ conta, a
performance vai ecoar na vibra�‹o de cordas vocais. ƒ no grito, Ž no rito, Ž no
canto, Ž nas louva�›es. A performance mostrar‡ o potencial de toda essa
oralidade que carregamos em nossa mem—ria, em nosso DNA, em nossos costumes que
o colonizador foi incapaz de exterminar. Se estamos vivos, algo deve ser
aprendido conosco. E o lixo fala, e numa boa, fala muito bem[53]. Todo mundo se entende, e
com isso estamos sobrevivendo, vivendo, mantendo nossa hist—ria.
Como diriam Bernadino-Costa
e Grosfoguel (2016), mesmo em condi�‹o de
subalternidade, n‹o somos sujeitos passivos, uma vez que podemos rejeitar os
saberes do opressor, assim como resgatar e forjar nossos pr—prios saberes. Que
busquemos, n—s, os favelados, enaltecer nossos conhecimentos, produzir e
compartilhar saberes, elevar nossa autoestima.
Vov— Ž minha escola. Mam‹e Ž minha escola. Homens e
mulheres educadores que passaram em minha trajet—ria s‹o minha escola. A terra
Ž minha escola. A mœsica Ž minha escola. A periferia Ž minha escola. Nossa fala
Ž ancestral, tem poder, objetivos e Ž coletiva, org‰nica[54].
Nosso saber Ž vivo. Sigamos juntos. Subamos juntos. Tamo junto, favela!
Refer�ncias
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[Recebido: 23 jul
2020 – Aceito: 24 set 2020]
[34] Doutoranda no Programa de P—s-gradua�‹o em Lingu’stica pela Universidade de Bras’lia. Mestre em Lingu’stica pelo Programa de P—s-gradua�‹o em Lingu’stica pela Universidade de Bras’lia. Graduada em Letras Portugu�s do Brasil como Segunda L’ngua pela Universidade de Bras’lia. Professora na rede de ensino privado do Distrito Federal. Poeta, performer e atriz.
[35] L’ngua de origem banto falada em Angola
pelos ambundos.
[36] Campanha de Erradica�‹o de Invas›es
– C.E.I. (1970).
[37] Fala do document‡rio ÒRap, o canto da
Ceil‰ndiaÓ de Adirley Queir—s, 2005.
[38] Os principais elementos que comp›em o Hip
Hop s‹o o DJ (mœsico), o break (dan�a), o grafite (arte visual), o rap
(poesia), o MC (mestre de cerim™nias) e a consci�ncia.
[39] ÒTodos somos umÓ, faixa 5 do CD ÒAqui
vamos n—sÓ (2015) do grupo Sobreviventes de Rua.
[40] Por quest›es Žticas, n‹o ser‡ citado
neste trabalho o nome da institui�‹o de ensino, assim como a identidade dos
alunos, por motivos de resguardo. Cito que, para a realiza�‹o deste trabalho,
foi concedida a autoriza�‹o por parte do diretor e vice-diretor da escola.
[41] O quilombismo
se estruturava em formas associativas que tanto podiam estar localizadas no
seio de florestas de dif’cil acesso, o que facilitava sua defesa e organiza�‹o
econ™mico-social pr—pria, como tambŽm assumiram modelos de organiza�‹o
permitidos ou tolerados, frequentemente com ostensivas finalidades religiosas
(cat—licas), recreativas, beneficentes, esportivas, culturais ou de aux’lio
mœtuo [...] rede de associa�›es, irmandades, confrarias, clubes, gr�mios,
terreiros, centros, tendas, afoxŽs, escolas de samba, gafieiras foram e s‹o os
quilombos legalizados pela sociedade dominante; do outro lado da lei, erguem-se
os quilombos revelados que conhecemos. [...]. A este complexo de significa�›es,
a esta pr‡xis afro-brasileira, eu denomino de quilombismoÓ
(NASCIMENTO, 2019, p. 281-282).
[42] ÒPindorama (Terra das Palmeiras) Ž uma
express‹o tupi-guarani para designar todas as regi›es e territ—rios da hoje
chamada AmŽrica do SulÓ (BISPO DOS SANTOS, 2015, p. 20).
[43] Mœsica
ÒS— curto o que Ž bomÓ, produzida no ano de 2004
em parceria com Look e VadiosLocus.
[44] Mœsica ÒRap da felicidade (Eu s— quero Ž
ser feliz)Ó, produzida em 1995.
[45] Mœsica ÒBras’lia PeriferiaÓ produzida em
1994 do CD ÒDia a Dia da PeriferiaÓ.
[46] Single ÒO cŽu Ž o limiteÓ, lan�ada em 2018
no canal YouTube da Devasto Prod.
[47] Campeonato de poesia falada.
[48] Projeto financiado pelo Fundo de Apoio ˆ Cultura do
Distrito Federal que visibilizava levar a arte a paradas de ™nibus de
periferias como o Recanto das Emas e o Riacho Fundo II. Poesia, mœsica, grafite
e dan�a foram algumas das manifesta�›es que se aproximaram do perifŽrico que
enfrenta o transporte coletivo prec‡rio do Distrito Federal diariamente.
[49] Projeto apresentado
ao Fundo de Apoio ˆ Cultura do Distrito Federal em 2017 e contemplado no edital
macrorregional.
[50] Esse movimento surge no distrito do Bronx (Nova Iorque). ƒ uma iniciativa de negros,
descendentes de africanos escravizados que foram trazidos ˆs AmŽricas, e de
latinos que migraram para os Estados Unidos no p—s-Segunda Guerra em busca de
melhores condi�›es de vida (TEPERMAN, 2015).
[51] Mœsica ÒFavelaÓ do CD ÒNovidades
AncestraisÓ.
[52] O Infopen Ž
respons‡vel pelo levantamento de informa�›es estat’sticas do sistema
penitenci‡rio brasileiro.
[53] Refer�ncia ˆ intelectual LŽlia Gonzalez
ao criticar a l—gica de domina�‹o em que negros e negras s‹o considerados (as)
domestic‡veis, imposs’veis de falarem por si, por carregarem atributos de
infantilidade, isso tudo por estarmos no lixo da sociedade brasileira. Assim, a
autora conclui que Ž preciso assumir a pr—pria fala e afirma: Òo lixo vai
falar, e numa boaÓ (GONZALEZ, 1984, p. 225).
[54] Esses saberes est‹o muito relacionados
aos saberes ancestrais que dizem respeito a ser,
em contraposi�‹o aos saberes sintŽticos, que envolvem ter. Como o pr—prio mestre quilombola Bispo dos Santos afirma: ÒEu
n‹o preciso de Karl Marx e de outros acad�micos: preciso de minha gera�‹o av—,
aquela que veio antes de mim e que me move. Essa l—gica Ž organizada em come�o,
meio e come�o. Minha gera�‹o av— Ž come�o, minha gera�‹o filha Ž meio e minha
gera�‹o neta Ž come�o, de novoÓ (BISPO DOS SANTOS, 2019, p. 27).