Rap e resist�ncia: necropol’tica e escala em Os meninos correm

 

 

Rap and Resistance: Necropolitics and Scale in Os meninos correm

 

 

Everton Santos de Brito[79]

https://0000-0002-2182-1700

 

Karina Figueredo Souza[80]

https://0000-0002-5704-9767

 

Lucas Santos CafŽ[81]

https://0000-0003-2654-0788

 

Maria Thereza de Oliveira Azevedo[82]

https://0000-0003-2912-2346

 

 

Resumo: Este artigo se prop›e a um exerc’cio de an‡lise do poema oral Os meninos correm da rapper Pacha Ana, para refletir sobre o mal-estar do tempo presente e as possibilidades de resist�ncia pela oralidade. O conceito de escala foi desenvolvido pela sociolingu’stica e, neste artigo, nos baseamos na colet‰nea organizada por E. Summerson Carr e Michael Lempert sobre o tema. A no�‹o de escala contribui para o entendimento de que a realidade n‹o Ž est‡tica, buscando compreender as coisas, os processos, os acontecimentos, a hist—ria, a sociedade como elementos din‰micos. Na discuss‹o, um di‡logo com as epistemes decoloniais e afro-diasp—ricas, sobretudo, a partir das reflex›es do professor Achille Mbembe e o conceito de necropol’tica.

Palavras chave: Resist�ncia; Escala; Necropol’tica; Rap; Os meninos correm.

 

Abstract: Exercise in the analysis of the oral poem Os meninos correm from Pacha Ana, to reflect on the discomfort of the present time and the possibilities of resistance, that's what it proposes this article. The concept of scale developed by sociolinguistics, based on the collection organized by E. SummersonCarr and Michael Lempert on the topic, is the reference for the analysis. The notion of scale contributes to the understanding that reality is not static, seeking to understand things, processes, events, history, society as dynamic elements. In the discussion, a dialogue with the decolonial and afro-diasporic epistemes, above all, based on the reflections of Professor Achille Mbembe and the concept of necropolitics.

Key words: Resistance; Scale; Necropolitics; Rap; Os meninos correm.

 

 

Os meninos correm da bala, da vala, da farda

Pacha Ana

 

 

Ela apruma o corpo, levanta a cabe�a com altivez, ergue o bra�o direito para o alto, em posi�‹o de luta, como se estivesse se preparando para uma guerra. Os cabelos com um volumoso dread agigantam a sua figura no palco. No antigo pelourinho da cidade, na Pra�a da Mandioca, centro hist—rico de Cuiab‡, capital do estado de Mato Grosso, Ana Gabriela Santana, a rapper Pacha Ana evoca seus ancestrais para falar/batalhar do/no tempo presente. A palavra Ž sua arma. Sua voz ecoa na pra�a: ÒOs meninos correm da bala, da vala, da fardaÓ. ƒ a competi�‹o de poesia falada, o Slam[83] do Capim Cheiroso que entrecruza periferias e centro redesenhando novas linhas de comunica�‹o com a cidade. A artista mato-grossense, mulher, negra, MC, rapper, poeta, cantora e compositora, tem se destacado no cen‡rio nacional e h‡ tempos se debru�a nesta tem‡tica da denœncia/resist�ncia, buscando inspira�›es e aprendizagem na pr—pria experi�ncia hist—rica do povo negro, sobretudo, das mulheres pretas.

Neste artigo,[84] optamos por trazer o poema Os meninos correm de Pacha Ana[85] para propor um exerc’cio de an‡lise a partir da no�‹o de escala, desenvolvida pela sociolingu’stica, tendo como refer�ncia a colet‰nea organizada por E. Summerson Carr e Michael Lempert sobre o tema, em di‡logo com epistemes decoloniais[86] e afro-diasp—ricas, sobretudo, a partir das reflex›es do professor Achille Mbembe e o conceito de necropol’tica.

 

 

 

O rap e as oralidades urbanas

 

Muitas s‹o as pr‡ticas da oralidade, da performance, da palavra, seja escrita nos muros ou falada/cantada em forma de rap, que ocupam os espa�os da cidade para discutir/escancarar a pol’tica de exterm’nio de algumas popula�›es. No Brasil, essas express›es nos alertam principalmente sobre as pol’ticas de morte e os genoc’dios enfrentados pelas popula�›es negras. O rap, por exemplo, reverbera nos coletivos que se organizam de v‡rias maneiras, seja em forma de batalhas ou slams ou mesmo em apresenta�›es nas ruas, em shows. O RAP (rhythm and poetry) tem resson‰ncia das narrativas orais africanas e remete ˆ tradi�‹o dos griots[87]. ÒA for�a da palavra oral da di‡spora africana funciona como um mecanismo deposit—rio de conhecimentos preservados que os colonizadores interditam no discurso oficialÓ (CARVALHO, 2014, p. 325). Retomando a tradi�‹o africana da oralidade, o rap surgiu nos bairros jamaicanos na dŽcada de 1960 e foi levado para os bairros pobres de Nova Iorque, no come�o da dŽcada de 1970. No Brasil, o rap foi disseminado em S‹o Paulo, na dŽcada de 1980, nas dan�as de break entre os integrantes do movimento hip-hop.

As narrativas do rap normalmente s‹o relatos de viol�ncia, discrimina�‹o, exclus‹o e injusti�a social contra grupos historicamente subrepresentados e postos em situa�‹o de marginalidade. Essa manifesta�‹o da literatura oral urbana Ž considerada pelo historiador Robin Kelley como uma Òarma poderosa na luta pela liberta�‹o negraÓ (KELLEY, 2002, p. 11). Est‡ fundamentado em uma ÒpoŽtica da luta e da experi�ncia vividaÓ (KELLEY, 2002, p. 9), uma forma de resist�ncia cultural para lidar com Òas condi�›es da vida di‡ria, das opress›es quotidianas, da sobreviv�nciaÓ (KELLEY, 2002, p. 11). O rap ganhou for�a nos espa�os perifŽricos das cidades brasileiras e acabou por criar especificidades, poŽticas singulares a partir do lugar onde se manifesta.

 

 

O mal-estar do tempo presente

 

No tempo presente, o que qualificamos como um mal-estar pode ser percebido a partir da intensifica�‹o de certo repert—rio afetivo: discursos-afetivos de —dio, xenofobia, racismos, misoginia, homofobia, incivilidade, intoler‰ncias, viol�ncias e tantas outras atrocidades naturalizadas, que segregam, ceifam vidas, todavia, s‹o elevadas ˆ condi�‹o de normalidade. Boa parte desse mal-estar Ž causada pela dissemina�‹o das ideias neoliberais de desempenho, competi�‹o, hiperconcorr�ncia, sucesso e hiperindividualismo que produzem discursos de —dio e buscam destruir poss’veis pr‡ticas de solidariedade.

Os discursos fascistas v�m recheados de clich�s que se amparam em fundamentalismos religiosos, apagamento e silenciamento hist—rico, memoric’dio, epistemic’dio da diversidade de saberes, g�neros e sexualidades que divergem do conceito de fam’lia tradicional, na qual, o pilar Ž o homem branco, produzindo assim, ideologias e pr‡ticas t—xicas que n‹o s‹o defens‡veis eticamente. Apoiam-se na inven�‹o de um passado m’tico para legitimar um ideal de pureza de ra�a e cren�a, ligado tambŽm ao ideal de fronteiras, que s‹o ao mesmo tempo fronteiras geogr‡ficas e simb—licas, revelando uma sociedade atrelada a uma sŽrie de dicotomias classificat—rias, sendo a classifica�‹o racial a mais importante delas, pois, como afirma An’bal Quijano, Òa racializa�‹o das rela�›es de poder entre as novas identidades sociais e geoculturais foi o sustento e a refer�ncia legitimadora fundamental do car‡ter eurocentrado do padr‹o de poder, material e intersubjetivoÓ (QUIJANO, 2009, p. 107).

A diversidade de ideias, a manifesta�‹o da pluralidade de epistemes assusta os indiv’duos dessa sociedade causadora do mal-estar, justamente, porque desestabiliza discursos hegem™nicos e hierarquias estabelecidas nos processos de domina�‹o. Na tentativa de perceber possibilidades e desvios diante da sensa�‹o de incapacidade, de paralisia que este cen‡rio imp›e, nos propomos ao exerc’cio de observar um modo de resist�ncia que se d‡ pela oralidade do rap. Assim, buscamos construir uma reflex‹o a partir de uma narrativa que pode ser uma alternativa para alertar sobre esses tempos n‹o como o fim do mundo, o fim dos caminhos e a perda das esperan�as, mas como denœncia e resist�ncia na busca de uma sociedade mais humana, diversa e plural. Ao observarmos o poema oral Os meninos correm, escrito para ser falado, nos detivemos na sua forma, utilizando o conceito de escala, para perceber uma poŽtica de resist�ncia.

 

 

Escala e a constru�‹o de sentidos na forma

 

               A escala Ž um conceito que veio da geografia e foi desenvolvido na antropologia lingu’stica e na sociolingu’stica, na tentativa de buscar outras formas de observa�‹o dos objetos. Para o sociolinguista Jan Blommaert: ÒTeorizar envolve a explora�‹o de novas imagens e met‡foras, capazes de nos ajudar a imaginar objetos de forma distinta, a v�-los como diferentes, objetos que exigem abordagens anal’ticas diferentesÓ (BLOMMAERT, 2007, p. 1).

               Assim, a partir da compreens‹o do conceito de escala, apresentado na obra Scale – Dicourse and Dimensions of Social of Social Life[88] pelos organizadores E. Summerson Carr e Michael Lempert, podemos dizer que se trata da forma�‹o do sentido que possu’mos de real e de concretude, pois a no�‹o de escala n‹o possui um car‡ter hegem™nico. Os autores salientam que o mundo material n‹o Ž prŽ-configurado, h‡ na materialidade do mundo um complexo trabalho de constru�‹o semi—tica, envolvendo signos lingu’sticos e n‹o lingu’sticos. (CARR; LEMPERT, 2016). Entre outras acep�›es, a no�‹o de escala contribui para o entendimento de que a realidade n‹o Ž est‡tica, buscando entender as coisas, os processos, os acontecimentos, a hist—ria, a sociedade como elementos din‰micos. Esta constru�‹o n‹o-est‡tica amplia a possibilidade de nos relacionarmos com o objeto de an‡lise. (CARR; LEMPERT, 2016). A compreens‹o de escala sugere movimento e an‡lise – ampliar os referenciais e se manter aberto se torna uma necessidade de um trabalho escalar. Movimento escalar Ž um movimento produtor de sentidos, sendo que o nosso processo de significa�‹o Ž sempre escalar, uma vez que para atribuir significados daquilo que Ž real ou material sempre fazemos proje�›es (CARR; LEMPERT, 2016). As met‡foras, por exemplo, s‹o uma proje�‹o escalar. Produ�‹o de narrativas s‹o sempre proje�›es escalares. Fen™menos escalares s‹o sempre fen™menos relacionais, assim toda empreitada relacional Ž comparativa. Analogias, totaliza�›es, sistemas classificat—rios e estere—tipos s‹o relacionais, portanto escalares. O sentido n‹o Ž definitivo, assim, ao nos lan�armos ao exerc’cio de propormos novas proje�›es, obteremos resultados completamente diferentes. Para os autores Òn‹o h‡ escalas ideologicamente neutras, e pessoas e institui�›es que se destacam nos exerc’cios escalares geralmente refor�am as distin�›es que os ordenaramÓ (CARR; LEMPERT, 2016, p. 3. Tradu�‹o nossa).[89]

Pensando, ent‹o, na rela�‹o entre as imagens disparadas pelo poema Os meninos correm de Pacha Ana e as que constru’mos a partir do contato com a obra de Achile Mbembe, realizamos um exerc’cio de an‡lise da estrutura do poema, dentro de uma perspectiva escalar. Como defendem Carr e Lempert (2016, p. 3. Tradu�‹o nossa):

as escalas nas quais os atores sociais se baseiam para organizar, interpretar, orientar e agir em seus mundos n‹o s‹o dadas, mas s‹o constru’das – e um tanto trabalhosas. Escalar n‹o Ž simplesmente assumir ou afirmar ÒgrandezaÓ ou ÒpequenezÓ por meio de c‡lculo. Pelo contr‡rio, [...] as pessoas usam a linguagem para dimensionar o mundo ao seu redor. [...]. Embora as coisas possam ser grandes, por analogia, a cria�‹o de escala sempre implica em distin�›es, entre a grandeza da costela de uma baleia e a pequenez de um m‡rmore, por exemplo. Como um esfor�o inerentemente relacional e comparativo, o dimensionamento pode assim conectar e atŽ confinar o que Ž geograficamente, geopoliticamente, temporalmente ou moralmente Òpr—ximoÓ, ao mesmo tempo em que distingue essa proximidade da que est‡ ÒdistanteÓ. Da mesma forma, hierarquias em escala s‹o os efeitos dos esfor�os para classificar, agrupar e categorizar muitas coisas, pessoas e qualidades em termos de graus relativos de eleva�‹o ou centralidade. Por exemplo, pense em como uma entidade ou dom’nio parece abranger outro, como em mapas que subordinam localidades de ordem superior, unidades administrativas ou do modo como se pensa os estados-na�‹o, as comunidades ÒacimaÓ.[90]

 

 

Os meninos correm – escala e necropol’tica – um di‡logo poss’vel.

 

Os meninos correm

Os meninos correm,

Os meninos correm almejando tudo,

almejando o mundo,

pensando que a pressa Ž a solu�‹o pra tudo,

mas n‹o Ž n‹o.

Eles correm por medo,

correm em segredo,

correm na contram‹o.

Os meninos correm por causa do atraso, correm pra n‹o ser um fardo, e isso nem Ž um caso isolado.

Os meninos correm,

alguns porque gostam,

outros s— porque precisam mesmo.

Inclusive, os meninos correm mas nem todos chegam mais cedo.

Ali‡s, alguns nem chegam.

Isso porque os meninos correm, mas a pol’cia tambŽm

e todo dia quando ele sai, a m‹e pede amŽm

pra que nada, nem ninguŽm

tire o seu maior bem.

Ela reza:

ÒOromima, oromimayor, oromimayor, iabadoai�i�o

Oromima, oromimayor, oromimayor, iabadoai�, i�o

Ai, ai oxum, ora i�

Ai, ai oxum, ora i�Ó

Isso porque os meninos correm,

mas se for de madrugada e ele for preto

j‡ Ž suspeito!

Parece que ser escuro Ž defeito.

Os meninos correm da bala, da vala, da farda,

COMO SE AINDA EXISTISSE SENZALA!

Se vive atŽ os 21, Ž lucro.

Isso Ž culpa de um sistema fajuto,

onde alguns meninos correm e chegam,

outros, deixam m‹es em luto.

(Pacha Ana, fevereiro de 2017)

 

Pacha Ana, fazendo uso do seu lugar de fala – entendendo que lugar de fala tambŽm Ž a fala de lugar –, por meio da oralidade, olha para uma popula�‹o que se situa ˆ margem, para atravŽs do afeto nos aproximar de corpos silenciados, identificados como ÒsuspeitosÓ por um estado de exce�‹o permanente. Os meninos correm traz uma possibilidade de reflex‹o sobre os processos de retirada de direitos, exterm’nios de popula�›es racializadas[91] o poder sobre a vida, para construir, assim, um contra discurso. Mbembe (2016, p. 123) afirma que: Òmatar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais. Exercitar a soberania Ž exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implanta�‹o e manifesta�‹o de poderÓ. E ainda diz que Òa soberania Ž a capacidade de definir quem importa e quem n‹o importa, quem Ž Ôdescart‡velÕ e quem n‹o ŽÓ (MBEMBE, 2016, p. 135), sendo que t�m se caracterizado como descart‡veis os seres humanos do sul global, ou seja, os n‹o europeus, que foram classificados como inferiores a partir de um processo de naturaliza�‹o de rela�›es sociais que visavam atender os poderosos interesses articulados com a consolida�‹o do capitalismo/colonialismo/patriarcado.

No poema, a utiliza�‹o da palavra ÒcorremÓ, numa escala de repeti�‹o, sugere distintas imagens, que percorrem desde a leveza do simples ato de correr, do imagin‡rio de meninos que flertam com a inf‰ncia e a liberdade, atŽ o peso da realidade de alguns corpos que precisam correr para n‹o morrer ou que s‹o mortos enquanto est‹o correndo. Pacha Ana, ao trazer uma ora�‹o/sauda�‹o de matriz africana, construindo uma alus‹o a vozes das m‹es pretas, utiliza proje�›es escalares de ancestralidade, racialidade, temporalidade, espiritualidade. Demarca um lugar, sugere um ritmo, uma sonoridade, invoca corpos portadores de saberes ancestrais, tradi�›es orais, propondo olhares para uma cultura que vem sendo historicamente perseguida, constantemente desvalorizada e violentamente silenciada. Grosfoguel (2014) afirma que a expans‹o colonial europeia significou o genoc’dio e o epistemic’dio de ind’genas, africanos e de mulheres. AlŽm disso, o colonialismo realizou um enorme memoric’dio, sendo que a estrutura de conhecimento que domina as universidades de todo o mundo est‡ atrelada ˆ estrutura imperialista colonial de poder. O homem ocidental, europeu, branco, heterossexual, crist‹o, Ž quem decide o que Ž o melhor para as demais popula�›es de todo mundo. Nesses processos, ele despreza, invisibiliza, destr—i e assassina sociedades inteiras, suas culturas e seus saberes. Segundo Grosfoguel, autores homens, brancos, de cinco pa’ses formam os c‰nones da ci�ncia desenvolvida em qualquer universidade do mundo. Isso revela um racismo e um sexismo epistemol—gico iniciado com a modernidade e o colonialismo. Dessa forma, para descolonizar o pensamento Ž necess‡rio dialogar com uma diversidade epist�mica, buscando enriquecer a maneira de ver o mundo. Ouvir a voz dos colonizados, estabelecer di‡logos com saberes e epistemes ancestrais constituem caminhos poss’veis para a descoloniza�‹o do conhecimento. O pensamento e os saberes compartilhados por Pacha Ana, uma mulher negra, por meio do poema Os meninos correm, se colocam na contram‹o da coloniza�‹o e da permanente colonialidade. A ancestralidade evocada pela poetisa nos faz dialogar com mœltiplas epistemes, mœltiplos saberes, sobretudo saberes que foram esmagados pela modernidade. Pacha Ana se coloca na contram‹o da sociedade do mal-estar n‹o por dar voz ˆ ancestralidade, mas por aprender com ela e, assim, tornar-se/ser tambŽm essa ancestralidade.

No trecho em que, optando por destacar o verso com letras maiœsculas, sugere um grito, uma aten�‹o maior: ÒCOMO SE AINDA EXISTISSE SENZALA!Ó observamos uma escala emocional-ir™nica e hist—rica, que exp›e uma indigna�‹o pulsante, descrevendo o cen‡rio que questiona. Em outro fragmento identificamos escalas classificat—rias e de ironia: Òmas se for de madrugada e ele for preto / j‡ Ž suspeito! / Parece que ser escuro Ž defeitoÓ, que evidencia a pol’tica de exterm’nio de corpos negros. Numa escala cr’tica, o trecho ÒSe vive atŽ os 21, Ž lucroÓ, situa a realidade destes corpos que est‹o ˆ margem, sinalizados, marcados para morrer. Pudemos identificar ainda outras proje�›es escalares dentro do poema, como por exemplo: escalas de indigna�‹o, como no trecho ÒIsso Ž culpa de um sistema fajuto, onde alguns meninos correm e chegam, outros, deixam m‹es em lutoÓ; metaf—ricas, como em Òcorrem na contram‹oÓ e Òcorrem para n‹o ser um fardoÓ; bem como pol’tico-cr’ticas, em ÒEles correm por medo, correm em segredoÓ e ÒIsso porque os meninos correm, mas a pol’cia tambŽmÓ.

ÒA cada vinte e tr�s minutos um jovem negro Ž assassinado no BrasilÓ[92]. ÒExŽrcito dispara 80 tiros em carro de fam’lia no Rio e mata mœsicoÓ[93]. Ò75% das v’timas de homic’dio no Pa’s s‹o negrasÓ[94]. ÒAssassinatos de jovens negros no Brasil aumentam 429% em 20 anosÓ[95]. Quando nos deparamos com alguns dados sobre a viol�ncia e a criminalidade no Brasil, colocamo-nos diante de informa�›es alarmantes, tanto pelo conteœdo, quanto pela dimens‹o midi‡tica a qual esse conteœdo Ž submetido. Que corpos ÒmerecemÓ viver? Que corpos ÒmerecemÓ morrer? Quem tem o poder de decis‹o? O poema Os meninos correm discute essas quest›es e exp›e poss’veis respostas, ainda que numa perspectiva ir™nica, a essas perguntas.

            Na obra Discurso sobre o Colonialismo, AimŽ CŽsaire reflete sobre os diversos ÒnazismosÓ cometidos contra povos n‹o europeus, sobretudo os que existiram durante todo o per’odo de coloniza�‹o e escraviza�‹o das popula�›es negras, apontando que esses ÒnazismosÓ sempre foram aceitos pela popula�‹o europeia:

no fundo o que n‹o Ž perdo‡vel em Hitler n‹o Ž o crime em si, o crime contra o homem, n‹o Ž a humilha�‹o em si, sen‹o o crime contra o homem branco, Ž a humilha�‹o do homem branco, e haver aplicado na Europa procedimentos colonialistas que atŽ agora s— concerniam aos ‡rabes da ArgŽlia, aos coolies da êndia e aos negros da çfrica (CƒSAIRE, 2010, p. 21).

Dialogando com CŽsaire e Frantz Fanon, Mbembe (2016) observa que o estado de exce�‹o n‹o foi fundado com o nazismo, pois ele existiu anteriormente para as popula�›es negras. A escravid‹o moderna seria um exemplo de estado de exce�‹o, ou melhor, um estado de terror duradouro. E esse terror duradouro, identificado por Mbembe, simboliza a realidade de boa parte dos negros e das negras brasileiras. AtravŽs do cruzamento dos dados do IBGE sobre a popula�‹o negra no Brasil e o poema de Pacha Ana, podemos afirmar que os negros vivem em um estado de exce�‹o cont’nuo, um mundo de morte, de mortos-vivos, que, segundo o autor, n‹o pode ser explicado sen‹o pela perspectiva da necropol’tica. As novas formas de matar, de fazer de vivos mortos-vivos, n‹o podem ser elucidados pelo biopoder, uma vez que, esta quest‹o Ž uma pol’tica de morte, um ideal de exterm’nio que acompanha as popula�›es negras desde a coloniza�‹o.

A necessidade de olharmos para os corpos negros Ž ressaltada quando olhamos os dados, por exemplo, divulgados pelo Atlas da Viol�ncia 2019, produzido pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econ™mica Aplicada), e que publica estudos e dados relacionados ao ’ndice de viol�ncia no Brasil. Segundo este estudo:

Em 2017, 75,5% das v’timas de homic’dios foram indiv’duos negros (definidos aqui como a soma de indiv’duos pretos ou pardos, segundo a classifica�‹o do IBGE, utilizada tambŽm pelo SIM), sendo que a taxa de homic’dios por 100 mil negros foi de 43,1, ao passo que a taxa de n‹o negros (brancos, amarelos e ind’genas) foi de 16,0. Ou seja, proporcionalmente ˆs respectivas popula�›es, para cada indiv’duo n‹o negro que sofreu homic’dio em 2017, aproximadamente, 2,7 negros foram mortos (IPEA, 2019, p. 49).

Correr brincando, correr para chegar ˆ escola, correr para pegar o ™nibus, correr por esporte, correr para n‹o morrer, correr para n‹o ser eliminado. Pacha Ana nos conecta com O Genoc’dio do negro no Brasil, uma das primeiras obras escritas por um intelectual negro brasileiro, visando o combate ao racismo e ˆ discrimina�‹o racial em nosso pa’s. Abdias do Nascimento (2016) detalha como, historicamente, no Brasil, foi se formando e se construindo um processo de um Òracismo mascaradoÓ. Segundo ele, o processo come�a com a rejei�‹o da hist—ria dos africanos e seus descendentes, passando pelo mito da benevol�ncia do branco portugu�s para com o negro e das poss’veis Òcontribui�›esÓ do branco civilizado para com o negro ÒincivilizadoÓ. Para Abdias, na constru�‹o desse Òracismo mascaradoÓ, houve atŽ quem dissesse que a escravid‹o e outras atrocidades cometidas contra o negro, seria um mal necess‡rio para o processo de civiliza�‹o dos mesmos. Neste ponto, voltamos ˆ reflex‹o proposta por CŽsarie (2010), de que ao longo do processo de coloniza�‹o sempre foi permitido e aceito assassinar n‹o europeus, sobretudo, negros.

Influenciado por Frantz Fanon, Nascimento (2016) denuncia a exist�ncia do racismo no Brasil, enfatizando a desvaloriza�‹o da mulher e do homem negro em nosso pa’s, o branqueamento racial e cultural, a persegui�‹o ˆ cultura africana, a bastardiza�‹o da cultura afro-brasileira e todas as estratŽgias de genoc’dio do negro e sua cultura em terras tupiniquins. Segundo o autor, o racismo camuflado existente no Brasil Ž muito mais nocivo que o Òracismo declaradoÓ existente na sociedade estadunidense, pois Ž sustentado pelo mito da Òdemocracia racialÓ; o racismo ˆ brasileira se esconde, se camufla, finge n‹o existir. O que dificulta a cria�‹o de mecanismos para combat�-lo, contribuindo para um estado de terror duradouro para as popula�›es negras.

Walter Mignolo afirma que a colonialidade era a pauta oculta ou o lado ÒescuroÓ da modernidade. Segundo o autor, pensar o conceito de colonialidade j‡ Ž um ato descolonizador, pois Ž preciso partir de um olhar decolonial para observar a barb‡rie existente por tr‡s do discurso civilizat—rio. ÒAssim, ocultadas por tr‡s da ret—rica da modernidade, pr‡ticas econ™micas dispensavam vidas humanas, e o conhecimento justificava o racismo e a inferioridade de vidas humanas, que eram naturalmente consideradas dispens‡veisÓ (MIGNOLO, 2017, p. 1). Dessa forma, a partir da vis‹o de Mignolo, podemos pensar que por tr‡s do discurso de progresso e de desenvolvimento, est‹o pr‡ticas discursivas e representa�›es que tiram vidas, dizimam mem—rias e exterminam culturas. Autores decoloniais como Ram—n Grosfoguel, An’bal Quijano e Walter Mignolo v‹o concordar que a principal tarefa dos te—ricos decoloniais Ž quebrar com a colonialidade existente no mundo, a colonialidade est‡ travestida de globaliza�‹o/modernidade:

H‡ um fato na cultura de toda a AmŽrica, e na da AmŽrica Latina em particular, que envolve o mundo inteiro hoje em sua globalidade e que precisa ser reconhecido, questionado, debatido e evacuado: a colonialidade do poder. Esse Ž o primeiro passo para a democratiza�‹o da sociedade e do Estado; da reconstitui�‹o epistemol—gica da modernidade; da busca por uma racionalidade alternativa (QUIJANO, 2014, p. 767. Tradu�‹o nossa)[96]

Quebrar com a colonialidade significa utilizar a diversidade epist�mica.

Em ambos os casos, a geopol’tica e a corpo-pol’tica (entendidas como a configura�‹o biogr‡fica de g�nero, religi‹o, classe, etnia e l’ngua) da configura�‹o de conhecimento e dos desejos epist�micos foram ocultadas, e a �nfase foi colocada na mente em rela�‹o ao Deus e em rela�‹o ˆ raz‹o. Assim foi configurada a enuncia�‹o da epistemologia ocidental, e assim era a estrutura da enuncia�‹o que sustentava a matriz colonial. Por isso, o pensamento e a a�‹o descoloniais focam na enuncia�‹o, se engajando na desobedi�ncia epist�mica e se desvinculando da matriz colonial para possibilitar op�›es descoloniais – uma vis‹o da vida e da sociedade que requer sujeitos descoloniais, conhecimentos descoloniais e institui�›es descoloniais (MIGNOLO, 2017, p. 6).

 

 

Concluindo: os meninos ainda correm

 

Utilizando o conceito de escala para realizar um exerc’cio de an‡lise do rapper poema oral Os meninos correm, em di‡logo com os conceitos de necropol’tica e decolonialidade, acreditamos que o poema se apresenta como uma resist�ncia ao mal-estar que atravessa a nossa sociedade. Como, por exemplo, as possibilidades apresentadas de diferentes imagens para uma mesma palavra ÒcorremÓ ampliam o nosso olhar, nossa forma de nos relacionarmos com a obra e, principalmente, ao que ela convoca, possibilitando questionamentos, propondo uma desestabiliza�‹o de sentidos prŽ-concebidos.

A poetisa rapper Pacha Ana prop›e um esfor�o de denunciar essa necropol’tica que atravessa o tempo presente, apresentando uma forma de poema falado que questiona as normas criadas ou constru’das culturalmente para excluir, subalternizar e dar prosseguimento ˆ l—gica colonial que sustenta o atual padr‹o de poder mundial. A partir de Os meninos correm, entendemos que Ž poss’vel ressignificar as normas e os discursos que qualificam o mal-estar, revelando que nada Ž eterno, absoluto e universal.

Se a colonialidade, as ideias neoliberais, o machismo, o racismo, a heterossexualidade compuls—ria nos obriga a ter determinados comportamentos, se as categorias de domina�‹o constru’das pelo homem branco (ocidental, hŽtero, crist‹o) nos faz conviver com esse mal-estar, o poema tal como novas/outras epistemes pode apoiar na constru�‹o de questionamentos aos discursos e as pr‡ticas de domina�‹o hegem™nicas. Se as categorias de domina�‹o foram socialmente constru’das, se narrativas contam e constroem narrativas, podemos construir contranarrativas, outros discursos que tragam problemas que nos ap—iem em nossos processos de resist�ncia. N‹o se trata de Òdar vozÓ aos corpos oprimidos e sim de pluralizar nossas refer�ncias e dialogar com diferentes epistemologias, n‹o apenas como fonte de pesquisa, mas como produtora de saberes que historicamente foram desconsiderados. Descolonizar Ž aprender e falar com o outro subalternizado. As tens›es propostas aqui tiveram como inten�‹o sulear a inquieta�‹o de pensarmos outros cen‡rios poss’veis e criar possibilidades de desestabilizar o pensamento hegem™nico que insiste em se manter como verdade œnica e curso natural da hist—ria. Criar resist�ncia Ž tambŽm desestabilizar o olhar colonial que assola o Brasil, determinando os espa�os que as popula�›es negras devem ocupar na sociedade.

Deste modo, o exerc’cio de an‡lise do poema Os meninos correm, combinando o conceito de necropol’tica de Achile Mbembe com a no�‹o de escala para observar estas obras que povoam a oralidade urbana, podem trazer ˆ tona a constru�‹o de uma contra narrativa. Neste caso, a resist�ncia est‡ contida tambŽm na forma do poema refor�ando a possibilidade de cria�‹o de outros modos de exist�ncia.

 

 

Refer�ncias

 

Blommaert, Jan. 2007. Sociolinguistic Scales. Intercultural Pragmatics 4 (1): 1-19.

CARR, E. Summerson and LEMPERT, Michael (eds.) Scale: Discourse and Dimensions of Social Life. Oakland: University of California Press, 2016. DOI: http://doi.org/10.1525/luminos.15.

 

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[Recebido: 14 out 2020 – Aceito: 19 set 2020]



[79] Graduado em Artes C�nicas (UNESPAR-FAP). Mestrando em Estudos de Cultura Contempor‰nea, Linha de Pesquisa em PoŽticas Contempor‰neas (PPGECCO-UFMT). Membro da Solta Cia de Teatro de Cuiab‡ – MT, do Coletivo ˆ Deriva e do Grupo de Pesquisa Artes H’bridas: intersec�›es, contamina�›es e transversalidades. Professor colaborador da MT Escola de Teatro/UNEMAT. Bolsista Capes.

[80] Graduada em Comunica�‹o Social – R‡dio e TV (UFMT). Mestranda em Estudos de Cultura Contempor‰nea, Linha de Pesquisa em PoŽticas Contempor‰neas (PPG-ECCO/UFMT), Membro do Grupo de Pesquisa Artes H’bridas: intersec�›es, contamina�›es e transversalidades, do In-Pr—prio Coletivo e Coordenadora das çreas TŽcnicas da MT Escola de Teatro/UNEMAT. Bolsista Capes.

[81] Graduado em Hist—ria pela Universidade Federal do Rec™ncavo da Bahia. Mestre em Hist—ria pela Universidade Federal da Bahia. Cursa doutorado em Hist—ria na UFMT. Professor EBTT de Hist—ria no Instituto Federal do Mato Grosso.

[82] Pesquisadora Associada do Programa  de P—s-Gradua�‹o em Estudos de Cultura Contempor‰nea da UFMT. Doutora em Artes Ci�ncias pela USP.

[83] Slams ou poetry slams s‹o encontros de poesia falada (spoken word) e perform‡tica, geralmente em forma de competi�‹o, em que um jœri popular, escolhido espontaneamente entre o pœblico, d‡ nota aos slammers (os poetas), levando em considera�‹o principalmente dois critŽrios: a poesia e o desempenho.

[84] Este artigo teve in’cio na disciplina Performatividades discursivo-afetivas do mal-estar na contemporaneidade, ofertada pela professora doutora Branca Falabella Fabr’cio, no Programa de P—s-gradua�‹o em Estudos de Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGEL-UFMT).

[85] Nasceu em Rondon—polis (MT). Seu nome art’stico (Pacha) Ž derivado do Quechua, a l’ngua antiga dos povos incas e prŽ-incas, significa ÒmundoÓ ou ÒuniversoÓ. Pacha tem uma grande atua�‹o no segmento da poesia, Ž tricampe‹ do slam estadual mato-grossense, foi semifinalista na Copa Brasileira de Poesia – SlamBR em 2017 e finalista em 2018. Atualmente, em turn� pelo Sesc no projeto ÒA Arte da PalavraÓ, viajando por 7 estados e 14 cidades brasileiras, com o espet‡culo ÒFaces: A Poesia Negra Em Mim, Em N—sÓ. Em suas letras, aborda o empoderamento da mulher, do povo preto, a espiritualidade no AxŽ e suas viv�ncias di‡rias. Em 2017, foi contemplada no edital da SEC de Cultura de Cuiab‡ que viabilizou seu primeiro disco ÒOmo Oy‡Ó, lan�ado em setembro de 2018 (Texto fornecido pela pr—pria artista).

[86]A cr’tica ou o pensamento decolonial ou descolonial Ž uma tentativa de incluir a AmŽrica no pensamento p—s-colonial, uma vez que os autores p—s-coloniais n‹o estudavam ou n‹o se interessavam pelos estudos dos processos de coloniza�‹o e domina�‹o espanhola e portuguesa na AmŽrica. A aten�‹o da cr’tica p—s-colonial se restringia aos pa’ses de l’ngua inglesa, mais especificamente a êndia e alguns pa’ses do Oriente MŽdio que foram colonizados pela Inglaterra. Diferente do pensamento p—s-colonial, a cr’tica decolonial vai levar em considera�‹o o di‡logo com mœltiplas epistemes, buscando o pluralismo de ideias e a diversidade epistemol—gica. A proposta decolonial Ž que se insira a AmŽrica Latina nas discuss›es p—s-coloniais, mas, mais do que isso, que se parta da pr—pria AmŽrica Latina e de sua diversidade epistemol—gica para entender suas quest›es. Para Grosfoguel (2014), existe uma pluralidade de vis›es e diversas formas de pensar no interior da cr’tica decolonial, afirmando que se fosse œnica ou se existisse uma œnica forma de pensar, seria mais uma reprodu�‹o do pensamento colonial, como em certa medida, foi a cr’tica p—s-colonial. Sendo assim, n‹o existe um modelo œnico na cr’tica decolonial, muito menos a nega�‹o ou o desmerecimento de algumas epistemologias europeias importantes para compreender a quest‹o da domina�‹o e da subalternidade.

[87] Os griots s‹o considerados guardi›es da hist—ria e da mem—ria que por meio da oralidade transmitem suas hist—rias e seus conhecimentos. Muitos s‹o cantadores.

[88] Escala – Discurso e Dimens›es do Social da Vida Social (Tradu�‹o nossa).

[89] Òthere are no ideologically neutral scales, and people and institutions that come out Òon topÓ of scalar exercises ofen reinforce the distinctions that so ordained them.Ó

[90] Òthat the scales that social actors rely upon to organize, interpret, orient, and act in their worlds are not given but made—and rather laboriously so. For to scale is not simply to assume or assert ÒbignessÓ or ÒsmallnessÓ by way of a ready-made calculus. Rather, [...] people use language to scale the world around them. [...]. Although things can be made big though analogy, scale-making always also entails drawing distinctions, between the bigness of a whaleÕs rib and the smallness of a marble, for instance. As an inherently relational and comparative endeavor, scaling may thus connect and even confate what is geographically, geopolitically, temporally, or morally ÒnearÓ while simultaneously distinguishing that nearness from that which is ÒfarÓ. Similarly, scaled hierarchies are the efects of eforts to sort, group, and categorize many things, people, and qualities in terms of relative degrees of elevation or centrality. Tink, for example, of the way one entity or domain seems to encompass another, as with maps that subordinate localities within higher order administrative units, or of the way nation-states are commonly thought to hover ÒaboveÓ communities.Ó

[91] Termo usado por Quijano (2009) ao denunciar a classifica�‹o social a partir da ideia de ra�a como principal motor do atual padr‹o de poder mundial.

[92] Dispon’vel em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295. Acesso em: 10 nov. 2019.

 [93]Dispon’vel em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/04/militares-do-exercito-matam-musico-em-abordagem-na-zona-oeste-do-rio.shtml. Acesso em: 10 nov. 2019.

[94] Dispon’vel em: https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,75-das-vitimas-de-homicidio-no-pais-sao-negras-aponta-atlas-da-violencia,70002856665. Publicada dia 05/06/2019. Acesso em: 10 nov. 2019.

[95] Dispon’vel em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/assassinatos-de-jovens-negros-no-brasil-aumentam-429-em-20-anos/. Publicada dia 17/04/2019. Acesso: 10 nov. 2019.

[96] ÒHay um hecho en la cultura de AmŽrica toda, y enla de AmŽrica Latina en particular, que implica a todo el mundo de hoy em suglobalidad y que precisa ser reconocido, puesto en cuesti—n, debatido y evacuado: la colonialidad del poder. Ese es el primer paso endirecci—n de la democratizaci—n de la sociedad y del Estado; de la reconstituci—n epistemol—gica de la modernidad; de la bœsqueda de una racionalidad alternativa.Ó