A Literatura
de Cordel como reivindica�‹o do direito ˆ Literatura
Cordel Literature as a claim to the right
to Literature
Let’cia Fernanda da Silva Oliveira[19]
https://orcid.org/0000-0003-1821-37
Resumo: O presente artigo
prop›e a discuss‹o de dois cŽlebres ensaios do soci—logo Antonio
Candido analisando a Literatura de Cordel e a fun�‹o social que esta
desempenha. As reflex›es propostas pelo cr’tico liter‡rio abordam importantes
quest›es como as desigualdades sociais e a literatura como forma de humanizar o
homem. Sendo sempre associada ˆs belas artes, a literatura foi constantemente
reafirmada como uma espŽcie de saber elevado e forma de edifica�‹o do homem,
mas o que pretendemos demonstrar Ž que mesmo nas culturas populares, como a
Literatura de Cordel, quando os poetas tomam a voz e reivindicam a literatura
como forma de frui�‹o para as camadas mais populares, este direito Ž acessado
por todos e n‹o apenas pelas classes mais elevadas. Abordando especificamente o
contexto em que esta literatura surge no Brasil, o come�o do sŽculo XX,
demonstramos como os poetas foram fundamentais para que o seu pœblico de
leitores/ouvintes pudesse desfrutar da arte e usufru’-la como um bem.
Palavras-chave: Literatura de Cordel; Antonio Candido; Direito ˆ literatura; Frui�‹o; Humaniza�‹o.
Abstract: This article
proposes the discussion of two
renowned essays written by the
sociologist Antonio Candido
in contraposition to Cordel
Literature and the social role that it performs. The thoughts proposed by the
literary critic address important questions such as social inequities and the literature as a way to humanize men. Always associated with the fine arts,
literature was constantly reaffirmed as a type of superior knowledge and a form of edifying
men, but what we intend
to demonstrate is that even
in popular cultures, such
as Cordel Literature, when poets own the
voice and reclaim literature as a method of enjoyment for the most popular classes, than this right
is accessed by everyone and
not just by the upper
classes. Addressing specifically
the context in which this literature
emerges in Brazil, the beginning of the
20th century, we intend to demonstrate
how the poets
were fundamental so that their audience
of readers/listeners could enjoy art and
consume it as a good.
Keywords: Cordel Literature; Antonio Candido; Right to literature;
Enjoyment; Humanization.
A literatura como parte
dos direitos humanos
Em seu famoso ensaio ÒO direito ˆ literaturaÓ,
publicado em 2004, Antonio Candido trabalha a
importante quest‹o dos direitos humanos, elencando entre estes o direito ˆ
literatura. Vivendo em tempos de reflex‹o acerca das injusti�as sociais e a
insensibilidade demonstrada frente a essa quest‹o, n‹o parece uma desconex‹o
com a realidade pensar sobre como a literatura pode tambŽm fazer parte dos
direitos humanos. Se acreditamos que precisamos transformar a realidade e
romper com o antigo estado das coisas, seria um debate prof’cuo este que
reflete sobre como a frui�‹o liter‡ria Ž tambŽm um direito. Conceder o acesso ˆ
literatura seria, portanto, mais uma forma de diminuir as desigualdades
sociais.
Como afirma o autor, pensar nos direitos humanos
faz com que consideremos indispens‡vel ao outro aquilo que tambŽm Ž
indispens‡vel para n—s. E ao considerarmos esse pensamento, a literatura Ž mais
um bem a ser reivindicado entre tantos outros tidos como indispens‡veis, ou incompreens’veis, pois esses s‹o
aqueles que n‹o podem ser negados a ninguŽm. S‹o os bens capazes de garantir a
sobreviv�ncia, n‹o apenas f’sica, mas tambŽm mental, espiritual. Para Candido
(2004, p. 173),
O fato Ž que cada Žpoca e cada cultura
fixam os critŽrios da incompressibilidade, que est‹o ligados ˆ divis‹o da
sociedade em classes, pois inclusive a educa�‹o pode ser instrumento para
convencer as pessoas de que o que Ž indispens‡vel para uma camada social n‹o o
Ž para outra.
Esse par‡grafo evidencia que o debate sobre o
acesso ˆ literatura n‹o pode ser desvencilhado da reflex‹o sobre direitos
humanos, pois seriam as classes altas que definiriam o acesso das classes menos
favorecidas ˆs artes, fazendo, ent‹o, com que os direitos humanos fossem
desrespeitados em mais uma de suas vertentes. ƒ importante relembrar e
reafirmar que as elites s‹o sempre vistas como detentoras do saber, em que
est‹o inseridos os indiv’duos que podem criar conhecimentos e, dessa forma,
aumentar ainda mais o pr—prio poder.
ƒ
importante ressaltar ainda que o ensaio de Candido n‹o aborda especificamente a
literatura popular, apresentando exemplos referentes apenas ao ‰mbito can™nico,
mas, ao descrever a sua vis‹o do que Ž a literatura, Ž percept’vel que a sua
defini�‹o abrange textos antes desprezados pelo c‰none. Para o soci—logo,
seriam textos liter‡rios Òtodas as formas de cria�›es de toque poŽtico,
ficcional ou dram‡tico em todos os n’veis de uma sociedadeÓ (CANDIDO, 2004, p.
174). Ent‹o, o autor parte para um debate fundamental de seu ensaio: o fato de
que n‹o h‡ qualquer homem ou povo que consiga viver sem a literatura,
respons‡vel por confirmar a humanidade do homem.
A
literatura seria capaz de humanizar e de ser respons‡vel por enriquecer tanto o
indiv’duo como o grupo. Essa humaniza�‹o Ž definida por Candido (2004, p. 180)
como Òo exerc’cio da reflex‹o, a aquisi�‹o do saber, a boa disposi�‹o para com
o pr—ximo, [...] a percep�‹o da complexidade do mundo e dos seresÓ. Ela Ž um
meio eficaz de transmitir conhecimentos, mas tambŽm uma forma de trazer a
sensibilidade ˆ tona, fazendo com que o indiv’duo seja capaz de refletir e ser
emp‡tico com o outro. Muitas vezes a literatura ser‡ capaz de mostrar uma
realidade diferente daquela em que o leitor vive e, portanto, ser‡ capaz de
transport‡-lo, ainda que momentaneamente, para outro universo.
Candido apresenta, ent‹o, outra importante
reflex‹o e que se faz necess‡ria para os prop—sitos deste artigo. O autor
aponta que a rela�‹o da literatura com os direitos humanos pode ser vista sob
dois vieses: o primeiro, em que a literatura seria uma necessidade universal
que deve ser satisfeita, pois neg‡-la seria Òmutilar a nossa humanidadeÓ
(CANDIDO, 2004, p. 186); o segundo, a literatura atua como um instrumento de
desmascaramento, pelo fato de permitir que haja foco na restri�‹o dos direitos
ou na falta deles. O autor conclui, ent‹o, que nesses dois vieses ela se
encaixaria na luta pelos direitos humanos.
A
divis‹o social brasileira seria respons‡vel por impedir que as classes sociais
mais baixas n‹o possam ter acesso ˆs obras can™nicas da mesma maneira que as
classes dominantes. A literatura escrita acaba sendo um privilŽgio de pequenos
grupos, por diversos motivos, cabendo ˆs classes mais baixas apenas as formas
consideradas populares.
Outro importante ensaio do soci—logo Antonio Candido, e complementar ˆ discuss‹o deste primeiro
que citamos, Ž ÒA literatura e a forma�‹o do homemÓ, publicado em 2002, em que
o autor discute a fun�‹o da obra liter‡ria dentro de uma sociedade e aborda
mais uma vez como se d‡ a humaniza�‹o do homem por meio da literatura.
A literatura, principalmente quando enxergada de
maneira purista, muitas vezes, foi retratada como um meio de edifica�‹o do
homem, mas n‹o Ž esse o sentido que Candido buscou apontar em suas reflex›es,
pelo contr‡rio. A edifica�‹o seria respons‡vel por afastar o homem de uma
humanidade veross’mil, criando a ideia de um funcionamento liter‡rio pr—ximo
aos manuais de virtude e boa conduta. A literatura, ent‹o, seria necess‡ria
para mostrar que existe uma complexidade em torno de si pr—pria.
Paradoxos, portanto, de todo lado,
mostrando o conflito entre a ideia convencional de uma literatura que eleva e edifica (segundo os padr›es oficiais) e a sua poderosa for�a
indiscriminada de inicia�‹o na vida, com uma variada complexidade nem sempre
desejada pelos educadores. Ela n‹o corrompe
nem edifica, portanto; mas, trazendo
livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em
sentido profundo, porque faz viver (CANDIDO, 2002, p. 84-85).
Para Candido, a necessidade universal da
fantasia se manifestaria em todos os instantes poss’veis da vida humana, haja
vista que Ž praticamente imposs’vel pensar em qualquer indiv’duo que passe
muito tempo sem ter qualquer tipo de alegoria em sua mente, ou fora dela. E,
sendo assim, a literatura Ž uma resposta a essa imagina�‹o inesgot‡vel:
A literatura propriamente dita Ž uma das
modalidades que funcionam como resposta a essa necessidade universal, cujas
formas mais humildes e espont‰neas de satisfa�‹o talvez sejam coisas como a
anedota, a adivinha, o trocadilho, o rif‹o. Em n’vel complexo surgem as
narrativas populares, os cantos folcl—ricos, as lendas, os mitos. No nosso
ciclo de civiliza�‹o, tudo isto culminou de certo modo nas formas impressas,
divulgadas pelo livro, o folheto, o jornal, a revista: poema, conto, romance,
narrativa romanceada (CANDIDO, 2002, p. 80).
ƒ poss’vel ent‹o refletir e concluir que a
literatura traz em si muitas possibilidades, sendo capaz de tanto humanizar
quanto desumanizar. O mais importante de todos esses questionamentos sobre a
possibilidade de humanizar de fato, Ž que sendo a literatura indissoci‡vel da
forma�‹o do homem n‹o haveria como ela n‹o causar nenhum tipo de afeta�‹o na
forma�‹o da personalidade de qualquer indiv’duo. Somos afetados pelos textos
liter‡rios de diversas formas, n‹o apenas quando falamos dos textos mais
eruditos. A literatura e a arte est‹o nas pequenas coisas que nos rodeiam,
possibilitam a frui�‹o da realidade de uma maneira necess‡ria em qualquer
civiliza�‹o.
Um breve retrospecto
sobre o surgimento da Literatura de Cordel
Refletindo especificamente sobre a Literatura de
Cordel e o seu advento, n‹o Ž absurdo afirmar que o fazer poŽtico dos poetas
vai de encontro ao pensamento que Candido defende nestes ensaios. Enquanto o
romance moderno foi constru’do sobre bases que priorizam a leitura individual e
o isolamento do leitor, gerado tambŽm a partir da segrega�‹o do romancista,
como afirma Walter Benjamin em ÒO narradorÓ, quando se trata de narrativas
populares, como Ž o cordel, espera-se que o pœblico receptor fa�a o oposto, haja
vista que o consumo dos folhetos esteve sempre estritamente ligado ˆ oralidade
e ˆs leituras pœblicas. O que comprova tambŽm que o autor se equivocou ao
afirmar que a arte de narrar estava em vias de extin�‹o, pois, se para Benjamin
(1994) tais narradores n‹o seriam relevantes dentro da literatura can™nica, a
Literatura de Cordel comprova que os narradores orais sobrevivem e se
reinventam na cultura popular.
ƒ tambŽm importante salientar que n‹o Ž apenas a
cultura popular que Ž influenciada pela literatura can™nica, pois o inverso
tambŽm acontece. A literatura escrita tambŽm se apropria e se alimenta da
literatura popular, o que promove toda uma circularidade de influ�ncias. Ou
seja, os narradores orais continuam sendo indispens‡veis para todo o sistema liter‡rio.
Pensar e pesquisar a Literatura de Cordel Ž, de
certa forma, revisitar alguns conceitos da teoria liter‡ria, como autoria[20] e originalidade[21], e atŽ mesmo repensar o
pr—prio termo literatura. ƒ pertinente considerar que as narrativas
populares foram marginalizadas, sendo atŽ mesmo consideradas como uma espŽcie
de paraliteratura, uma vis‹o bastante preconceituosa, que marginalizava e
rebaixava essas exist�ncias culturais divergentes. Obviamente esse tipo de
postura consistia numa reafirma�‹o da superioridade da literatura considerada
can™nica, ocorrendo isso inclusive dentro do meio acad�mico.
A Literatura de Cordel brasileira se configura
como uma express‹o cultural popular, que traz em si diversos tipos de
sapi�ncias e utilidades. Faz parte de sua estrutura, ent‹o, o resultado de
trocas culturais entre os imagin‡rios das culturas que formaram o Brasil,
fazendo assim com que hist—rias tradicionais vindas do contexto ibŽrico fossem
remodeladas e ganhassem novos contornos especificamente brasileiros. Era comum
que os folhetos fossem usados para retratar fatos que ocorriam exatamente
naquele momento hist—rico. ƒ imposs’vel, portanto, pensar a exist�ncia dessa
tradi�‹o cultural sem pensarmos tambŽm na transmiss‹o oral e na mem—ria
coletiva, pois ambas s‹o de fundamental import‰ncia para que muitas narrativas
ibŽricas n‹o tenham se apagado no decorrer de sŽculos. Pelo contr‡rio,
permaneceram t‹o fortes e ecoando nas mentes nordestinas, que quando s‹o
transpostas pelos cordelistas ganham ainda mais for�a.
Os versos dos cordelistas buscavam aproximar o
pœblico leitor/ouvinte de suas cria�›es, e, por isso, ocorre tambŽm a
identifica�‹o desse pœblico com o que estava ali sendo retratado. Os folhetos
s‹o capazes tanto de trazer hist—rias maravilhosas, em que se vencia a fome e a
seca, ou ent‹o mostravam como fazer o pobre, Òamarelinho[22]Ó, vencer os ricos.
Traziam tambŽm em si os preceitos cat—licos, muito respeitados e seguidos na
Žpoca, respons‡veis por causar uma impossibilidade eterna ˆs mulheres, pois
elas jamais seriam t‹o virtuosas como a Virgem Maria.
As penas ferozes de autores como Leandro Gomes
de Barros[23], o mais importante
cordelista pioneiro, traziam tambŽm em si muitas cr’ticas ao momento social e
hist—rico em que viviam. N‹o se conformavam com a Proclama�‹o da Repœblica, com
os novos impostos, e tambŽm n‹o viam com bons olhos os pequenos progressos femininos
da Žpoca, assim como algumas mudan�as trazidas pela Belle ƒpoque.
Os poetas pioneiros eram descendentes dos
cantadores que os precediam, haja vista que essa Ž uma tradi�‹o secular. Muitos
deles sendo apenas semiletrados, faziam da memoriza�‹o uma grande aliada do
fazer poŽtico, pois diferentemente do que muitas vezes se pensa, n‹o Ž apenas
por inven�‹o que criam seus versos, h‡ um extenso trabalho com a mem—ria na
pr‡tica dos cordelistas. AlŽm disso, traduziam para os versos os anseios
populares, pois tinham contato direto com seu pœblico. N‹o escreviam de maneira
afastada, como o romancista moderno.
[...] o cantador nordestino, herdeiro e
deposit‡rio do fluxo lent’ssimo da tradi�‹o como mem—ria convertida em
descoberta, representa um ponto de chegada de materiais err‡ticos que t�m
atravessado como meteoritos o firmamento de sistemas culturais inclusive muito
distantes, para depois serem reutilizados por uma vontade art’stica em que a
coletividade se realiza com gosto e f—rmulas pr—prias. (PELOSO, 1996, p. 78).
A escolha pela an‡lise desse per’odo em
espec’fico, as primeiras dŽcadas do sŽculo XX, se fez oportuna por ser o
momento em que a import‰ncia dos cordelistas era ainda maior. ConvŽm relembrar
que era um momento em que ainda n‹o existia f‡cil acesso ao r‡dio, e a TV ainda
estava longe de existir. Sendo assim, as œnicas formas de entretenimento e
informa�‹o que existiam de maneira escrita eram, respectivamente, os livros e
os jornais. Cabia aos poetas transpor esses textos para versos, pois somente
assim a popula�‹o poderia ter acesso a tais conhecimentos.
O fato de os folhetos serem feitos com um
material barato, para serem estendidos nas feiras, fez tambŽm com que fosse uma
literatura menos afastada do seu pœblico leitor/ouvinte do que a literatura
can™nica, que tem como caracter’stica o leitor solit‡rio. AlŽm disso, ainda que
a maior parte da popula�‹o fosse analfabeta, por se tratar de uma literatura
oral, feita para ser lida em voz alta, todos podiam ter acesso a essas
hist—rias, n‹o mais apenas aqueles que eram os detentores do saber, os que
sabiam ler.
O cordel ˆ luz de
Candido
ƒ poss’vel pensar a problem‡tica que envolve as
reflex›es propostas por Antonio Candido no contexto
da Literatura de Cordel interpretando, ent‹o, os cordelistas como verdadeiros
protagonistas de uma extensa reivindica�‹o do direito ˆ literatura. Cumpriam,
no contexto em que estavam inseridos, o papel de atores sociais, sendo de
fundamental import‰ncia para garantir que a popula�‹o pudesse alcan�ar a
literatura e a frui�‹o, direitos que antes lhes eram negados, por diversos
motivos.
Ent‹o, se a literatura can™nica n‹o pode ser
aproveitada plenamente por todas as camadas da popula�‹o, Ž por meio dos
processos criativos dos poetas e as suas habilidades de transposi�‹o de hist—rias
que a frui�‹o ser‡ alcan�ada. Sendo o acesso a livros dif’cil, seja pela
linguagem ou pelo valor financeiro, ent‹o seria por meio de folhetos de cordel
que a imensa maioria da popula�‹o nordestina conseguiria conhecer muitas
narrativas e preencher a sua pr—pria necessidade de fantasia. Mais do que nunca
a literatura passa a ser uma forma de conhecimento e n‹o apenas de
divertimento, pois os versos dos cordelistas s‹o capazes de levar o pœblico
leitor/ouvinte a lugares inimagin‡veis, bem como trazer not’cias do que
acontecia no Brasil e no mundo. Preenche, ent‹o, o que Antonio
Candido assinala como a necessidade universal de fantasia.
No œltimo t—pico de ÒO direito ˆ literaturaÓ,
Candido (2004, p. 191) conclui que
a luta pelos direitos humanos abrange a
luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes
n’veis da cultura. A distin�‹o entre cultura popular e cultura erudita n‹o deve
servir para justificar e manter uma separa�‹o in’qua, como se do ponto de vista
cultural a sociedade fosse dividida em esferas incomunic‡veis, dando lugar a
dois tipos incomunic‡veis de fruidores. Uma sociedade justa pressup›e o
respeito aos direitos humanos, e a frui�‹o da arte e da literatura em todas as
modalidades e em todos os n’veis Ž um direito inalien‡vel.
Baseando-nos neste par‡grafo, Ž poss’vel
estabelecer que, ainda que ao elaborarem seus versos e que isso fa�a parte de
uma ampla reivindica�‹o do que aqui chamamos de direito ˆ literatura, essa
reivindica�‹o n‹o poderia se encerrar apenas na Literatura de Cordel. ƒ
poss’vel afirmar que, dentro do contexto em que escolhemos analisar aqui, a
exclus‹o era inevit‡vel, justamente por se tratar de um contexto em que a
popula�‹o nordestina estava extremamente desfavorecida frente ao Sul do pa’s,
que abrigava a capital do Brasil.
Ao trazer o debate sobre o Regionalismo, em ÒA
literatura e a forma�‹o do homemÓ, Candido (2002) demonstra que a literatura
pode ser usada tanto para humanizar quanto para desumanizar, e com a Literatura
de Cordel isso n‹o seria diferente. Um grande exemplo Ž que as mulheres muitas
vezes foram grandes v’timas das cr’ticas dos cordelistas, pois o que se cobrava
delas eram posturas inating’veis. Uma mulher digna deveria se espelhar em
Maria, a virgem m‹e de Jesus, Cristo, a mulher reconhecida por Deus como
perfeita. Isso pode ser visto em ÒOs mart’rios de GenovevaÓ (ATAêDE, s. d., p.
2-3):
Genoveva era dotada
De intelig�ncia e engenho
Nas fei�›es dela se lia
O mais perfeito desenho
A natureza em orn‡-la
Se esmerou e fez empenho
AlŽm dessas qualidades
Em tudo era preciosa
Modesta e trabalhadora
Cort�s e religiosa
Gra�as a educa�‹o
De sua m‹e extremosa
Quando estava em ora�›es
Ajoelhada entre os pais
Parecia ser um anjo
Das regi›es divinais
Que tinha baixado a terra
Para exemplo dos mortais.
Se ela n‹o figura nos versos como modelo para
todas as mulheres, ir‡ lhes caber a representa�‹o oposta a essa. Muitas vezes
utilizando estere—tipos existentes naquela sociedade, os poetas retratavam as
mulheres com comportamento destoante do que era socialmente aceito: eram
perversas e capazes de desonrar o homem. Em se tratando da mulher negra, esse
quadro era ainda mais violento, pois dentro do contexto liter‡rio do cordel,
ali n‹o caberia qualquer representa�‹o positiva. Em ÒO Bataclan
modernoÓ, Ata’de tece cr’ticas ˆs mudan�as sociais vividas pelas mulheres:
Mundo velho desgra�ado
Teu povo precisa de um freio,
Para ver se assim melhora
Este costume t‹o feio
De uma mo�a seminua
Andar mostrando na rua
O sovaco a perna o seio.
De primeiro uma donzela
Andava bem prevenida,
Se acaso ia um passeio
Se encontrava ela vestida
Hoje essa mesma donzela
A moda obrigou a ela,
Sair pra rua despida (ATAêDE, 1953, p. 1)[24].
ƒ por meio das cr’ticas dos poetas que ocorre
tambŽm o que Candido chamou de desmascaramento, pois quando tecem cr’ticas ao
governo, como faz Leandro Gomes de Barros, por exemplo, seu pœblico
leitor/ouvinte consegue perceber que est‹o sendo v’timas de engana�›es e
abusos. Para Marques (2014, p. 55), ÒEra, portanto,
atravŽs das lentes sat’ricas do(s) poeta(s) popular(es) que o sertanejo via e
entendia aquele mundo prenhe de novidades e mudan�as inusitadasÓ. O exemplo pode ser
visto nas seguintes estrofes, em que Barros busca denunciar a realidade em que
os nordestinos estavam vivendo. Em ÒUm pau com formigasÓ, o poeta tece uma de
suas denœncias acerca das mudan�as vivenciadas no novo sŽculo:
Chamam este sŽculo das luzes
Eu chamo o sŽculo das brigas
A Žpoca das ambi�›es
O planeta das intrigas
Muitos cachorros num osso
Um pau com muitas formigas.
Ent‹o depois da repœblica
Tudo nos causa terror
Cacete n‹o faz estudo
Mas tem carta de doutor
A cartucheira Ž a lei
O rifle governador (BARROS, 1912, p. 1).
As
cr’ticas tambŽm podem ser vistas em ÒO imposto e a fomeÓ:
Disse o
imposto – isso Ž nada,
O Brasil
est‡ todo exposto,
Enquanto
existir governo
Reina a
fome e o imposto,
Os
presidentes de Estados
Dizem
– morram os desgra�ados
Ficando
n—s Ž tudo gosto.
[...]
Justi�a
em ti n‹o h‡ mais
Creio que
morreu de desgosto,
A lei
ficou como —rf‹o
Sem pai,
sem m‹e, sem encosto,
O car‡ter
foi embora
S—
conhecemos agora
Pol’tica,
fome e imposto (BARROS, 1909, p. 2-3).
ƒ poss’vel perceber como Leandro Gomes de Barros
se empenhava em fazer suas denœncias, ultrajado pelos impostos excessivos, pela
fome e pela misŽria. Em conson‰ncia com o que afirmou Candido, seus versos eram
capazes de despertar a reflex‹o em seu pœblico, fazendo com que pudessem
perceber a complexidade do mundo em que viviam, de uma maneira ainda mais
pungente. Era por meio da s‡tira que seus versos se mostravam ainda mais
ferinos.
Conclus‹o
Neste
artigo, buscamos justapor os ensaios de Antonio
Candido ˆ Literatura de Cordel, mostrando como a necessidade de literatura e
fantasia Ž universal e atinge todas as camadas sociais. No come�o do sŽculo XX,
a literatura can™nica era negada ao povo nordestino, assim como o direito ˆ
frui�‹o, algo t‹o desejado pelas classes sociais mais elevadas. Negar esse
direito seria negar tambŽm a humanidade daquelas pessoas.
Ao
tomar para si a voz, fazendo com que um integrante do povo pudesse finalmente
ser ouvido, o cordelista passa a representar tambŽm os anseios de seu pœblico
leitor/ouvinte, haja vista que seu sucesso tambŽm dependia desse di‡logo direto
com seu pœblico. O poeta de cordel Ž uma figura muito sens’vel, pois lhe cabe
perceber muitas nuances da realidade em que habita.
Sendo assim, sob essas novas lentes, criadas
pelos versos dos poetas, o nordestino passava a perceber a pr—pria realidade de
uma outra forma, pois o poeta era capaz de fazer com que, ao finalmente se
enxergarem de alguma forma representadas na literatura, essas pessoas pudessem
tambŽm resistir e reexistir, frente a todas as agruras cotidianas que as
cercavam.
Refer�ncias
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considera Leandro Gomes de Barros o autor do poema) O Bataclan
moderno, Juazeiro do Norte, Editor JosŽ Bernardo da Silva, 1953.
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BARROS, Leandro Gomes de. O imposto e a fome/O homem que come vidro/O reino da Pedra Fina. Recife, PE: s.n., 1909.
_________. Um Pau com Formigas/ Conclus‹o de Riach‹o com Turbana.
Recife, PE: s.n., 1912.
BENJAMIN,
Walter. O narrador: Considera�›es sobre a obra de Nikolai Leskov.
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MARQUES,
Francisco C. A. Um pau com formigas ou O
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S‹o Paulo: Edusp/Fapesp, 2014.
OLIVEIRA,
Let’cia Fernanda da Silva. De m‡rtir a meretriz: figura�›es
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Assis-SP: UNESP, 2017.
PELOSO,
Silvano. O canto e a mem—ria:
Hist—ria e utopia no imagin‡rio popular brasileiro. S‹o Paulo: çtica, 1996.
[Recebido:
15 ago 2020 – 19 set 2020]
[19] Universidade Estadual Paulista ÒJœlio de Mesquita FilhoÓ – UNESP
[20] Diferentemente da vis‹o can™nica do
termo e da maneira como concebemos o pl‡gio atualmente, a autoria dentro do
Cordel Ž enxergada de uma maneira intrinsicamente diversa, ao menos no come�o
do sŽculo XX. Em um contexto em que a repeti�‹o de hist—rias tradicionais era
algo n‹o apenas natural, como tambŽm desejado pelo pœblico leitor/ouvinte,
cabia aos poetas e editores revisitarem essas narrativas. Impondo-lhes, por
vezes, pequenas modifica�›es. Podemos concluir que Ž um conceito muito mais
flex’vel na literatura popular do que nos romances, por exemplo, em que uma
atitude como essa poderia gerar disputas judiciais.
[21] Pensar a originalidade tambŽm envolve a
quest‹o de revisita�‹o de textos antigos, portanto a verdadeira originalidade
no contexto do cordel estaria em conseguir produzir uma obra com linguagem
pr—xima a de seus leitores/ouvintes e da realidade em que viviam. Dessa forma,
seria poss’vel que o pœblico se identificasse com suas cria�›es e se sentisse
parte de suas narrativas (cf. OLIVEIRA, 2017, p. 52).
[22] Seria o personagem arquet’pico Pedro Malasartes, que pode tambŽm figurar no Cordel sob outras alcunhas. A sua arma secreta Ž o ÒquengoÓ, a intelig�ncia, e aparece denominado como ÒamarelinhoÓ, por causa do Òf’sico disforme e comprometido pelo ancil—stomo, pela s’filis e pela defici�ncia alimentar do trabalhador das usinas e das planta�›esÓ (MARQUES, 2014, p. 248).
[23] Nascido em Pombal-PB. Viveu a maior parte de sua vida morando em Recife, cidade em que se fixou e iniciou a sua produ�‹o de cordŽis. Barros conseguiu o feito de viver exclusivamente da venda de seus cordŽis, o que justifica tambŽm a sua vast’ssima produ�‹o. Suas obras permanecem no imagin‡rio coletivo nordestino atŽ os dias de hoje (OLIVEIRA, 2017).
[24] Apesar de o folheto ser referenciado como de autoria de Jo‹o Martins de Ata’de, a Bibliografia PrŽvia de Sebasti‹o Nunes Batista considera Leandro Gomes de Barros o autor do poema. Essa mudan�a de autoria ocorreu a partir do momento em que Ata’de comprou todo o esp—lio de Barros, a partir de ent‹o Ata’de passa a assinar os folhetos do autor como se fossem de sua autoria.