Rap e resist�ncia: necropol’tica e escala em Os meninos correm
Rap
and Resistance: Necropolitics and Scale in Os
meninos correm
Everton Santos de Brito[79]
https://0000-0002-2182-1700
Karina Figueredo Souza[80]
https://0000-0002-5704-9767
Lucas Santos CafŽ[81]
https://0000-0003-2654-0788
Maria
Thereza de Oliveira Azevedo[82]
https://0000-0003-2912-2346
Resumo: Este artigo
se prop›e a um exerc’cio de an‡lise do poema oral Os meninos correm da rapper Pacha Ana, para refletir sobre o
mal-estar do tempo presente e as possibilidades de resist�ncia pela oralidade.
O conceito de escala foi
desenvolvido pela sociolingu’stica e, neste artigo, nos baseamos na colet‰nea
organizada por E. Summerson Carr e Michael Lempert sobre o tema. A no�‹o de escala contribui para o entendimento de que a realidade n‹o Ž est‡tica,
buscando compreender as coisas, os processos, os acontecimentos, a hist—ria, a
sociedade como elementos din‰micos. Na discuss‹o, um di‡logo com as epistemes
decoloniais e afro-diasp—ricas, sobretudo, a partir das reflex›es do professor
Achille Mbembe e o conceito de necropol’tica.
Palavras chave: Resist�ncia;
Escala; Necropol’tica; Rap; Os meninos correm.
Abstract: Exercise in the analysis of the
oral poem Os meninos correm from
Pacha Ana, to reflect on the discomfort of the present time and the
possibilities of resistance, that's what it proposes this article. The concept
of scale developed by sociolinguistics, based on the collection organized by E.
SummersonCarr and Michael Lempert on the topic, is the reference for the
analysis. The notion of scale contributes to the understanding that reality is
not static, seeking to understand things, processes, events, history, society as dynamic elements. In the discussion, a dialogue
with the decolonial and afro-diasporic epistemes,
above all, based on the reflections of Professor Achille Mbembe and the concept
of necropolitics.
Key words: Resistance; Scale; Necropolitics; Rap; Os meninos correm.
Os meninos correm da bala, da vala, da farda
Pacha Ana
Ela apruma o corpo, levanta a cabe�a com altivez, ergue o
bra�o direito para o alto, em posi�‹o de luta, como se estivesse se preparando
para uma guerra. Os cabelos com um volumoso dread
agigantam a sua figura no palco. No antigo pelourinho da cidade, na Pra�a da
Mandioca, centro hist—rico de Cuiab‡, capital do estado de Mato Grosso, Ana
Gabriela Santana, a rapper Pacha Ana
evoca seus ancestrais para falar/batalhar do/no tempo presente. A palavra Ž sua
arma. Sua voz ecoa na pra�a: ÒOs meninos correm da bala, da vala, da fardaÓ. ƒ
a competi�‹o de poesia falada, o Slam[83] do Capim Cheiroso
que entrecruza periferias e centro redesenhando novas linhas de comunica�‹o com
a cidade. A artista mato-grossense, mulher, negra, MC, rapper, poeta, cantora e compositora, tem se destacado no cen‡rio
nacional e h‡ tempos se debru�a nesta tem‡tica da denœncia/resist�ncia,
buscando inspira�›es e aprendizagem na pr—pria experi�ncia hist—rica do povo
negro, sobretudo, das mulheres pretas.
Neste artigo,[84] optamos por trazer o
poema Os meninos correm de Pacha Ana[85] para propor um exerc’cio
de an‡lise a partir da no�‹o de escala,
desenvolvida pela sociolingu’stica, tendo como refer�ncia a colet‰nea
organizada por E. Summerson Carr e Michael Lempert sobre o tema, em di‡logo com
epistemes decoloniais[86] e afro-diasp—ricas,
sobretudo, a partir das reflex›es do professor Achille Mbembe e o conceito de necropol’tica.
O rap e as oralidades urbanas
Muitas s‹o as pr‡ticas da oralidade, da performance, da
palavra, seja escrita nos muros ou falada/cantada em forma de rap, que ocupam os espa�os da cidade
para discutir/escancarar a pol’tica de exterm’nio de algumas popula�›es. No
Brasil, essas express›es nos alertam principalmente sobre as pol’ticas de morte
e os genoc’dios enfrentados pelas popula�›es negras. O rap, por exemplo, reverbera nos coletivos que se organizam de
v‡rias maneiras, seja em forma de batalhas ou slams ou mesmo em apresenta�›es nas ruas, em shows. O RAP (rhythm
and poetry) tem resson‰ncia das narrativas orais africanas e remete
ˆ tradi�‹o dos griots[87]. ÒA for�a da palavra oral da di‡spora
africana funciona como um mecanismo deposit—rio de conhecimentos preservados
que os colonizadores interditam no discurso oficialÓ (CARVALHO, 2014, p. 325). Retomando a tradi�‹o
africana da oralidade, o rap surgiu nos bairros jamaicanos na
dŽcada de 1960 e foi levado para os bairros pobres de Nova Iorque, no come�o da
dŽcada de 1970. No Brasil, o rap foi
disseminado em S‹o Paulo, na dŽcada de 1980, nas dan�as de break entre os integrantes do movimento hip-hop.
As narrativas do rap
normalmente s‹o relatos de viol�ncia, discrimina�‹o, exclus‹o e injusti�a
social contra grupos historicamente subrepresentados e postos em situa�‹o de
marginalidade. Essa manifesta�‹o da literatura oral urbana Ž considerada pelo
historiador Robin Kelley como uma Òarma poderosa na luta pela liberta�‹o negraÓ
(KELLEY, 2002, p. 11). Est‡ fundamentado em uma ÒpoŽtica da luta e da
experi�ncia vividaÓ (KELLEY, 2002, p. 9), uma forma de resist�ncia cultural
para lidar com Òas condi�›es da vida di‡ria, das opress›es quotidianas, da
sobreviv�nciaÓ (KELLEY, 2002, p. 11). O rap
ganhou for�a nos espa�os perifŽricos das cidades brasileiras e acabou por criar
especificidades, poŽticas singulares a partir do lugar onde se manifesta.
O mal-estar do
tempo presente
No tempo presente, o que qualificamos como um mal-estar pode ser percebido a partir da intensifica�‹o de
certo repert—rio afetivo: discursos-afetivos de —dio, xenofobia, racismos,
misoginia, homofobia, incivilidade, intoler‰ncias, viol�ncias e tantas outras
atrocidades naturalizadas, que segregam, ceifam vidas, todavia, s‹o elevadas ˆ
condi�‹o de normalidade. Boa parte desse mal-estar Ž causada pela dissemina�‹o das
ideias neoliberais de desempenho, competi�‹o, hiperconcorr�ncia, sucesso e
hiperindividualismo que produzem discursos de —dio e buscam destruir poss’veis
pr‡ticas de solidariedade.
Os discursos fascistas v�m recheados de clich�s que se
amparam em fundamentalismos religiosos, apagamento e silenciamento hist—rico,
memoric’dio, epistemic’dio da diversidade de saberes, g�neros e sexualidades
que divergem do conceito de fam’lia tradicional, na qual, o pilar Ž o homem
branco, produzindo assim, ideologias e pr‡ticas t—xicas que n‹o s‹o defens‡veis
eticamente. Apoiam-se na inven�‹o de um passado m’tico para legitimar um ideal
de pureza de ra�a e cren�a, ligado tambŽm ao ideal de fronteiras, que s‹o ao
mesmo tempo fronteiras geogr‡ficas e simb—licas, revelando uma sociedade
atrelada a uma sŽrie de dicotomias classificat—rias, sendo a classifica�‹o
racial a mais importante delas, pois, como afirma An’bal Quijano, Òa
racializa�‹o das rela�›es de poder entre as novas identidades sociais e
geoculturais foi o sustento e a refer�ncia legitimadora fundamental do car‡ter
eurocentrado do padr‹o de poder, material e intersubjetivoÓ (QUIJANO, 2009, p. 107).
A diversidade de ideias, a manifesta�‹o da pluralidade de
epistemes assusta os indiv’duos dessa sociedade causadora do mal-estar,
justamente, porque desestabiliza discursos hegem™nicos e hierarquias estabelecidas
nos processos de domina�‹o. Na tentativa de perceber possibilidades e desvios
diante da sensa�‹o de incapacidade, de paralisia que este cen‡rio imp›e, nos
propomos ao exerc’cio de observar um modo de resist�ncia que se d‡ pela
oralidade do rap. Assim, buscamos
construir uma reflex‹o a partir de uma narrativa que pode ser uma alternativa
para alertar sobre esses tempos n‹o como o fim do mundo, o fim dos caminhos e a
perda das esperan�as, mas como denœncia e resist�ncia na busca de uma sociedade
mais humana, diversa e plural. Ao observarmos o poema oral Os meninos correm, escrito para ser falado, nos detivemos na sua forma,
utilizando o conceito de escala, para perceber uma poŽtica de
resist�ncia.
Escala e a constru�‹o
de sentidos na forma
A escala Ž um conceito que veio da
geografia e foi desenvolvido na antropologia lingu’stica e na sociolingu’stica,
na tentativa de buscar outras formas de observa�‹o dos objetos. Para
o sociolinguista Jan Blommaert: ÒTeorizar envolve a explora�‹o de novas imagens
e met‡foras, capazes de nos ajudar a imaginar objetos de forma distinta, a
v�-los como diferentes, objetos que exigem abordagens anal’ticas diferentesÓ (BLOMMAERT,
2007, p. 1).
Assim, a
partir da compreens‹o do conceito de escala, apresentado na obra Scale – Dicourse and Dimensions of
Social of Social Life[88]
pelos organizadores E. Summerson Carr e Michael Lempert, podemos dizer que se
trata da forma�‹o do sentido que possu’mos de real e de concretude, pois a
no�‹o de escala n‹o possui um car‡ter
hegem™nico. Os autores salientam que o mundo material n‹o Ž prŽ-configurado, h‡
na materialidade do mundo um complexo trabalho de constru�‹o semi—tica,
envolvendo signos lingu’sticos e n‹o lingu’sticos. (CARR; LEMPERT, 2016). Entre
outras acep�›es, a no�‹o de escala
contribui para o entendimento de que a realidade n‹o Ž est‡tica, buscando
entender as coisas, os processos, os acontecimentos, a hist—ria, a sociedade
como elementos din‰micos. Esta constru�‹o n‹o-est‡tica amplia a possibilidade
de nos relacionarmos com o objeto de an‡lise. (CARR; LEMPERT, 2016). A
compreens‹o de escala sugere
movimento e an‡lise – ampliar os referenciais e se manter aberto se torna
uma necessidade de um trabalho escalar. Movimento escalar Ž um movimento
produtor de sentidos, sendo que o nosso processo de significa�‹o Ž sempre
escalar, uma vez que para atribuir significados daquilo que Ž real ou material
sempre fazemos proje�›es (CARR; LEMPERT, 2016). As met‡foras, por exemplo, s‹o
uma proje�‹o escalar. Produ�‹o de narrativas s‹o sempre proje�›es escalares.
Fen™menos escalares s‹o sempre fen™menos relacionais, assim toda empreitada
relacional Ž comparativa. Analogias, totaliza�›es, sistemas classificat—rios e
estere—tipos s‹o relacionais, portanto escalares. O sentido n‹o Ž definitivo,
assim, ao nos lan�armos ao exerc’cio de propormos novas proje�›es, obteremos
resultados completamente diferentes. Para os autores Òn‹o
h‡ escalas ideologicamente neutras, e pessoas e institui�›es que se destacam
nos exerc’cios escalares geralmente refor�am as distin�›es que os ordenaramÓ (CARR; LEMPERT, 2016, p. 3. Tradu�‹o nossa).[89]
Pensando, ent‹o, na rela�‹o entre as imagens disparadas
pelo poema Os meninos correm de Pacha Ana e as que constru’mos a partir
do contato com a obra de Achile Mbembe, realizamos um exerc’cio de an‡lise da
estrutura do poema, dentro de uma perspectiva escalar. Como defendem Carr e
Lempert (2016, p. 3. Tradu�‹o nossa):
as escalas nas quais os atores sociais se baseiam para organizar,
interpretar, orientar e agir em seus mundos n‹o s‹o dadas, mas s‹o constru’das –
e um tanto trabalhosas. Escalar n‹o Ž simplesmente assumir ou afirmar
ÒgrandezaÓ ou ÒpequenezÓ por meio de c‡lculo. Pelo contr‡rio, [...] as pessoas
usam a linguagem para dimensionar o mundo ao seu redor. [...]. Embora as coisas
possam ser grandes, por analogia, a cria�‹o de escala sempre implica em
distin�›es, entre a grandeza da costela de uma baleia e a pequenez de um
m‡rmore, por exemplo. Como um esfor�o inerentemente relacional e comparativo, o
dimensionamento pode assim conectar e atŽ confinar o que Ž geograficamente,
geopoliticamente, temporalmente ou moralmente Òpr—ximoÓ, ao mesmo tempo em que
distingue essa proximidade da que est‡ ÒdistanteÓ. Da mesma forma, hierarquias
em escala s‹o os efeitos dos esfor�os para classificar, agrupar e categorizar
muitas coisas, pessoas e qualidades em termos de graus relativos de eleva�‹o ou
centralidade. Por exemplo, pense em como uma entidade ou dom’nio parece
abranger outro, como em mapas que subordinam localidades de ordem superior, unidades
administrativas ou do modo como se pensa os estados-na�‹o, as comunidades
ÒacimaÓ.[90]
Os meninos correm –
escala e necropol’tica – um di‡logo poss’vel.
Os meninos correm
Os meninos correm,
Os meninos correm
almejando tudo,
almejando o mundo,
pensando que a
pressa Ž a solu�‹o pra tudo,
mas n‹o Ž n‹o.
Eles correm por
medo,
correm em segredo,
correm na
contram‹o.
Os meninos correm
por causa do atraso, correm pra n‹o ser um fardo, e isso nem Ž um caso isolado.
Os meninos correm,
alguns porque
gostam,
outros s— porque
precisam mesmo.
Inclusive, os
meninos correm mas nem todos chegam mais cedo.
Ali‡s, alguns nem
chegam.
Isso porque os
meninos correm, mas a pol’cia tambŽm
e todo dia quando
ele sai, a m‹e pede amŽm
pra que nada, nem
ninguŽm
tire o seu maior bem.
Ela reza:
ÒOromima,
oromimayor, oromimayor, iabadoai�i�o
Oromima,
oromimayor, oromimayor, iabadoai�, i�o
Ai, ai oxum, ora
i�
Ai, ai oxum, ora
i�Ó
Isso porque os
meninos correm,
mas se for de
madrugada e ele for preto
j‡ Ž suspeito!
Parece que ser
escuro Ž defeito.
Os meninos correm
da bala, da vala, da farda,
COMO SE AINDA
EXISTISSE SENZALA!
Se vive atŽ os 21,
Ž lucro.
Isso Ž culpa de um
sistema fajuto,
onde alguns
meninos correm e chegam,
outros, deixam
m‹es em luto.
(Pacha Ana, fevereiro de 2017)
Pacha Ana, fazendo uso do seu lugar de fala –
entendendo que lugar de fala tambŽm Ž a fala de lugar –, por meio da
oralidade, olha para uma popula�‹o que se situa ˆ margem, para atravŽs do afeto
nos aproximar de corpos silenciados, identificados como ÒsuspeitosÓ por um
estado de exce�‹o permanente. Os meninos
correm traz uma possibilidade de reflex‹o sobre os processos de retirada de
direitos, exterm’nios de popula�›es racializadas[91] o poder sobre a vida,
para construir, assim, um contra discurso. Mbembe (2016, p. 123) afirma que:
Òmatar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos
fundamentais. Exercitar a soberania Ž exercer controle sobre a mortalidade e
definir a vida como a implanta�‹o e manifesta�‹o de poderÓ. E ainda diz que Òa
soberania Ž a capacidade de definir quem importa e quem n‹o importa, quem Ž
Ôdescart‡velÕ e quem n‹o ŽÓ (MBEMBE, 2016, p. 135), sendo que t�m se
caracterizado como descart‡veis os seres humanos do sul global, ou seja, os n‹o
europeus, que foram classificados como inferiores a partir de um processo de
naturaliza�‹o de rela�›es sociais que visavam atender os poderosos interesses
articulados com a consolida�‹o do capitalismo/colonialismo/patriarcado.
No poema, a utiliza�‹o da palavra ÒcorremÓ, numa escala de
repeti�‹o, sugere distintas imagens, que percorrem desde a leveza do simples
ato de correr, do imagin‡rio de meninos que flertam com a inf‰ncia e a
liberdade, atŽ o peso da realidade de alguns corpos que precisam correr para
n‹o morrer ou que s‹o mortos enquanto est‹o correndo. Pacha Ana, ao trazer uma
ora�‹o/sauda�‹o de matriz africana, construindo uma alus‹o a vozes das m‹es
pretas, utiliza proje�›es escalares de ancestralidade, racialidade,
temporalidade, espiritualidade. Demarca um lugar, sugere um ritmo, uma
sonoridade, invoca corpos portadores de saberes ancestrais, tradi�›es orais,
propondo olhares para uma cultura que vem sendo historicamente perseguida,
constantemente desvalorizada e violentamente silenciada. Grosfoguel (2014)
afirma que a expans‹o colonial europeia significou o genoc’dio e o
epistemic’dio de ind’genas, africanos e de mulheres. AlŽm disso, o colonialismo
realizou um enorme memoric’dio, sendo que a estrutura de conhecimento que
domina as universidades de todo o mundo est‡ atrelada ˆ estrutura imperialista
colonial de poder. O homem ocidental, europeu, branco, heterossexual, crist‹o,
Ž quem decide o que Ž o melhor para as demais popula�›es de todo mundo. Nesses
processos, ele despreza, invisibiliza, destr—i e assassina sociedades inteiras,
suas culturas e seus saberes. Segundo Grosfoguel, autores homens, brancos, de
cinco pa’ses formam os c‰nones da ci�ncia desenvolvida em qualquer universidade
do mundo. Isso revela um racismo e um sexismo epistemol—gico iniciado com a
modernidade e o colonialismo. Dessa forma, para descolonizar o pensamento Ž
necess‡rio dialogar com uma diversidade epist�mica, buscando enriquecer a
maneira de ver o mundo. Ouvir a voz dos colonizados, estabelecer di‡logos com
saberes e epistemes ancestrais constituem caminhos poss’veis para a
descoloniza�‹o do conhecimento. O pensamento e os saberes compartilhados por
Pacha Ana, uma mulher negra, por meio do poema Os meninos correm, se
colocam na contram‹o da coloniza�‹o e da permanente colonialidade. A
ancestralidade evocada pela poetisa nos faz dialogar com mœltiplas epistemes,
mœltiplos saberes, sobretudo saberes que foram esmagados pela modernidade.
Pacha Ana se coloca na contram‹o da sociedade do mal-estar n‹o por dar voz ˆ
ancestralidade, mas por aprender com ela e, assim, tornar-se/ser tambŽm essa
ancestralidade.
No trecho em que, optando por destacar o verso com letras
maiœsculas, sugere um grito, uma aten�‹o maior: ÒCOMO SE AINDA EXISTISSE
SENZALA!Ó observamos uma escala emocional-ir™nica e hist—rica, que exp›e uma
indigna�‹o pulsante, descrevendo o cen‡rio que questiona. Em outro fragmento
identificamos escalas classificat—rias e de ironia: Òmas se for de madrugada e
ele for preto / j‡ Ž suspeito! / Parece que ser escuro Ž defeitoÓ, que
evidencia a pol’tica de exterm’nio de corpos negros. Numa escala cr’tica, o trecho ÒSe vive atŽ os 21, Ž lucroÓ, situa a
realidade destes corpos que est‹o ˆ margem, sinalizados, marcados para morrer.
Pudemos identificar ainda outras proje�›es escalares dentro do poema, como por
exemplo: escalas de indigna�‹o, como no trecho ÒIsso Ž culpa de um sistema
fajuto, onde alguns meninos correm e chegam, outros, deixam m‹es em lutoÓ;
metaf—ricas, como em Òcorrem na contram‹oÓ e Òcorrem para n‹o ser um fardoÓ;
bem como pol’tico-cr’ticas, em ÒEles correm por medo, correm em segredoÓ e
ÒIsso porque os meninos correm, mas a pol’cia tambŽmÓ.
ÒA cada vinte e tr�s minutos um jovem negro Ž assassinado
no BrasilÓ[92].
ÒExŽrcito dispara 80 tiros em carro de fam’lia no Rio e mata mœsicoÓ[93]. Ò75% das v’timas de homic’dio
no Pa’s s‹o negrasÓ[94]. ÒAssassinatos de jovens
negros no Brasil aumentam 429% em 20 anosÓ[95]. Quando nos deparamos com alguns dados sobre a viol�ncia e a
criminalidade no Brasil, colocamo-nos diante de informa�›es alarmantes, tanto
pelo conteœdo, quanto pela dimens‹o midi‡tica a qual esse conteœdo Ž submetido.
Que corpos ÒmerecemÓ viver? Que corpos ÒmerecemÓ morrer? Quem tem o poder de
decis‹o? O poema Os meninos correm discute essas quest›es e exp›e
poss’veis respostas, ainda que numa perspectiva ir™nica, a essas perguntas.
Na obra Discurso sobre o
Colonialismo, AimŽ CŽsaire reflete sobre os diversos ÒnazismosÓ
cometidos contra povos n‹o europeus, sobretudo os que existiram durante todo o
per’odo de coloniza�‹o e escraviza�‹o das popula�›es negras, apontando que
esses ÒnazismosÓ sempre foram aceitos pela popula�‹o europeia:
no fundo o que n‹o Ž perdo‡vel em Hitler n‹o Ž o crime em si, o
crime contra o homem, n‹o Ž a humilha�‹o em si, sen‹o o crime contra o homem
branco, Ž a humilha�‹o do homem branco, e haver aplicado na Europa
procedimentos colonialistas que atŽ agora s— concerniam aos ‡rabes da ArgŽlia,
aos coolies da êndia e aos negros da çfrica (CƒSAIRE, 2010, p. 21).
Dialogando com CŽsaire e Frantz Fanon, Mbembe (2016)
observa que o estado de exce�‹o n‹o foi fundado com o nazismo, pois ele existiu
anteriormente para as popula�›es negras. A escravid‹o moderna seria um exemplo
de estado de exce�‹o, ou melhor, um estado de terror duradouro. E esse terror
duradouro, identificado por Mbembe, simboliza a realidade de boa parte dos
negros e das negras brasileiras. AtravŽs do cruzamento dos dados do IBGE sobre
a popula�‹o negra no Brasil e o poema de Pacha Ana, podemos afirmar que os
negros vivem em um estado de exce�‹o cont’nuo, um mundo de morte, de mortos-vivos,
que, segundo o autor, n‹o pode ser explicado sen‹o pela perspectiva da
necropol’tica. As novas formas de matar, de fazer de vivos mortos-vivos, n‹o
podem ser elucidados pelo biopoder, uma vez que, esta quest‹o Ž uma pol’tica de
morte, um ideal de exterm’nio que acompanha as popula�›es negras desde a
coloniza�‹o.
A necessidade de olharmos para os corpos
negros Ž ressaltada quando olhamos os dados, por exemplo, divulgados pelo Atlas
da Viol�ncia 2019, produzido pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econ™mica
Aplicada), e que publica estudos e dados relacionados ao ’ndice de viol�ncia no
Brasil. Segundo este estudo:
Em 2017, 75,5% das v’timas de homic’dios foram
indiv’duos negros (definidos aqui como a soma de indiv’duos pretos ou pardos,
segundo a classifica�‹o do IBGE, utilizada tambŽm pelo SIM), sendo que a taxa
de homic’dios por 100 mil negros foi de 43,1, ao passo que a taxa de n‹o negros
(brancos, amarelos e ind’genas) foi de 16,0. Ou seja, proporcionalmente ˆs
respectivas popula�›es, para cada indiv’duo n‹o negro que sofreu homic’dio em
2017, aproximadamente, 2,7 negros foram mortos (IPEA, 2019, p. 49).
Correr brincando, correr para chegar ˆ
escola, correr para pegar o ™nibus, correr por esporte, correr para n‹o morrer,
correr para n‹o ser eliminado. Pacha Ana nos conecta com O Genoc’dio do negro no Brasil, uma das primeiras obras escritas por um
intelectual negro brasileiro, visando o combate ao racismo e ˆ discrimina�‹o
racial em nosso pa’s. Abdias do Nascimento (2016) detalha como, historicamente,
no Brasil, foi se formando e se construindo um processo de um Òracismo
mascaradoÓ. Segundo ele, o processo come�a com a rejei�‹o da hist—ria dos
africanos e seus descendentes, passando pelo mito da benevol�ncia do branco
portugu�s para com o negro e das poss’veis Òcontribui�›esÓ do branco civilizado
para com o negro ÒincivilizadoÓ. Para Abdias, na constru�‹o desse Òracismo
mascaradoÓ, houve atŽ quem dissesse que a escravid‹o e outras atrocidades
cometidas contra o negro, seria um mal necess‡rio para o processo de
civiliza�‹o dos mesmos. Neste ponto, voltamos ˆ reflex‹o proposta por CŽsarie
(2010), de que ao longo do processo de coloniza�‹o sempre foi permitido e
aceito assassinar n‹o europeus, sobretudo, negros.
Influenciado por Frantz Fanon, Nascimento
(2016) denuncia a exist�ncia do racismo no Brasil, enfatizando a desvaloriza�‹o
da mulher e do homem negro em nosso pa’s, o branqueamento racial e cultural, a
persegui�‹o ˆ cultura africana, a bastardiza�‹o da cultura afro-brasileira e
todas as estratŽgias de genoc’dio do negro e sua cultura em terras tupiniquins.
Segundo o autor, o racismo camuflado existente no Brasil Ž muito mais nocivo
que o Òracismo declaradoÓ existente na sociedade estadunidense, pois Ž
sustentado pelo mito da Òdemocracia racialÓ; o racismo ˆ brasileira se esconde,
se camufla, finge n‹o existir. O que dificulta a cria�‹o de mecanismos para
combat�-lo, contribuindo para um estado de terror duradouro para as popula�›es
negras.
Walter Mignolo afirma que a colonialidade era a pauta
oculta ou o lado ÒescuroÓ da modernidade. Segundo o autor, pensar o conceito de
colonialidade j‡ Ž um ato descolonizador, pois Ž preciso partir de um olhar
decolonial para observar a barb‡rie existente por tr‡s do discurso
civilizat—rio. ÒAssim, ocultadas por tr‡s da
ret—rica da modernidade, pr‡ticas econ™micas dispensavam vidas humanas, e o
conhecimento justificava o racismo e a inferioridade de vidas humanas, que eram
naturalmente consideradas dispens‡veisÓ (MIGNOLO, 2017, p. 1). Dessa
forma, a partir da vis‹o de Mignolo, podemos pensar que por tr‡s do discurso de
progresso e de desenvolvimento, est‹o pr‡ticas discursivas e representa�›es que
tiram vidas, dizimam mem—rias e exterminam culturas. Autores decoloniais como
Ram—n Grosfoguel, An’bal Quijano e Walter Mignolo v‹o concordar que a principal
tarefa dos te—ricos decoloniais Ž quebrar com a colonialidade existente no
mundo, a colonialidade est‡ travestida de globaliza�‹o/modernidade:
H‡ um fato na cultura de toda a AmŽrica, e na da AmŽrica Latina em
particular, que envolve o mundo inteiro hoje em sua globalidade e que precisa
ser reconhecido, questionado, debatido e evacuado: a colonialidade do poder.
Esse Ž o primeiro passo para a democratiza�‹o da sociedade e do Estado; da
reconstitui�‹o epistemol—gica da modernidade; da busca por uma racionalidade
alternativa (QUIJANO, 2014, p. 767. Tradu�‹o nossa)[96]
Quebrar com a colonialidade significa utilizar a
diversidade epist�mica.
Em ambos os casos, a geopol’tica e a corpo-pol’tica (entendidas
como a configura�‹o biogr‡fica de g�nero, religi‹o, classe, etnia e l’ngua) da
configura�‹o de conhecimento e dos desejos epist�micos foram ocultadas, e a
�nfase foi colocada na mente em rela�‹o ao Deus e em rela�‹o ˆ raz‹o. Assim foi
configurada a enuncia�‹o da epistemologia ocidental, e assim era a estrutura da
enuncia�‹o que sustentava a matriz colonial. Por isso, o pensamento e a a�‹o
descoloniais focam na enuncia�‹o, se engajando na desobedi�ncia epist�mica e se
desvinculando da matriz colonial para possibilitar op�›es descoloniais –
uma vis‹o da vida e da sociedade que requer sujeitos descoloniais,
conhecimentos descoloniais e institui�›es descoloniais (MIGNOLO, 2017, p. 6).
Concluindo: os meninos ainda correm
Utilizando o conceito de escala para realizar um exerc’cio
de an‡lise do rapper poema oral Os meninos correm, em di‡logo com os conceitos de necropol’tica e
decolonialidade, acreditamos que o poema se apresenta como uma resist�ncia ao
mal-estar que atravessa a nossa sociedade. Como, por exemplo, as possibilidades
apresentadas de diferentes imagens para uma mesma palavra ÒcorremÓ ampliam o
nosso olhar, nossa forma de nos relacionarmos com a obra e, principalmente, ao
que ela convoca, possibilitando questionamentos, propondo uma desestabiliza�‹o
de sentidos prŽ-concebidos.
A poetisa rapper Pacha
Ana prop›e um esfor�o de denunciar essa necropol’tica
que atravessa o tempo presente, apresentando uma forma de poema falado que
questiona as normas criadas ou constru’das culturalmente para excluir,
subalternizar e dar prosseguimento ˆ l—gica colonial que sustenta o atual
padr‹o de poder mundial. A partir de Os meninos correm, entendemos que Ž
poss’vel ressignificar as normas e os discursos que qualificam o mal-estar,
revelando que nada Ž eterno, absoluto e universal.
Se a colonialidade, as ideias neoliberais, o machismo, o
racismo, a heterossexualidade compuls—ria nos obriga a ter determinados
comportamentos, se as categorias de domina�‹o constru’das pelo homem branco
(ocidental, hŽtero, crist‹o) nos faz conviver com esse mal-estar, o poema tal
como novas/outras epistemes pode apoiar na constru�‹o de questionamentos aos
discursos e as pr‡ticas de domina�‹o hegem™nicas. Se as categorias de domina�‹o
foram socialmente constru’das, se narrativas contam e constroem narrativas,
podemos construir contranarrativas, outros discursos que tragam problemas que nos
ap—iem em nossos processos de resist�ncia. N‹o se trata de Òdar vozÓ aos corpos
oprimidos e sim de pluralizar nossas refer�ncias e dialogar com diferentes
epistemologias, n‹o apenas como fonte de pesquisa, mas como produtora de
saberes que historicamente foram desconsiderados. Descolonizar Ž aprender e
falar com o outro subalternizado. As tens›es propostas aqui tiveram como
inten�‹o sulear a inquieta�‹o de
pensarmos outros cen‡rios poss’veis e criar possibilidades de desestabilizar o
pensamento hegem™nico que insiste em se manter como verdade œnica e curso
natural da hist—ria. Criar resist�ncia Ž tambŽm desestabilizar o olhar colonial
que assola o Brasil, determinando os espa�os que as popula�›es negras devem
ocupar na sociedade.
Deste modo, o exerc’cio de an‡lise do poema Os meninos correm, combinando o conceito
de necropol’tica de Achile Mbembe com a no�‹o de escala para observar estas obras que povoam a oralidade urbana,
podem trazer ˆ tona a constru�‹o de uma contra narrativa. Neste caso, a
resist�ncia est‡ contida tambŽm na forma do poema refor�ando a possibilidade de
cria�‹o de outros modos de exist�ncia.
Refer�ncias
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[Recebido: 14 out 2020 – Aceito: 19
set 2020]
[79] Graduado
em Artes C�nicas (UNESPAR-FAP). Mestrando em Estudos de Cultura Contempor‰nea,
Linha de Pesquisa em PoŽticas Contempor‰neas (PPGECCO-UFMT). Membro da Solta
Cia de Teatro de Cuiab‡ – MT, do Coletivo ˆ Deriva e do Grupo de Pesquisa
Artes H’bridas: intersec�›es, contamina�›es e transversalidades. Professor
colaborador da MT Escola de Teatro/UNEMAT. Bolsista Capes.
[80] Graduada em
Comunica�‹o Social – R‡dio e TV (UFMT). Mestranda em Estudos de Cultura
Contempor‰nea, Linha de Pesquisa em PoŽticas Contempor‰neas (PPG-ECCO/UFMT),
Membro do Grupo de Pesquisa Artes H’bridas: intersec�›es, contamina�›es e
transversalidades, do In-Pr—prio Coletivo e Coordenadora das çreas TŽcnicas da
MT Escola de Teatro/UNEMAT. Bolsista Capes.
[81] Graduado em Hist—ria pela
Universidade Federal do Rec™ncavo da Bahia. Mestre em Hist—ria pela
Universidade Federal da Bahia. Cursa doutorado em Hist—ria na UFMT. Professor
EBTT de Hist—ria no Instituto Federal do Mato Grosso.
[82] Pesquisadora Associada do
Programa de P—s-Gradua�‹o em
Estudos de Cultura Contempor‰nea da UFMT. Doutora em Artes Ci�ncias pela USP.
[83] Slams ou poetry slams s‹o
encontros de poesia falada (spoken word) e perform‡tica, geralmente em forma de
competi�‹o, em que um jœri popular, escolhido espontaneamente entre o pœblico,
d‡ nota aos slammers (os poetas), levando em considera�‹o principalmente dois
critŽrios: a poesia e o desempenho.
[84] Este artigo teve in’cio na
disciplina Performatividades discursivo-afetivas
do mal-estar na contemporaneidade,
ofertada pela professora doutora Branca Falabella Fabr’cio, no Programa de P—s-gradua�‹o em
Estudos de Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGEL-UFMT).
[85] Nasceu em Rondon—polis (MT).
Seu nome art’stico (Pacha) Ž derivado do Quechua, a l’ngua antiga dos povos incas e prŽ-incas, significa ÒmundoÓ ou
ÒuniversoÓ. Pacha tem uma grande atua�‹o no segmento da poesia, Ž tricampe‹ do slam
estadual mato-grossense, foi semifinalista na Copa Brasileira de Poesia –
SlamBR em 2017 e finalista em 2018. Atualmente, em turn� pelo Sesc no projeto
ÒA Arte da PalavraÓ, viajando por 7 estados e 14 cidades brasileiras, com o
espet‡culo ÒFaces: A Poesia Negra Em Mim, Em N—sÓ. Em suas letras, aborda o
empoderamento da mulher, do povo preto, a espiritualidade no AxŽ e suas
viv�ncias di‡rias. Em 2017,
foi contemplada no edital da SEC de Cultura de Cuiab‡ que viabilizou seu
primeiro disco ÒOmo Oy‡Ó, lan�ado em setembro de 2018 (Texto fornecido pela
pr—pria artista).
[86]A cr’tica ou o pensamento decolonial ou descolonial Ž uma
tentativa de incluir a AmŽrica no pensamento p—s-colonial, uma vez que os
autores p—s-coloniais n‹o estudavam ou n‹o se interessavam pelos estudos dos processos
de coloniza�‹o e domina�‹o espanhola e portuguesa na AmŽrica. A aten�‹o da
cr’tica p—s-colonial se restringia aos pa’ses de l’ngua inglesa, mais
especificamente a êndia e alguns pa’ses do Oriente MŽdio que foram colonizados
pela Inglaterra. Diferente do pensamento p—s-colonial, a cr’tica decolonial vai
levar em considera�‹o o di‡logo com mœltiplas epistemes, buscando o pluralismo
de ideias e a diversidade epistemol—gica. A proposta decolonial Ž que se insira
a AmŽrica Latina nas discuss›es p—s-coloniais, mas, mais do que isso, que se
parta da pr—pria AmŽrica Latina e de sua diversidade epistemol—gica para
entender suas quest›es. Para Grosfoguel (2014), existe uma pluralidade de
vis›es e diversas formas de pensar no interior da cr’tica decolonial, afirmando
que se fosse œnica ou se existisse uma œnica forma de pensar, seria mais uma
reprodu�‹o do pensamento colonial, como em certa medida, foi a cr’tica
p—s-colonial. Sendo assim, n‹o existe um modelo œnico na cr’tica decolonial,
muito menos a nega�‹o ou o desmerecimento de algumas epistemologias europeias
importantes para compreender a quest‹o da domina�‹o e da subalternidade.
[87] Os griots s‹o considerados guardi›es da hist—ria e da
mem—ria que por meio da
oralidade transmitem suas hist—rias e seus
conhecimentos. Muitos s‹o cantadores.
[88] Escala
– Discurso e Dimens›es do Social da Vida Social
(Tradu�‹o nossa).
[89] Òthere are no
ideologically neutral scales, and people and institutions
that come out Òon topÓ of scalar exercises ofen reinforce the distinctions that
so ordained them.Ó
[90] Òthat the
scales that social actors rely upon to organize, interpret, orient, and act in
their worlds are not given but made—and rather laboriously so. For to scale is not simply to assume or assert ÒbignessÓ or
ÒsmallnessÓ by way of a ready-made calculus. Rather, [...] people use language to scale the
world around them. [...]. Although
things can be made big though analogy, scale-making always also entails drawing
distinctions, between the bigness of a whaleÕs rib and the smallness of a
marble, for instance. As an inherently relational and comparative endeavor,
scaling may thus connect and even confate what is geographically,
geopolitically, temporally, or morally ÒnearÓ while simultaneously
distinguishing that nearness from that which is ÒfarÓ. Similarly, scaled
hierarchies are the efects of eforts to sort, group, and categorize many
things, people, and qualities in terms of relative degrees of elevation or
centrality. Tink, for example, of the way one entity or domain seems to encompass
another, as with maps that subordinate localities within higher order
administrative units, or of the way nation-states are commonly thought to hover
ÒaboveÓ communities.Ó
[91] Termo usado por Quijano (2009) ao denunciar a classifica�‹o social a
partir da ideia de ra�a como principal motor do atual padr‹o de poder mundial.
[92] Dispon’vel
em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295.
Acesso em:
10 nov.
2019.
[93]Dispon’vel em:
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/04/militares-do-exercito-matam-musico-em-abordagem-na-zona-oeste-do-rio.shtml. Acesso em: 10 nov. 2019.
[94] Dispon’vel
em: https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,75-das-vitimas-de-homicidio-no-pais-sao-negras-aponta-atlas-da-violencia,70002856665. Publicada dia 05/06/2019.
Acesso em:
10 nov.
2019.
[95] Dispon’vel em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/assassinatos-de-jovens-negros-no-brasil-aumentam-429-em-20-anos/. Publicada dia 17/04/2019. Acesso: 10 nov. 2019.
[96] ÒHay um hecho en la cultura de AmŽrica toda, y enla de AmŽrica Latina en
particular, que implica a todo el mundo de hoy em suglobalidad y que precisa ser reconocido,
puesto en cuesti—n,
debatido y evacuado: la colonialidad del poder. Ese es el primer paso endirecci—n de la democratizaci—n
de la sociedad
y del Estado; de la reconstituci—n epistemol—gica de la modernidad; de la bœsqueda
de una racionalidad alternativa.Ó