A POƒTICA DA VOZ NO TERRITîRIO DO MARAVILHOSO NAPOLITANO E BAIANO: TRANSMISSÌO ORAL, CONSELHO E TROCA DE SABERES

 

THE POETICS OF VOICE IN THE NEAPOLITAN AND BAHIAN TERRITORY OF THE MARVELOUS: ORAL TRANSMISSION, ADVICE, AND SHARED KNOWLEDGE

 

Adriana Aparecida de Jesus Reis[63]
https://orcid.org/0000-0002-9717-4642

 

Resumo: O mito de Eros/Cupido e Psiqu� foi narrado nos livros IV, V e VI do romance antigo O asno de ouro por Lœcio Apuleio. O texto da literatura latina forneceu a fonte para o escritor napolitano Giambattista Basile (1575-1632) escrever sua obra-prima Lo cunto de li cunti (O conto dos contos). Ele usou o mito como inspira�‹o para escrever o nono conto de fadas da segunda jornada, o qual recebeu o t’tulo de ÒO cadeadoÓ. Parente em primeiro grau de ÒO cadeadoÓ Ž o conto maravilhoso ÒAngŽlica mais afortunada (O pr’ncipe Teiœ)Ó. Essa hist—ria foi coletada pelo folclorista brasileiro Marco HaurŽlio em Igapor‹, na Bahia, e registrada em seu livro Contos e f‡bulas do Brasil. Este artigo busca analisar n‹o somente o di‡logo intertextual entre os contos maravilhosos napolitano e baiano, mas principalmente os elementos populares que se ligam ˆ transmiss‹o dessas narrativas pela oralidade, tendo em vista que tais hist—rias primeiro foram contadas oralmente por contadores e depois ouvidas por compiladores e folcloristas que as registraram em suas colet‰neas maravilhosas. Verifica-se que os escritores deram um toque particular ˆs narrativas coletadas, demonstrando a presen�a de uma oralidade, porŽm reconstru’da por recursos que evidenciam suas culturas locais.

Palavras-chave: Ciclo noivo-animal. Contos maravilhosos. Oralidade. Giambattista Basile. Marco HaurŽlio.

 

Abstract: The myth ÒEros and PsycheÓ was narrated by Lucio Apuleio in the books IV, V, and VI of his novel The Golden Ass. The Latin literary text provided the source from which Neapolitan writer Giambattista Basile (1575-1632) drew the inspiration to write his own masterpiece, Lo cunto de li cunti (The tale of tales). He used the myth as a basis to build the ninth fairy tale from the second journey on, which was titled ÒThe padlockÓ. A close literary relative to ÒThe padlockÓ is the wonder tale ÒAngelica, the most fortunateÓ (ÒThe tegu princeÓ). The story was collected by Brazilian folklorist Marco HaurŽlio in Igapor‹, Bahia, and registered in his book Tales and Fables of Brazil (2011). This paper aims to analyze not only the intertextual dialogue between the Neapolitan and Bahian tales but especially the popular elements that are tied to the oral transmission of such narratives. It takes into account the fact that those stories were first told orally by storytellers and then heard by collectors and folklorists that registered them in their tale collections. It is noticeable how writers gave a personal touch to the collected narratives, which demonstrates the presence of certain orality but reconstructed by resources that highlight their local cultures.

 

Keywords: Animal-groom cycle. Wonder tales. Orality. Giambattista Basile. Marco HaurŽlio.

As vozes da tradi�‹o

 

            Segundo o etn—grafo Lu’s da C‰mara Cascudo, em seu livro cl‡ssico Literatura oral no Brasil, contar hist—rias populares, desde os primeiros registros escritos, remonta a um ambiente protocolar em qualquer parte do mundo, segundo o qual as hist—rias e as adivinha�›es s‹o narradas durante as primeiras horas da noite. A escolha por esse h‡bito noturno, de acordo com o mestre potiguar, explica-se pelo fato de ser o hor‡rio final da tarefa di‡ria e pela atmosfera de tranquilidade e sossego espiritual para a evoca�‹o e aten�‹o do audit—rio. Escolhendo o ambiente noturno, Cascudo (1984, p. 228) nos recorda dos melhores t’tulos que denunciam essa universalidade do h‡bito:

Mil e Uma Noites, Fireside Stories de Kennedy, VeillŽs Bretonnes de Luzel, XIII Piacevoli Notte de Straparola, Foyer Breton, de émile Souvestre, VeillŽes Des Mayens, de Couthion, VeillŽes Allemandes, tradu�‹o de lÕHŽritier de lÕAin, de contos, cr™nicas e tradi�›es dos irm‹os Grimm.

            De todas essas cole�›es europeias de narrativas populares que explicitam a prefer�ncia pelo h‡bito de contar hist—rias ˆ noite, nos interessa a colet‰nea italiana XIII Piacevoli Notti, de Straparola, tambŽm designada de Le piacevolli notti (As noites agrad‡veis). Essa obra pode ser considerada precursora na compila�‹o do g�nero maravilhoso na It‡lia, pois o escritor Gian Francesco Straparola reuniu, ˆ maneira de Boccaccio, em treze noites, narrativas populares a partir de 1553 (SPERBER, 2009). Das 75 hist—rias que formam esta colet‰nea italiana, encontramos n‹o somente contos de fadas, narrados ao modo maravilhoso, mas tambŽm contos realistas, articula�‹o bem percebida por Ana Lœcia Merege: ÒPublicado pela primeira vez em Veneza, no ano de 1550, o livrou reunia contos de fadas, contos populares, como O Gato de Botas[64], e hist—rias de car‡ter cotidiano, cujo bom-humor lhe valeria cr’ticas por parte dos autores e estudiosos de moral mais r’gidaÓ (MEGERE, 2010, p. 43).

            Essa diferen�a de g�nero entre contos de fadas e hist—rias de car‡ter cotidiano tambŽm se mostra relevante na l’ngua italiana, pois, para os contos de fadas ou populares, existem as palavras fiaba ou racconti, que designa a presen�a do elemento maravilhoso, e para as hist—rias de car‡ter cotidiano, existem as palavras novella (singular) ou novelle (plural), que s‹o narrativas curtas verossimilhantes. ƒ fato que o escritor italiano Straparola, justamente por mesclar ˆ matŽria narrada do modo maravilhoso as hist—rias verossimilhantes, aproxima-se de Giovanni Boccaccio, autor do Decamerone ou Decamer‹o, obra-prima da literatura italiana do sŽculo XIV, conhecida, principalmente, pela narra�‹o da peste negra do final da Idade MŽdia em seu conto moldura, dentre outros temas. Ainda que Straparola se aproxime de Boccaccio, devemos ressaltar que a obra deste escritor italiano do sŽculo XIV Ž composta somente por narrativas do g�nero novelle, ou seja, hist—rias verossimilhantes, ao nœmero de cem.

            Utilizando a estrutura de moldura, inaugurada por Boccaccio no sŽculo XIV na literatura italiana, depois empregada por Giovan Francesco Straparola em Le piacevolli notti, e escolhendo, porŽm, o h‡bito diurno para contar seus cinquenta contos de fadas recolhidos da oralidade, encontra-se o escritor italiano Giambattista Basile (1575-1632), autor de Lo cunto de li cunti ovvero trattrattenemiento de peccerille ou O conto dos contos ou entretenimento dos garotinhos em portugu�s, obra-prima publicada postumamente, entre 1634 e 1636, pela irm‹ do escritor, Adriana Basile, uma famosa cantora de —pera da It‡lia seiscentista (do sŽculo XVII).

A obra Lo cunto de li cunti, tambŽm percursora do registro do g�nero maravilhoso na It‡lia, foi publicada originalmente em dialeto napolitano no sŽculo XVII, em raz‹o de sua matŽria ter sido recolhida entre a camada popular, formada por camponeses e marinheiros do interior da prov’ncia de N‡poles, por Basile durante seu encargo como governador feudal da prov’ncia. Mas foi somente em 1925, pelas m‹os do cr’tico, fil—sofo e tradutor italiano Benedetto Croce, que Lo cunto de li cunti de Basile foi traduzido para o italiano standard (o italiano mais pr—ximo do dialeto florentino utilizado pelos tr�s mestres italianos do sŽculo XIV), recebendo um novo t’tulo em alus‹o ao modelo estrutural usado por Boccaccio no seu Decamerone: Pentamerone ossia la fiaba delle fiabe (Pentamer‹o ou seja a f‡bula das f‡bulas).

Apesar da tardia tradu�‹o de Croce, Ž ineg‡vel que o cr’tico italiano tornou a obra de Basile corrente por toda a pen’nsula italiana, j‡ que havia restri�›es lingu’sticas ligadas ao dialeto de N‡poles, considerado marginal na Žpoca. Entretanto, essa mudan�a de t’tulo, embora estratŽgica, ao aproximar a obra napolitana do t’tulo da obra de Boccaccio, acabou por desmerecer, sobretudo, a engenhosidade de Basile enquanto escritor, demonstrada desde o t’tulo original do livro, pois o t’tulo Lo cunto de li cunti, ou O conto dos contos em portugu�s, salienta, a nosso ver, a estrutura de encaixe, ao ressaltar o conto maior ÒLo cuntoÓ que enquadra os contos menores Òli cuntiÓ, o que vai ao encontro da observa�‹o do cr’tico italiano Michele Rak:

A obra foi constru’da do seguinte modo: Ž um conto (o quinquagŽsimo da abertura/pontes narrativas/fechamento) no interior do qual s‹o narrados outros quarenta e nove contos. Por este motivo a obra foi intitulada conto dos contos. Se fala de jogo dos jogos no mesmo sentido [...]. O quinquagŽsimo conto Ž a hist—ria de Zoza que abre e fecha a obra e tem a mesma estrutura do œltimo conto (As tr�s cidras, o quadragŽsimo nono: confira o conto 9 da quinta jornada) (RAK, 2004, p. 15, tradu�‹o nossa[65]).

            Como bem destacou Rak (2004), o conto moldura (quinquagŽsimo), que assinala os quarenta e nove contos internos ˆ obra, Ž a hist—ria da princesa Zoza, uma princesa que nunca sorria e, quando sorria, Ž em virtude de gestos bizarros de uma velha avistada pela princesa atravŽs da janela do pal‡cio. Na verdade, a velha havia levado um tombo, o que provocou uma grande gargalhada na princesa e ao mesmo tempo uma grande ira na velha, que, por esse motivo, jogou uma maldi�‹o sobre a princesa, segundo a qual o pr’ncipe com quem ela se casaria, chamado Taddeo, estava dormindo numa tumba longe da cidade e, ao encontr‡-lo adormecido, ela teria, caso quisesse se casar com ele, chorar um vaso de l‡grimas. Diante disso, Zoza parte para fora da cidade e encontra o pr’ncipe adormecido, e logo se p›e a chorar, porŽm, a princesa Ž vencida pelo cansa�o e adormece e quem termina de encher a ‰nfora Ž a velha escrava, fato que rompe o estado let‡rgico do pr’ncipe, que, pensando que a escrava fosse sua salvadora, se casa com ela e a leva para morar em seu pal‡cio na cidade de Torrelunga. Inconformada pelo ardil do qual foi v’tima, Zoza tambŽm arquiteta um plano: morando em frente ao pal‡cio do pr’ncipe, a princesa d‡ de presente ˆ escrava v‡rios objetos m‡gicos, dentre eles uma boneca que incute na ex-escrava o desejo incontrol‡vel de ouvir contos de fadas. Assim, o pr’ncipe convoca dez mulheres velhas e mais linguarudas da cidade para narrar, durante cinco dias, ou jornadas, e entre banquetes e jogos t’picos da vida cortes‹, dez contos de fada (dez contos por dia), totalizando, ent‹o, cinquenta contos maravilhosos, sendo o quinquagŽsimo a pr—pria hist—ria de Zoza. A princesa desmascara a ex-escrava no œltimo conto da œltima jornada, fechando assim o quadro, o que conduz o final feliz para a princesa e a puni�‹o para a escrava.

            A obra de Basile Ž composta, alŽm da hist—ria de Zoza, que representa a narrativa moldura, por quarenta e nove contos enquadrados que cont�m contos de fadas considerados matrizes liter‡rias de contos cl‡ssicos encontrados nas cole�›es de Perrault e Grimm, de acordo com Merege (2010, p. 45): ÒPublicada em 1634-36, a obra contŽm as primeiras vers›es escritas de hist—rias como Cinderela e A bela adormecida, num tom c™mico e ˆs vezes grosseiro que soa de forma estranha aos leitores dos contados herdados da tradi�‹o dos GrimmÓ.

            AlŽm de conter hist—rias famosas em todo o folclore europeu, Lo cunto de li cunti, de Basile, conserva hist—rias populares do tipo ciclo noivo-animal, termo cunhado por Bruno Bettelheim em sua obra A psican‡lise dos contos de fadas, para designar contos de fadas origin‡rios do mito de Cupido e Psiqu� (BETTELHEIM, 2020), conto m’tico que fora recolhido e registrado por Lœcio Apuleio no romance antigo O asno de ouro. Do ciclo noivo-animal, foi registrado por Basile em O conto dos contos o nono conto de fadas narrado na segunda jornada, intitulado ÒIl catenaccioÓ (ou ÒO cadeadoÓ em portugu�s), como comprova Croce (2010, p. 165, tradu�‹o nossa) na introdu�‹o do livro em italiano: ÒE n—s compreenderemos, sobretudo, que v‡rios entretenimentos pertencem ao grupo daquele, que Ž o conto de fadas mais famoso e mais rico de hist—ria, o conto de Psiqu� – Assim Ž o nono da segunda jornada, no qual se conta a hist—ria de LuciellaÓ[66].

O mais curioso Ž que esse conto, que narra a hist—ria de Luciella (Lucinha) e seu caso amoroso com um pr’ncipe encantado que foi alvo de uma maldi�‹o, chegou ao imagin‡rio baiano, com o t’tulo de ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó, recolhido pelo escritor e folclorista brasileiro Marco HaurŽlio em Igapor‹, na Bahia, e registrado em seu livro Contos e f‡bulas do Brasil, conforme atesta o pr—prio coletor da obra brasileira: ÒUm conto recolhido em Igapor‹, Bahia, chamado AngŽlica mais afortunada, com a hist—ria de um pr’ncipe encantado teiœ, Ž parente em primeiro grau de O cadeado (entretenimento nono da segunda jornada) do PentameronÓ (HAURƒLIO, 2018, p. 11).

            Por terem o mesmo ancestral m’tico, tanto o conto maravilhoso de Giambattista Basile, intitulado ÒO cadeadoÓ, quanto o conto maravilhoso de Marco HaurŽlio, chamado ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó, s‹o hist—rias populares pertencentes ao ciclo noivo-animal, o que j‡ nos leva a inferir que, j‡ pela denomina�‹o da express‹o Ònoivo-animalÓ, que todas essas hist—rias t�m em comum o elemento maravilhoso da metamorfose do noivo em animal; no caso da vers‹o brasileira, como denota o t’tulo, um pr’ncipe Teiœ, com quem AngŽlica aceita o sacrif’cio de viver sem nenhuma resist�ncia, motivo do noivo-animal retomado na vers‹o brasileira, segundo HaurŽlio (2011). Dada a essa converg�ncia, temos como objetivo, no presente artigo, fazer uma compara�‹o intertextual entre os contos maravilhosos do napolitano Giambattista Basile e do brasileiro Marco HaurŽlio, examinando, principalmente, os elementos populares que remetem ˆ transmiss‹o oral dessas hist—rias populares, os quais, ao nosso entendimento, demarcam o territ—rio da poŽtica da voz nessas narrativas maravilhosas, que, ali‡s, foram primeiro contadas oralmente e depois ouvida por esses coletores, que as registraram em suas colet‰neas.

As vozes da tradi�‹o tambŽm est‹o presentes na colet‰nea brasileira Contos e f‡bulas do Brasil, resultado do trabalho que o folclorista, poeta e escritor Marco HaurŽlio[67], nascido na Bahia, j‡ vinha desenvolvendo desde 2005 com sua publica�‹o de Contos folcl—ricos brasileiros, voltada ao pœblico infanto-juvenil, porŽm a colet‰nea de 2011 Ž uma reuni‹o de hist—rias destinadas a leitores de todas as idades. A colet‰nea Contos e f‡bulas do Brasil inclui, alŽm de contos populares recolhidos na Bahia, contos oriundos de outros estados do Nordeste, como Pernambuco e Alagoas, todos coletados da rica tradi�‹o oral da regi‹o por meio de um gravador. O di‡logo de Marco HaurŽlio com a tradi�‹o se manifesta n‹o somente pelo rico acervo de contos recolhidos daquela regi‹o, mas tambŽm pelo fato de o folclorista dedicar seus Contos e f‡bulas do Brasil a Br‡ulio do Nascimento, como HaurŽlio (2011, p. 11) testemunha no pref‡cio que escreveu para sua colet‰nea: ÒE ao Professor Br‡ulio do Nascimento, emŽrito catalogador do conto e do canto popular, ofere�o mais estas flores colhidas do jardim da tradi�‹oÓ.

            Explicita a rela�‹o entre Br‡ulio do Nascimento e Marco HaurŽlio, alŽm da dedicat—ria feita no pref‡cio ÒO conto popular no sŽculo XXIÓ por HaurŽlio (2011), o fato de ambos os folcloristas brasileiros terem classificados seus contos populares com base no cat‡logo ATU, sistema de classifica�‹o internacional ampliado em 2004, o que nos mostra a influ�ncia do primeiro sobre o trabalho do segundo folclorista, pois Br‡ulio do Nascimento foi o primeiro estudioso de folclore a utilizar esse sistema no Brasil na vers‹o mais atualizada em sua colet‰nea de 2005, Cat‡logo do conto popular brasileiro. Igualmente fez Marco HaurŽlio em sua colet‰nea Contos e f‡bulas do Brasil, ao inserir na parte final de seu livro a se�‹o ÒClassifica�‹o e notasÓ[68] feita por Paulo Correia.

 

O frescor das hist—rias napolitanas no Nordeste brasileiro

 

            De acordo com HaurŽlio (2018), algumas narrativas registradas no folclore brasileiro exalam o mesmo frescor das hist—rias napolitanas, unidas pela origem comum e pela exuber‰ncia de tipos e motivos. Verificaremos, ent‹o, em que medida as hist—rias contadas oralmente no Nordeste brasileiro, mais precisamente o conto ÒAngŽlica mais afortunadaÓ, exalam o frescor das napolitanas recolhidas e recriadas por Basile j‡ no sŽculo XVII, por exemplo ÒO cadeadoÓ. Nesse sentido, utilizamos a express‹o Òrecriada por BasileÓ, dado o estudo realizado em 2018, no qual analisamos o conto napolitano, de Basile, como uma recria�‹o intertextual do mito ÒCupido e Psiqu�Ó. Contudo, uma vez que este conto napolitano foi ouvido e coligido na Bahia por Marco HaurŽlio no sŽculo XXI, acreditamos que n‹o se possa excluir a possibilidade de o escritor napolitano ter ouvido e recolhido essa narrativa j‡ na forma de conto de fadas, tendo em vista as inœmeras andan�as t’picas desse g�nero pela tradi�‹o oral.

            Mas antes de analisarmos os contos em quest‹o, passamos ˆ s’ntese de seus enredos. No conto napolitano ÒO cadeadoÓ, Ž narrada a hist—ria de Luciella que vai buscar ‡gua numa fonte e encontra um escravo que a leva a um bel’ssimo pal‡cio, onde ela Ž tratada como rainha e dorme todas as noites com um pr’ncipe encantado que a aconselha a n‹o ver o rosto dele. Aconselhada pelas irm‹s invejosas a ver com quem dormia, Luciella descobre que dorme com um bel’ssimo jovem e Ž expulsa por ele. Depois de tanto perambular gr‡vida por alguns meses, Luciella Ž acolhida por uma donzela no pal‡cio da m‹e do pr’ncipe encantado, onde Luciella tem um filho, e depois de quebrada a maldi�‹o, que afastava o pr’ncipe encantado de seu filho recŽm-nascido e de Luciella, eles fazem as pazes e se casam. J‡ o conto baiano ÒAngŽlica mais afortunada (O pr’ncipe Teiœ)Ó conta a hist—ria de AngŽlica que, pela m‡ sorte de seu pai ca�ador, que havia prometido ao Teiœ como recompensa do alimento que lhe deu a primeira coisa que o pr’ncipe avistasse no quintal, pensando na cadelinha que tinha, Ž levada para morar num buraco com o pr’ncipe Teiœ e proibida por ele de ver seu rosto. Por sentir saudades de sua fam’lia, AngŽlica visita suas irm‹s mais velhas e seu pai, o qual lhe d‡ uma vela e um f—sforo e a incita descobrir com quem dorme todas as noites. Ao iluminar seu leito ˆ noite, AngŽlica avista o bel’ssimo pr’ncipe com quem dorme e Ž expulsa por ele. Depois de tanto caminhar Òde buchoÓ, utilizando a express‹o do narrador, AngŽlica Ž acolhida por uma velha que a ajuda por recomenda�‹o do rei daquela cidade. Na morada da velha, AngŽlica e seu filho recŽm-nascido recebem durante tr�s noites a visita do pr’ncipe Teiœ que est‡ preso a uma maldi�‹o. Na terceira noite, a maldi�‹o se rompe e eles finalmente ficam juntos. Em seguida, o rei e a rainha, pais do pr’ncipe Teiœ, buscam seu filho e a fam’lia dele, terminando, assim, o conto.

            A primeira converg�ncia entre os contos maravilhosos napolitano e baiano diz respeito ˆ mulher ser a contadora de hist—rias, figura que se liga ˆ tradi�‹o oral, segundo C‰mara Cascudo (2004, p. 19-20), citando Paul Sebillot:

Paul Sebillot mostra que a mulher Ž a melhor contadeira de hist—rias que o homem. Guarda em maior quantidade porque lhe cumpre o agasalho dos filhos e a tarefa de adormec�-los, entretendo-os com o maravilhoso. Os irm‹os Grimm fizeram sua cole�‹o admir‡vel ouvindo as velhas, as ÒtiasÓ da tradi�‹o oral portuguesa, as b‡s, e m‹es-pretas no Brasil.

            Dando continuidade ˆ tradi�‹o de ser Òa melhor contadeira de hist—riasÓ, a contadora de quem o folclorista Marco HaurŽlio ouviu o conto maravilhoso baiano ÒAngŽlica mais afortunadaÓ Ž uma mulher chamada Lucidalva Pereira dos Salvos na cidade de Igapor‹, conforme a anota�‹o depois do conto. Igualmente Ž o conto maravilhoso ÒO cadeadoÓ, de Basile, visto que Ž narrado por uma velha-personagem narradora chamada Ciommetella, anunciada no fragmento da narrativa-moldura que enquadra o conto:

Casou grande compaix‹o no cora�‹o de todos as desgra�as passadas pela pobre Lisa, e mais de quatro estavam com os olhos vermelhos e l‡grimas nos cantos, pois n‹o h‡ nada que mais desperte piedade do que ver alguŽm sofrer inocentemente; mas tocando Ciommetella desenrolar o carretel, assim disse [...] (BASILE, 2018, p. 229, grifo nosso).

            Na obra de Basile, Ž muito comum, ao nos referirmos ˆs contadoras de hist—rias, a express‹o Òvelha personagem-narradoraÓ, visto que, alŽm de exercer a fun�‹o de narradora do conto que se prop›e a narrar, a velha Ž personagem da narrativa-moldura, porque ela foi convidada pelo pr’ncipe Taddeo e sua esposa impostora para narrar contos maravilhosos e entret�-los durante o dia entre banquetes e jogos, disso decorre o fato dos cunti de Basile serem narrados durante o dia, escolha que contraria ˆquela tradi�‹o apontada em outras cole�›es europeias, por exemplo a do italiano Straparola que procedeu Basile na literatura italiana: Le piacevolli notti. Outro aspecto que diferencia a obra de Basile da colet‰nea brasileira, escrita por Marco HaurŽlio, reside no fato de que a velha contadora, no caso em nœmero de dez em O conto dos contos, ser identificada por um defeito f’sico que se revela no nome dela, no caso, a velha personagem-narrradora do conto ÒO cadeadoÓ Ž Ciommetella tinhosa, anunciado na introdu�‹o da obra italiana, junto aos nomes das noves personagens-narradoras da obra.

            Uma poss’vel explica�‹o para esses ep’tetos presentes nos nomes das contadoras, em que se evidencia o disforme, reside no gosto pelo grotesco pr—prio do Barroco, corrente liter‡ria em voga no sŽculo XVII que privilegia o bizarro, na qual se filiava o escritor napolitano. Observa�‹o semelhante ˆ nossa t�m as pesquisadoras Bonetto e Reis (2018), segundo as quais essa marca do grotesco barroco presente nos nomes das dez velhas-personagens narradoras de Basile Ž um procedimento utilizado para obter o efeito par—dico com o Decamerone, de Boccaccio, ao rebaixar a classe social de abastada para pobre e transformar as dez narradoras de jovens com bons costumes para velhas fofoqueiras com distor�›es f’sicas.

            A velha personagem-narrradora Ciommetella tinhosa, ao contr‡rio das outras nove contadoras, n‹o parece ter no ep’teto que a identifica uma indica�‹o de alguma distor�‹o f’sica, dada a primeira acep�‹o deste adjetivo em portugu�s, que, segundo o Dicion‡rio Michaelis online, significa teimosa. A segunda acep�‹o para a palavra ÒtinhosaÓ Ž repugnante ou que causa nojo, significado figurado que ao nosso ver parece estar mais ligado ao universo das distor�›es f’sicas e ao efeito do grotesco, j‡ que o barroco privilegia o repugnante.

Embora tais associa�›es com os significados da l’ngua portuguesa sejam pertinentes, para analisar o adjetivo ÒtinhosaÓ, que no caso desqualifica o nome Ciommetella, temos que averiguar o sentido da mesma palavra em l’ngua italiana, para isso, recorremos ˆ edi�‹o bil’ngue (napolitano e italiano) da obra de Basile, traduzida pelo estudioso italiano Michele Rak, que manteve o t’tulo original da obra, Lo cunto de li cunti, assim como o tradutor Francisco Degani, que traduziu a obra integral de Basile diretamente do napolitano para o portugu�s brasileiro em 2018, preservando o t’tulo original, O conto dos contos, e dando a conhecer os contos de Basile em nosso pa’s, pois, caso quisŽssemos ler Basile em l’ngua portuguesa, t’nhamos que recorrer a tradu�›es esparsas.

Na edi�‹o bil’ngue traduzida por Rak (BASILE, 2013), a velha personagem narradora Ž chamada de Ciommetella tignosa. No interior do adjetivo ÒtignosaÓ em italiano est‡ a palavra ÒtignaÓ, que ÒŽ uma doen�a na pele que leva ˆ queda dos cabelos [...]Ó (tradu�‹o nossa do original Òla tigna � una malattia cut‰nea che porta alla caduta dei capelli [...]Ó (PICONE, 2004, p. 113). AlŽm de nos informar um significado preciso para a palavra ÒtignaÓ, o pesquisador italiano Michelangelo Picone nos oferece uma pista de an‡lise para esse ep’teto, ao se questionar se essa doen�a deseja aludir ˆ capacidade desta narradora de revelar com os seus contos a verdade das coisas. A resposta Ž logo nos dada por ele, que afirma Òser‡ a pr—pria Ciommetella com o seu œltimo conto, que Ž tambŽm o conto conclusivo da colet‰nea (se exclui-se aquele principal de Zoza), a desmascarar a artimanha da escravaÓ[69] (PICONE, 2004, p. 114).

De fato, essa capacidade de Ciommetella ligada ˆ doen�a ÒtignaÓ Ž verificada na fala desta velha personagem-narradora no fragmento que enquadra o conto ÒO cadeadoÓ, depois que a velha narradora anterior lhe cedeu ˆ voz:

Os conselhos da inveja sempre foram pais das desgra�as, por que debaixo da m‡scara do bem encerram a face da ru’na, e a pessoa que tem nas m‹os os cabelos da fortuna deve imaginar ter a todo momento cem pessoas que estendam cordas diante de seus pŽs para faz�-las levar um tombo, como aconteceu a uma pobre mo�a que, pelo mau conselho das irm‹s, caiu da escada da felicidade, e foi miseric—rdia do cŽu que n‹o quebrasse o pesco�o (BASILE, 2018, p. 229).

Nesse fragmento, que se refere ˆ fala de Ciommetella tinhosa (tignosa), o conto ÒO cadeadoÓ tambŽm revelar‡ a verdade dos fatos, verdade que consiste em desmascarar a face das irm‹s invejosas da protagonista, as quais d‹o conselhos ˆ irm‹ mais jovem, provavelmente ˆ protagonista Luciella, como atitude de benevol�ncia para prejudic‡-la ou para Òfaz�-la levar um tomboÓ. Concordamos, portanto, com a an‡lise de Picone (2004) sobre Ciommetella ser uma velha personagem-narradora cuja doen�a f’sica tigna, que causa a queda de cabelos, alude ˆ atitude de revelar a verdade ou de desmascarar as personagens invejosas, pensando nas irm‹s de Luciella, e impostoras, pensando na escrava que tomou o lugar da princesa Zoza.

            AlŽm de antecipar o fato que Luciella ser‡ prejudicada por suas irm‹s mais velhas, a fala da narradora Ciommetella tambŽm anuncia o tema do conto maravilhoso a ser narrado por ela, o da inveja. Recuperando este mesmo tema, como uma espŽcie de arremate ao conto, Basile (2018, p. 232) o insere tambŽm no desfecho, mas na forma proverbial: Òfruto da inveja Ž o mal de est™magoÓ. Nesse aspecto, devemos explicar que Ž pr—prio do estilo liter‡rio de Basile, da interven�‹o art’stica do escritor, os contos serem encerrados por um provŽrbio de origem napolitana, elemento que tambŽm se liga ˆ tradi�‹o oral, assim como o fato de as narradoras serem mulheres, justamente por remeter ˆ sabedoria popular, pois, de acordo com o Benjamin (2015), era muito comum o contador de hist—rias tradicional utilizar provŽrbios como uma forma de conselho de utilidade pr‡tica aos seus ouvintes.

            Refor�a essa ideia de conselho na forma proverbial o significado da express‹o ÒO fruto da inveja Ž o mal de est™magoÓ em l’ngua portuguesa ou Òfiglio de laÕmidia � lÕantecoreÓ (BASILE, 2013, p. 416) em dialeto napolitano, pois, conforme a plataforma italiana Corpo di Napoli, que explica os provŽrbios napolitanos da obra de Basile, o mal-estar Òque prende o est™mago; tem o mesmo efeito da n‡usea, que permanece e nunca passa. ƒ a sensa�‹o de quem rumina inveja e de quem Ž pago assim com a mesma moedaÓ[70]. A partir de tal explica�‹o, podemos entender que fazer mal a alguŽm, por inveja, Ž prejudicar a si pr—prio. Esse significado Ž comprovado pelo desfecho do conto de Basile, no qual as irm‹s mais velhas e invejosas s‹o punidas. Diante disso, compreendemos que o provŽrbio napolitano, elemento frasal que nos sugere por meton’mia a voz do contador de hist—rias no conto ÒO cadeadoÓ, aconselha o ouvinte a n‹o se deixar ser conduzido pela inveja, sentimento que pode ser entendido como uma doen�a, porque s— provoca dor e sofrimento por quem o sente.

            AlŽm de remeter a uma forma de sabedoria popular e coletiva, dada a experi�ncia comunit‡ria em que estava inserido o contador de hist—rias tradicional, o elemento proverbial na obra napolitana pode ser associado a uma f—rmula de transmiss‹o oral, pois, segundo Cascudo (1984), uma marca da oralidade, comumente utilizada pelos folcloristas, Ž as repetidas formas de come�ar e terminar uma hist—ria, que podem ser semelhantes ou dessemelhantes em culturas diferentes. Quanto ˆs formulas finais, Cascudo (1984, p. 230) afirma: ÒPara findar as f—rmulas s‹o v‡rias e raro ser‡ o narrador que as esque�a. Pode aparecer mesmo um retoque pessoal sugestivo. ƒ o requinte da tŽcnica o saber Ôfechar bemÕ uma est—riaÓ. Fundamentando-nos no te—rico, compreendemos que Basile, ao utilizar o provŽrbio napolitano para Òfechar bemÓ seus cunti, quer explicitar tanto seu requinte como escritor e sua cultura de origem, a napolitana, quanto chamar a aten�‹o do seu ouvinte, no caso do leitor, aconselhando-o sobre sentimentos coletivos, o da inveja.

            De forma contr‡ria, o conto brasileiro ÒAngŽlica mais afortunadaÓ n‹o apresenta uma f—rmula final, como podemos notar pelo desfecho: ÒDessa forma, o encanto foi quebrado. Passados uns dias, o rei e a rainha foram ˆ casa da velha buscar o filho, a nora e o neto para viver com eles no casteloÓ (HAURƒLIO, 2011, p. 66). Nessa parte final do conto baiano, percebemos, assim como na vers‹o napolitana, portanto, uma converg�ncia, a restaura�‹o da situa�‹o de tranquilidade e a uni‹o dos amantes que foram antes separados pela a�‹o dos personagens, no caso, o pai de AngŽlica no conto baiano, e as irm‹s invejosas de Luciella no conto napolitano. No entanto, n‹o Ž porque a vers‹o baiana n‹o apresente uma f—rmula final que ela n‹o preserva tra�os da oralidade. Em vez disso, acreditamos que a aus�ncia da f—rmula final no conto baiano comprova justamente as andan�as desta narrativa pelo territ—rio do maravilhoso, pois ˆ medida que o conto maravilhoso napolitano foi emigrando no tempo e geograficamente, Ž poss’vel que ele tenha perdido algumas marcas da oralidade, como a f—rmula final proverbial, e incorporado outras locais, da cultura brasileira nordestina, como veremos mais adiante.

AlŽm do provŽrbio, outro elemento lingu’stico ligado ˆ transmiss‹o oral, que comprova a import‰ncia e a valoriza�‹o do material folcl—rico coligido por Basile no sŽculo XVII e por Marco HaurŽlio no sŽculo XXI, Ž a presen�a da cantiga cantada na voz do pr’ncipe encantado, na vers‹o napolitana, e na voz do Teiœ, na vers‹o baiana, cuja letra revela a maldi�‹o sob a qual os noivos estavam presos e impedidos de visitarem sua fam’lia, formada pelas protagonistas (AngŽlica e Luciella) e seus filhos recŽm-nascidos. Nesse sentido, a cantiga pode ser interpretada como um elemento que resgata a matŽria folcl—rica nos dois contos maravilhosos, pois, para C‰mara Cascudo citado por ClŽria Botelho da Costa, esse material constitui, assim como o provŽrbio, o imagin‡rio popular de uma sociedade. Por sua natureza folcl—rica, esse material n‹o traz explicitamente nem a marca do tempo nem o espa�o onde foi criada. Trata-se de uma produ�‹o an™nima, que n‹o permite a identifica�‹o do autor (COSTA, 2013).

            Ainda que n‹o seja poss’vel a identifica�‹o de seu criador, colocamos a seguir as cantigas nas vers›es do conto napolitano, ˆ esquerda, e baiano, ˆ direita, para efeito de cotejo entre suas adapta�›es socioculturais:

ÒO cadeadoÓ

 

ÒOh, belo filho meu,

se minha m‹e soubesse,

em bacia de ouro o lavaria,

com faixas de ouro enfaixaria,

e se o galo nunca cantasse,

nunca de voc�s me separariaÓ

(BASILE, 2018, p. 231, grifos nossos).

ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó

 

Ò- Meu filho, se papai e mam‹e soubera filho de quem tu era, te lavava em bacia de prata e te enxugava em toalha com fios de ouro. Se o galo n‹o cantasse, jegue n‹o urrasse, o sino n‹o tocava, contigo eu amanhecera o diaÓ (HAURƒLIO, 2011, p. 65, grifos nossos)

 

            Como podemos notar pelas palavras em destaque, h‡ sutis diferen�as entre as cantigas napolitana, de Basile, e baiana, de HaurŽlio. Mas antes de nos atermos a essas minœcias, Ž evidente que elas denunciam o mesmo conteœdo na fala dos noivos de Luciella e AngŽlica: a maldi�‹o que os impedia de se aproximarem de seus filhos recŽm-nascidos, vinculada ao amanhecer do dia, representado em ambas as cantigas pelo canto do galo. Trata-se de uma converg�ncia menos evidente estabelecida com o pr—prio mito, ao qual se associam ambas as narrativas maravilhosas, pois, assim que o dia amanhecia, Cupido desaparecia do leito de Psiqu�, retornando, somente, no ambiente noturno, assim como os noivos de Luciella e AngŽlica, tanto que Bettelheim (2002) fala em vidas diurna e noturna de Psiqu�, ao se referir ao mito: a diurna tediosa, por ficar sozinha, e a noturna prazerosa, por estar com Cupido.

            O canto do galo, presente nas duas cantigas, alŽm de pass’vel de ser lido como uma alus‹o ao mito de Cupido e Psiqu�, pode ser interpretado como uma supersti�‹o popular, pois, segundo Braga (1986), o canto do galo Ž uma cren�a cujo poder Ž afastar os dem™nios e fazer sugir a aurora. Por essa raz‹o, o canto Ž celebrado nos hinos e ora�›es da Igreja, sobretudo na tradi�‹o do povo portugu�s. Essa supersti�‹o popular do canto do galo est‡ presente nos contos napolitano e baiano, porque neles a manifesta�‹o dos dem™nios ocorre no per’odo noturno por meio da maldi�‹o, elemento m‡gico que auxilia os pr’ncipes encantados a visitarem suas fam’lias durante ˆ noite, tanto que, assim que o galo canta ou o dia amanhece, os pr’ncipes encantados s‹o afastados do seio familiar. Justamente por promover o afastamento das figuras paternas, acreditamos que o canto do galo, em ambas as cantigas, sofreu uma invers‹o de sentido: a noite, por aux’lio da maldi�‹o, tem uma acep�‹o positiva, por aproximar os pr’ncipes de sua fam’lia, e o dia, anunciado pelo canto do galo, tem uma acep�‹o negativa, por afastar os pr’ncipes de seus entes. Trata-se de um efeito paradoxal atribu’do ao canto do galo, pois nos contos de fadas a maldi�‹o Ž comumente associada a algo que pode trazer malef’cios para suas v’timas. Essa acep�‹o negativa para o canto do galo nos dois contos Ž reverberada pelo tom de lamenta�‹o das cantigas, que constituem as falas dos pr’ncipes.

            V‡rios elementos que encontramos em ambas as cantigas, como a visita noturna, a m‹e e filho recŽm-nascido e o canto do galo, est‹o presentes tambŽm no epis—dio do nascimento de Jesus e da visita dos tr�s reis magos. Este epis—dio Ž cantado pela can�‹o de Reis[71], intitulada ÒSauda�‹o da LapinhaÓ, pelos seguintes versos:

8. E os reis, mas quando eram santo, No caminho se encaminharam. Viagem de fazer um ano, Em onze dias chegaram/. 9. Na chegada l‡ da lapinha, Todo mundo j‡ dormia. Nossa Senhora com seu manto, A Jesus ela cobria/10. Na chegada l‡ da lapinha, O porteiro recebeu-se. Bateu asa e canta o galo, Menino Jesus nasceu[72].

            A partir desses versos, podemos aproximar as cantigas de ambos os contos e can�‹o da Lapinha pela seguinte disposi�‹o: o pr’ncipes encantados nas cantigas est‹o para os reis magos na can�‹o de Reis, j‡ que eles fazem a visita noturna; Luciella e seu filho recŽm-nascido est‹o para Nossa senhora e o menino Jesus; as faixas de ouro/toalhas de ouro est‹o pelo manto, e canto do galo Ž a intersec�‹o maior que une as cantigas e can�‹o, representando o nascimento do dia e o fim da maldi�‹o na cantiga e o nascimento do dia e do menino Jesus na can�‹o de Reis, da’ o canto do galo ser celebrado nos hinos e ora�›es da Igreja cat—lica. Diante de tal leitura, pela simples proximidade entre esses elementos, tanto das cantigas quanto da can�‹o de Reis, j‡ seria suficiente para falar da incorpora�‹o do conto popular n‹o s— por elementos locais, j‡ que a tradi�‹o da Folia de Reis Ž muito celebrada no interior de v‡rias regi›es brasileiras, mas principalmente por elementos que aludem a outras mitologias, no caso, ˆ mitologia crist‹, da qual faz parte a narrativa do nascimento de Jesus, ainda que os contos napolitano e baiano tenham sido origin‡rios do mito greco-romano de Eros/Cupido e Psiqu�.

Explicada as converg�ncias entre os contos napolitano e baiano e os contos e os mitos greco-romano e crist‹o respectivamente, passamos a examinar as minœcias que evidenciam os distanciamentos: nos versos da cantiga napolitana, percebemos elementos mais nobres nos objetos Òbacia de ouroÓ e Òfaixas de ouroÓ, enquanto na cantiga baiana, os mesmos elementos foram trocados por Òbacia de prata e Òtoalhas com fios de ouroÓ. Em raz‹o da prata ser um elemento menos nobre que o ouro e provavelmente a tolha ser um tecido de qualidade inferior ao da faixa, uma poss’vel motiva�‹o para essa desqualifica�‹o dos materiais elencados seja o fato de o pal‡cio do rei, pai do pr’ncipe Teiœ, ser menos nobre na vers‹o baiana, dada a diferen�a de sŽculos entre os contos. Tais diverg�ncias, embora relevantes, s‹o sutis entre as cantigas, pois a que mais salta aos nossos olhos Ž a men�‹o ao jegue e ao sino na vers‹o baiana, este œltimo pode estar associado ao canto do galo, dada a supersti�‹o desse canto celebrado na tradi�‹o crist‹.

Ao nosso olhar comparativo, a men�‹o ao jegue na vers‹o baiana Ž uma refer�ncia relevante para o contexto sociocultural do conto baiano, pois o jegue Ž um animal muito recorrente na representa�‹o da paisagem e da vida cultural nordestina, tanto que existe, na Bahia, mais precisamente na cidade de Uau‡ do estado, uma tradi�‹o chamada ÒjecanaÓ, como evidencia Albuquerque (2014, p. 175): ÒNo dia do vaqueiro tambŽm ocorre a ÔJecanaÕ que Ž o desfile de homens, mulheres, adultos e crian�as, montadas em jegues, e esta j‡ est‡ em sua 11» edi�‹o com o objetivo de destacar a import‰ncia do animal, t‹o comum no Nordeste do BrasilÓ. Ainda que o conto baiano aqui cotejado tenha sido recolhido na cidade de Igapor‹, tambŽm do estado da Bahia, aproveitamos a refer�ncia cultural ˆ tradi�‹o da jecana na cidade de Uau‡, porque, segundo a pesquisadora, a cidade de Uau‡ Ž uma refer�ncia aos sert›es da Bahia, por ser um mun’cipio que ainda preserva as mais genu’nas express›es e manifesta�›es da cultura popular, constituindo, assim, o celeiro de cantadores, poetas populares, repentistas, sanfoneiros, aboiadores, zabumbeiros etc.

Apesar de o jegue no conto baiano ser uma refer�ncia que nos sugere a adapta�‹o da narrativa ˆ cor local, o sert‹o baiano do Nordeste, o elemento que revela maior expressividade da cultura nordestina no conto de Marco HaurŽlio j‡ est‡ contido no pr—prio t’tulo da narrativa: ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó, visto que o lagarto teiœ Ž um noivo-animal recorrente nas hist—rias populares brasileiras que originaram do mito Cupido e Psiqu�, conforme Doralice Fernandes Xavier Alcoforado: ÒNas vers›es brasileiras, o noivo metamorfoseado pode vir na apar�ncia de fera, lagart‹o, teiœ, veado, porco, le‹o, drag‹o, sapo, boi, camale‹o, burro, urubu, cobra, lagartixa, papagaio, pombo, peixe ou mesmo beija-florÓ (ALCOFORADO, 2000, p. 42).

O argumento para a substitui�‹o do pr’ncipe encantado da narrativa napolitana, descrito como monstro pelas irm‹s de Luciella, disso ele ser considerado tambŽm Ònoivo-animalÓ, pelo pr’ncipe Teiœ da narrativa baiana, pode ser tirado com base em Alcoforado (2007) que afirma ter encontrado, em sua pesquisa de campo, recolhendo hist—rias populares do mito de Apuleio no estado da Bahia, tr�s contos com elementos tem‡tico-estruturais que os integram ao tipo 2: ÒO Peixe DouradoÓ (v. 1), ÒA Hist—ria do TeiœÓ (v. 2) e ÒO P‡ssaro AssuÓ (v. 3). O tipo 2 apresenta contos que se articulam a partir de uma car�ncia de pesca ou de ca�a que afeta a vida do chefe de fam’lia, porque ca�ar ou pescar Ž a sua profiss‹o. Essa car�ncia, entretanto, pode ser superada caso o chefe aceite a oferta de abund‰ncia de alimentos proposta por um ser encantado, em troca da primeira coisa a ser vista no retorno ˆ casa. No costume de ver sempre a cachorrinha, o progenitor aceita a proposta. Contudo, ao chegar em casa, Ž a pr—pria filha ou o filho que o ser encantado avista. O pretendente n‹o Ž propriamente um monstro, na acep�‹o que Ž dada ao termo, porŽm animal mais ou menos familiar, um peixe ou um teiœ, que deseja casar-se com a mo�a, ou a M‹e dÕçgua que deseja casar o rapaz com a sua filha (ALCOFORADO, 2007).

Assim como nos tr�s contos coletados por Alcoforado[73] (2007), no conto baiano, recolhido por HaurŽlio (2011), o pai de AngŽlica, chefe da fam’lia, tambŽm desempenhava o papel de ca�ador, que, ali‡s, n‹o lhe rendia alimento:

Houve, h‡ muito tempo, um ca�ador muito pobre que era viœvo e morava com suas tr�s filhas numa casinha da mata. Um dia, ele n‹o estava tendo sorte na ca�ada. J‡ era tarde e o homem n‹o tinha conseguido nada para a ceia. Muito triste, sentou-se numa pedra e come�ou a maldizer sua sorte. Nisso chega um teiœ e pergunta para o velho [...] (HAURƒLIO, 2011, p. 64).

            A partir deste trecho, analisamos que a escolha pelo teiœ como noivo-animal no conto baiano justifica-se n‹o somente por ser um animal associado ˆ pesca e, portanto, um alimento que pode compensar a situa�‹o de car�ncia do chefe da fam’lia, que exerce a fun�‹o social de ca�ador, mas tambŽm por demonstrar a capacidade do conto de se adaptar ao universo cultural do contador, no caso do sert‹o baiano da regi‹o nordeste, o que explicita, sobretudo, o car‡ter etnogr‡fico do texto oral que percorre pelo territ—rio do maravilhoso, acomodando-se ˆs mais diversas localidades geogr‡ficas.

 

Considera�›es finais

Ao recolher o conto maravilhoso baiano da tradi�‹o oral, ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó, que evidencia uma rela�‹o intertextual com o conto napolitano ÒO cadeadoÓ, recriado por Giambattista Basile com base no mito de Cupido e Psiqu� ou talvez recolhido j‡ na forma de conto maravilhoso no sŽculo XVII pelo escritor napolitano em sua obra-prima Lo cunto de li cunti (O conto dos contos), o poeta, escritor e folclorista baiano Marco HaurŽlio dialoga com a tradi�‹o na qual se insere o escritor Basile. A tradi�‹o oral se manifesta, na obra de ambos os escritores compiladores, por elementos comuns, como a contadora de hist—ria, a cantiga e a supersti�‹o popular do canto do galo, e distintos, presen�a e aus�ncia de f—rmulas finais, mas ambos recursos evidenciam o contexto sociocultural de produ�‹o de suas respectivas obras, haja vista a refer�ncia tanto ao jegue quanto ao lagarto Teiœ no conto baiano coletado por HaurŽlio (2011) na cidade de Igapor‹, e a cultura napolitana e as deforma�›es f’sicas pr—prias do Barroco no conto napolitano recriado ou possivelmente recolhido por Basile.

AlŽm da voz do escritor napolitano na colet‰nea Conto e f‡bulas do Brasil, ecoam outras vozes da tradi�‹o, porŽm de folcloristas brasileiros: Br‡ulio do Nascimento, para quem HaurŽlio (2011) dedica sua colet‰nea Contos e f‡bulas do Brasil, e com quem compartilha o uso do ’ndice internacional ATU de classifica�‹o dos contos, j‡ adotado por Br‡ulio do Nascimento em seu Cat‡logo do conto popular brasileiro, de 2005; e Doralice Alcoforado, cujos trabalhos pioneiros no Brasil desde a dŽcada de 90 revelam a presen�a do mito de Cupido e Pisqu� no imagin‡rio baiano, dado o t’tulo de sua antologia Belas e Feras baianas: um estudo do conto popular e as reflex›es te—rico-cr’ticas da pesquisadora que mostram o teiœ como o noivo-animal recorrente no contexto cultural do sert‹o do Nordeste brasileiro.

No movimento anal’tico, embora tenhamos identificado resson‰ncia dessas vozes da tradi�‹o no conto baiano e na obra de que faz parte, n‹o podemos deixar de mencionar a importante reflex‹o que HaurŽlio (2011) faz no pref‡cio de seu livro: o car‡ter coletivo de qualquer colet‰nea de contos tradicionais em qualquer Žpoca, pois, sempre que uma antologia de contos tradicionais Ž publicada na aurora dos tempos, ela resgata consigo, por um lado, autores an™nimos que elaboram e reelaboraram tais hist—rias e, por outro, contadores de hist—rias, que desempenham o papel de retransmissores atuais, como as contadoras, de quem HaurŽlio ouviu e recolheu o conto baiano e por meio de quem Basile ouviu e narrou o conto napolitano selecionados para este artigo.

 

Refer�ncias

 

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[Recebido: 08 ago 2020  –  Aceito: 24 jan 2021]

 



[63] Graduou-se em Licenciatura em Letras com habilita�‹o em portugu�s/italiano pela Universidade Estadual Paulista Jœlio de Mesquita Filho – UNESP/IBILCE, Campus de S‹o JosŽ do Rio Preto-SP. Desenvolve pesquisa de Mestrado com fomento CAPES junto ao Programa de P—s-gradua�‹o em Letras, pela Unesp/S‹o JosŽ do Rio Preto-SP. ƒ membro do grupo de pesquisa ÒNarrativas maravilhosas, m’ticas ou populares: da oralidade ˆ literaturaÓ (CNPQ), liderado pela Prof.» Dr.» Maria Celeste Tommasello Ramos.

[64] Assim como o italiano Gian Francesco Straparola no sŽculo XVI, o italiano Giambattista Basile tambŽm recolheu uma vers‹o de ÒO gato de BotasÓ no sŽculo XVII, com o t’tulo de ÒCagliusoÓ, quarto entretenimento narrado na segunda jornada (fiaba IV, giornata II) de Lo cunti de li cunti.

[65] Do original: LÕopera � costruita in questo modo: � un racconto (il 50¼ composto da: appertura/ponti narrativi/chiusura) allÕinterno del quale vengono raccontati altri 49 racconti. Per questo lÕopera � stata intitolata racconto dei racconti. Si parla di gioco dei giochi nello stesso senso [...]. Il 50¼ racconto � la storia di Zoza che apre e chiude lÕopera ed ha la stessa struttura dellÕultimo racconto (I tre cedri, il 49 ¼: v. 9).

[66] Do original: E noi troveremo, anzitutto, che varii trattenemienti appartengono al grupo di quella, chÕ� la fiaba pi� famosa e pi� ricca di storia, la fiaba di Psiche – Cos“ il nono della G.II, nella quale se racconta di Lucciella.

[67] O poeta, folclorista e escritor brasileiro Marco HaurŽlio publica, alŽm das colet‰neas de contos populares, como Contos folcl—ricos brasileiros e Contos e f‡bulas do Brasil, v‡rios t’tulos do acervo da literatura oral brasileira, dentre eles assuntos de cordel. Suas publica�›es podem ser encontradas em: https://marcohaurelio.blogspot.com/p/bibliografia.html.

[68] Nesta se�‹o, feita por Paulo Correia em julho de 2007, ele escreve: ÒTodos os contos desta colet‰nea foram classificados de acordo com o cat‡logo ATU, com exce�‹o dos que nele n‹o figuram, classificados com a ajuda de cat‡logos regionaisÓ (HAURƒLIO, 2011, p. 198).

[69] Do original: Sarˆ proprio Ciommetella con il suo ultimo racconto, che � anche il racconto conclusivo della raccolta (se si esclude quello principale di Zoza), a smascherare lÕingano della schiava.

[70] Do original: che prende lo stomaco; quel senso di nausea che rimane e non se ne va mai. E' la sensazione di chi rumina invidia e che viene ripagato cos“ dalla sua stessa natura.

[71] ÒO nome ÔFolia de ReisÕ designa grupos cat—licos populares, que se reœnem no per’odo de 24 de dezembro, ˆ noite, atŽ o dia 6 de janeiro, para oferecer seu voto de devo�‹o ao Santos Reis, em comemora�‹o ao nascimento do menino JesusÓ (KIMO, 2006, p. 1).

[72] A letra da can�‹o ÒSauda�‹o da LapinhaÓ est‡ integralmente transcrita na disserta�‹o de mestrado Mœsica, ritual e devo�‹o no terno de folia de Reis do Mestre Joaquim Pol—, defendida por Igor Jorge Kimo, da qual retiramos os versos citados.

[73] Resultado da pesquisa de campo do conto m’tico de Apuleio no imagin‡rio baiano, empreendida na dŽcada de 90, Ž o livro Belas e feras baianas: um estudo do conto popular (2008), publicado pela pesquisadora e folclorista brasileira Doralice Xavier Fernandes Alcoforado que atuou como professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA).