ÒCOLETIVO LUêSA MAHIN - SARAU DAS PRETASÓ: O PROMIC E A PERFORMANCE COMO MOBILIZADOR IDENTITçRIO E FORMATIVO

 

 

ÒCOLETIVO LUêSA MAHIN - SARAU DAS PRETASÓ: PROMIC AND PERFORMANCE AS IDENTITY AND FORMATIVE INSTRUMENT

 

 

Amanda Maria Damasio Teixeira[74]

https://orcid.org/0000-0002-4064-05

 

Ana Cristina Pereira da Silva [75]

https://orcid.org/0000-0003-2924-95

 

Resumo: Utilizando como foco o projeto londrinense ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ, este artigo pretende expor como o PROMIC (Programa Municipal de Incentivo ˆ Cultura) viabiliza performances em torno da literatura, da forma�‹o e de quest›es identit‡rias. Dito isso, utilizaremos como viŽs de an‡lise os textos de Zumthor (2007) e Aguilar e C‰mara (2017), para compreender o papel da voz e da performance, e a teoria dos polissistemas de Even-Zohar (2013), em que discute sobre os polissistemas liter‡rios e suas periferias. TambŽm ser‹o utilizadas transcri�›es de entrevistas com duas produtoras culturais encarregadas do projeto. Levando em conta o artigo de Mariano (2019), em que pressup›e-se uma intersec�‹o entre os polissistemas perifŽricos de Even-Zohar e a literatura afro-brasileira, foi poss’vel concluir que o PROMIC mobilizou a�›es mœltiplas (em espa�os privilegiados ou n‹o, utilizando como base o texto escrito ou saberes orais) que contribuem para maior �nfase ˆ mulher negra e de narrativas afro-brasileiras silenciadas por uma quest‹o racial e perifŽrica, contribuindo, ent‹o, para a oxigena�‹o do c‰none.

Palavras-chave: Sarau. Pol’ticas pœblicas. Literatura afro-brasileira.

 

Abstract: Using as a focus point the project ÒColetivo Lu’sa Mahin - Sarau das PretasÓ, based in Londrina, this article aims to show how PROMIC (a municipal cultural program) enables performances around literature, learning and identity matters. That said, the following authors were used as analisis bias: Zumthor (2007) and C‰mara (2017) (to comprehend the role of voice and performance) and the Even-ZoharÕs polysystem theory (2013), work in which he discusses literary polysystems and its peripheries. Transcribed interviews with the two cultural producers behind the project will be presented also. Taking into account MarianoÕs article (2019), in which one could presuppose an intersection between the Even ZoharÕs peripheral polysystems and afro-brazilian literature, was possible to conclude that PROMIC made actions viable (in multiple places and via written text or oral knowledge), giving more emphasis to black women and afro-brazilian narratives that were silenced by a racial and peripheral issue, contributing, finally, to a more balanced canon.

Keywords: Soiree. Public Policy. Afro-brazilian literature.

 

 

 

 

Introdu�‹o

 

Atualmente, os impactos das pol’ticas pœblicas de cultura s‹o colocados em discuss‹o, s‹o questionados. Em Londrina, o PROMIC (Programa Municipal de Incentivo ˆ Cultura) viabiliza a execu�‹o de inœmeros projetos a partir de renœncia fiscal. Um dos projetos contemplados, categorizado na ‡rea destinada ˆ Literatura, Ž o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ, originalmente criado em 2015 para financiar a ida de um grupo de mulheres negras londrinenses para Bras’lia, onde participaram da 1» Marcha Nacional das Mulheres Negras. Esse acontecimento fez com que as pessoas envolvidas formassem o Coletivo de Mulheres Negras Lu’sa Mahin, respons‡vel pelo Sarau e por outros eventos formativos em que quest›es identit‡rias e relacionadas ˆ literatura afro-brasileira s‹o colocadas em discuss‹o. Segundo Fiama Helo’sa[76], uma das produtoras do evento, os objetivos s‹o:

 

trabalhar a cultura afro-brasileira nas escolas e demais espa�os educativos, abordando a import‰ncia da compreens‹o da identidade negra e os desafios que ela enfrenta na sociedade brasileira a partir de diferentes formas (literatura, teatro, conta�‹o de hist—rias, palestras, roda de conversa) e tambŽm marcar a cena cultural londrinense com um espa�o dedicado ˆ cultura negra (ˆ exalta�‹o das nossas ra’zes africanas) e ao fortalecimento da nossa comunidade por meio de um Sarau.

 

Assim, fica claro que o Sarau Ž um dos espa�os de fortalecimento da cultura negra local, que tem como atividade principal as performances que nele acontecem, mas que n‹o se restringe s— a isso.

O sarau tambŽm Ž um dos espa�os de discuss‹o e de abertura para di‡logo acerca da identidade afro-brasileira. Dessa forma, busca-se entender de que forma o PROMIC auxilia na realiza�‹o desses objetivos? De que forma a voz e a performance contribuem ou n‹o para o fortalecimento de uma identidade londrinense e para o protagonismo da mulher negra?

 

 

Pol’tica pœblica, polissistema e performance: uma quest‹o de car‡ter social

 

            Um dos te—ricos que utilizaremos neste trabalho Ž Itamar Even-Zohar. Sua pesquisa em rela�‹o ao polissistema liter‡rio, express‹o cunhada pelo autor, discute o c‰none liter‡rio e as rela�›es que o afetam, dando �nfase ao seu car‡ter social. Sua proposta parte do reconhecimento de que a heterogeneidade da cultura Ž ampla e se forma a partir de movimenta�›es centr’petas e centr’fugas, em que a periferia e o centro da recep�‹o liter‡ria se impactam. Sobre isso, Even-Zohar (2013, p. 8) declara:

 

A ideologia de uma cultura oficial como a œnica aceit‡vel em uma dada sociedade tem como consequ�ncia uma massiva compuls‹o cultural que afeta a na�›es inteiras mediante um sistema educativo centralizado e que torna imposs’vel, inclusive a estudiosos da cultura, observar e valorar o papel das tens›es din‰micas que operam no seio da cultura para sua efetiva manuten�‹o. Como um sistema natural que necessita, por exemplo, de regulamenta�‹o tŽrmica, os sistemas culturais necessitam tambŽm de um equil’brio regulador para n‹o entrar em colapso ou desaparecer.

 

Ent‹o, de acordo com a configura�‹o expressa por Even-Zohar, Ž poss’vel pensar em um repert—rio brasileiro (e mœltiplo, claro), em que essa centraliza�‹o (intrinsecamente relacionada ao social, ou seja, aos indiv’duos detentores do poder) implicaria uma posi�‹o menos prestigiosa ˆ literatura afro-brasileira (que se veria ent‹o ˆs custas de uma elite branca, por exemplo) e de outros nichos ÒperifŽricosÓ, supondo a exist�ncia de um sistema ou um conjunto de elementos afro-brasileiro – hip—tese defendida no artigo de Mariano (2019, p. 10):

Dentro da perspectiva brasileira, do sŽculo XIX, qualquer proje�‹o de sistema liter‡rio proveniente das popula�›es negras - e aqui poder’amos pensar em outros recortes identit‡rios de minoria - seria devidamente barrada por um sistema hegem™nico de literatura, muito bem estruturado nos r’gidos moldes de ra�a, classe, g�nero etc.

 

Assim, a literatura afro-brasileira dependeria de interven�›es que se relacionam intimamente com o que Even-Zohar (2013, p. 6) exp›e como Òluta entre v‡rios estratosÓ. Estando o polissistema liter‡rio intr’nseco ao social, o racismo tambŽm o afetaria, minimizando, talvez, seu alcance, visibilidade e recep�‹o daqueles que se identificam como afro-brasileiros. ƒ interessante notar que o Òrepert—rioÓ can™nico Ž definido pelas rela�›es travadas no polissistema, externas a um conjunto de caracter’sticas liter‡rias, como discute Even-Zohar (2013). Embora, como explica o autor, o polissistema pode reorganizar-se sempre a fim de um Òequil’brioÓ. Nesse sentido, o financiamento de projetos como o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ pode auxiliar nessa movimenta�‹o? Quais foram as pessoas beneficiadas durante a realiza�‹o do projeto? De acordo com Poliana Santos[77], uma das organizadoras do Sarau, este foi o trajeto:

 

Quando n—s fomos aprovadas no PROMIC, n—s tivemos a possibilidade de realizar o nosso trabalho na zona rural, fizemos oficinas dentro do Eli Vive, o acampamento do MST, n—s cruzamos a cidade de Londrina de Norte a Sul, de Leste a Oeste, podendo levar o nosso trabalho, com a estrutura de material pedag—gico, material humano, que Ž proporcionado por essas estruturas financeiras, nŽ? Voc� poder contratar oficineiros e oficineiras, comprar material did‡tico, se locomover pra isso... porque as pessoas n‹o se atentam que o movimento social n‹o vive s— de amor, nŽ? O movimento social n‹o vive s— de educa�‹o. Ele precisa de estrutura para ser realizado. E participar de um programa de Bolsa como o PROMIC d‡ a estrutura para que esses trabalhos saiam de determinados nichos, podemos dizer ''privilegiados'', de acesso para ir mesmo para as periferias, para alŽm das fronteiras do urbano... ent‹o, isso Ž muito importante.

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem 1 – Performance no sarau

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.

 

Deve-se ressaltar, ent‹o, a utiliza�‹o da bolsa para o desenvolvimento de uma pedagogia e seus materiais, como tambŽm a contrata�‹o de terceiros e o transporte atŽ os locais selecionados. Ele permite que essa aten�‹o se volte a espa�os desprivilegiados, fazendo com que esses tenham acesso a servi�os que dificilmente chegam atŽ eles. AlŽm disso, h‡ uma mobiliza�‹o local em torno de necessidades culturais que poderiam afetar as periferias e ‡reas rurais da cidade. Houve tambŽm uma movimenta�‹o de aproxima�‹o entre a Academia e espa�os perifŽricos, quando, obtendo maior visibilidade e estrutura por ser justamente aprovado pelo PROMIC, o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ juntou-se a um projeto de extens‹o de Escrita Criativa da Universidade Estadual de Londrina. ƒ interessante notar que no mesmo trecho da fala de Poliana Santos vemos formas diferentes de abordagem em rela�‹o ao protagonismo da mulher negra – utilizando espa�os perifŽricos (terreiros) e privilegiados (academia), como num contexto educativo informal e formal:

 

O Sarau das Pretas, em suma, tem um prop—sito fundamental em trabalhar a quest‹o da forma�‹o, e essa forma�‹o a gente entende como trocas de saberes; dando o protagonismo da mulher, principalmente, da mulher negra. Ent‹o assim, n—s obtivemos, por exemplo, dentro do trabalho do Sarau das Pretas, um encontro dentro de uma casa de axŽ, que Ž o terreiro da m‹e Omin, onde v‡rias mulheres mais velhas trouxeram a sua cultura do benzimento, ent‹o a gente fez essa troca com elas. Elas nos explicaram as quest›es das benzedeiras, os ch‡s, trazendo essa historicidade atravŽs da sua oralidade, ali contando como era quando elas eram crian�as, como se deram essa identidade de se ver como mulheres negras, ent‹o Ž muito pontual para n—s essas viv�ncias. N—s nos organizamos para levar, por exemplo, uma oficina de Escrita Criativa, com o pessoal do professor Fl‡vio Freire da UEL, ao pessoal do Flores do Campo. N—s nos organizamos para, com as crian�as, trazer um material lœdico, mas que fa�a o debate do racismo. Receber essa devolutiva, sabe, nesse processo educacional, Ž, para n—s, o mais importante. Um espa�o de forma�‹o onde a gente consiga resgatar essa historicidade pela quest‹o da mulher negra, pelo olhar da mulher negra, e tambŽm levar um pouco da academia fazendo essa troca.[78]

 

A multiplicidade de eventos realizados pelo ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ permite uma abrang�ncia maior em rela�‹o ˆ discuss‹o em torno da literatura afro-brasileira. Justaposto ˆ teoria dos Polissistemas, Ž poss’vel perceber que o projeto n‹o se limita apenas ao livro, produto final de todo um repert—rio, como dir‡ Even-Zohar (2013, p. 10), mas ˆs tradi�›es orais e ˆ forma�‹o e cria�‹o de novos leitores e produtores culturais (escritores):

 

ƒ dif’cil eliminar imagens respeitadas ao longo do tempo, e parece ÒnaturalÓ, portanto, que produzir e consumir textos tenha sido sempre a atividade mais importante na ÒliteraturaÓ. Em certos per’odos, n‹o obstante, o texto era mais marginal em rela�‹o a outras atividades no sistema liter‡rio, tais como o escritor ou algum Òacontecimento totalÓ sob a forma de atua�›es diversas.

 

As performances, ent‹o, realizadas em variados espa�os culturais da cidade (Usina Cultural, CemitŽrio de Autom—veis e Casa da Vila), alŽm dos outros lugares j‡ citados, demonstram um entendimento total de ÒliteraturaÓ por parte das organizadoras do evento, levando em conta que Even-Zohar compreende que as no�›es de ÒlivroÓ e Òrepert—rioÓ s‹o parciais e n‹o d‹o conta para discutir um polissistema heterog�neo. Dessa forma, Ž capaz de adentrar lugares e alterar, nem que seja por pouco tempo, a hierarquia do espa�o, o direcionamento da aten�‹o – conscientizando aqueles que permitem o racismo estrutural e aquelas que sofrem com este.

Assim, a partir da visibilidade garantida ao ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ, por meio do financiamento do PROMIC, Ž poss’vel inferir que o PROMIC provoca maior oxigena�‹o entre a canonicidade liter‡ria local, permitindo discuss›es que n‹o abrangem apenas o livro ou a leitura em voz alta, mas a valoriza�‹o de tradi�›es e vozes silenciadas por um sistema intr’nseco ao polissistema liter‡rio – o sistema social.

Como relatado por Even-Zohar (2013), existem for�as centr’fugas que podem carregar ou transferir propriedades de polissistemas perifŽricos para o centro – e poder’amos afirmar que o sarau estudado Ž uma dessas for�as, colocando em evid�ncia essa identidade e suas viv�ncias:

 

De modo semelhante, Ž por meio da estrutura polissist�mica das literaturas envolvidas como podemos dar conta dos v‡rios e intrincados processos de interfer�ncia. Por exemplo, ao contr‡rio da cren�a comum, a interfer�ncia tem lugar, frequentemente, por meio das periferias (EVEN-ZOHAR, 2013, p. 18).

 

ƒ interessante relatar, ent‹o, a import‰ncia de projetos de pol’ticas pœblicas como o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ que, por meio da literatura e da voz, impactam o social. AtravŽs de suas performances, indiv’duos se conscientizam sobre a posi�‹o da mulher negra na sociedade, como tambŽm adquirem conhecimentos silenciados justamente por uma quest‹o racial. O financiamento decorrente de uma bolsa do PROMIC provoca uma luta mais igualit‡ria, talvez, entre os estratos, permitindo estruturas perifŽricas terem mais visibilidade e melhor forma�‹o mesmo distantes dos grandes centros.

 

 

 

ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÕÕ: a performance como forma de re-exist�ncia

 

O ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das pretasÓ foi criado, conforme j‡ dito, pelo coletivo Lu’sa Mahin, em 2015. A priori, segundo as organizadoras, o coletivo era formado por Poliana Santos, Fiama Helo’sa, Tha’sa Carvalho, Silvia Castro e Rute. A forma�‹o atual conta com Fiama Helo’sa, Poliana Santos, Ana Paula Barcellos, Mariana Valle e Jamile Baptista, ˆ frente do coletivo.

Visando ˆ arrecada�‹o de recursos para a Marcha das Mulheres Negras, realizada em Bras’lia em novembro do mesmo ano, o sarau cujo protagonismo Ž a mulher, sobretudo a mulher negra, teve continuidade ap—s o evento. A reflex‹o sobre a import‰ncia do protagonismo da mulher negra para o cen‡rio cultural e art’stico de Londrina impulsionou o grupo a buscar parcerias culturais.

A partir disso, o sarau surge como forma de fomento ˆs trocas liter‡rias, sendo visto como um evento, um momento de confraterniza�‹o, a princ’pio, e depois com o PROMIC Ž agregado tambŽm, ao sarau, um trabalho de forma�‹o, um aspecto educacional, segundo Poliana Santos.

Na produ�‹o liter‡ria contempor‰nea, o singular se faz presente por meio do coletivo, o que leva ˆ cria�‹o de grupos, denominados coletivos, que s‹o constitu’dos pela afetividade e pela identidade partilhada, caracter’sticas essenciais para a forma�‹o de redes afetivas (LEONƒ, 2014). Sendo assim, o ÒColetivo Lu’sa MahinÓ vem a ser um agente importante dentro do sistema liter‡rio corroborando para o estabelecimento de redes que fortale�am e deem protagonismo ˆ cultura negra.

O modus operandi do ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ conta com diversas atividades que visam promover a cultura afro-brasileira, contemplando as mais diferentes manifesta�›es art’stico-liter‡rias. No entanto, a voz Ž o cerne de todas as edi�›es do sarau, por meio da performance que ressignifica o texto liter‡rio e possibilita as trocas afetivas atravŽs das redes formadas por ela.

 

Imagem 2 – Exposi�›es e instala�›es no sarau

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019Na programa�‹o, discotecagem com DJ J™

 

Moreno, roda de capoeira com o pessoal do Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), apresenta�‹o musical com Ti‹o Carvalho, Feirinha, gastronomia popular e momento de conta�‹o de hist—ria para as crian�as. O Sarau das Pretas se insere ainda como prŽ-abertura do Festival Liter‡rio de Londrina – LONDRIX, por isso permeia a festa com momentos de microfone aberto para as mais diversas possibilidades de manifesta�‹o liter‡ria. Nosso encontro ser‡ na Vila Cultural CemitŽrio dos Autom—veis, a partir das 18h. Esperamos voc�s! A entrada Ž gratuita. Todas as atividades contam com o patroc’nio do PROMIC, produ�‹o da Pç! Art’stica e realiza�‹o do Coletivo Lu’sa Mahin.[79]

 

O PROMIC possibilitou ao ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ maior visibilidade ˆs performances realizadas no evento, aumentando sua rede de alcance para as discuss›es sobre a cultura afro-brasileira e para divulga�‹o de sua respectiva literatura. A lei de incentivo, que Ž um dos agentes presentes no polissistema de Even-Zohar (2013), contribuiu para que a literatura afro-brasileira se movesse dentro desse sistema sentido ao centro dele.

ƒ claro que muito h‡ de se fazer para que a literatura afro-brasileira chegue ao centro do sistema liter‡rio, pois sabemos que as dificuldades em rela�‹o ao mercado editorial ainda s‹o muitas. No entanto, o PROMIC como apoio para o sarau, evento cujo cerne Ž a performance, surgiu como forma de movimentar essa literatura e dar condi�›es de circula�‹o dos textos liter‡rios para alŽm do livro impresso.

 

Fazer o Sarau sempre foi uma forma de milit‰ncia porque acreditamos na import‰ncia de fazer esse trabalho cultural sobre a cultura negra. Ao longo do percurso, tivemos muitos apoiadores e colaboradores, mas nunca de forma financeira. O dinheiro investido para realizar o Sarau, muitas vezes, era colocado do nosso pr—prio bolso. Muitas vezes, investimos com o nosso pr—prio dinheiro, depois recuper‡vamos o valor com as coisas que faz’amos para serem vendidas no evento (como comidas, bebidas, etc.) e, depois, guard‡vamos o que sobrava, quando sobrava depois de pagar todo mundo, como uma Òpoupan�a do SarauÓ. Esse valor era investido novamente na pr—xima edi�‹o e assim ’amos indo. Mas essa limita�‹o financeira nos impedia de crescer. N—s t’nhamos vontade de ampliar as a�›es, mas n‹o t’nhamos perna. Ent‹o, vimos no PROMIC essa possibilidade, que ele fosse o meio de financiarmos nossas a�›es. Com esse financiamento, conseguimos ampliar as atividades como j‡ v’nhamos planejando. Por isso, nosso projeto do PROMIC contemplou duas faces: a primeira educacional - em que fomos em escolas das ‡reas urbana e rural falar com crian�as, adolescentes e adultos sobre a cultura negra, alŽm tambŽm de oficinas abertas para a comunidade; e a segunda, cultural - momento em que realizamos edi�›es do Sarau das Pretas para mostrar o resultado dos trabalhos desenvolvidos nas oficinas e para fortalecer a cena cultural negra na cidade.[80]

 

O ato perform‡tico Ž œnico, dotado de corporeidade, Ž carregado de sensa�›es e emo�›es. Uma voz n‹o pode ser vista separada de um corpo, sempre que existir uma voz vai existir um corpo (ZUMTHOR, 2007). Dessa forma, voz, corpo e espa�o se fundem a fim de Òconvocar a performance para mostrar que sua presen�a transforma as leituras poss’veis de uma obraÓ (AGUILAR; CçMARA, 2017, p. 13).

Imagem 3 – Apresenta�›es musicais

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.

O corpo, os gestos, os modos de vestir, as entona�›es da voz, s‹o aspectos que o texto escrito sugere, mas n‹o permite vivenciar. AtravŽs da performance, esses aspectos s‹o vistos, sentidos e apreendidos de forma mais ’ntima, e assim, os sujeitos se afetam mutuamente permitindo essa experi�ncia vivenciada.

 

Na performance a voz Ž emana�‹o do corpo, uma representa�‹o plena, que n‹o Ž apenas uma forma de comunica�‹o que transmite conhecimento, mas que transforma o conhecimento, e sendo assim transforma de alguma forma o ser. A voz marca tanto o performer quanto o espectador, estabelecendo uma comunica�‹o poŽtica, uma experi�ncia vivenciada [...] (SILVA; FERNANDES, 2019, p. 122).

 

As performances que acontecem nos ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ s‹o dotadas de representatividade e ancestralidade. Como exemplo, temos um encontro que aconteceu dentro de uma casa de axŽ, que Ž o terreiro da m‹e Omin:

 

v‡rias mulheres mais velhas trouxeram a sua cultura do benzimento, ent‹o a gente fez essa troca com elas nos explicando as quest›es das benzedeiras, os ch‡s, trazendo essa sua historicidade atravŽs da sua oralidade, ali contando como era quando elas eram crian�as, como se deram essa identidade de se ver como mulheres negras, ent‹o Ž muito pontual para n—s essas viv�ncias.[81]

 

AlŽm de ser um meio de divulgar a literatura afro-brasileira, as performances do sarau tambŽm trazem a quest‹o da representatividade a partir da hist—rias contadas por essas mulheres. E a’, a m‡quina perform‡tica se faz instrumento de transforma�‹o do conhecimento e de re-exist�ncia para o performer e para o espectador. Espectador esse que se reconhece no performer ou que conhece a cultura afro-brasileira a partir das viv�ncias e dos saberes transmitidos pelas mulheres negras atravŽs da performance.

Nesse sentido, pode-se afirmar que o sarau Ž uma forma de resist�ncia no sentido de re-existir, de fazer re-existir. ƒ importante deixar claro o conceito de resist�ncia, visto que na atualidade, v‡rias s‹o as possibilidades de sentido que se pode atribuir ao termo.

 

Ora, Ž diante da ideia de que o poder, como rela�‹o de for�as, funciona sempre como produtor de afetos, que a resist�ncia aparece para Foucault como um terceiro poder da for�a. Se as for�as se definem segundo o poder como um afetar e um ser afetado, resistir Ž a capacidade que a for�a tem de entrar em rela�›es n‹o calculadas pelas estratŽgias que vigoram no campo pol’tico. A capacidade que a vida tem de resistir a um poder que quer geri-la Ž insepar‡vel da possibilidade de composi�‹o e de mudan�a que ela pode alcan�ar.

Resistir Ž, neste aspecto, o oposto de reagir. Quando reagimos damos a resposta ˆquilo que o poder quer de n—s; mas quando resistimos criamos possibilidades de exist�ncia a partir de composi�›es de for�as inŽditas. Resistir Ž, neste aspecto, sin™nimo de criar. Sendo assim, a resist�ncia Ž, para Foucault, uma atividade da for�a que se subtrai das estratŽgias efetuadas pelas rela�›es de for�as do campo do poder. Esta atividade permite ˆ for�a entrar em rela�‹o com outras for�as oriundas de um lado de fora do poder [...]. For�as do devir, da mudan�a, que apontam para o novo e engendram possibilidades de vida (MACIEL JR., 2014, p. 2).

 

Dessa forma, Ž em Foucault que se busca fundamentar essa afirma�‹o do sarau enquanto resist�ncia (re-exist�ncia), em especial o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ que coloca em evid�ncia a mulher negra no campo social e atua nesse mesmo sentido o qual Maciel Jr. (2014), ao retomar Foucault, nos traz o conceito de resist�ncia como cria�‹o, como for�a da mudan�a que aponta para o novo e permite a abertura de possibilidades.

 

Imagem 4 – Integrantes do Coletivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasDescription: C:\Users\anacp\Downloads\WhatsApp Image 2020-08-18 at 09.33.28.jpeg

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.

 

O ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ Ž resist�ncia, porque resistir nessa perspectiva ÒŽ criar, para alŽm das estratŽgias de poderÓ (MACIEL JR., 2014, p. 2). O sarau cria possibilidades de composi�‹o e de mudan�a social por meio da performance. A voz, o corpo e o espa�o permitem que o texto liter‡rio ganhe vida e possibilitam sua entrada em novos espa�os sociais por meio das trocas de saberes e das trocas afetivas que operam nos saraus.

 

 

Considera�›es finais

 

O ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ contou com o apoio do PROMIC para realiza�‹o das edi�›es do sarau, e esse incentivo foi de grande import‰ncia para a viabiliza�‹o do evento que, de acordo com seu modus operandi, mobiliza a divulga�‹o de textos liter‡rios de mulheres negras e a inser�‹o deles em diferentes espa�os sociais por meio da performance.

A lei de incentivo municipal ˆ cultura foi essencial para que a literatura afro-brasileira londrinense rompesse as barreiras do mercado editorial, criando possibilidades de divulga�‹o desses textos para alŽm do livro impresso.

O PROMIC Ž necess‡rio, porŽm ainda insuficiente e tardio, nem sempre realizando a proje�‹o para alcan�ar todos os grupos que poderiam ÒoxigenarÓ a literatura local, distanciando-se de um c‰none que replica um repert—rio j‡ conceituado. Sofrendo alguns ajustes, o programa poderia ser ainda mais impactante nesse sentido.

A performance, enquanto cerne de um sarau, funciona no ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ como uma possibilidade de fortalecer a cultura afro-brasileira, trazendo em si sua ancestralidade e representatividade e permitindo a viv�ncia da cultura negra.

A quest‹o identit‡ria, t‹o cara ˆ literatura contempor‰nea, Ž a ess�ncia desse sarau, que traz nomes t‹o importantes para homenagear a mulher negra, como ÒLu’sa MahinÓ, ÒMarielleÓ e ÒY‡ MukumbyÓ. A performance vem contribuir para a valoriza�‹o da identidade negra no cen‡rio local e o PROMIC viabilizou essas a�›es do ÒColetivo Lu’sa MahinÓ.

Em tempos em que cada vez mais recursos destinados ˆ cultura, ˆ arte e ˆ literatura s‹o cortados, esse trabalho se faz relevante para que se chame aten�‹o para a import‰ncia dessas a�›es, sobretudo para aqueles que est‹o ˆ margem da sociedade.

 

 

Refer�ncias

 

AGUILAR, Gonzalo, CçMARA, Mario. A m‡quina Perform‡tica: a literatura no campo experimental. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

EVEN-ZOHAR, Itamar. Teoria dos Polissistemas. 2013. Tradu�‹o de Luis Fernando Marozo, Carlos Rizzon e Yanna Karlla Cunha. Dispon’vel em: >https://seer.ufrgs.br/translatio/issue/viewFile/2211/22< Acesso em: 29 jul. de 2020.

LEONE, Luciana Di. Poesia e escolhas afetivas: edi�‹o e escrita na poesia contempor‰nea. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

MACIEL JR., Auterives. Resist�ncia e pr‡tica de si em Foucault. Trivium, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 01-08, jun. 2014. Dispon’vel em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-48912014000100002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 15 abr. 2020.

MARIANO, JosŽ Victor Nunes. Da periferia do hegem™nico: o sistema liter‡rio afro-brasileiro. In: Suplemento liter‡rio de Mato Grosso N—doa do Brim. Edi�‹o 67. 2019. Dispon’vel em: >https://www.researchgate.net/publication/341104225_Da_periferia_do_hegemonico_-_O_sistema_literario_afro-brasileiro<. Acesso em: 30 jul. 2020.

SILVA, Ana Cristina Pereira da; FERNANDES, Frederico Augusto Garcia. Sarau e performance: a rede Londrix e estratŽgias de inser�‹o do texto poŽtico. Revista Boitat‡, Londrina, n. 27, jan.- jun. 2019, p. 118-131. Dispon’vel em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/article/view/38312/27135. Acesso em: 15 abr. 2020.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recep�‹o e leitura. Tradu�‹o de Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. S‹o Paulo: Cosac Naify, 2007.

 

 

[Recebido: 16 ago 2020 – Aceito: 03 mar 2021]



[74] Mestranda em Estudos Liter‡rios pela Universidade Estadual de Londrina. Pesquisa a rela�‹o entre pol’ticas pœblicas municipais e estaduais e a literatura.

[75] Mestranda em Estudos Liter‡rios pela Universidade Estadual de Londrina. Pesquisa a performance e os saraus liter‡rios em Londrina.

[76] SANTOS, Fiama Helo’sa Silva dos. Entrevista - Sarau das Pretas. Concedida a Ana Cristina Pereira da Silva e Amanda Maria Damasio Teixeira. Londrina, 13 jul. de 2020. No prelo.

[77] SANTOS, Poliana. Entrevista 2 – Sarau das Pretas. çudios transcritos de WhatsApp. Concedida a Ana Cristina Pereira da Silva e Amanda Maria Damasio Teixeira. Londrina, 28 jul. de 2020. No prelo.

[78] SANTOS, 2020, s/p.

[79] Excerto da p‡gina do Facebook do coletivo COLETIVO LUêSA MAHIN – SARAU DAS PRETAS. Dispon’vel em: https://www.facebook.com/saraudaspretaslondrina. Acesso em: 10 ago. 2020.

[80] SANTOS, Fiama, 2020, s/p.

[81] SANTOS, Poliana, 2020, s/p.