Midiartivismo em Tempos de pipa: mœsica, poesia e arte a
favor do ativismos social
Mediartivism in Tempo
de pipa: music, poetry and art as social activism
Ricardo Oliveira de Freitas[57]
Resumo: O texto apresenta discuss‹o te—rica e conceitual acerca do fen™meno do midiartivismo, um neologismo formado pelas palavras m’dia, arte e ativismo, que pode ser traduzido como qualquer a�‹o ou iniciativa que faz uso de express›es em arte e recursos de m’dia a favor de uma causa, sempre social e pol’tica, quando exp›e problemas e prioridades de determinado grupo ou comunidade. Para tanto, realiza uma leitura cr’tica da narrativa audiovisual e poŽtica, Tempo de Pipa, de Breno Silva, integrante de coletivos de arte e m’dia atuantes na periferia de Salvador, Bahia. O videoclipe Ž ilustrativo das a�›es midiartivistas e insurgentes que eclodem nas muitas periferias pelo Brasil afora, resultantes da participa�‹o de diversos artistas intimamente ligados a coletivos art’sticos criados nos œltimos anos, alŽm de ser fruto do trabalho colaborativo e do associativismo que integra artistas, eles pr—prios, marcados por tra�os e recortes de minoridade e pelo comprometimento com produ�›es contra-hegem™nicas que inspiram resist�ncia, dissid�ncia e transforma�‹o.
Palavras-chave: Midiartivismo; Coletivos; Tempo de Pipa.
Abstract: This paper aims to present a theoretical and
conceptual discussion about the phenomenon of
midiartivism, a neologism formed by the words media, art and activism, which
can be translated as any action or initiative that uses expressions in art and
media resources in favor of a cause, always social and political, when it
exposes problems and priorities of a certain group or community. For this
reason, the paper performs a critical reading of the audiovisual and poetic
narrative, Tempo de Pipa, by Breno Silva, a member of art and media
collectives working on the outskirts of Salvador, Bahia. The video is
illustrative of a midiartivist action, since it is a product resulting from the
participation of several artists closely linked to artistic collectives created
in recent years in the most diverse peripheries throughout Brazil, in addition
to being the result of the collaborative work and the associativism that
integrates artists, themselves, marked by minority traces and by their
commitment to against hegemonic productions that inspire resistance, insurgence,
dissent and transformation.
Keywords: Midiartivism; Collectivs; Tempo de Pipa.
Introdu�‹o
da boca pra fora reproduzo minha vis‹o
de fora pra dentro nem sempre quem bate esquece
a morte aqui Ž viva
e o otimismo Ž a œltima coisa que aparece[58]
(SILVA, 2020).
Em julho de 2020, foi lan�ado o videoclipe do rap mœsica-poesia Tempo de Pipa, de Breno Silva[59]. Seria mais uma das muitas novas produ�›es que alimentam o panorama musical baiano, n‹o fosse o fato de tanto a mœsica como o videoclipe terem sido produzidos atravŽs daquilo que tem tomado corpo entre integrantes de grupos e comunidades desprivilegiadas no Brasil nos œltimos anos: o trabalho colaborativo, o associativismo, a arte e a m’dia a favor da causa social e pol’tica feitas pelas m‹os de muitos sujeitos.
Tempo de Pipa Ž resultado da participa�‹o de diversos artistas intimamente ligados a coletivos art’sticos, tais como o selo BalanÕagulha, o Coletivo PŽ Descal�o e o Corvo Vermelho Produ�›es, que fazem a produ�‹o executiva e a distribui�‹o do trabalho. A pr—pria constitui�‹o do produto Ž caracter’stica da a�‹o de coletivos. Tempo de Pipa Ž composto pelas vozes de Breno Silva e Sued Nunes; pela poesia de Breno Silva; pela fotografia de Gabriel Moreno, Jomar Fonseca e Thiancle Carvalho; pela montagem de Thiancle Carvalho e pela produ�‹o do mesmo Breno Silva e Marvin Pereira.
Meu interesse pelo videoclipe deve-se ao fato de ser produto resultante do trabalho coletivo, isto Ž, ser fruto do fen™meno de prolifera�‹o de coletivos, de grupos de artistas ou de artistas individuais que utilizam recursos de m’dia e express›es em arte para exporem suas causas, tornando pœblicas suas demandas, seus problemas e suas prioridades, quando constroem narrativas contra-hegem™nicas sobre si.
Tempo de Pipa tambŽm Ž ilustrativo da import‰ncia dos coletivos, do trabalho colaborativo, dentro de um projeto de produzir midiartivismo, que vem criando frutos a partir de 2010, em Sussuarana, bairro da periferia de Salvador; num primeiro momento, com a cria�‹o do coletivo M’dia ƒtnica, e, logo depois, com o surgimento do coletivo Sarau da On�a, desfocando a aten�‹o sobre o l—cus tradicional de produ�‹o de cultura e arte na cidade (Orla e Centro) para a regi‹o da Pen’nsula, periferia de Salvador.
O texto ora apresentado, fruto da pesquisa que venho desenvolvendo desde 2017 sobre midiartivismo, presta-se a contribuir para uma discuss‹o te—rica e conceitual acerca do fen™meno, a partir da leitura cr’tica da narrativa audiovisual e poŽtica de Tempo de Pipa. Para tanto, sigo o que foi estabelecido por Penafria (2009), ao assumir que, aqui, n‹o fa�o uma an‡lise audiovisual, mesmo que esse tipo de metodologia apare�a como elemento de apoio ˆ leitura cr’tica e ˆ discuss‹o te—rica e conceitual, que Ž o que realmente veremos.
Midiartivismo: arte e a m’dia a
favor do ativismo social
Midiartivismo Ž qualquer a�‹o ou iniciativa que faz uso de express›es em arte e recursos de m’dia a favor de uma causa. O termo Ž um neologismo formado pelas palavras m’dia, arte e ativismo, que, de modo geral, traduz toda produ�‹o em arte que utiliza recursos de m’dia, a fim de tornar pœblica uma ou muitas quest›es de interesse de determinado grupo ou comunidade – quando fala ˆ sociedade e aos seus dirigentes. Por isso, o midiartivismo tambŽm pode ser entendido como uma express‹o pol’tica que toma formas art’sticas e midi‡ticas; ou, ainda, uma express‹o art’stica e midi‡tica que toma forma como a�‹o pol’tica.
Para Rui Mour‹o, arte e o ativismo possuem caracter’sticas distintas. Ao passo que arte Ž da ordem do simb—lico, o ativismo Ž da ordem da realidade – j‡ que intervŽm, mesmo que atravŽs de a�›es simb—licas, diretamente, na vida, na exist�ncia. Ao passo que a arte se constr—i atravŽs de a�›es individuais, devido ˆ preocupa�‹o com as quest›es relativas aos aspectos da autoria, o ativismo Ž sempre uma a�‹o coletiva, feita por muitas m‹os, mentes, corpos e vozes – pois, se a arte reinterpreta o mundo, o ativismo existe para transform‡-lo. Entretanto, como lembra o autor, h‡ muitas zonas de converg�ncia, elos e tra�os de comunh‹o entre uma e outra esfera, como quando tanto a arte como o ativismo Òse posicionam no mundo sonhando com outros mundosÓ (MOURÌO, 2015, p. 54).
Isto Ž, ambos se afirmam segundo uma pr‡xis t‹o
idealista quanto idealizada, criando representa�›es que na sua exposi�‹o
pœblica pretendem reverbera�›es exteriores ao que efetivamente criam. Algumas
dessas reverbera�›es, pela assumida interse�‹o art’stica/ativista, s‹o j‡
chamadas de ÒartivistasÓ (MOURÌO, 2005, p. 54).
A m’dia, o terceiro elemento no tripŽ do midiartivismo, participa, nesse jogo comparativo e dicot™mico, como o elemento aglutinador das disparidades, ao romper e subverter com os limites entre um dom’nio e outro. Afinal, como lembra o mesmo Mour‹o (2015, p. 54):
Come�ando por uma perspectiva alargada, do tipo
hol’stico, que entre inclusive em aspetos semiol—gicos, podemos desde logo
desestruturar os argumentos categ—ricos que separam as ‡guas entre o dom’nio da
arte e o dom’nio do ativismo, colocando quest›es como: Operando arte e ativismo
com simbolismos, que fronteira separa o simb—lico que permanece apenas no
simb—lico – se tal Ž poss’vel – do simb—lico que intervŽm no real?
N‹o ser‡ sempre a partir de intersubjetividades simb—licas – via
conceitos, imagens, palavras, objetos ou atos – que tanto procedemos ˆ
compreens‹o e representa�‹o (incluindo art’stica), como atuamos no real
(incluindo o ativismo)? AtŽ que ponto as diferen�as ao n’vel das categoriza�›es
culturais do simb—lico n‹o derivam de meras conven�›es de posicionamento
assumido e permitido em cada enquadramento definido num determinado momento e
contexto? Enquadramento que sendo definido simultaneamente ao n’vel individual
e coletivo – categorias psicoculturais parte e resultado uma da outra
–, consequentemente problematiza o que na cria�‹o art’stica Ž produ�‹o
individual ou no ativismo se faz apenas pelo coletivo.
O artivismo tem sido, corriqueiramente, traduzido como as express›es que fazem uso do corpo como suporte para expressar ou comunicar, a depender da interpreta�‹o que se faz de determinada a�‹o ativista. Como se concretiza atravŽs de performances, quase sempre ef�meras e moment‰neas, o uso de recursos de m’dia tem sido recorrente. Essas tecnologias (de informa�‹o e comunica�‹o) servem tanto ao registro da iniciativa, ao manterem a imortalidade da a�‹o e performance, como se prestam a elemento da obra em seus termos tŽcnicos, propriamente.
Apesar de tomar como objeto uma obra videogr‡fica, produzida a partir de uma poesia cantada, musicada e interpretada, considero que, Tempo de Pipa n‹o Ž menos uma ode ao corpo e ˆ performance; sendo, ele pr—prio, o v’deo, o corpo que performa e, por isso, m’dia e multiarte.
Ž
que n—s t‡ sem sorte desde quando inventaram o termo,
n—s
inventa arte enquanto vive pra suportar o medo
que
minha escrita desabafa, eu n‹o minto
mas
n‹o diz tudo que penso, Ž meu —dio resumido
(SILVA,
2020).
O midiartivismo pode ser entendido como um conjunto de pr‡ticas que se afastam de modos cl‡ssicos do fazer pol’tico institucionalizado. N‹o s‹o coletivos formados a partir da comunh‹o de ideologias, mas, t‹o somente, das articula�›es, negocia�›es, compartilhamentos, afinidades, do amor pela arte e por determinada causa. Ao produzirem arte cr’tica ˆs cl‡ssicas representa�›es divulgadas pela pol’tica institucional, os coletivos e artistas midiartivistas redesenham as no�›es de pol’tica e de mercado.
ƒ um novo mercado que surge no bojo da ascens‹o dos grupos e comunidades subalternizadas e do fortalecimento dos nov’ssimos movimentos sociais, express‹o que tem sido utilizado para nomear recentes mobiliza�›es sociais e pol’ticas com forte repercuss‹o na m’dia[60].
Tanto como os coletivos de arte, os nov’ssimos movimentos sociais caracterizam-se pelas manifesta�›es aut™nomas e apartid‡rias e, por isso, assemelham-se ˆ experi�ncia dos coletivos, no que confere autonomia a seus militantes (PEREZ; SOUZA, 2017).
Esse novo mercado tambŽm considera a efemeridade da obra e sua perpetua�‹o atravŽs de uma obra de Òsegunda m‹oÓ, no mais das vezes, atravŽs do registro da a�‹o ou performance.
No caso de Tempo de Pipa, como ocorre com a poesia e com a mœsica, de modo geral, a obra se perpetua atravŽs do videoclipe que comp›e uma outra obra – agora, acrescida de elementos visuais que participam do conjunto estŽtico e semi—tico constituintes da pauta tema central da obra basilar.
No caso espec’fico da a�‹o pol’tica, o midiartivismo se afasta das formas institucionalizadas do fazer pol’tico ao promover encontros regidos menos por raz›es ideol—gicas e mais pelo compartilhamento de emo�›es, sentimentos e prazeres estŽticos. A no�‹o de nova forma de se fazer pol’tica, novos usos de novas e velhas m’dias, novas express›es em arte e um novo mercado art’stico e midi‡tico aponta para a import‰ncia do midiartivismo ao construir novos rumos para as experi�ncias do sens’vel.
Como arte interessada, o midiartivismo produz t‡ticas conceituais, simb—licas e estŽticas, numa perfeita combina�‹o entre arte e pensamento[61]. AlŽm disso, o midiartivismo tem como qualidade o fato de agir no ‰mbito da cultura. Por isso, Ž correto afirmar que as pr‡ticas midiartivistas s‹o sempre interven�›es culturais, assim como pr‡ticas sociais comunicativas, elaboradas por artistas-ativistas[62].
Coletivos: o associativismo no
uso das m’dias radicais alternativas
Coletivos s‹o grupos de pessoas que se reœnem, produzem e elaboram a�›es e pensamento em torno de um tema, criando um tipo de associativismo. O termo Ž sempre autodesignativo e se caracteriza pelo fato de traduzir as Ònovas formas de mobiliza�‹o, distantes das organiza�›es burocr‡ticas e hier‡rquicasÓ (PEREZ; SOUZA, 2017, p. 3). Essas mobiliza�›es s‹o tanto sociais como culturais e art’sticas e prezam pela multiplicidade de pautas, pela horizontalidade e pela participa�‹o antiautorit‡ria, liberal, igualit‡ria e progressista.
A presen�a em m’dia Ž outra caracter’stica importante nas a�›es organizadas pelos coletivos. Como precisam expor suas causas junto ˆ esfera pœblica pol’tica, a esfera de visibilidade midi‡tica surge como importante, sen‹o a principal, aliada.
Por isso, Ž correto afirmar que o uso e abuso dos recursos de m’dia Ž uma a�‹o t‡tica para ocupa�‹o da esfera pœblica pol’tica a partir da participa�‹o em sua base ampliada, a m’dia.
A cria�‹o de coletivos n‹o Ž um fen™meno novo, como veremos adiante. Entretanto, a emerg�ncia desses grupos no atual cen‡rio brasileiro e, por que n‹o dizer, global, tem uma particularidade: ela surge no bojo do debate sobre as identidades dissidentes e minorit‡rias, trazido na esteira da alavancada dos estudos Žtnico-raciais, de g�nero, dos estudos da interseccionalidade como sistema de opress‹o, dos estudos queer, dos estudos culturais, dos estudos decoloniais, da amplia�‹o do acesso ˆs TICs (Tecnologias de Informa�‹o e Comunica�‹o), do uso e abuso das m’dias digitais, do expressivo mergulho das sociedades globais na rede mundial de computadores, do fortalecimento dos movimentos sociais, da amplia�‹o do debate LGBTQIA+ na m’dia, da ascens‹o das identidades n‹o bin‡rias, do combate ao racismo como condi�‹o elementar, da positiva�‹o dos guetos, das favelas, morros, corti�os e terreiros, da cria�‹o dos novos e nov’ssimos movimentos sociais. Como afirma Arturo Escobar (2005), esses estudos criam um espa�o enunciativo cujo ponto de coincid�ncia Ž a problematiza�‹o da colonialidade em suas diferentes formas.
John Downing, em entrevista a Patr’cia Cavalli, define m’dia radical alternativa como caracterizada por tipos de m’dias n‹o convencionais. O autor credita ˆs m’dias n‹o convencionais e alternativas o poder de transformar realidades pol’ticas, econ™micas e sociais. A m’dia radical, ainda segundo ele, Ž uma forma de democracia, j‡ que a dignidade do cidad‹o n‹o Ž s— ter direito ˆ educa�‹o e saœde, mas, tambŽm, ˆ arte e ˆ comunica�‹o ou, ainda, ˆ m’dia (CAVALLI, 2009). Nesses termos, Downing apresenta uma defini�‹o muito valiosa do que poder ser considerado uma m’dia – defini�‹o essa que perpassa uma amplitude de suportes, ve’culos, express›es, sensibilidades e experi�ncias estŽticas.
M’dia Ž, entretanto, um conceito bastante amplo para
Downing. N‹o apenas o r‡dio, a televis‹o, o jornal e o cinema constituem o
universo das m’dias, mas tambŽm as can�›es populares, incluindo a’ a vitalidade
da mœsica negra de v‡rios pa’ses; a dan�a afro-americana; o grafite praticado
pelas gangues de jovens, principalmente na cultura hip-hop norte-americana,
na antiga Uni‹o SoviŽtica e na NigŽria; o vestu‡rio (que ele chama de m’dias
t�xteis), sobretudo os trajes mais na Guatemala durante a ditadura militar,
as arpilleras das mulheres chilenas durante o regime militar, as colchas
sul-americanas usadas como comunica�‹o clandestina, os broches e buttons
de lapela; os adesivos de para-choques; o rock de garagem; o teatro
popular, incluindo o teatro de rua de nosso Augasto Boal; [...] os filmes e
v’deos populares e/ou pol’ticos, incluindo a experi�ncia da TV Maxabomba do Rio
de Janeiro; a Internet radical; a tev� comunit‡ria e de acesso pœblico; a culture-jamming
(utiliza�‹o desviante dos s’mbolos culturais oficiais como oposi�‹o ˆ
finalidade a que se destinam), etc. (MACHADO, 2002, p. 13).
Downing (2002) lembra que muitas m’dias s‹o alternativas. Sobretudo, no que n‹o s‹o controladas por blocos monol’ticos criados por grandes organiza�›es comprometidas com os interesses do capitalismo. Mas, para ser radical, Ž preciso que se manifeste contra as for�as de opress‹o, que permitam que seus usu‡rios possam vislumbrar a liberdade e expressar suas ideias. Ela deve ser, sobretudo, combativa, no que se op›e a um modelo hegem™nico de produ�‹o. Por isso, a m’dia radical alternativa sempre se diferir‡ da m’dia alternativa, pura e simplesmente, j‡ que Ž uma express‹o de subvers‹o, dissid�ncia, dissen�‹o, de questionamento e cr’tica ao status quo, ˆs press›es e constru�›es hegem™nicas. A m’dia radical Ž, pois, sempre contra-hegem™nica.
Por hegemonia, entendo o proposto por Antonio Gramsci, quando penso o midiartivismo como express‹o de arte e m’dia a favor de causas contra-hegem™nicas. Para Gramsci (2004), a hegemonia pode ser definida por um movimento pol’tico majorit‡rio, que preza pela manuten�‹o do sistema capitalista e que organiza a sociedade em torno do dom’nio cultural e da lideran�a mantida atravŽs de —rg‹os de informa�‹o e da cultura. A contra-hegemonia, por sua vez, seria a perspectiva oposta de futuro, que defende o engajamento das massas e a contesta�‹o pelas massas, ao invŽs da subordina�‹o pura e simplesmente.
Nesses termos, o midiartivismo seria um conjunto de a�›es e iniciativas a favor das causas dos grupos e das comunidades n‹o hegem™nicas, minorit‡rias, subalternizadas, desprestigiadas, desprivilegiadas, desfavorecidas – o que nos remete, mais uma vez, ˆ ideia da alternatividade como proposta por Downing (2002).
A ideia de tornar pœblicas causas, problemas e prioridades de determinado grupo ou comunidade coloca em cena a no�‹o de esfera pœblica pol’tica e de visibilidade midi‡tica. Esfera pœblica, como conceito proposto por Habermas (1984), Ž o espa�o social da representa�‹o (pœblica), que deve ser gerido pela argumenta�‹o, discurso, publicidade e privacidade e que funciona como mediador e lugar de conversa e influ�ncia entre o Estado e a esfera privada. A defini�‹o do conceito Ž ilustrativa da import‰ncia da ocupa�‹o dessa esfera, que Ž sempre pol’tica, j‡ que Ž lugar de visibilidade de demandas, da exposi�‹o de problemas e de prioridades. A esfera de visibilidade midi‡tica assume, assim, o importante papel de tornar acess’vel o debate pœblico, funcionando como uma ponte entre sociedade civil, sistema pol’tico, cultura e pol’tica (MAIA, 2002).
A arte engajada e arte
desinteressada
A participa�‹o de coletivos de arte e artistas na esfera pœblica e de visibilidade midi‡tica nos afasta da ideia da arte contemplativa, daquela arte que transmite emo�›es, mas que nada diz. TambŽm permite questionar se h‡, de fato, uma arte que nada diz, que Ž puramente contemplativa, mas, n‹o necessariamente comunicativa, interpretativa. Nesse sentido, pode-se afirmar que toda arte, no que fala para fora de quem a produz, do artista, do autor, Ž sempre marcada por tra�os de intencionalidade. Por isso, ouso mesmo dizer que todo fazer estŽtico, toda arte Ž, por excel�ncia, pol’tica, j‡ que est‡ em constante di‡logo com o mundo fora da obra. Por isso, Ž sempre uma arte atuante (MOURÌO, 2015).
Ent‹o
sigo no contra-ataque dividindo
com
quem soma
multiplicando
os versos sem subtrair o que amo
fa�o
jus aos que se foram e me inspiro em quem t‡ chegando
(SILVA,
2020).
Essas produ�›es n‹o s‹o inŽditas no cen‡rio brasileiro da arte e da m’dia. Artistas e grupos de artistas integrantes de grupos e comunidades subalternizadas falam das suas prioridades desde h‡ muito tempo, sem considerarmos a cultura popular como a cristaliza�‹o das manifesta�›es do povo sobre a totalidade das inst‰ncias que regem suas vidas. O samba, os grupos de escolas de samba, os nordestinos, o teatro popular etc. s‹o exemplos. Na dŽcada de 1970, express›es mais conceituais de arte, com experi�ncias mais incisivas de grupos de artistas produzindo artivismo com uso do corpo como suporte para a performance, v‹o dando forma ao que hoje reconhecemos como coletivos, ao ocuparem a cena midi‡tica, o mainstream do espet‡culo, o showbusiness, a indœstria cultural, mesmo quando eram alternativos, underground[63]. Mas, a peculiaridade dessas produ�›es e iniciativas Ž que elas ocorrem na esteira do fortalecimento dos movimentos sociais e identit‡rios e da paradoxal amea�a ˆs democracias com a ascens‹o do conservadorismo promovido pela extrema-direita. Por isso, aliadas ao uso de express›es art’sticas nas pr‡ticas pol’ticas contempor‰neas, essas express›es, a�›es, iniciativas revelam-se cr’ticas, questionadoras, expressivas, potentes, revoltosas e insurgentes.
Ao ser utilizada como recurso para promover o ativismo sempre social e, por isso, pol’tico, a arte alcan�a o patamar de arte interessada em oposi�‹o ˆ ideia de arte desinteressada, da arte que n‹o quer dizer nada, da arte que fala por si, da arte pela arte. Por isso, mais uma vez, se transforma em arte engajada, em arte a favor de uma causa, por isso, uma arte pol’tica.
Parte dessas causas n‹o diz respeito apenas ao que est‡ fora da obra, fora da arte. Muitas vezes, Ž a pr—pria express‹o ou linguagem art’stica a merecedora de reconhecimento. Afinal, muitas das express›es que emergem com os coletivos e artistas militantes s‹o express›es, atŽ ent‹o, invisibilizadas. S‹o artistas e coletivos que problematizam as pr—prias linguagens art’sticas, muitas vezes, tradicionais, assim como as normas sobre ser e estar no mundo.
A utiliza�‹o de inœmeras linguagens e plataformas para
explicitar, comentar e expressar vis›es do mundo e de produzir pensamento
cr’tico, multiplica o espectro do artivismo a partir do qual Ž poss’vel
intervir poŽtica e performativamente e construir espa�os de comunica�‹o e de
opini‹o no campo pol’tico – arte de rua, a�›es diretas, performances,
v’deo-art, r‡dio, culture jamming, hacktivism, subvertising,
arte urbana, manifestos e manifesta�›es ou desobedi�ncia civil, entre outras. [...]
Que conex›es se buscam entre poŽticas e performances no espa�o pœblico e no
ciberespa�o? E de que modo o artivismo encontra no mundo digital um territ—rio
amig‡vel para se tornar viral e simultaneamente para se construir como um
arquivo de documenta�‹o performativa pol’tica? (RAPOSO, 2015, p. 5).
S‹o express›es que falam das coisas das minorias, dos grupos e comunidades minorit‡rias, desprestigiados, desfavorecidas, desprivilegiadas, subalternizadas, que questionam as for�as hegem™nicas e tudo o que est‡ inclu’do dentro dessas for�as: binarismos, naturaliza�›es, normatiza�›es relativas ao g�nero, ˆs sexualidades, ˆ ra�a, ˆ classe, ˆs religiosidades, aos regionalismos. Por isso, Ž sempre um movimento dissidente, insurgente, j‡ que rompe, quebra com as normas, atŽ ent‹o, vigentes.
A
incerteza Ž a aliada mais sincera de quem luta pra viver do pr—prio sonho
O
bra�o armado do Estado corrompe
Eles
se alimentam do nosso sangue
(SILVA,
2020).
A arte e a m’dia que educam
A pr‡ticas de midiartivismo tambŽm est‹o a favor do ensino e da aprendizagem, da transforma�‹o pela educa�‹o, pela arte educadora. A exposi�‹o de uma causa tambŽm pode ser interpretada com uma aula, como um compartilhamento de informa�‹o, mas, sobretudo, como processo de aprendizagem no qual compet�ncias, habilidades, vis›es de mundo, comportamentos, cren�as, conhecimentos ou valores s‹o transmitidos. Por isso, o midiartivismo Ž sempre uma milit‰ncia formativa e pedag—gica, uma a�‹o e uma pr‡tica educativa.
O midiartivismo reorganiza as no�›es atŽ ent‹o concebidas de arte, das possibilidades de usos da m’dia e, sobretudo, de mercado e pol’tica.
O artivismo se transforma em midiartivismo quando a a�‹o e performance que, na maioria das vezes, somente existem enquanto est‹o sendo realizadas, passam a se materializar atravŽs do registro, quando passam a ser mediadas pelo uso de tecnologias de m’dia (v’deos, fotografias, textos, ‡udio). Nesse sentido, importante chamar a aten�‹o para a import‰ncia da legendagem das performances como orientadoras da frui�‹o, do sens’vel e da experi�ncia estŽtica, fen™meno muito parecido com o que foi pensado por Walter Benjamin (2018) em rela�‹o ˆ legenda das fotografias.
Em Tempo de Pipa, a transforma�‹o da poesia e da mœsica em videoclipe tambŽm chama a aten�‹o para o poder do v’deo de possibilitar a perenidade da obra e para as discuss›es em torno da tradu�‹o da obra como obra de segunda monta – momento em que o debate sobre o registro como elemento de interfer�ncia na obra vem ˆ tona, questionando o status do registro nas performances como recurso de uma metalinguagem ou de uma arte de segunda ordem.
Tempo de Pipa: poesia
musical videografada
No caso da mœsica, como em Tempo de Pipa, Ž a letra a norteadora semiol—gica do que se quer dizer, falar para o mundo. N‹o diferentemente de outras express›es, para o caso da mœsica, as imagens, est‡ticas ou em movimento, registros dos shows ou divulgadoras do trabalho, como no caso dos videoclipes e dos ‡lbuns visuais, servem como constru�‹o semi—tica do que se quer anunciar. A favela e sua juventude com tudo o que t�m de negativo e positivo: mazelas, tristezas, alegrias e criatividade.
H‡ uma linguagem Òfavel’sticaÓ em Tempo de Pipa que, de certo modo, une a favela daqui, da Bahia, com as favelas de l‡, do Brasil. Faz parecer que favela Ž uma coisa s—, seja no Rio de Janeiro, seja em S‹o Paulo, seja no Recife, seja em Salvador ou, ouso mesmo dizer, seja no mundo. Afinal, os mecanismos de exclus‹o reservados aos grupos e comunidades desfavorecidas, n‹o por caso, moradores de ‡reas empobrecidas, s‹o parte de um projeto pol’tico nacional, constru’do no seio da cultura fundante do processo civilizat—rio brasileiro. Mas, s— faz parecer, j‡ que, mesmo que haja uma comunh‹o em termos dos problemas e prioridades e, por extens‹o, das causas, h‡ especificidades m’nimas e particulares na favela daqui que s— dizem respeito ˆ favela daqui. Os tra�os de regionalismos tambŽm contribuem para dizer que essa favela que fala para o mundo Ž a favela de c‡, da Bahia. ÒBota ™taÓ, Òfaz mais falta do que babaÓ[64]. Mas, Ž na universalidade particular, traduzida pela escuta dos Racionais, e na recusa ˆ B’blia, tida como universalidade totalizadora, que o poeta diz ter entendido o que Ž divino e humanidade.
minha
quebrada foi batizada por nome de bicho
bicho
esse que n—s num v� desde o pr—prio batismo
sussuarana
Ž veloz por instinto
mas
os menino aprendeu a correr ouvindo zuada de tiro
ou
da m‹e que t‡ gritando preocupada com o filho
e
se cachorro latir de madrugada
tambŽm
Ž aviso
(SILVA,
2020).
Tempo de Pipa Ž rap, mœsica-poesia-v’deo para ser ouvido, lido e visto[65].
O v’deo tem in’cio com uma cena em que a pipa est‡ no ch‹o, ou melhor, na laje, no ch‹o da laje. Afinal, Òpra ser pipa, tem que subir na lajeÓ.
O v’deo tem quatro minutos e quarenta e oito segundos de dura�‹o.
A pipa costura o que est‡ sendo cantado, declamado, dito. Ela somente subir‡ no quarto e œltimo minuto do v’deo, quando fecha o videoclipe num enquadramento que toma o rolo de linha, a linha estendida pro cŽu e a pipa solta no ar no meio do casario de alvenaria sem reboco, com tijolos expostos e, ao longe, os conjuntos de apartamentos. A perman�ncia da pipa na laje Ž, assim, o fio condutor da poesia.
Enquanto Breno vai preparando a sua subida, ÒbotanuÓ a sua pipa no ar, o enredo vai se desenrolando. Ora na laje, ora nos becos, escadas e vielas.
O cen‡rio Ž sempre Sussuarana. Breno fala de dentro da comunidade, a partir da comunidade. Ao fundo, ora floresta (morada da on�a que deu nome ao bairro), ora casas de alvenaria, ora os conjuntos habitacionais, tipo os Òb� Žne ag‡Ó – BNH, as Òco‡biÓ – COHAB e os conjuntos habitacionais das caixas e previd�ncias dos sindicatos de trabalhadores, os famosos Òap�Ó – apartamentos, que se espalharam pelo Brasil nos anos de 1960 e 1970.
O cen‡rio do v’deo Ž cr’tica social que combina imagem e poesia. Ouso dizer que mesmo a mœsica d‡ um tom melanc—lico ˆs rimas, fazendo parte dessa combina�‹o. A pipa, nesse sentido, conduz a narrativa n‹o somente atravŽs da imagem, mas, tambŽm, atravŽs da palavra.
Nesse sentido, Tempo de Pipa Ž ilustrativo da iniciativa midiartivista, pois congrega as mais variadas formas e manifesta�›es e express›es art’sticas em articula�‹o com um produto audiovisual, portanto, midi‡tico, promovendo a�›es absolutamente distanciadas das formas institucionalizadas do fazer pol’tico.
ƒ m’dia e arte, midiarte, a favor das causas e das cr’ticas sociais. ƒ arte protesto, n‹o necessariamente panflet‡ria, j‡ que n‹o Ž instrumento de mera propaga�‹o de uma de uma ideologia, mas, sobretudo, manifesta�‹o.
A transforma�‹o da mœsica em videoclipe tambŽm chama a aten�‹o para o poder do v’deo de possibilitar a perenidade da obra e a tradu�‹o da obra como obra de segunda monta – momento em que as discuss›es sobre o registro como elemento de interfer�ncia na obra v�m ˆ tona, questionando o status do registro nas performances como recurso de uma metalinguagem ou de uma arte de segunda ordem.
A distopia retratada tanto na letra como na mœsica (atravŽs da batida e do andamento lentos) e no v’deo (na conjun�‹o entre cen‡rios, tomadas e planos) projeta um futuro descrente em —bvia refer�ncia ao afropessimismo como elemento conceitual marcador e interventor (SEXTON, 2016), recorr�ncia nos discursos sobre a condi�‹o de ser negro e negra no mundo. A rima em que Breno diz: Òbala perdida virou mais, mais que amigo, agora Ž quase, quase, um ente queridoÓ, Ž ilustrativa disso que parece apontar para a desesperan�a. Mas, a pipa que sobe no final do v’deo mostra outra atitude.
Sobre a pipa [...] quando a gente tem a pipa... tem
aquela coisa m’tica da inf‰ncia que Ž poder voar. A gente deposita na pipa o
que a gente n‹o pode. A pipa pode fazer uma coisa que.... isso d‡ uma ideia de
liberdade, nŽ? Poder subir e fazer o que a gente gosta, o que a gente deseja, o
que a gente quer, o que a gente merece, entende? Ent‹o, esse lance, nŽ, essa
coisa de subir Ž muito mais ligada a isso, entendeu? Por que eu falo: Ôe os
pivete sabe que pra ser pipa, tem que subir na laje, sem esfor�o n‹o tem dom,
tem que ter coragemÕ, entendeu? ent‹o, Ž nesse sentido, nŽ? Sem esfor�o n‹o te
dom, sem for�a de vontade, voc� n‹o vai pra lugar nenhum. ƒ a mesma coisa para
colocar uma pipa no ar. Se voc� n‹o fizer esfor�o dela subir, ent‹o... voc�
tambŽm n‹o consegue colocar ela no ar (SILVA, 2020)[66].
Tempo de Pipa, ao combinar cenas em preto e branco com cenas coloridas, d‡ o tom do discurso que marcar‡ produ�‹o audiovisual como oscilando entre a luta a favor da mudan�a e a constata�‹o de que nada mudar‡. Parece pessimista, mas, n‹o Ž. Exemplo disso Ž o fato de apresentar as lajes, os espa�os acima e sobre os telhados. A c‰mera quase nunca est‡ dentro de algum lugar. Seu lugar Ž o espa�o aberto, o ar livre. As lajes e os espa�os acima do telhado muito se assemelham ao des’gnio da pipa: subir. N‹o, necessariamente, para escapar do algo ou alguŽm. Mas, t‹o somente, para chegar ao alto, ao lugar de poder, de prest’gio. A c‰mera, ao optar por tomadas de baixo para cima, refor�a a for�a grandiosa de Breno e Sued, representantes da juventude negra e perifŽrica, que tomam a cena e que mesmo quando parecem cair, sobem. ƒ quase como o trecho da poesia que fala da tia que queria alho para temperar o —dio, mas, acabou cortando cebola e transbordou em l‡grima.
Tempo de Pipa faz isso bem, j‡ que, como a�‹o midiartivista, o v’deo-poesia-musical confere poder e visibilidade ˆ causa da coletividade organizada. Por isso, Tempo de Pipa funciona como m’dia radical alternativa, aos moldes do defendido por Downing (2002) j‡ que informa, comunica e constr—i discursos contra-hegem™nicos.
O artista ativista Breno Silva (1) e a cantora Sued
Nunes (2) em cenas do v’deo Tempo de Pipa
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=xZlWWOmHwFw
Conclus‹o
Grupos contra-hegem™nicos, atravŽs das mais diversas estratŽgias discursivas e suportes, como as m’dias, com poesia, mœsica e v’deo, promovem um tipo de Òm’dia geral de pequena escala e sob muitas formas diferentes – que expressa uma vis‹o alternativa ˆs pol’ticas, prioridades e perspectivas hegem™nicasÓ (DOWNING, 2002, p. 21).
Ao realizar produ�›es que utilizam poesias, vozes, mœsicas, v’deos e viv�ncias para comunicar pautas, num tipo de estŽtica ativista e insurgente, os coletivos e artistas subvertem normas e ide‡rios cristalizados sobre o que Ž movimento social, arte e m’dia.
A estŽtica da dissens‹o Ž tambŽm a Žtica da resist�ncia, para usar termos caros a Rui Mour‹o (2015). ƒ uma estŽtica ativista e pol’tica. Por isso, o artivismo n‹o se limita apenas ˆs quest›es do ‰mbito da pol’tica, mas, sobretudo, ˆ Žtica e ˆs estŽticas.
Tempo de Pipa, por exemplo, ao fazer midiartivismo, produz, atravŽs do audiovisual e de toda a sorte de express›es de criatividade, estŽtica voltada tanto para o prazer da frui�‹o e entretenimento como para o fazer pol’tico.
ƒ necess‡ria aten�‹o especial a esses novos movimentos
e tipos de produ�‹o, frutos da contra conduta e da subvers‹o dos que se munem
de armas estŽticas para fazer ecoar suas vozes [...]. O advento da Internet
intensifica essas novas configura�›es pol’ticas, mais libert‡rias e n‹o menos
eficientes, permitindo o surgimento de novas vozes, que incidem sobre a
liberdade de novos corpos e subjetividades. Essa nova forma de fazer pol’tica
[...] quase sempre Ž considerada estranha e deslegitimada por quem somente
acredita na maneira autorit‡ria e burocr‡tica do fazer pol’tico (FREITAS, 2019,
p. 258).
O midiartivismo quebra paradigmas e contribui para o aniquilamento dos discursos excludentes. ƒ m’dia e arte que v�m das quebradas para quebrar paradigmas e revelar a beleza do que foi considerado in—spito por muito tempo, a partir da reitera�‹o e perpetua�‹o de discursos que encontravam respaldo nos meios de comunica�‹o hegem™nicos e nos sistemas institucionalizados cl‡ssicos da educa�‹o. ƒ o levante das dissid�ncias que n‹o permitem que sejam silenciadas e se nutrem de estratŽgias para vencer o apagamento, a marginaliza�‹o e o alijamento. ƒ a arte que Òextrapola os limites do quadro, da moldura e atŽ mesmo das paredes do museu [...] para se instalar na realidade absoluta, na vida cotidianaÓ (FREITAS, 2007, p. 86). ƒ o artivismo que se conecta com seus pœblicos. ƒ o midiartivismo a favor da transforma�‹o, que reestrutura rela�›es de poder e reorganiza as esferas de poder, privilŽgio e prest’gio.
esse
poema n‹o tem fim
Ž
eterno, eu digo
(SILVA,
2020)
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[Recebido: 11 ago 2020 – Aceito: 19 set 2020]
[57] Doutor em Comunica�‹o e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Professor Titular Pleno da UNEB/Campus I, Professor Permanente do Programa de P—s-gradua�‹o em Estudos das Linguagens – PPGEL/UNEB.
[58] Todos textos que aparecem alinhados ˆ
direita s‹o trechos da poesia Tempo de Pipa, de Breno Silva (2020).
Mantive a escrita do texto como encontrada no v’deo disponibilizado no Youtube.
[59] Agrade�o ao Breno Silva, autor da poesia
e idealizador do v’deo, pelas contribui�›es compartilhadas na pequena e r‡pida
Òentrevista bate-papoÓ concedida atravŽs da rede social Instagram, em
agosto de 2020.
[60] Cf. Day (2005);
Gohn (2008).
[61] Cf.
Rosas (2005).
[62] Segundo Gon�alves (2012, p. 181), o
termo foi criado pelo coletivo norte-americano Critical Art Ensemble, em
1996.
[63] Viajou Sem Passaporte, 3N—s3 e Tupi N‹o
D‡ s‹o alguns desses grupos.
[64] Partida de futebol informal entre jogadores amadores
em campo improvisado.
[65] Mesmo que se reconhe�a que o videoclipe possui tra�os de produ�›es convencionais, em seus termos tŽcnicos, vale ressaltar que o interesse pela produ�‹o reside no fato de essa ter sido produzida na l—gica do associativismo, por muitos coletivos, e de ser assinada por diretores e artistas com larga experi�ncia na atua�‹o em coletivos. Considero que a singularidade desse tipo de produ�‹o n‹o reside, necessariamente, no uso dos seus recursos tŽcnicos, mas, sobretudo, nas suas possibilidades de narrar hist—rias, apresentar paisagens e empregar corpos muitas vezes exclu’dos disso que aqui estamos a tratar como produ�›es convencionais, produtos da grande m’dia. Para quem tem interesse na discuss‹o acerca da presen�a das for�as e dos fluxos hegem™nicos em produtos e produ�›es tidas como contra-hegem™nicas, indico a leitura de Freitas (2009).
[66] Entrevista a mim concedida em agosto de
2020.