VOZES DE MARACANGALHA: INTERSEC‚ÌO DE SABERES E AFETOS

 

 

VOICES OF MARACANGALHA: INTERSECTION OF KNOWLEDGE AND AFFECT

 

 

Railda Maria da Cruz dos Santos[54]

https://orcid.org/0000-0002-3151-689X

 

Edil Silva Costa[55]

https://orcid.org/0000-0002-3151-689X

 

 

Resumo: Apresenta-se brevemente a produ�‹o poŽtica tradicional de Maracangalha, povoado de S‹o Sebasti‹o do PassŽ, Bahia, a partir do repert—rio da manifesta�‹o cultural ÒLindro AmorÓ. As cantigas analisadas foram registradas no caderno de anota�›es ÒCultura popularÓ, da professora N’vea, moradora da localidade. Partimos do pressuposto que a din‰mica dessa produ�‹o, ao longo do tempo, coloca nesse territ—rio os corpos de mulheres negras que, com suas vozes, interseccionam saberes, fazeres e afetos, de si e de seus pares, como dispositivo de (re)exist�ncia. Para tanto, o artigo se ampara no mŽtodo qualitativo de cunho etnogr‡fico e nos te—ricos: Foucault (1996), Guattari e Rolnik (1986), Kilomba (2019), Quijano (2005) e Zumthor (1993, 2005, 2007, 2010). AlŽm do repert—rio do caderno, trataremos tambŽm das narrativas de mulheres que integram o grupo de cultura popular supracitado. Por fim, tecemos considera�›es acerca dos caminhos trilhados por essas mulheres para o deslizamento e perman�ncia da poŽtica da voz nos dias atuais.

Palavras-chave: Maracangalha. Lindro Amor. PoŽticas orais. Cultura popular. Mulheres negras.

 

Abstract: The traditional poetic production of Maracangalha, a village in S‹o Sebasti‹o do PassŽ, Bahia, is briefly presented, based on the repertoire of the cultural event ÒLindro AmorÓ. The songs analyzed were noted down by a local teacher, known as Pr— N’vea and recorded in a notebook named by her as ÒPopular CultureÓ. We start from the assumption that the dynamics of this production, over time, places in this territory the bodies of black women who, with their voices, intersect knowledge, actions and affections, of themselves and their peers, as a device of (re)existence. To this end, the article is based on the qualitative method of ethnographic nature and the theorists: Foucault (1996), Guattari (1986), Kilomba (2019), Quijano (2005) and Zumthor (1993, 2005, 2007, 2010). In addition to the repertoire of the section, we will also deal with the narratives of women who are part of the aforementioned popular culture group. Finally, we make considerations about the paths taken by these women for the sliding and permanence of the poetics of the voice today.

Keywords: Maracangalha. Lindro Amor. Oral poetics. Popular culture. Black women.

 

 

O Lindro Amor de Maracangalha

 

Eu vou pra Maracangalha, eu vou
Eu vou de uniforme branco, eu vou
Eu vou de chapŽu de palha, eu vou
Eu vou convidar An‡lia, eu vou...

(Caymmi, 1978)

 

A voz corrobora a exist�ncia de um coletivo, de uma a�‹o pol’tica, de uma cultura. Nesse sentido, Òa voz exerce no meio humano uma fun�‹o forte, mas n‹o id�nticaÓ (ZUMTHOR, 2005, p. 80), uma vez que se corporaliza, de acordo com o sujeito de enuncia�‹o, rompendo e remodelando-se no tempo e no espa�o. ƒ a partir dessa premissa que pensamos no texto da cultura popular, mais especificamente, a poesia oral de grupos subalternizados que criam sua linguagem singular como mecanismo de insurgir contra o sistema hegem™nico. Assim, Ž da linguagem das minorias que emanam as reflex›es deste artigo, das narrativas e dos cantos tradicionais que fizeram e fazem parte da cultura popular da comunidade de Maracangalha.

O nome do lugar Ž conhecido pela can�‹o de Dorival Caymmi. Decidido, o eu l’rico iria para l‡ com An‡lia, se ela quisesse ir, sen‹o ele iria s—. Mas, o que nem todos que ouvem a can�‹o sabem Ž onde fica Maracangalha e porque ele queria tanto ir l‡. Vamos atender ao aceno dele, aceitando seu convite para nos aproximarmos desse lugar, com o ouvido atento ˆs vozes de seus moradores.

Maracangalha Ž um distrito do munic’pio de S‹o Sebasti‹o do PassŽ, cidade do interior da Bahia, cerca de sessenta quil™metros de Salvador[56]. Fazendo parte da regi‹o do Rec™ncavo, o nœcleo urbano de S‹o Sebasti‹o do PassŽ Ž bastante antigo: foi uma freguesia criada em 1718, sendo distrito de S‹o Francisco do Conde atŽ 1926, quando foi emancipada e promovida a cidade. A partir da dŽcada de 1960, desenvolve-se gra�as ˆ explora�‹o de po�os de petr—leo e, embora rica, tem uma das popula�›es mais pobres do Estado e ’ndices de desenvolvimento humano muito baixos.

Com uma popula�‹o negra predominante, em fun�‹o do processo de ocupa�‹o da ‡rea ainda no sŽculo XVIII e da necessidade de m‹o de obra escravizada para a lavoura de cana-de-a�œcar, a cultura local preserva fortes tra�os desse caldeamento. Compreendemos que nesse processo de cria�‹o h‡ um dinamismo hist—rico, cultural e temporal, que possibilita novos modos de configura�‹o e ressignifica�‹o do texto tradicional oral na atualidade. Nosso olhar se voltar‡ mais especificamente para as mulheres negras e sua produ�‹o cultural nos dias de hoje. Desse modo, focaremos nos modos de produzir de mulheres que interseccionam saberes, dizeres e afetos, e seus corpos como territ—rio de (re)exist�ncia da voz poŽtica nessa localidade.

Nos limites deste artigo, destacamos a manifesta�‹o cultural denominada Lindro Amor. De acordo com informa�›es locais, trata-se de uma brincadeira presente em Maracangalha desde o per’odo dos engenhos que l‡ existiam, estendendo-se pelo processo de industrializa�‹o da cana-de-a�œcar pela Usina Cinco Rios e sendo recriada por moradores da vila atualmente. Segundo Pr— N’vea – como Ž conhecida a professora N’vea –, uma das mulheres integrantes do grupo Lindro Amor, o cortejo sa’a nos dias de feira e nos dias de pagamento dos trabalhadores da usina para arrecadar fundos, mas tambŽm com objetivo de simplesmente brincar ou festejar a vida. Assim ela explica:

O Lindro Amor Ž um festejo, um cortejo formado por mulheres, homens e crian�as, [...] que pediam ajuda para o caruru de S‹o Cosme, S‹o Roque e Santa B‡rbara. Ent‹o, vinha na frente uma caixinha toda enfeitada de flores com a imagem do santo, as mulheres dan�ando e os homens tocando e cantando o ritmo de afoxŽ. O cortejo sa’a na rua de casa em casa, pedindo oferenda ao dono da casa [...]. Um cortejo nascido de dentro dos terreiros de candomblŽ que aqui existiam, surge da necessidade de angariar fundos para fazer e dar as oferendas para os orix‡s [...]. AlŽm disso, o Lindro Amor participava do ritual da botada da usina, ou seja, quando a usina ia come�ar a funcionar, moer a cana (Pr— N’vea, informa�‹o verbal, 31/07/2019).

Como percebemos no depoimento acima, h‡ inicialmente uma motiva�‹o financeira. O pedit—rio sempre foi costume nas irmandades e nos terreiros de candomblŽ. Nasce da necessidade para angariar fundos, mas tambŽm Ž uma forma de envolver a comunidade nas celebra�›es, tornando a festa uma promo�‹o coletiva. O pedit—rio pode ser individual como, por exemplo, por parte do iniciado no candomblŽ que n‹o tem recursos para bancar a feitura do santo ou a festa para o seu orix‡. Nesse caso, o sujeito pede de porta em porta a ajuda necess‡ria, em nome do santo. Em geral, usam as indument‡rias de sua condi�‹o e hierarquia, portam balaios com imagens, pipocas ou a comida do orix‡ e pedem dinheiro ou outro tipo de ajuda. Esse costume, menos frequente nos dias atuais, tambŽm serve como exerc’cio de humildade para o filho de santo, assim como para tornar pœblica sua condi�‹o de iniciado. As irmandades costumavam pedir esmolas para obter recursos destinados ˆ ajuda humanit‡ria para os mais necessitados, mas tambŽm para as festas dos santos de sua consagra�‹o.

Na descri�‹o de Pr— N’vea, o balaio Ž substitu’do por Òuma caixinha toda enfeitada de flores com a imagem do santoÓ e a ÒajudaÓ seria para o Òcaruru de S‹o Cosme, S‹o Roque ou Santa B‡rbaraÓ, santos cat—licos, mas que t�m estreita rela�‹o com as casas de santo no Rec™ncavo da Bahia. Pedir ajuda para oferecer comida (o caruru) justifica-se porque, nesse contexto, o banquete deve servir a toda comunidade. N‹o existe festa sem comida, sem fartura e sem compartilhamento. Oferece-se a comida do santo, mas esta deve ser tambŽm compartida com os envolvidos e assim se exerce a devo�‹o.

A mœsica e a dan�a, do jeito que s‹o apontadas por ela, nos remetem para a sa’da do terreiro para a rua: Òas mulheres dan�ando e os homens tocando e cantando o ritmo de afoxŽÓ. AfoxŽ Ž um ritmo do terreiro, uma evoca�‹o ou chamamento para o santo. Tocar e dan�ar na rua o ijex‡, ou seja, o Òritmo de afoxŽÓ Ž tambŽm tornar pœblica a rela�‹o do cortejo com os terreiros. Curiosa a estratŽgia de colocar o cortejo na rua coincidindo com o dia do pagamento dos trabalhadores e dias de feira, porque nessas ocasi›es haveria mais dinheiro circulando e, portanto, seria mais vantajoso para alcan�ar o objetivo. Com o passar dos anos, o cortejo ganha caracter’sticas mais de folguedo ou festejo e a fun�‹o de pedit—rio vai se esvaziando. Da’ surge a quest‹o: quais as fun�›es que assume hoje? O que leva esses sujeitos a reinventarem essa tradi�‹o e como ela se configura na contemporaneidade? Qual o papel das mulheres nesse contexto?

Assim, procuramos compreender o Lindro Amor, suas motiva�›es de cria�‹o e perman�ncia, enquanto texto que produz sentidos para a comunidade de Maracangalha e para as mulheres, demarcando seus territ—rios de identidades e produ�‹o de subjetividades. FŽlix Guattari, em Subjetividade e hist—ria, ao abordar sobre produ�‹o subjetiva, traz para seu debate o termo singulariza�‹o como forma de recusa ˆ produ�‹o subjetiva capital’stica. Para o autor, essa singulariza�‹o seria como dispositivos, vias de escape para que grupos sociais, as minorias, criem seus Òpr—prios modos de referencia�‹o, suas pr—prias cartografiasÓ (GUATTARI; ROLNIK, 1986, p. 49). Assim, propomos pensar a produ�‹o poŽtica de Maracangalha como um processo singular em que a subjetividade ocorre Òemprestando, associando, aglomerando dimens›es de diferentes espŽciesÓ (GUATTARI; ROLNIK, 1986, p. 37). Nesse sentido, processo de singulariza�‹o relaciona-se com processo criativo, liga�›es, resist�ncia, troca de saberes, de afetos, mas tambŽm com a produ�‹o poŽtica.

A nossa an‡lise ancora-se nos estudos culturais, a partir de uma vis‹o interdisciplinar, aliada a um referencial te—rico que dialoga com a proposta referida, alŽm das narrativas apresentadas e materiais (orais/virtuais ou impressos/materiais) recolhidos da tradi�‹o oral da comunidade. Isso porque consideramos as mulheres integrantes do Lindro Amor enquanto arquivos vivos (COSTA, 2016) e suas narrativas reveladoras de pr‡ticas de armazenamento, conserva�‹o e cataloga�‹o de saberes.

Osmar Moreira Santos, na obra Arquivos, testemunhos e pobreza no Brasil, aborda que, para alŽm de seu corpo e performance, caixas de sapatos, baœs, gavetas entre outros, podem constituir-se em arquivos de pobres como lugar de resist�ncia (SANTOS, 2016, p. 16). Assim, os relatos, mas tambŽm cole�›es de objetos, documentos e cadernos de anota�›es, podem ser vistos como arquivos[57] da cultura de tradi�‹o popular dessa comunidade. Enquanto resist�ncia, os arquivos podem significar a labuta do trabalho, a cria�‹o e recria�‹o da cultura oral, mas tambŽm resist�ncia aos embates culturais no interior de um coletivo.

Diante desta silepse, pensar as poŽticas orais Ž tambŽm analisar os sentidos, as formas de resist�ncia e ressignifica�›es para a comunidade e para as pessoas que faziam e fazem parte desses grupos. Portanto, a partir da apresenta�‹o e breve an‡lise do Lindro Amor, propomos refletir sobre os territ—rios da voz, os corpos de mulheres negras e a intersec�‹o de saberes e de afetos em sua produ�‹o cultural.

 

 

Delineando o territ—rio da voz em corpos de mulheres negras

 

Conhecida por sua hospitalidade, poeticidade e musicalidade, Maracangalha Ž tambŽm lembrada por narrativas orais sobre personagens famosos neste cen‡rio, como a hist—ria da sambadeira Am‡lia[58] e do capoeirista Besouro[59]. Algumas dessas narrativas remontam ao tempo dos engenhos, quando grupos afrodescendentes eram escravizados e explorados pelo sistema de poder.

Como foi dito, Maracangalha pertence ao munic’pio de S‹o Sebasti‹o do PassŽ, a 51 Km do cruzamento das rodovias BR-324 e BR-110. No acesso ˆ vila, h‡ um monumento, uma espŽcie de chaminŽ, que representa partes da usina e identifica o nome da comunidade. Apresenta uma paisagem natural e modificada, marcada pelos canaviais, pelas ‡guas do Rio Joanes e por um solo denominado massap�, elementos esses que se fundem no processo de constru�‹o de sua linguagem poŽtica.

Portanto, ao chegar ˆ comunidade, nos deparamos com uma encruzilhada, que pode ser descrita, percebida e visualizada em suas formas, mas tambŽm em sentidos. Na horizontal, temos uma linha fŽrrea que nos leva para outros contextos e cenas culturais. J‡ no sentido vertical, trilha-se para o centro da comunidade. ƒ importante ressaltar que nesse cruzamento, avistamos, ˆ esquerda, as ru’nas da Usina Cinco Rios. Seu nome gasto pela a�‹o do tempo, representa a decad�ncia de uma atividade econ™mica que permanece na lembran�a dos mais velhos.

Nesse territ—rio cultural, h‡ uma pra�a nomeada Dorival Caymmi que, em seus contornos, revela tra�os espec’ficos do local como o desenho de um viol‹o, signo que comp›e e faz parte da cultura popular tradicional da localidade. Em volta da pra�a, casas arquitetadas na Žpoca em que os moinhos da usina estavam a todo vapor, a Igreja Nossa Senhora da Guia, alŽm do largo do mercado, que serviu e serve de palco para as festas populares da comunidade. ÒMaracangalha era toda festa e ora�›esÓ, como descreve Valdevino Neves Paiva:

O largo da capela parecia uma lapinha. Barracas de palha de pindoba ou dendezeiro, enfeitadas de bandeirolas multicores, eram o principal ponto de atra�‹o tur’stica das pessoas vindas das fazendas vizinhas, da cidade de S‹o Sebasti‹o do PassŽ e de outras, como Candeias, S‹o Francisco do Conde, Santo Amaro, Salvador entre outras. [...]. Por toda parte o povo andava, e em toda parte havia um ponto de divers‹o: aqui uma roda de samba; [...] adiante uma roda de capoeira com capoeiristas famosos da Bahia, como Mestre Bimba e outros; mais ˆ frente – cavaleiros trajados a rigor, cavalos enfeitados [...]. N�go bebo n‹o faltava, perturbando as rodas de samba, intrometendo-se entre os foli›es do afoxŽ organizado por Lau (Ladislau Bispo) na fazenda Quibaca, ou entre os blocos que JosŽ Porf’rio ou ZŽ Pretinho colocavam nas ruas (PAIVA, 1996, p. 67).

A saborosa descri�‹o de Paiva nos d‡ a dimens‹o de qu‹o colorida e fervilhante era Maracangalha em dias de festa, envolvendo pessoas advindas de outras cidades, num conjunto que misturava religiosidade, cavalgadas, samba e capoeira, tudo regado a muita bebida e podendo haver confus‹o. ƒ nesse territ—rio que analisaremos as produ�›es poŽticas dos moradores de Maracangalha, reconhecendo a contribui�‹o dessas produ�›es para a forma�‹o identit‡ria baiana e brasileira. O lugar poŽtico, onde mulheres negras trocam saberes para que a mem—ria da tradi�‹o atravesse o tempo e o espa�o.

Embora o Lindro Amor n‹o seja uma manifesta�‹o cultural exclusivamente feminina, nossa pretens‹o aqui Ž apresentar um breve olhar sobre o deslizamento dos corpos das mulheres negras que fazem parte da cultura de tradi�‹o oral de Maracangalha. Quem s‹o essas mulheres? O que seus corpos produzem?

Tentando tra�ar um perfil das narradoras maracangalhenses, observamos que elas s‹o senhoras de 60 a 80 anos, em grande parte n‹o escolarizadas ou semianalfabetas, praticantes do cristianismo e de religi‹o de matriz africana. Historicamente, as mulheres negras da regi‹o eram trabalhadoras dos engenhos, das casas grandes, amas de leite, rezadeiras e sambadeiras. Atualmente, seus afazeres v‹o alŽm dos de donas de casa. Exercem atividades representativas em sua comunidade, como m‹es de santo, costureiras, professoras, l’deres de grupo cultural, entre outras ocupa�›es. Mulheres de classes populares que, por intermŽdio de suas mem—rias, transportam, mas tambŽm conectam passado e presente, percebendo ou n‹o, que suas a�›es resultam na atualiza�‹o e conserva�‹o da poŽtica oral.

Para o medievalista Paul Zumthor, Òo corpo Ž ao mesmo tempo o ponto de partida, o ponto de origem e o referente do discursoÓ (ZUMTHOR, 2007, p. 77). De acordo com o pensamento do autor, o corpo Ž o local que emana a voz. Nele, a voz se materializa, dando uma impress‹o de presen�a, impondo-se, preenchendo espa�o, tanto material quanto sem‰ntico. Enquanto territ—rio vocal, o corpo Ž presen�a perform‡tica. J‡ a voz precisa do corpo para atingir sua plenitude (ZUMTHOR, 2005). Portanto, o corpo das mulheres negras deve ser visto como o espa�o territorial da voz poŽtica tradicional de Maracangalha, que se articula em um tr‰nsito sem‰ntico discursivo para sua (re)exist�ncia.

Grada Kilomba, ao discorrer sobre os corpos de mulheres negras, afirma que ÒNo racismo, corpos negros s‹o constru’dos como corpos impr—prios, como Ôcorpos que est‹o fora do lugarÕ, por essa raz‹o corpos que n‹o podem pertencerÓ (KILOMBA, 2019, p. 56). A afirma�‹o da autora pontua, mas tambŽm valida o longo processo hist—rico vivido pelas mulheres negras inseridas no sistema racista, opressor e patriarcal, que invalidam seus corpos e, automaticamente, todos seus conhecimentos. Ao nos referirmos ˆs mulheres negras, seus corpos n‹o podem ser vistos como primitivos ou irracionais, como foi conceituado na perspectiva euroc�ntrica para as rela�›es de domina�‹o e explora�‹o de trabalho (QUIJANO, 2005). Entretanto, aqui, o corpo tem uma integridade, uma racionalidade, ele produz linguagem. ƒ o corpo um territ—rio em que ganha vida a performance poŽtica. Ele carrega a mem—ria cultural, mas tambŽm a voz da tradi�‹o. Desse modo, interessa-nos investigar a atua�‹o das mulheres de Maracangalha enquanto corpos que resistem e enfrentam e revertem os discursos que as desqualificam.

 

 

Entre a oralidade e a escrita, extens›es da mem—ria

 

Adentrar a comunidade de Maracangalha, enquanto pesquisadoras, Ž vasculhar, com o olhar minucioso, as gavetas, baœs e quartinhos, ˆ procura de objetos, indument‡rias, bandeiras, cadernos, livros, instrumentos musicais, CDs, DVDs etc. Comp›em o cen‡rio investigado, altares, imagens de S‹o Cosme e Dami‹o, do Sagrado Cora�‹o de Jesus e Maria, Santo Ant™nio, quadros que representam outras paisagens culturais. Interessa-nos a poesia oral/escrita, o canto, as narrativas em performances, entrela�ando discursos do ontem e do agora, mas tambŽm todo esse cen‡rio e os objetos que o comp›em. Esse conjunto integra a produ�‹o da cultura local, revelando as formas de arquivamento da mem—ria, individual e coletiva.

Todo arquivo Ž uma sele�‹o e parte de uma a�‹o, valor, significa�‹o que determinado objeto representa para um indiv’duo ou seu grupo, pois desde a sele�‹o para essa guarda, de forma intencional ou n‹o, o ato de arquivar os objetos, carregam em si a mem—ria de seu guardi‹o. Os arquivos da cultura popular est‹o distantes dos arquivos pœblicos, dos grandes centros culturais, das institui�›es que representam o Estado, mas tambŽm s‹o formas de salvaguardar e preservar a mem—ria cultural, seus fazeres, suas cren�as, seus costumes, da a�‹o do tempo. Ademais, percebemos que os sujeitos tambŽm selecionam seu arquivo material com formas pr—prias de organicidade e metodologia, cuja diversidade se faz presente nos arquivos pœblicos, mas com cuidado e zelo, pelo valor simb—lico que esses arquivos representam para os indiv’duos e para a comunidade. Portanto, metodologia e organicidade perpassam por um ato subjetivo dos sujeitos.

AlŽm disso, os arquivos trazem em si o vazio, o sil�ncio, o rastro de outros tempos, experi�ncias e viv�ncias. Assim, vemos que podem servir de testemunhos de lembran�as e esquecimentos, assim como s‹o tambŽm ferramentas para a preserva�‹o de informa�›es culturais relacionadas ao grupo do Lindro Amor. Destacamos dentre os objetos de fixa�‹o de mem—rias um dos cadernos da professora N’vea.

Para a leitura dos signos presentes no acervo cultural do Lindro Amor, apropriamo-nos da express‹o arquivista anarquista proposta por Reinaldo Marques que, ao fazer refer�ncia ao perfil do pesquisador ao lidar com o arquivo liter‡rio, deve atuar como Òarquivista anarquista, lendo o arquivo a contrapeloÓ (MARQUES, 2008, p. 117). Segundo o autor, isso possibilita uma leitura cr’tica, a desconstru�‹o da ordem dos arquivos, formulando novas formas de leituras e interpreta�›es. O sujeito do arquivo desafia o arquivista, pois o for�a a olhar para o que Ž ocultado e acurar o ouvido para ouvir os silenciamentos.

O pesquisador/ouvinte, em contato com as formas de arquivos, deve voltar seu olhar Òpara a natureza discursiva, sua oculta�‹o ou exposi�‹o [...], mas tambŽm para a narrativa que se estabelece nesses fragmentosÓ (COSTA, 2016, p. 60). Nesse sentido, vemos que o pesquisador deve atentar para a linguagem presentes nos objetos, os sentidos revelados pelo arquivo. Desse modo, considerando os narradores como arquivos vivos (COSTA, 2016), a constru�‹o de sentidos da poŽtica oral se atualiza, se ressignifica, apresentando a ÒintervocalidadeÓ que, segundo Paul Zumthor (1993), deve ser entendida como a voz que faz uma trilha no tempo e no espa�o, mas que tambŽm carrega a tradi�‹o.

Importante notar que, embora a transmiss‹o dos saberes seja predominantemente oral, encontramos no caderno de anota�›es um suporte valioso que indica n‹o s— o dom’nio do c—digo escrito, mas o uso adequado dessa ferramenta em fun�‹o do desejo de registro e salvaguarda. Zumthor (2010, p. 39) prescreveu que Òa poesia oral hoje se exerce em contato com o universo da escritaÓ. Para o autor, esse contato pode acontecer em um prazo mais ou menos longo, chamando a aten�‹o para o impacto da escrita sobre a poesia oral. A declara�‹o de Zumthor apresenta rela�‹o com as formas de arquivo da cultura popular de Maracangalha, uma vez que os arquivos carregam a voz da tradi�‹o. Ao acessar esses arquivos virtuais/materiais, seus narradores/ouvintes, atravŽs da performance, proporcionam a produ�‹o e a transmiss‹o da poŽtica oral. Por outro lado, o caderno de anota�›es, como o de Pr— N’vea, revela a transcri�‹o da voz, materializando a palavra oral em escritura, uma espŽcie de Òsegunda l’nguaÓ (Zumthor, 2005), afirmando o dom’nio do c—digo escrito em um territ—rio aparentemente dominado pela oralidade. Pode-se tambŽm revelar, numa perspectiva espacial, um territ—rio afetivo em que pares trocam afetos e experi�ncias.

Dentre as mulheres que tem o dom’nio da escrita no grupo Lindro Amor, Pr— N’vea tem as melhores condi�›es para registrar no caderno – que intitulou ÒCultura PopularÓ – aspectos essenciais do Lindro Amor, mas n‹o s—. Trata-se de uma relevante produ�‹o sobre a cultura de tradi�‹o oral, uma espŽcie de c—dice, onde est‹o registradas as narrativas orais que atravessaram e atravessam o tempo na vila. A autora configura esse arquivo em duas partes: na primeira est‹o escritos c‰nticos, benditos e louvores em honra a Maria, S‹o Roque e Santo Ant™nio; na segunda parte, encontramos as cantigas de Bumba-meu-boi, Folia de Reis, Samba de roda, bailados e do Lindro Amor. Nesse breve sum‡rio do caderno, est‹o listados os interesses da autora/organizadora e os textos caracter’sticos da tradi�‹o da comunidade que v‹o de textos religiosos a folguedos.

N’vea afirma que o caderno tem fun�‹o pedag—gica dentro da comunidade, servindo de manual para as professoras ensinarem a cultura de tradi�‹o oral aos alunos da escola de ensino fundamental presente na vila, objetivando as apresenta�›es dos eventos escolares e a comemora�‹o do dia do folclore, alŽm de servir de guia para as novenas dos santos cat—licos e da festa da padroeira – Nossa Senhora da Guia. Assim, o caderno ÒCultura popularÓ Ž uma produ�‹o individual, uma escrita de si, que apresenta os saberes de uma coletividade, mas tambŽm, assim como a voz, se move para atender os Òmœltiplos letramentosÓ[60] da comunidade.

A cantiga do Lindro Amor que segue faz parte desse arquivo:

Eu n‹o sou daqui,

Sou de Maracangalha.

Eu n‹o sou daqui,

Sou da terra de An‡lia.

Trago o samba no pŽ

E o meu chapŽu de palha.

O sujeito poŽtico dessa cantiga demarca um lugar e sua identidade cultural. O sujeito que fala est‡ em outro espa�o que n‹o Ž Maracangalha, mas sente necessidade de demarcar seu territ—rio de identidade, valendo-se dos signos conhecidos do lugar em outros contextos. Desterritorializa-se e reterritorializa-se, autoafirmando-se. Para isso, empreende um movimento de apropria�‹o ou antropofagia cultural da can�‹o de Dorival Caymmi, como uma forma de dar maior visibilidade ao grupo, uma vez que o nome da localidade Ž conhecido nacionalmente gra�as aos versos desse compositor. Ademais, chamam a aten�‹o os signos presentes no texto de Caymmi: An‡lia, chapŽu de palha e samba no pŽ. Fazendo refer�ncia a Am‡lia, segundo os moradores, a maior sambadeira de Maracangalha e por isso mesmo citada por Caymmi, o sujeito se coloca no mesmo lugar que deu fama ao povoado. A refer�ncia ao chapŽu de palha, repetindo a mesma rima usada por Caymmi (An‡lia/palha) Ž uma clara alus‹o ao acess—rio do grupo de samba que, por sua vez, imita as indument‡rias dos trabalhadores dos canaviais e outras labutas.

Ao dizer Òeu n‹o sou daquiÓ, o sujeito poŽtico coloca-se no lugar do estranho ou forasteiro em rela�‹o ao territ—rio-n‹o-lugar ou um aqui ocupado provisoriamente. Por outro lado, coloca-se como alguŽm que sabe bem qual lugar Ž o seu e o vai descrevendo nos versos seguintes, n‹o com caracter’sticas da paisagem, da localiza�‹o ou atividade econ™mica, selecionando aspectos culturais. Descreve o seu lugar como a terra da An‡lia, e isso lhe basta. Assim como lhe basta descrever a si mesmo como alguŽm que sabe sambar e usa chapŽu de palha. Com esses signos, cria-se uma imagem homog�nea que identifica o sujeito poŽtico e todos os outros sujeitos da terra de An‡lia.

O primeiro e o terceiro versos, Òeu n‹o sou daquiÓ, tambŽm nos remetem a uma can�‹o de dom’nio pœblico: ÒMarinheiro s—Ó, gravada por Clementina de Jesus[61]:

Eu n‹o sou daqui, marinheiro s—

Eu n‹o tenho amor, marinheiro s—

Eu sou da Bahia, marinheiro s—

De S‹o Salvador, marinheiro s—.

Assim como nos versos do Lindro Amor se diz textualmente Òsou de MaracangalhaÓ, aqui tambŽm Ž necess‡rio dizer de onde se Ž, demarcar seu territ—rio: Òeu sou da Bahia/de S‹o SalvadorÓ. Nos versos do marinheiro fica subentendido que Ž um sujeito em tr‰nsito, um viajante solit‡rio (Òmarinheiro s—Ó); nos versos do Lindro Amor, esse tr‰nsito pode se justificar pelo fato de o cortejo tambŽm se deslocar para outras localidades para pedir a esmola dos santos, de acordo com a explica�‹o de Pr— N’vea mencionada anteriormente. Eis um aspecto que se constitui como forte indicador de identidade: o sujeito gira o mundo, mas se revela a partir do seu lugar de origem: n‹o se diz Òeu sou...Ó, mas se diz Òeu sou de...Ó. Nos versos de ambas as cantigas parece transpirar um certo orgulho ao revelar seu territ—rio e tambŽm a necessidade de demarcar o deslocamento, explicitado nos versos Òeu n‹o sou daquiÓ.

A cantiga ÒMarinheiro s—Ó ficou marcada pela interpreta�‹o œnica de dona Clementina de Jesus, dona de uma voz negra que nos remete ˆ ancestralidade e aos c‰nticos dos terreiros, ela mesma pioneira em gravar pontos de macumba e dar visibilidade ao matriarcado nas religi›es de matriz africana. Ao dizer Òeu n‹o sou daquiÓ, essa voz nos diz tambŽm desse lugar diasp—rico e solit‡rio. Se consideramos que a Marinha do Brasil foi um dos poucos lugares a acolher os negros libertos no per’odo p—s-aboli�‹o, em fun�‹o das pŽssimas condi�›es de trabalho e da forma desumana como os trabalhadores eram tratados, haver‡ ainda muito a se dizer dessa cantiga[62]. No entanto, n‹o caber‡ aqui, pois nos desvia do repert—rio do Lindro Amor e das anota�›es de Pr— N’vea.

Em outra folha do caderno, encontramos a cantiga de samba de roda que segue:

Arraste a cadeira e senta, mulher!

Tu n‹o dan�a, tu n‹o samba,

que diabo faz em pŽ?

Arraste a cadeira e senta, mulher.

Como se v� nessa quadra, o contexto de interlocu�‹o Ž a roda de samba. O sujeito poŽtico revela um inc™modo pelo fato de a mulher estar de pŽ, sem dan�ar. Na roda, o lugar do corpo dan�ante Ž o centro. Em volta da roda est‹o os mœsicos e os cantadores, os que n‹o dan�am e se limitam a responder os refr›es e bater palmas. A mulher em geral ocupa o centro, o lugar da dan�a, assim como o sapateado e a umbigada. Nesse espa�o central, espera-se o corpo livre, comandado apenas pelo ritmo da mœsica. No entanto, nessa cantiga, podemos observar que n‹o h‡ liberdade de escolha. O corpo feminino que, apesar de estar de pŽ, n‹o ocupa o lugar da brincadeira, Ž convidado a sentar-se, ou seja, Ž exclu’do da roda. O tom imperativo Òarraste a cadeira e sentaÓ n‹o deixa op�‹o nem meio-termo: ou est‡ dentro ou est‡ fora (ou dan�a ou senta). A estrutura circular da cantiga, come�ando e terminando com versos id�nticos (a ordem de se sentar) deixa clara a insist�ncia nessa ideia: nos versos centrais est‡ a explica�‹o (ÒTu n‹o dan�a, tudo n‹o sambaÓ) e a indigna�‹o (Òque diabo faz em pŽ?Ó), refor�ando o inc™modo com a repeti�‹o que inicia e fecha a estrofe (Òarraste a cadeira e sentaÓ).

Essa mulher parece n‹o ter voz nem escolha, devendo assumir o papel j‡ previamente determinado. Poderia parecer uma preocupa�‹o motivada pela gentileza de dar assento a uma dama, n‹o fosse o tom grosseiro da pergunta Òque diabo faz em pŽ?Ó Como se essa posi�‹o da mulher de pŽ atrapalhasse o samba, ocupando o lugar de quem deveria dan�ar. Nessa situa�‹o, ela Ž exclu’da da roda, invisibilizada, sendo colocada como mera observadora. Por outro lado, a ordem de se sentar pode ser interpretada tambŽm como uma provoca�‹o para que todas as mulheres participem do samba. Os versos dizem claramente qual o lugar que a mulher deve ocupar e, se n‹o o fizer, comete um interdito que se traduz no inc™modo e na irrita�‹o do sujeito poŽtico. Em œltima inst‰ncia, seu corpo ocupa o seu lugar de estar no mundo e, se esse lugar ou seu comportamento Ž visto como inadequado, Ž porque ela faz uso da liberdade de desafiar o prŽ-estabelecido.

ƒ desse modo que essas cantigas se convertem como farto material etnogr‡fico, documentos da mem—ria cultural que revelam os modos de ser e fazer das comunidades narrativas. No Lindro Amor, as vozes das mulheres da comunidade de Maracangalha s‹o ressignificadas e traduzidas em discursos. Entende-se discurso como formas de express‹o da linguagem que servem de ferramenta para essas mulheres se posicionarem contra hierarquias discursivas que tentam silenciar suas vozes e invalidar seus saberes. Desse modo, vamos ao encontro do pensamento de Foucault (1996) sobre interdi�‹o da fala de grupos subalternizados pelo sistema de poder. Segundo o autor, esses grupos atŽ falam, mas existem mecanismos de poder que os impedem de serem ouvidos. Nesse sentido, o discurso dessas mulheres negras Ž interditado por uma ordem discursiva que, no seu interior ou exterior, dita o que deve ser falado e por quem.

Desse modo, essas mulheres juntam esfor�os e criam par‰metros para seus modos de produzir. Nos seus corpos, est‹o as engrenagens discursivas da produ�‹o poŽtica e de sua coletividade, o lugar marginalizado pela cultura hegem™nica, silenciado historicamente pelo discurso do poder, como nos alerta Kilomba (2019), ao argumentar que o sil�ncio da subalterna tem suas ra’zes no colonialismo. Nesse sentido, ao produzir e transmitir a poŽtica oral, essas mulheres negras tentam romper essa barreira discursiva colonial, que nega seus conhecimentos e suas vozes. Por outro lado, o que observamos Ž a exist�ncia desse lugar e o eco de suas vozes atravessarem o tempo, mover-se em sua comunidade por intermŽdio de suas mem—rias. Nota-se que essas narradoras t�m consci�ncia do que fazem e o porqu� fazem, n‹o havendo passividade em suas produ�›es.

ƒ na linguagem e com a linguagem que essas mulheres e seus pares buscam o devir emancipat—rio e pol’tico em suas vidas, tentando sair de um lugar comum. Os que a produzem de modo inconsciente ou n‹o, criam uma l’ngua pr—pria que os caracterizam, construindo suas identidades. Esses s‹o os aparatos que determinam o modo de produzir utilizado por essas pessoas, caracterizando um estilo pr—prio, possibilitando sair do padr‹o de normalidade discursiva. Portanto, essas mulheres se apropriam da linguagem como dispositivo ou ve’culo para levar a mem—ria do texto oral a novos interlocutores e outros contextos. E, nesse deslizamento, elas se afirmam enquanto mulheres negras, alŽm de descobrirem outras formas de Òser mulherÓ, insurgindo-se contra um sistema de poder.

A cena teatral, perform‡tica, de transmiss‹o dessa poŽtica, evidencia o protagonismo dessas mulheres negras como os pilares fundamentais da produ�‹o, mas tambŽm a intersec�‹o de seus saberes e de seus corpos, alŽm dos seus esfor�os para valoriza�‹o e revitaliza�‹o do texto na atualidade. Assim, percebemos os modos de produ�‹o da poesia oral como o processo de singulariza�‹o que geram liga�›es de resist�ncia, embates e for�a criativa. Esses elementos possibilitam a produ�‹o, a transmiss‹o desse fazer liter‡rio, alŽm de categoriz‡-lo como uma produ�‹o de troca dos afetos e saberes.

 

 

Considera�›es finais

 

As reflex›es apresentadas neste artigo nos levam a pontuar os caminhos trilhados por mulheres para produzir a cultura popular de tradi�‹o oral. Analisamos que esses caminhos levam seus fazeres para um campo discursivo onde est‹o presentes embates internos e externos, a�›es pol’ticas, rela�›es de for�a, mas que t�m como resultado a valoriza�‹o e salvaguarda do texto oral. AlŽm disso, a via mostra as engrenagens desse processo, ˆ medida que a produ�‹o acontece, a poesia oral se move para a atualiza�‹o e ressignifica�‹o.

Por outro lado, ressaltamos que elas, ao reinventarem o processo de produ�‹o, tambŽm se reinventam enquanto mulheres. Desse territ—rio de fala, com seus pares, buscam emancipa�‹o e ascens‹o social, vivenciam experi�ncias que possibilitam insurg�ncia de pr‡ticas que desestabilizam, mas tambŽm modificam discursos sociais que servem de barreira para ascens‹o do grupo e de sua cultura.

Por fim, a produ�‹o da poŽtica oral perpassa pela cria�‹o art’stica, singulariza�‹o, criatividade da linguagem, mas tambŽm pela resist�ncia e (re)exist�ncia da cultura popular de tradi�‹o. Nessa perspectiva, literatura e vida caminham juntas no campo de produ�‹o, como possibilidade, ferramenta, maquinaria de cria�‹o poŽtica. Ademais, Ž nessa linguagem e no entrela�ar dos corpos dessas mulheres negras que, historicamente, seu texto Ž produzido, transmitido e ressignificado no tempo. Vivendo e predominando nos registros e na mem—ria cultural de Maracangalha.

 

 

Refer�ncias

 

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FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. S‹o Paulo: Loyola, 1996.

GUATTARI, Felix; ROLNIK, Suely. Subjetividade e hist—ria. In: _________. Micropol’tica: cartografias do desejo. Petr—polis: Vozes, 1986, p. 25-126.

KILOMBA, Grada. Quem pode falar? In. KILOMBA, Grada. Mem—rias da Planta�‹o. Trad. Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobog—, 2019, p.47-70.

MARQUES, Reinaldo. Mem—ria liter‡ria arquivada. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, Belo Horizonte, n.18, p.105-120, jul./dez, 2008.

PAIVA, Valdevino Neve. Maracangalha: torr‹o de a�œcar, torr‹o de massap�. S‹o Sebasti‹o do PassŽ: Departamento de Cultura, 1996.

QUIJANO, An’bal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e AmŽrica Latina. In. LANDER, Edgarbo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ci�ncias sociais. Perspectivas latino-americanas. Cole�›es Sur Sur. Buenos Aires: CLACSO, 2005, p.117-142.

ROJO, Roxane. Letramentos mœltiplos, escola e inclus‹o social. S‹o Paulo: Par‡bola Editorial, 2009.

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ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a ÒliteraturaÓ medieval. S‹o Paulo: Cia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Escritura e nomadismo: entrevistas e ensaios. Cotia, SP: Ateli� Editorial, 2005.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recep�‹o, leitura. 2. ed. S‹o Paulo: Cosac Naify, 2007.

ZUMTHOR, Paul. Introdu�‹o ˆ poesia oral. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

 

 

 

[Recebido: 11 out 2020  –  Aceito: 13 jan 2021]

 



[54] Possui gradua�‹o em Letras Vern‡culas pela Universidade Estadual de Feira de Santana/UEFS (2006), Especializa�‹o em L’ngua Portuguesa e Literatura Brasileira pela Faculdade Cat—lica de Ci�ncias Econ™micas da Bahia/FACCEBA. Mestranda do Programa de P—s-gradua�‹o em Cr’tica Cultural (P—s Cr’tica/UNEB).

[55] Possui Gradua�‹o em Letras Vern‡culas (Universidade Federal da Bahia/1987), Mestrado em Letras e Lingu’stica (Universidade Federal da Bahia/1995) e Doutorado em Comunica�‹o e Semi—tica (Pontif’cia Universidade Cat—lica de S‹o Paulo/2005). ƒ Professora Titular Plena de Literatura Portuguesa da Universidade do Estado da Bahia, atuando como professora permanente no Programa de P—s-gradua�‹o em Cr’tica Cultural (P—s Cr’tica/UNEB). Integrou por diversas vezes a coordena�‹o do GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL. Tem experi�ncia na ‡rea de Letras, com �nfase em Literatura, pesquisando os seguintes temas: tradi�‹o oral, identidade cultural, literatura oral e conto popular.

[56] S‹o Sebasti‹o do PassŽ est‡ situado na Regi‹o Metropolitana de Salvador e fica distante 58 quil™metros da capital, a 37 metros de altitude. Segundo dados do IBGE de 2019, sua ‡rea total Ž de 538,32 km² e popula�‹o de 44.300 habitantes. O munic’pio possui quatro distritos: NazarŽ de Jacu’pe, Lamar‹o do PassŽ, Maracangalha e Banco de Areia.

[57] Entende-se por arquivo Òum conjunto de documentos produzidos e acumulados por uma entidade coletiva [ou individual], pœblica ou privada, pessoa ou fam’lia, no desempenho de suas atividades, independentemente da natureza do suporteÓ (SANTOS, 2016, p. 27).

[58] Faz-se refer�ncia a Maria Am‡lia da Cruz (03/05/2011-16/02/1992), foi uma moradora e sambadeira, natural de Maracangalha. ÒEra uma verdadeira e primorosa artista n‹o s— na arrancada como no sapateado perfeito, na caprichada rodada e na umbigada finalÓ (PAIVA, 1996, p. 26, grifo do autor). Segundo, Paiva e moradores da vila, Maria Am‡lia da Cruz Ž ÒAn‡liaÓ, musa de Caymmi.

[59] Besouro Ž descrito como um Òhomem temido em toda regi‹o por sua valentia e mandingas [...]. Capoeirista de primeira linha, puxador de samba [...]Ó (PAIVA, 1996, p. 67).

[60] ÒO Ôsignificado do letramentoÕ varia atravŽs dos tempos e das culturas e dentro de uma mesma cultura. Por isso, pr‡ticas t‹o diferentes, em contextos t‹o diferenciados, s‹o vistas como letramento, embora diferentemente valorizadas e designando a seus participantes poderes tambŽm diversosÓ (ROJO, 2009, p. 99).

[61] A composi�‹o, de tradi�‹o oral, foi gravada por Clementina de Jesus no LP ÒMarinheiro s—Ó. A cantiga Ž, por vezes, atribu’da a Caetano Veloso, que foi quem produziu o LP de Dona Clementina, lan�ado em 1973, assim como quem fez a adapta�‹o da cantiga.

[62] Prova disso Ž a Revolta da Chibata, rebeli‹o de negros marinheiros em 1910. O que motivou o motim foi justamente o uso de chibatadas, aceito oficialmente, por oficiais brancos para punir marinheiros negros e mulatos.