METADE CARA, METADE MçSCARA: MEMîRIA COLETIVA E IDENTIDADE INDêGENA NA
OBRA DE ELIANE POTIGUARA
METADE
CARA, METADE MçSCARA: COLLECTIVE MEMORY AND INDIGENOUS IDENTITY IN THE WORK OF ELIANE
POTIGUARA
Joel Vieira da Silva Filho[39]
https://orcid.org/0000-0001-9895-99
Cristian Souza de Sales[40]
https://orcid.org/0000-0002-9377-67
Resumo: Este texto investe numa
discuss‹o acerca das rela�›es existentes entre mem—ria coletiva e identidade
ind’gena em Metade Cara, Metade M‡scara da escritora ind’gena
contempor‰nea Eliane Potiguara. Metade Cara, Metade M‡scara Ž uma obra de cunho
autobiogr‡fico, de
g�nero h’brido, entremeando
lendas, fic�‹o, testemunhos, depoimentos e poemas. AtravŽs da narrativa de
deslocamento e processo diasp—rico da escritora, destacamos como as mem—rias
individual, coletiva e as identidades se incorporam e se encenam poeticamente.
O trabalho evidencia como os poemas operam em favor da preserva�‹o da mem—ria
coletiva e da identidade dos povos ind’genas. Na poŽtica da escritora, as
mem—rias e identidades performadas d‹o sustenta�‹o a outros saberes sobre os
povos ind’genas, os quais se diferenciam das vers›es disseminadas pelas
epistemologias eurocentradas. Por fim, o texto realiza um estudo
te—rico-cr’tico que dialoga com os seguintes autores: Halbwachs (1990); Hall
(2006); Munduruku (2018) como aporte te—rico principal.
Palavras-chave: Literatura ind’gena. Poesia ind’gena. Eliane Potiguara.
Mem—ria. Identidade.
Abstract: This text invests in a discussion about the
existing relations between collective memory and indigenous identity in Metade Cara, Metade M‡scara, by contemporary indigenous writer Eliane
Potiguara. Metade Cara, Metade M‡scara is an autobiographical work, of a hybrid genre,
interspersing legends, fiction, testimonies, depositions and poems. Through the
displacement narrative and diasporic process of the writer, we highlight how
individual/collective memories and identities are incorporated and acted out
poetically. The work shows how the poems operate in favor of preserving the
collective memory and identity of indigenous people. In the writer's poetics,
the performed memories and identities support others knowledges about indigenous
people, which differ from the versions disseminated by Eurocentric
epistemologies. Finally, the text conducts a theoretical-critical study that
dialogues with the following authors: Halbwachs (1990); Hall (2006); Munduruku
(2018), among others.
Keywords:
Indigenous literature. Indigenous poetry. Eliane Potiguara. Memory. Identity.
Da oralidade ˆ escrita
A literatura ind’gena contempor‰nea Ž um
lugar ut—pico (de sobreviv�ncia), uma variante do Žpico tecido pela oralidade;
um lugar de conflu�ncia de vozes silenciadas e exiladas (escritas) ao longo dos
mais de 500 anos de coloniza�‹o (GRAòNA, 2013, p. 15).
Podemos dizer que a literatura escrita ind’gena tem se consolidado como
um movimento estŽtico-liter‡rio e pol’tico no Brasil. Mas, anteriormente ˆ escrita,
a literatura ind’gena era compartilhada atravŽs da oralidade ou da tradi�‹o
oral. Assim, as narrativas, hist—rias e saberes que antes eram transmitidos de
gera�‹o em gera�‹o apenas por meio da oralidade, agora tambŽm circulam atravŽs
da escrita. Portanto, uma caracter’stica significativa da literatura escrita
ind’gena Ž sua estreita e profunda rela�‹o com a tradi�‹o oral.
A oralidade ind’gena Ž entendida como conjunto de costumes, cren�as e
rituais das diversas comunidades ind’genas partilhados atravŽs da voz. Por meio
do conhecimento oral, ou seja, de uma sŽrie de c‰nticos, toantes, literaturas
(de diferentes etnias), os ind’genas transmitiam de gera�‹o em gera�‹o esses
conhecimentos.
Daniel Munduruku, escritor ind’gena, autor de diversos livros e defensor
da causa ind’gena, afirma que Òa escrita Ž uma conquista recente para a maioria
dos 305 povos ind’genas que habitam nosso pa’s desde tempos imemoriaisÓ (MUNDURUKU,
2018, p. 81).
Nesse contexto, Gra�a Graœna, escritora ind’gena brasileira, defende o
espa�o da literatura ind’gena como um lugar de autoafirma�‹o cultural, de forma
que mesmo sendo produzida em meio a muito silenciamento e exilamento, em
paralelo a coloniza�‹o, buscou preservar mem—rias, tradi�›es, formas de vida e
cosmologias (GRAòNA, 2013).
Na mem—ria dos mais velhos, considerados mais s‡bios, o
tempo passado e presente se encontram para atualizar os repert—rios.
De tal maneira, a palavra falada era e ainda Ž
transmitida nas comunidades, colaborando para que a tradi�‹o ind’gena se mantenha
forte. O elemento oral partilhado em comunidade fortifica a mem—ria e o conhecimento
ancestral herdado, de forma que os anci‹os colaboram frequentemente para a
produ�‹o dos textos. As vozes dos anci‹os e dos ancestrais refletem na escrita,
conferem ao texto um car‡ter memorial e identit‡rio.
Nesse sentido, Paul Zumthor (2007) assevera que,
por meio da voz, n—s nos situamos no mundo; sendo assim, a voz ind’gena situa
as tradi�›es de modo a n‹o perder toda uma vasta produ�‹o oral que est‡ em constante
movimento na mem—ria dos mais velhos e que est‡ sendo passado para os mais
jovens[41]. Segundo Zumthor (1989,
p. 20), h‡ tr�s tipos de oralidade, associadas a aspectos culturais
diferenciados:
a) prim‡ria, sem rela�‹o alguma com a
escritura, relaciona-se a sociedades ‡grafas; b) segunda, quando a escritura
prevalece sobre os aspectos orais, condicionando, a partir de uma cultura
erudita, as formas de express‹o; c) mista, quando o oral se manifesta de forma
parcial e com retraso em rela�‹o ao escrito.
De tal forma, sendo a oralidade um ato
espont‰neo, natural; com a aus�ncia de uma literatura gr‡fica, de ordem
alfabŽtica, o registro oral dos ind’genas nasceu intimamente na fala, como
elemento de preserva�‹o da tradi�‹o. Assim, a oratura ind’gena funcionou/funciona
como todo conjunto de conhecimento daquilo que esteve/est‡ preservado na
mem—ria dos povos ind’genas.
Com o desenvolvimento da literatura ind’gena
escrita, n‹o se pode dizer que a oralidade foi desprezada e esquecida. O conhecimento oral Ž a mola propulsora para a produ�‹o liter‡ria
ind’gena. Assim, a literatura escrita n‹o existiria sem a
literatura oral, visto que ambas se correlacionam, pois, Òa escrita n‹o chega
para ser predominante, ela chega como auxiliar e ve’culo para a express‹o de
toda uma tradi�‹o que se estabelece por meio da oralidadeÓ (DORRICO, 2018, p.
113).
Da oralidade ao alcance
da escrita, em rela�‹o ˆ identidade e ˆ mem—ria, enfatizamos que as literaturas
de autoria ind’gena s‹o resultado da ancestralidade, e refor�am o pertencimento
Žtnico e a valoriza�‹o da luta pol’tico-social-liter‡ria ind’gena. Diversos s‹o
os escritores ind’genas que fortalecem o conhecimento ancestral por intermŽdio
dos textos. Autores como Eliane Potiguara, Gra�a Graœna, M‡rcia Kambeba, Daniel
Munduruku, Ailton Krenak, Auritha Tabajara, Ol’vio JekupŽ e tantos outros,
celebram ainda mais a literatura dos povos ind’genas brasileiros.
De tal forma, neste
texto, nos interessa a produ�‹o liter‡ria da escritora ind’gena Eliane Potiguara. Por meio da obra Metade Cara, Metade M‡scara (2019), de cunho
autobiogr‡fico, de
g�nero h’brido, entremeando
lendas, fic�‹o, testemunhos, depoimentos e poesias, evidenciaremos como os poemas contribuem para o
fortalecimento da mem—ria coletiva e da identidade dos povos ind’genas.
Percebemos que a poŽtica de Eliane Potiguara Ž carregada de elementos da
resist�ncia que mulher ind’gena, bem como se abastece da for�a memorial,
ancestral e identit‡ria. As narrativas transitam por espa�os vividos pela
escritora, desde o processo diasp—rico de sua fam’lia atŽ o seu nascimento em
uma terra distante. A isso, Ž importante salientar que
O projeto liter‡rio da escritora,
alicer�ado na tradi�‹o e na sabedoria ancestral, rompe com o silenciamento
secular dos povos origin‡rios e se apresenta como alternativa para a constru�‹o
de uma narrativa plural e n‹o estigmatizante da p‡tria brasileira, a partir de
uma cosmovis‹o ind’gena feminina (COSTA, 2020, p. 17).
As
provoca�›es presentes em Metade Cara,
Metade M‡scara denunciam as perversidades da coloniza�‹o e buscam romper
com os estigmas impostos aos povos ind’genas. Em rela�‹o ˆ voz de Eliane Potiguara, outras
vozes tambŽm s‹o reverberadas, uma coletividade Ž emanada, assim, a poŽtica da
escritora, presente nos diversos g�neros da obra, revigora a luta ind’gena e
anseia pelo direito de liberdade, respeito e igualdade.
Eliane
Potiguara: uma voz ind’gena feminina
Que fa�o com minha cara
de ’ndia?
E meus cabelos
E minhas rugas
E minha hist—ria
E meus segredos
(POTIGUARA, 2019, p. 32).
Descendente dos
Potiguara do Rio Grande do Norte, Eliane Lima dos Santos, mais conhecida como
Eliane Potiguara, Ž uma mulher ind’gena, m‹e, escritora e militante, nascida no
Rio de Janeiro, em 1950. Uma das escritoras pioneiras da literatura ind’gena
brasileira, tornou-se uma das principais vozes na luta pela preserva�‹o e
garantia dos direitos dos povos ind’genas, e tambŽm na busca pelo respeito e
valoriza�‹o das mulheres.
Eliane Potiguara, assim
como diversos ind’genas brasileiros, tambŽm foi v’tima dos resqu’cios da
coloniza�‹o. Durante a inf‰ncia, devido ˆs persegui�›es, enfrentou cont’nuas
adversidades, pois sua fam’lia foi obrigada a migrar para Pernambuco. Foi no
estado do Pernambuco que nasceu a m‹e de Eliane Potiguara, Òa pequena Elza,
filha de Maria de Lourdes, fraquinha e enfermaÓ (POTIGUARA,
2019, p. 24), m‹e com apenas 12 anos, v’tima de um estupro do colonizador.
Assim, as mulheres da fam’lia de Potiguara sa’ram de sua terra natal, de sua
aldeia, para sobreviverem.
Ap—s a migra�‹o para as
terras pernambucanas, a fam’lia decidiu partir para o Rio de Janeiro. A viol�ncia
ocorrida nas terras Potiguara e em diversos espa�os ind’genas do nordeste
brasileiro for�ou diversas fam’lias, como a de Eliane, a migrarem para outros
espa�os, em grande parte, para as periferias das grandes cidades sulistas. O
processo de estadia na capital carioca foi complicado e as mulheres da fam’lia
Potiguara passaram por v‡rias adversidades. A pequena Elza cresceu e quando
jovem, engravidou e deu ˆ luz a mulher que hoje chamamos Eliane Potiguara, que
foi criada por sua av— Maria de Lourdes, enquanto sua m‹e Elza trabalhava.
Eliane foi criada em um
quarto trancado e com sua av— aprendeu coisas diversas, maravilhosas, e Òfoi
assim que Potiguara come�ou a escrever, absorta nas hist—rias da pr—pria av— e
no sentimento que tudo isso envolvia. As hist—rias reais de sua av— a levaram
para um mundo m‡gico e liter‡rioÓ (POTIGUARA, 2019, p. 26-27). Potiguara n‹o
passou por adversidades apenas durante sua inf‰ncia, pode-se dizer que, durante
toda a sua vida, ela travou uma luta constante pela sobreviv�ncia.
Formou-se em Letras pela
UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), fundou o GRUMIN (Grupo Mulher-Educa�‹o
Ind’gena) e foi tambŽm indicada para o Projeto internacional Mil Mulheres do
Pr�mio Nobel da Paz. Ao mesmo tempo em que lutava
pelos direitos dos povos ind’genas, buscou conectar-se com sua ancestralidade.
No poema Identidade
Ind’gena, por exemplo, escrito em 1975 em mem—ria dos seus av—s, que marca
essa conex‹o com seu povo, Eliane Potiguara tra�a um percurso autobiogr‡fico e
menciona todo o processo de luta e resist�ncia dos seus parentes. Segundo Graœna
(2013, p. 78), tal poema Ò[...] inaugurou o movimento liter‡rio ind’gena contempor‰neo
no Brasil [...]Ó. No in’cio do poema, a voz autobiogr‡fica evoca uma mem—ria
coletiva e introduz o primeiro verso com o pronome possessivo (nosso), rememorando
os ancestrais. Ao longo do extenso poema, a voz l’rica, de tom feminino,
declama que nunca esteve e nem est‡ (ou estar‡) sozinha, pois carrega em si as
marcas e os ensinamentos identit‡rios e memoriais dos ancestrais, como exposto
na primeira estrofe:
Nosso ancestral dizia:
temos vida longa!
Mas caio da vida e da
morte
E range o armamento contra n—s.
Mas enquanto eu tiver o cora�‹o acesso
N‹o morre a ind’gena em mim e
Nem t‹o pouco o compromisso que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha gente passo a passo
E firme, em dire�‹o ao sol.
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego o peso da fam’lia espoliada
Desacreditada, humilhada
Sem forma, sem brilho, sem fama (POTIGUARA,
2019, p. 113).
O eu-poŽtico retoma a luta dos povos
ind’genas brasileiros, refor�ando que, embora o armamento, o poder colonial
exista, o compromisso assumido com os ancestrais jamais morre. A voz l’rica
denunciar‡ no decorrer dos versos, todo o processo de invisibiliza�‹o dos
ind’genas. No entanto, em contraposi�‹o ao ato de diminuir os sujeitos
ind’genas, haver‡ sempre o ato de resistir. Assim, depreende-se que a luta da
voz do poema Ž tambŽm a de Eliane Potiguara.
A conjun�‹o adversativa (mas)
presente nos versos dois e quatro, elucida uma voz que, embora saiba dos
sofrimentos que enfrentar‡, n‹o deixar‡ de cumprir o seu compromisso. Tal
compromisso mencionado pela voz do poema coincide com a voz da escritora Potiguara,
de caminhar sob a orienta�‹o dos mortos, dos ancestrais, em dire�‹o ao sol, ou
seja, ˆ liberta�‹o, embora carregue tambŽm em si espolia�›es, descren�a e
humilha�›es.
De tal forma, Òa luta de Eliane
Potiguara constitui ato eminentemente pol’tico, assim como a sua escritaÓ (COSTA, 2020, p. 151) e este ato pol’tico Ž
reverberado nas produ�›es de Potiguara, dentre as quais, citamos: A Terra Ž a M‹e do êndio (1989); Akajutibir—: terra do ’ndio potiguara
(1994); Metade Cara, Metade M‡scara
(2004); O coco que guardava a noite
(2012); O P‡ssaro Encantado (2014); A Cura da Terra (2015).
De tal maneira, como diz Costa (2020, p. 113), Òos
escritos de Eliane Potiguara adquirem um tom reivindicat—rio. Os poemas se
tornam lugar de materializa�‹o das vozes ancestraisÓ. Assim, a resist�ncia de
Eliane Potiguara est‡ na sua hist—ria de vida, bem como na sua produ�‹o
liter‡ria, de modo que, cada vez mais, povos ind’genas e n‹o-ind’genas buscam
conhecer a luta e a literatura dessa mulher Potiguara.
Metade
Cara, Metade M‡scara:
uma obra de g�nero h’brido
A obra Metade Cara, Metade M‡scara foi
publicada pela primeira vez no ano de 2004 pela Global Editora. ƒ composta por
sete cap’tulos e conta com v‡rios g�neros de cunho liter‡rio e tambŽm social,
assim, possui uma hibridez marcante. Nesse contexto, a autora apresenta, como
mencionado por Marcello Pereira Borgh’ na orelha do livro: lendas, fic�‹o,
realidade, testemunhos, depoimentos, e versos autorias.
Este œltimo g�nero Ž essencial
para a composi�‹o do volume, pois Ž desse modo que ser‡ narrada a hist—ria de
Cunhata’ e Jurupiranga e o processo diasp—rico de tais personagens, que formam
Òum casal que representa simbolicamente as fam’lias ind’genas brasileiras [e]
passam por diversas (des)aventuras, em cen‡rio e tempo m’ticos, desde o in’cio do
processo da coloniza�‹o europeia em solo brasileiroÓ (DE
MELO; COSTA, 2018, p. 364-365 [inser�‹o nossa]).
Segundo Milena Costa
Pinto, Metade Cara, Metade M‡scara possui
uma transversalidade tem‡tica proveniente da hibridez textual que agrega Òmem—ria, autohist—ria, biografia e autobiografia, de
cr’tica, testemunho e denœnciaÓ (PINTO, 2017, p. 79). Esta hibridez apontada pela
pesquisadora e tambŽm por diversos estudiosos da obra de Potiguara caracteriza
esta obra e faz dela um texto de vozes coletivas emanadas em cada g�nero
presente no livro.
Neste texto, nos
interessa, particularmente, alguns poemas presentes em Metade Cara, Metade M‡scara, por apresentarem elementos marcantes
da literatura ind’gena em rela�‹o com a mem—ria coletiva e a identidade. ƒ oportuno
destacar tambŽm a cr’tica social realizada na obra de Potiguara nos diferentes
g�neros. De acordo com Pinto, quando costurados, os g�neros presentes no livro
ser‹o refletidos atravŽs da hibridez, e dar‹o uma imprecis‹o ˆs defini�›es de
cada g�nero. Por conseguinte, o car‡ter h’brido n‹o se faz presente apenas no
corpo do texto, h‡ marcas de hibridez e de ambiguidade tambŽm no t’tulo do
livro, pois, uma metade Ž constitu’da por uma cara, e, a outra, por uma
m‡scara.
Em sua an‡lise, Pinto
(2017) menciona que tal ambiguidade sugere, a
priori, a vers‹o silenciada do ind’gena, ou seja, a cara, e em seguida, a
proposta inventada pelo colonizador, pelo poder dominante, a m‡scara. Trata-se
de uma ind’gena que carrega em si um rosto dividido, porŽm, no texto, a cara
ter‡ total destaque, pois Ž dela que provŽm os escritos.
A edi�‹o mais recente foi publicada
em 2019 pela Grumin Edi�›es. No primeiro cap’tulo, intitulado de Invas‹o ˆs terras ind’genas e a migra�‹o,
Eliane Potiguara aborda a separa�‹o entre as personagens Jurupiranga e Cunhata’
e trata sobre a migra�‹o ind’gena. Para tanto, a autora busca como pano de
fundo a sua fam’lia e o processo de sa’da do Rio Grande do Norte, passando por
Pernambuco atŽ chegar ao Rio de Janeiro.
Potiguara debate tambŽm quest›es relativas
ˆ viol�ncia contra a mulher ind’gena, ao racismo e ˆ intoler‰ncia. H‡ alguns
poemas que revelam uma escrita de dor, com marcas de resist�ncia, como podemos
observar no poema Migra�‹o Ind’gena:
No
teu universo de gestos
Teus
olhos s‹o mensagens sem palavras
Tua
boca ainda incandescente
Me
queima o rosto na partida
E
tuas m‹os...
Ah!
N‹o sei mais continuar esses c‰nticos
Porque
a mim tudo foi roubado.
Se
ainda consigo escrever alguns deles
S—
Ž fruto mesmo da m‡goa que me toma a alma
Da
saudade que me mata
Da
tristeza que invade todo o meu universo interno
Apesar
do sorriso na face... (POTIGUARA, 2019, p. 36).
Neste poema, a voz
l’rica com caracter’sticas femininas denuncia o roubo de tudo aquilo que possu’a.
Ao mesmo tempo, a voz poŽtica menciona um outro, e fala sobre os gestos, os
olhos, a boca, o rosto e as m‹os desse outro que ela sente em si, apesar da
necessidade de partir, de migrar.
A dor mencionada aparece
como dor sentimental, dor da perda, da separa�‹o, da saudade. Dor esta que
impede que o c‰ntico continue, que as palavras venham. Eliane Potiguara fala
que o processo colonizat—rio trouxe problemas graves aos ind’genas, assim, no
poema, Ž enfatizada a dor dos sentimentos, embora saibamos que, com a
coloniza�‹o tambŽm vieram Òenfermidade, a fome, o empobrecimento compuls—rio da
popula�‹o ind’genaÓ (POTIGUARA, 2019, p. 43). A dor sentida pela voz do poema
foi/Ž sentida por diversos povos que viram seus familiares mortos nas m‹os do
colonizador. O genoc’dio ind’gena foi severo, povos morreram por n‹o aceitarem
a submiss‹o.
Em rela�‹o ˆ dor
sentida, h‡ tambŽm o sentimento de m‡goa, entremeada com a saudade, ent‹o,
estaria a voz do poema perdendo seu amado? O processo colonizat—rio separou
diversas fam’lias, casais, filhos, que sentiram a dor da partida, a exemplo da
fam’lia de Eliane Potiguara. No entanto, v�-se que a dor sentida precisa ser
escondida (escondida para sobreviver?). O sorriso na face mascara
insistentemente a tristeza que invade o cora�‹o da voz narrativa.
No segundo cap’tulo, Angœstia e desespero pela perda das terras e
pela amea�a ˆ cultura e ˆs tradi�›es, a autora debate sobre as rela�›es
entre a migra�‹o e o racismo enfrentados pelos ind’genas, fala tambŽm sobre os
problemas pelo qual passam as mulheres ind’genas na luta pelos seus direitos,
alŽm de informar-nos sobre a import‰ncia do GRUMIM para a valoriza�‹o desta
luta. No terceiro cap’tulo, Ainda a insatisfa�‹o
e a consci�ncia da mulher ind’gena, a autora apresenta poemas que versam
sobre a luta e a resist�ncia feminina.
No quarto cap’tulo
intitulado de Influ�ncia dos ancestrais
na busca pela preserva�‹o da identidade, Ž abordada a import‰ncia da
fam’lia, dos av—s e dos antepassados ind’genas. Nesse cap’tulo, a personagem
Cunhata’ viaja por diversos espa�os e nesse ato de viajar Òouve vozes
intercaladas e, no meio delas, escuta a voz ancestralÓ (POTIGUARA, 2019, p.
87).
No cap’tulo cinco, que
tem por t’tulo Exalta�‹o ˆ terra, ˆ
cultura e ˆ ancestralidade, Eliane Potiguara narra os deslocamentos de
Cunhata’ e Jurupiranga pela terra, pela cultura e pela ancestralidade, ao passo
que apresenta ainda mais o seu processo de vida enquanto escritora ind’gena.
O cap’tulo seis Ž
bastante curto, nele, s‹o abordadas as quest›es acerca da Combatividade e Resist�ncia dos povos ind’genas, bem como os
percal�os enfrentados por Jurupiranga. Anterior a isto, n‹o havia men�›es sobre
o paradeiro de Jurupiranga, pois o foco estava em narrar os dissabores de
Cunhata’. Neste cap’tulo, somos informados das aventuras e percal�os pelos
quais Jurupiranga passou, bem como o sonho da liberdade, da justi�a, da paz. J‡
o cap’tulo sete, Vit—ria dos povos,
apresenta o final da narrativa, a uni‹o entre Cunhata’ e Jurupiranga e o
reencontro com a identidade que fora rasurada com a invas‹o do homem branco.
Metade
Cara, Metade M‡scara Ž uma obra marcante; nela, Eliane Potiguara narra,
poetiza, conta, relata, denuncia, liberta e anuncia o reencontro dos que foram
separados. Os valores liter‡rio e social se hibridizam e resultam na grande
potencialidade que Eliane Potiguara tem de escrever para se autoafirmar e tambŽm
afirmar os seus parentes ind’genas, que lutam constantemente pela valoriza�‹o e
respeito e pelo reencontro.
Mem—ria coletiva e identidades ind’genas
A literatura ind’gena de
Eliane Potiguara funciona como uma a�‹o de refor�o da identidade ind’gena. Em
seus escritos, propostos em diferentes g�neros, a escritora, n‹o produz algo
apartada da identidade herdada dos ancestrais. A proposta liter‡ria de Eliane
Potiguara n‹o Ž indigenista, literatura escrita por antrop—logos, pesquisadores,
escritores n‹o ind’genas; tampouco indianista, aquela do romantismo brasileiro
que prop™s uma representa�‹o do ’ndio pautada no discurso colonial. A
literatura escrita por Eliane Potiguara Ž chamada literatura ind’gena, pois parte
de um lugar identit‡rio pr—prio; Ž a pr—pria ind’gena que a escreve e narra.
Assim, em seus escritos,
Potiguara desvincula a imagem do ind’gena da vis‹o nacionalista e do senso
comum, apresenta a identidade ind’gena em suas narrativas, bem como a mem—ria
ind’gena, levando em considera�‹o seus relatos memoriais e suas viv�ncias em
comunidade e/ou fora dela.
Problematizando o
conceito de identidade, em A identidade
cultural na p—s-modernidade, Stuart Hall buscou distinguir tr�s concep�›es de
sujeitos identit‡rios. Para ele, h‡ o sujeito do Iluminismo, que Ž centrado e
dotado de raz‹o; o sujeito sociol—gico, aquele que necessita dos outros, pois
n‹o Ž independente; e o sujeito p—s-moderno, o indiv’duo que n‹o possui uma
identidade com fixidez. Assim, debatendo acerca da crise da identidade, o
pensador nos prop›e pensar n‹o no termo identidade, mas, sim, em
identifica�‹o, como algo que est‡ em andamento. Nesta concep�‹o, entende-se que
n‹o h‡ apenas uma identidade ou um processo de identifica�‹o, mas, identidades
mœltiplas e processos diversos de identifica�›es. Com isso, esse intelectual
nos leva a observar que
[...] a identidade Ž realmente algo formado, ao logo
do tempo, atravŽs de processos inconscientes, e n‹o algo inato, existente na
consci�ncia no momento do nascimento. Existe sempre algo Òimagin‡rioÓ ou
fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, est‡ sempre Òem
processoÓ, sempre Òsendo formadaÓ (HALL, 2006, p. 38).
Nessa perspectiva, a
identidade est‡ sempre em processo de forma�‹o, Ž um fazer-se inacabado. A
incompletude acontece pelo fato de os sujeitos precisarem estar cada vez mais
em processos formativos e de complementa�‹o. Quando pensamos em identidade
ind’gena estamos pensando em processos de forma�‹o, pois, esta identidade busca
apresentar quem Ž esse ind’gena, quais as suas ra’zes, qual a sua
ancestralidade.
Para Graœna (2013), a
no�‹o de identidade na literatura ind’gena est‡ associada ˆ ideia de
deslocamento; a pesquisadora ind’gena bebe dos estudos de Stuart Hall, que
compreende o deslocamento como o processo de di‡spora. Esse ato de deslocar-se
evocar‡ a concep�‹o de diferen�a e isso dar‡ a esta literatura um car‡ter
identit‡rio, ou seja, por ser diferente, por possuir identidade pr—pria, ser‡
refletido no texto liter‡rio a consci�ncia do cidad‹o e da cidad‹ ind’gena
(GRAòNA, 2013).
No decorrer do tempo,
diversos povos ind’genas foram obrigados a silenciarem suas identidades pelo
fato de serem diferentes, de estarem em di‡spora. H‡ como exemplo a fam’lia de
Eliane Potiguara que precisou migrar para o Rio de Janeiro e precisou se adaptar
a uma identidade cosmopolita.
Em O poder da identidade, Manuel Castells afirma que a identidade Ž
uma constru�‹o social, marcada por rela�›es de poder, assim, o autor aponta
tr�s tipos de identidade: a identidade legitimadora, a de resist�ncia e a identidade
de projeto. Aqui, nos interessa a identidade de resist�ncia, pois nela a
identidade dos povos ind’genas Ž refletida, inclusive a da escritora Eliane
Potiguara.
Assim, Castells (2018,
p. 56) prop›e que a identidade de resist�ncia foi
Criada
por atores que se encontram em posi�›es/condi�›es desvalorizadas e/ou
estigmatizadas pela l—gica da domina�‹o, construindo, assim, trincheiras de
resist�ncia e sobreviv�ncia com base em princ’pios diferentes dos que permeiam
as institui�›es da sociedade [...].
Esta
concep�‹o identit‡ria de resist�ncia mantŽm rela�›es com a identidade vivida
pelos povos ind’genas brasileiros. Ela Ž processual, como prop›e Hall (2006), e
est‡ em condi�›es de estigmatiza�‹o pela l—gica da domina�‹o, como citado acima.
No entanto, h‡ atos de resist�ncia e sobreviv�ncia para manter essa identidade
viva, pois Òela d‡ origem a formas de resist�ncia coletiva diante de uma
opress‹oÓ (CASTELLS, 2018, p. 57).
Dessa forma, Òa literatura produzida por ind’genas brasileiros apresenta na sua constitui�‹o as suas pr—prias caracter’sticas, tanto na forma quanto no conteœdoÓ (FIGUEIREDO, 2018, p. 130), um conteœdo pr—prio, embasado na identidade e na mem—ria e que avan�a de gera�‹o para gera�‹o. Nessa perspectiva, pensamos a mem—ria como um ato coletivo, no qual, o sujeito estabelece rela�›es com os que est‹o ou estiveram consigo.
Pode-se pensar a escrita de Potiguara tambŽm como uma a�‹o memorial individual, porŽm h‡ nos textos da autora muito mais do coletivo, da sua fam’lia, dos seus av—s. Em A mem—ria coletiva, o soci—logo Maurice Halbwachs aponta que Ò[...] nossas lembran�as permanecem coletivas, e elas nos s‹o lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais s— n—s estivemos envolvidos, e com objetos que s— n—s vimosÓ (HALBWACHS, 1990, p. 26).
Sendo a mem—ria o elemento que agrega as nossas lembran�as e os acontecimentos vividos e que mostra que n‹o estamos s—s, fica evidente que a nossa individualidade Ž atravessada pela coletividade daqueles que est‹o ao nosso redor, em nosso cerco de rela�›es familiares e afetivas.
Dessa forma, Munduruku (2018, p. 81) prop›e pensar a mem—ria ind’gena da seguinte forma:
A mem—ria Ž, pois, ao mesmo tempo passado e
presente que se encontram para atualizar os repert—rios e encontrar novos
sentidos que se perpetuar‹o em novos rituais que abrigar‹o elementos novos num
circular movimento repetido ˆ exaust‹o ao longo de sua hist—ria.
Para
Munduruku (2018), a mem—ria Ž resultado do passado – ou seja, da
ancestralidade – em sintonia com os saberes atuais, apreendidos no dia a
dia dos povos de modo que os movimentos anteriores da hist—ria s‹o repetidos em
novos movimentos, atualizando esse conhecimento memorial e preservando-o ao
mesmo tempo. Nesse contexto, para os povos ind’genas, a mem—ria, em sua g�nese
Ž, principalmente, realizada de maneira coletiva.
A mem—ria coletiva, ent‹o, Ž entendida como os elementos herdados dos ancestrais e partilhados pelos anci‹os, pelos pais, seja de forma oral, gr‡fica ou corporal, sendo marca essencial para a constru�‹o da poŽtica de Eliane Potiguara. A coletividade Ž reverberada em cada verso, em cada palavra, como vemos em Identidade Ind’gena, que Ž uma jun�‹o da forma poŽtica com a autobiografia, n‹o apenas da escritora, mas, dos seus av—s.
Vale mencionar o quanto o conhecimento ancestral, dos mais velhos Ž essencial para a constru�‹o do texto liter‡rio ind’gena, pois o saber, a mem—ria dos av—s, Ž um conjunto de mem—rias coletivas, visto que esses j‡ atravessaram diversos campos da vida e acumularam mem—rias que os edificaram. O saber dos anci‹os e a mem—ria que eles possuem articulam-se de modo a garantir a perpetua�‹o da ancestralidade, e o escritor e a escritora ind’gena, quando escrevem, trazem em si as marcas dos anci‹os e anci‹s, colocando no texto aquilo pelo qual os mais velhos j‡ passaram e contaram, dando a essas narrativas um car‡ter estŽtico.
A
poŽtica contempor‰nea de Eliane Potiguara rompe com a ideia de mŽtrica e prop›e
um poema com estrofes irregulares e com versos soltos, ora extensos, ora
curtos. A mem—ria ind’gena Ž cantada atravŽs do poema e a irregularidade na
organiza�‹o n‹o inibe este elemento de aparecer. Para tal, a voz l’rica exclama:
Mas n‹o sou eu s—
N‹o somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da hist—ria.
Seremos milh›es unidos
como cardume
E n‹o precisaremos mais sair pelo mundo
Embebedados pelo sufoco do massacre
A chorar e derramar preciosas l‡grimas
Por quem n‹o nos tem respeito.
A migra�‹o nos bate ˆ porta
As contradi�›es nos envolvem
As car�ncias nos encaram
Como se batessem na nossa cara a toda hora.
Mas a consci�ncia se levanta a cada murro
E nos tornamos secos como o agreste
Mas n‹o perdemos o amor (POTIGUARA, 2019, p.
113).
A voz do poema reclama os ultrajes j‡ sofridos pelos ind’genas, faz um retorno a mem—ria dos parentes que sofreram e reafirma que, embora perseguidos, n‹o aceitar‹o mais a persegui�‹o, a migra�‹o e as contradi�›es. Inicia a estrofe pensando no futuro, pois n‹o Ž nem est‡ ou estar‡ sozinha, grita: ÒSeremos milh›es unidos como cardumeÓ. Assim, a voz do eu l’rico ind’gena, atŽ ent‹o individual, come�a a apontar uma coletividade e exclamam a ancestralidade coletiva e em seguida o desejo de justi�a. Justi�a pelo massacre, pelas l‡grimas derramadas, pelos que faltaram com respeito contra esses povos.
A mem—ria coletiva tambŽm Ž acionada nos
versos Òa migra�‹o nos bate ˆ portaÓ e Òas contradi�›es nos envolvemÓ. Tais
versos apontam para o processo diasp—rico vivido por diversas fam’lias
ind’genas, que, embebidos na contradi�‹o do amanh‹, n‹o sabiam se sobreviveriam
ao processo. Percebemos que a voz l’rica est‡ muito insatisfeita e carrega em
si marcas e dores, quando diz: ÒComo se batessem na nossa cara toda horaÓ. No
entanto, o œltimo verso da estrofe Ž uma marca potente de valoriza�‹o da
identidade ind’gena, pois afirma: Òmas n‹o perdemos o amorÓ, e assim vemos o
qu‹o foi importante o amor herdado dos ancestrais.
Adiante, a voz ind’gena exclama:
Eu viverei 200, 500 ou
700 anos
E contarei minhas dores pra ti
Oh! Identidade
E entre uma contada e outra
Morderei tua cabe�a
Como quem procura a fonte da tua for�a
Da tua juventude
O poder da tua gente
O poder do tempo que j‡ passou
Mas que vamos recuperar [...] (POTIGUARA, 2019,
p. 114).
Aqui, a voz l’rica dirige a palavra ˆ identidade. As dores vividas ser‹o contadas com o intuito de observar no passado sofrido o elemento resist�ncia ind’gena. Assim, aponta-se a preserva�‹o da identidade ind’gena, e tambŽm com grande insist�ncia o ato de recuperar esta identidade tirada de forma brutal e negligente. A identidade Ž vista como fonte de for�a, sendo respons‡vel pelo retorno ind’gena. Caso contr‡rio, a coloniza�‹o teria deslegitimado todos os sujeitos ind’genas, visto que grande parte foi introduzida em novas identidades, ocidentais, crist‹s, brancas, etc. No entanto, essa luta pela recupera�‹o identit‡ria Ž constante, de forma que, mais adiante, a voz ind’gena proclama:
Seremos n—s, doces, puros, amantes, gente
e normal!
E te direi identidade: Eu te amo!
E nos recusaremos a morrer,
A sofrer a cada gesto, a cada dor f’sica,
moral e espiritual.
N—s somos o primeiro mundo! (POTIGUARA, 2019, p. 114).
A identidade ind’gena Ž vista no poema como
poder, para ent‹o viver, amar e recusar-se a morrer. O verso ÒE te direi
identidade: Eu te amo!Ó comprova a rela�‹o identit‡ria como mecanismo de
fundamental import‰ncia para a constru�‹o do sujeito ind’gena. A mem—ria, no
poema, aparece n‹o apenas, mas com maior insist�ncia, nos elementos de
sofrimento, a voz do poema lembra de cada gesto sofrido, de cada dor f’sica,
moral e espiritual, mas que se recusa a morrer e exclama: ÒN—s somos o primeiro
mundo!Ó, ou seja, somos os primeiros que habitavam essas terras, viv’amos da
partilha e do trabalho, portanto, queremos reencontrar aquilo que foi/Ž nosso.
Identidade Ind’gena descende do que fora herdado por Eliane Potiguara dos seus av—s e funciona como elemento portador da not’cia do reencontro, como reitera Munduruku (2018). No decorrer dos versos, a(s) voz(es) menciona(m) a luta em meio ao processo colonizat—rio, os sofrimentos, mas tambŽm a coragem, a ousadia e a esperan�a dos povos ind’genas. Esperan�a que provoca luta e resist�ncia:
A’ queremos viver pra lutar
E encontro for�a em ti, amada identidade!
Encontro sangue novo pra suportar esse fardo
Nojento, arrogante, cruel... (POTIGUARA, 2019,
p. 115).
A partir do verso ÒA’ queremos viver para lutarÓ, notamos que o eu (n—s) ind’gena prop›e pensar que a luta ind’gena Ž constante, pensamos esse eu como uma voz coletiva, e o uso do verbo querer na primeira pessoa do plural evoca essas vozes. S‹o vozes que n‹o ficam estagnadas, ao contr‡rio, encontram na identidade for�as, para ent‹o lutarem pelos de ontem, os de hoje e os de amanh‹. E se recusa a carregar esse fardo da coloniza�‹o, que Ž ÒNojento, arrogante, cruelÓ. A œltima estrofe canta a liberdade e o resgate da mem—ria. A liberdade aparece como uma categoria que existe a partir da a�‹o de lutar. Os ind’genas lutam contra as imposi�›es do colonizador e concretizam aos poucos essa liberdade t‹o almejada:
N—s, povos ind’genas
Queremos brilhar no cen‡rio da hist—ria
Resgatar nossa mem—ria
E ver os frutos de nosso pa’s, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e ÒdesplazadosÓ
Como n—s (POTIGUARA, 2019, p. 115).
O poema encerra-se clamando por liberdade. Ser livre Ž essencial para manter viva cada vez mais a mem—ria e a ancestralidade ind’gena. O ato de ser livre s— acontece pelo fato de o ind’gena n‹o aceitar a�‹o de docilizar o seu corpo, esse corpo que possui uma identidade pr—pria e que n‹o precisa ser moldado em outra identidade. O eu-poŽtico ind’gena quer viver da identidade e da mem—ria ind’gena, do resgate, quer brilhar no cen‡rio da hist—ria, quer resgatar a mem—ria. Embora ÒdesplazadosÓ, ou seja, deslocados, os ind’genas n‹o querem divis‹o entre os seus, mas, sim, viver na tessitura do acolhimento, da unidade. A identidade e a mem—ria mencionadas no decorrer do poema descende de gera�›es e a voz coletiva quer preservar esses elementos, que s‹o essenciais para a renova�‹o e preserva�‹o da ancestralidade.
O poema Eu n‹o tenho minha aldeia, por sua vez, tambŽm apresenta elementos memoriais e identit‡rios, a voz l’rica proclama atravŽs de car‡ter autobiogr‡fico o fato de n‹o ter uma aldeia[42]. A cada estrofe do poema podemos perceber a voz do eu l’rico de car‡ter feminino proclamando que, embora n‹o tenha nascido na sua aldeia, a heran�a espiritual e ancestral dos antepassados ela possui, est‡ sempre a acompanhando. E, acima de tudo, a voz poŽtica clama por toler‰ncia, respeito, amor e solidariedade, valores estes que os povos ind’genas possuem e refor�am a identidade de sujeitos que vivem na coletividade, heran�a dos ancestrais, como podemos ver na estrofe a seguir:
Eu n‹o tenho minha
aldeia
Minha aldeia Ž minha
casa espiritual
Deixada pelos meus pais
e av—s
A maior heran�a
ind’gena.
Essa casa espiritual
ƒ onde vivo desde tenra
idade
Ela me ensinou os
verdadeiros valores
Da espiritualidade
Do amor
Da solidariedade
E do verdadeiro
significado
Da toler‰ncia (POTIGUARA,
2019, p. 151).
Este poema possui um
car‡ter autobiogr‡fico. Tendo nascido no Rio de Janeiro e sendo criada por sua
av—, uma matriarca ind’gena Potiguara, a voz de Eliane se iguala ˆ voz do
poema, quando diz: ÒEu n‹o tenho minha aldeiaÓ, mas, em seguida, menciona que a
sua aldeia Ž a casa espiritual; assim, entendemos que esta casa Ž a av— Maria
de Lourdes, a heran�a ind’gena com quem ela tanto esteve, desde a tenra idade e
com quem aprendeu os verdadeiros valores ÒDa espiritualidade/ Do amor/ Da
solidariedade/ [...] Da toler‰nciaÓ.
Assim, neste poema, a
voz ind’gena retorna a um campo memorial, pois, se tratando de uma narrativa com
tra�os autobiogr‡ficos, retorna ao sofrimento da fam’lia de Potiguara que,
quando amea�ada, precisou sair do Rio Grande do Norte para sobreviver, mas
tambŽm aos campos de diversas outras fam’lias ind’genas brasileiras que
passaram pela mesma situa�‹o.
A voz, atŽ ent‹o silenciada, refor�a na poesia
ind’gena de Eliane Potiguara que a mem—ria dos ancestrais n‹o se perde, ela se
mantŽm viva em cada narrativa e Ž refor�ada em cada verso. O valor herdado dos
antepassados reacende a chama da luta e da busca por respeito, que faz com que
Potiguara enquanto ind’gena desaldeada possa se autoafirmar mulher ind’gena, sobrevivente da migra�‹o for�ada e
militante da causa ind’gena, esteja onde estiver. ƒ assim que a voz poŽtica
conclui o poema:
Ah! J‡ tenho minha
aldeia
Minha aldeia Ž meu Cora�‹o
ardente
ƒ a casa dos meus
antepassados
E do topo dela eu vejo o
mundo
Com o olhar mais
solid‡rio que nunca
Onde eu possa jorrar
Milhares de luzes
Que brotar‹o mentes
Despossu’das de racismo
e preconceito (POTIGUARA, 2019, p. 152).
O eu-poŽtico evidencia
que possui uma ancestralidade viva atravŽs da mem—ria herdada dos ancestrais.
Por isso, na tessitura narrativa, enaltece a identidade que come�ara a ser
formada e afirma que: ÒMinha aldeia Ž meu Cora�‹o ardente / ƒ a casa dos meus
antepassadosÓ. Assim, reconhece que n‹o est‡ s—, mas enxerga tambŽm que n‹o
est‡ imune ao preconceito, ao racismo. No entanto, sonha com uma sociedade sem
intoler‰ncia em que poder‡ cantar a voz ancestral, livre de julgamentos e
condena�›es dos homens brancos.
Algumas considera�›es: outras
toantes
As textualidades ind’genas escritas carregam em
si as marcas da oralidade. As narrativas ind’genas fazem parte de uma a�‹o
h’brida, na qual, oralidade e escrita se entrela�am. Metade Cara, Metade M‡scara, por exemplo, traz muito dessa hibridez
tanto nos diferentes g�neros, quanto nas mem—rias orais que Eliane Potiguara
herdou de sua av— Maria de Lourdes.
A produ�‹o liter‡ria de Eliane Potiguara resgata
mem—rias e sensa�›es, carrega a marca da migra�‹o, do sofrimento enfrentado por
sua fam’lia, meios dos quais retira tambŽm a for�a para escrever em mem—ria de seus
av—s, dos seus ancestrais, dos anci‹os. Trata-se de uma escrita identit‡ria,
memorial e ancestral, que desvincula a imagem do ind’gena das propostas coloniais,
do homem branco e proclama a beleza do povo ind’gena. Os poemas presentes em Metade Cara, Metade M‡scara evocam
mem—rias coletivas que foram herdadas por Eliane de sua av—, que por sua vez
herdou dos seus antepassados, assim, s‹o mem—rias de processos acumulativos.
Com isso, seja na prosa ou no verso, ler Eliane
Potiguara Ž mergulhar pelos espa�os dos Potiguara do Rio Grande do Norte,
passar tambŽm pelos aprendizados enquanto ela estava trancada no quarto com sua
av— no Rio de Janeiro, Ž perceber a luta identit‡ria pela autoafirma�‹o
ind’gena, pensar tambŽm na luta pelos direitos humanos, das mulheres ind’genas,
problematizar o racismo e o preconceito e o genoc’dio dos parentes.
Assim, a
escrita de Eliane Potiguara, e, aqui mais precisamente, a poesia dessa mulher
ind’gena, metaforicamente, Ž rio a ser mergulhado. Ao mergulharmos nos rios do
Nordeste e do Sudeste atravŽs de suas mem—rias, podemos evidenciar que a poesia
de Eliane Potiguara proclama a luta do seu povo e o valor identit‡rio de ser
ind’gena, o que um dia esteve na mem—ria (e ainda est‡) agora chega ˆ tessitura
narrativa escrita e nos leva a banhos necess‡rios de ancestralidade.
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[Recebido: 16 ago 2020
– Aceito: 02 jul 2021]
[39] Mestrando em Estudos Liter‡rios
no Programa de P—s-gradua�‹o em Lingu’stica e Literatura da Universidade
Federal de Alagoas.
[40] Doutora em Literatura e
Cultura-UFBA e Professora da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus
III – Juazeiro.
[41] Usamos no decorrer deste texto
as express›es: voz ind’gena, eu ind’gena e eu-poŽtico para nos referirmos ao
eu-l’rico dos poemas.
[42] O poema conta com cinco
estrofes, no entanto, aqui, traremos apenas a primeira e a œltima estrofes.