PRINCêPIOS DE UM SISTEMA EDITORIAL

 

PRINCIPES D'UN SYSTéME ƒDITORIAL

 

Maur’lio Antonio Dias de Sousa[24]

 

Resumo: Este trabalho objetiva mostrar a din‰mica da publica�‹o do folheto[25], entre os anos vinte e setenta, tendo como objetivos: a) refletir sobre as rela�›es humanas de produ�‹o que ocorriam no entorno da casa editorial entre o poeta-editor e os demais sujeitos envolvidos nesse processo de produ�‹o, e b) observar os aspectos referentes aos Elementos Instauradores e ˆ Ordena�‹o Funcional. Neste contexto a discuss‹o te—rica que apresentamos tomou por base os estudos e pesquisas desenvolvidos por Sousa (2009, 2016) os quais nos conduziu ˆ percep�‹o da complexidade das rela�›es de produ�‹o no interior do universo da chamada ÒLiteratura de CordelÓ.

Palavras-chave: Produ�‹o. Poeta. Editor. Casa Editorial.

 

 

RŽsumŽ: Nous mettons en relief dans ce travail la dynamique de la publication du cordel, entre les annŽes Vingt et Soiaxante-dix, ayant pour objectifs: a) de reflechir sur les raports humains que avaient lieu dans les maison dÕŽditions entre le poŽte-editeur et dÕautres personnes participant dans les processus de production du cordel; et b) dÕobeserver des aspects concernant les ƒlŽments Instaurateurs et Ordre Fonctionnel. Dans ce contexte, la discussion thŽorique prŽsentŽe Žtait basŽe sur les Žtudes et recherches dŽveloppŽes par Sousa (2009, 2016) lesquelles nous ont conduit ˆ comprendre la complexitŽ des rapports de production de ce quÕon apele ÒLiteratura de CordelÓ.

Mots-clŽs: Production. PoŽte. ƒditeur. Maison dÕŽdition.

 

 

Introdu�‹o

 

A din‰mica do processo de produ�‹o poŽtica, que surgiu com os poetas-editores, difere de todos os tipos tradicionais de enuncia�‹o da poesia popular nordestina, manifestando-se de maneira envolvente, ampla, complexa, estruturante e sist�mica, sem precedentes: neste sentido, revolucion‡ria. Trata-se de uma pr‡tica editorial que, longe de ser uma mera imita�‹o do formato hegem™nico, concretiza um modelo pr—prio que vai realizar a inscri�‹o e perman�ncia, no mercado de folhetos, de um modo de publica�‹o e circula�‹o nunca visto antes. Para que esse sistema pudesse vir ˆ luz e se estruturar como tal, fez-se necess‡ria a conjuga�‹o de diversos fatores que aqui apresentamos em dois grandes grupos: os Elementos Instauradores e a Ordem Funcional.

 

 

 

 

 

Elementos Instauradores

 

Priorizamos aquŽm o esfor�o em descrever o poeta na fun�‹o de editor, apresentando o seu trabalho como desenvolvimento funcional de sua condi�‹o: propriet‡rio de uma casa editorial de folhetos. ƒ bem certo que o estabelecimento da condi�‹o de poeta-editor sempre representou um marco na carreira do poeta popular. Se comparada com o nœmero dos que n‹o galgavam privilegiada posi�‹o, tem-se a’ um caso de ascens‹o profissional, tanto da express‹o da capacidade aquisitiva como do potencial representativo por parte do poeta-editor no interior desse universo cultural. Se para alguns poetas a carreira de empreendedor editorial fora, de fato, um caminho de sucesso, essa experi�ncia nem sempre significou garantia de �xito profissional, pois para outros que se enveredaram por esse caminho a experi�ncia foi de malogro. H‡ ent‹o um interdito no tr‰nsito entre a posi�‹o de poeta e a de poeta-editor e isso n‹o sugere uma pac’fica acomoda�‹o, ao contr‡rio aponta para uma adequa�‹o exigente.

O desenvolvimento das atividades editorias consagradas ao folheto caracteriza-se, desde sua origem, pela exig�ncia de um capital m’nimo, que normalmente advinha da venda de folhetos nas feiras das cidades extensivas, para que o novo empreendedor viesse adquirir o maquin‡rio b‡sico e dar in’cio ˆs diversas atividades relacionadas ˆ publica�‹o. AlŽm da posse do referido capital inicial, havia que se considerar um outro fator que compunha a g�nese do nascimento do editor: o aprendizado da tŽcnica tipogr‡fica editorial. O poeta, ent‹o editor, era um ne—fito no manuseio dos instrumentos gr‡ficos e na aplica�‹o da tecnologia de editora�‹o o que exigia inicialmente um m’nimo conhecimento sobre os procedimentos de impress‹o. ƒ preciso que se observe as dificuldades e os esfor�os iniciais do poeta-editor que, oriundo da oralidade, com seu modo pr—prio de propaga�‹o[26], se punha, agora, diante da realidade da cria�‹o poŽtica mediada pelo suporte impresso: eis um desafio e uma necessidade de adequa�‹o diante de uma nova ordem de express‹o poŽtica[27].

PorŽm esses elementos preliminares n‹o d‹o conta, por si s—, de explicar a posi�‹o do poeta-editor no mundo da publica�‹o e circula�‹o do folheto. A legitimidade da fun�‹o do editor caracterizava a demanda, no per’odo hist—rico, de sua estabilidade, para alŽm das publica�›es. Essa demanda certamente permitiu ao editor decidir regras, orientar o alinhamento das publica�›es e quais os recursos que melhor a elas se adaptavam. As condi�›es culturais pr—prias do tempo, a vida do campo, as feiras das cidades, as rotas da oralidade poŽtica, tantas narrativas que entrecruzaram poeticamente e tantos autores que se conheceram n‹o fundaram um modo de difus‹o poŽtica apenas pela necessidade da participa�‹o num mercado editorial, nem tampouco s— pela comunica�‹o poŽtica do que representaram: constitu’ram, deveras, um conjunto pr—prio de a�›es espec’fico a um determinado momento cultural e hist—rico no qual se desenvolveu o processo de publica�‹o que ganhou viabilidade mediante os Fatores Estruturais, o Regime Estruturante e as Pr‡ticas Constituintes.

Havia um ordenamento nos acontecimentos e no exerc’cio das diversas atividades dos poetas-editores-impressores as quais j‡ dispunham, naquela conjuntura, de condi�›es hist—ricas favor‡veis que, aliadas aos fatores constituintes e aos procedimentos estruturantes, compuseram os momentos fundadores da editora�‹o de folheto. Tal ordenamento era desencadeado mediante formas diretas ou indiretas que legitimaram a hierarquia dos propriet‡rios das casas editoriais, dando-lhes (ˆs vezes mais, ˆs vezes menos) visibilidade no campo da editora�‹o. A possibilidade de se estabelecer como editor estava diretamente relacionada ˆ potencialidade resultante da combina�‹o dos fatores estruturais que interferiam no desempenho produtivo na carreira desses poetas na nova atribui�‹o de editores-impressores. Os Fatores Processuais, Fatores Substantivos e Fatores Log’sticos estabeleceram uma sŽrie de eixos de interfer�ncias na publica�‹o do folheto, uma espŽcie de influ�ncia cisalhante sobre a produ�‹o, semelhantes na dire�‹o, mas distintos na intensidade; podendo eles influenciar na posi�‹o do editor no interior desse sistema produtivo e na din‰mica do mercado editorial

 

                               Figura 01 – Quadro dos Fatores Estruturais

  

                        Fonte: Sousa (2016).

 

AlŽm da compreens‹o da interfer�ncia desses fatores estruturais, que serviram como uma espŽcie de padr›es de funcionamento para o desempenho da atividade do editor, Ž preciso tambŽm que se entenda o modo como eles atuavam no lado, digamos, interno das atividades produtivas que compunham o Regime Estruturante.

A prensa e os tipos de ferro tornaram-se, de modo especial no in’cio do sŽculo XX, os meios imprescind’veis pelos quais poderiam ser impressas as narrativas poŽticas que se encontravam vivas e dispersas no imagin‡rio dos poetas populares nordestinos. A certeza da fixa�‹o dos versos em seu suporte impresso atraiu sobremaneira os poetas populares que desejavam ver os seus poemas circulando atravŽs de um novo modo de express‹o: tang’vel, comercializ‡vel, impresso, circulante e manent. ƒ preciso, pois, que essa faculdade seja entendida na perspectiva em que pr‡ticas e legitimidades conservavam uma for�a estruturante. A possibilidade do �xito na carreira do editor, alŽm dos fatores estruturais, estava relacionada, a um regime estruturante que nasce n‹o de uma veleidade, mas de uma exig�ncia real, do exterior, do profissional e que se constitu’ram em tr�s conjuntos: Procedimento Produtivo, Procedimento Competentivo e Procedimento Identificador.

Para se obter uma melhor clareza das a�›es do poeta-editor, presentes no primeiro procedimento, Ž importante a compreens‹o de que o surgimento das tipografias inegavelmente ampliou as formas de publica�‹o, mas que, por outro lado, passou a exigir do poeta-editor, alŽm da posse de recursos necess‡rios para a aquisi�‹o dos recursos gr‡ficos e do dom’nio das pr‡ticas editoriais ao funcionamento, a capacidade de se articular bem nesse mercado, objetivando projetar cada vez mais o seu produto comercial, tornando-o presente em toda a malha de distribui�‹o do folhetos nas ag�ncias espalhadas por todo o norte-nordeste.

No segundo procedimento, observamos o movimento do poeta-editor no esfor�o de estabelecer-se no mercado editorial, esfor�o que ao exigir dele compet�ncia tambŽm delineava o seu perfil, podendo atribuir-lhe uma posi�‹o de destaque. Enquanto as vendas dos folhetos se realizavam nos sal›es, nas feiras e nas diversas ag�ncias espalhadas pelo Brasil, havia um esfor�o por parte dos propriet‡rios das casas editoriais no sentido de um melhor posicionamento e de uma compet�ncia para permanecer em destaque nesse mercado editorial. Foram tomadas de posi�›es que gradativamente hierarquizaram a disposi�‹o dos editores nesse espa�o art’stico e comercial.

ƒ importante notar que, nesse per’odo em que o sistema editorial do folheto vai se estabelecendo, o espa�o de possibilidades n‹o era amplamente aberto a uma multiplicidade participativa dos indiv’duos, tal como o fora no per’odo prŽ-editorial, em que havia possibilidades mais ou menos iguais e em que o acesso era, de certo modo, praticamente livre, no sentido de que, por exemplo, entre os cantadores e os poetas de bancada o ingresso e a perman�ncia profissional n‹o se caracterizava por uma demandas de compet�ncia estruturante t‹o objetivas e pontuais como essas que acabaram por surgir entre os poetas-editores.

Ap—s a institui�‹o do referido sistema, o exerc’cio profissional do poeta, enquanto editor, se reveste de uma exigibilidade n‹o cogitada no mundo da oralidade, mas que agora se imp›e como decisiva entre os sujeitos dessa nova ordem produtiva, isto Ž, passa a ocorrer entre os poetas-editores uma busca pela redefini�‹o dos limites de compet�ncia e de qualidade de produ�‹o. Compet�ncia que se desloca da esfera estŽtica-liter‡ria para a esfera das estruturas e dos procedimentos pr‡ticos pelos quais o poeta viria a se tornar (ou n‹o) um empreendedor capaz de atender ˆs demandas de um mercado editorial em ascens‹o. Na condi�‹o de sujeito editorial, o poeta, conforme o pr—prio perfil de atua�‹o, conquista seu lugar na propor�‹o da sua compet�ncia que se manifesta no interior desse universo em que a complexidade do dinamismo editorial vai se configurando como um sistema capaz, produtivo e atraente.

Nesse espa�o, manifestam-se mais claramente as rela�›es entre os editores que se hierarquizam segundo uma distribui�‹o gradual no ranking editorial. Trata-se de um quadro de coloca�›es que n‹o deve ser entendido como resultado de um œnico coeficiente, ao contr‡rio isso Ž o efeito de um conjunto de fatores que possibilitou visualizar a disposi�‹o relacional entre os editores. Assim eles s‹o representados por suas posi�›es segundo o volume total de suas participa�›es nesse mercado editorial, o que, por sua vez, decorre diretamente das for�as dos fatores estruturais e do modo como o editor reage ˆs demandas o que pode ser avaliado a partir da efic‡cia dos procedimentos estruturantes. Embora n‹o se trate aqui de critŽrios t‹o rigorosos, eles permitem a percep�‹o mais pertinente para que se possa entender o lugar ocupado por determinado editor entre os seus pares na hierarquia que os ordena.

ƒ um mercado atravessado por tens›es objetivas que configuram as posi�›es dos protagonistas editoriais, servindo assim como indicador das habilidades nas rela�›es de influ�ncias e de produ�‹o. Essa configura�‹o revela o prest’gio da casa editorial que se reflete na din‰mica particular das rela�›es de produ�‹o e venda. Nesse territ—rio, define-se o sentido das estratŽgias contidas no processo produtivo, ou seja, nele s‹o dadas as condi�›es que tornam l—gicas as a�›es que visam defender e melhorar a produ�‹o do editor. Isso equivale a dizer que antes mesmo que o folheto se torne objeto de circula�‹o liter‡ria e/ou comercial um universo de rela�›es, tens›es, articula�›es e tomadas de posi�›es entre os editores caracterizam o processo produtivo e o definem com suas marcas pr—prias e, justamente, em decorr�ncia disso, o folheto surge como um suporte indicador da efici�ncia editorial. Pelas caracter’sticas estruturais desse sistema, pode-se afirmar que o grau de maestria entre os editores foi algo percebido em determinados momentos de tens‹o nesse espa�o e que pode ser entendido como componente de sua g�nese.

Esbo�a-se assim um novo rosto do poeta popular que ao tornar-se editor vai lidar com a realidade da qualifica�‹o de um produto material. Logo, est‡ na base dessa din‰mica de publica�‹o a tens‹o original das rela�›es de destreza pela qual o poeta-editor passa a perceber uma demanda que extrapola a qualidade liter‡ria: a compet�ncia produtiva. Nova realidade que nasce com o surgimento do suporte impresso, elemento causal desse novo rosto do poeta – o rosto do editor competente, rosto que se espelha no produto de seu produto: o folheto. ƒ a din‰mica do pr—prio sistema editorial – edi�‹o → impress‹o → distribui�‹o → comercializa�‹o – que levou o editor a interpretar as significa�›es pr‡ticas da produ�‹o como uma atividade competente que precisa ser dotada de uma compet�ncia para alŽm do aspecto estŽtico; conduzindo, desse modo, o editor a captar a perspectiva de exig�ncia na medida em que s— ele pode capt‡-la; na especificidade do exerc’cio do seu pr—prio trabalho: na sua fun�‹o de editor.

No decorrer da dŽcada de 1920, a editora�‹o do folheto come�a a construir as suas bases mais consistentes. Nesse per’odo, tra�os internos e externos delineiam a face desse sistema. S‹o transforma�›es estruturais que dizem respeito n‹o s— ao formato editorial do folheto (fatores internos) como ao seu modo de produ�‹o e comercializa�‹o (fatores externos). V�-se, por a’, a exist�ncia de condi�›es materiais e culturais favor‡veis impulsionadoras da carreira profissional do editor no sentido de que ela viesse atingir gradativamente um grau de profissionaliza�‹o atŽ ent‹o nunca visto, uma vez que, antes desse per’odo, o pr—prio autor se encarregava, por exemplo, das responsabilidades individuais de viabilizar a impress‹o e a venda dos seus pr—prios folhetos, realidade que se modifica gradativamente com o estabelecimento das casas editoriais e da rede de agentes distribuidores. Pode-se afirmar, portanto, que o folheto, no final da referida dŽcada, j‡ reunia as condi�›es estruturais e o grau suficiente de profissionaliza�‹o para dar sustenta�‹o a um universo liter‡rio configurado por um sistema de produ�‹o aut™nomo embasado em editores, autores, ilustradores, estrutura de publica�‹o, rede de difus‹o e mercado pr—prios.

O terceiro procedimento j‡ nos permite entender a hierarquia na qual se distribui os diversos sujeitos implicados nesse espa�o poŽtico popular. Dois modos de legitima�‹o se definiam: o da oralidade, das fun�›es de cantador e o do impresso, das fun�›es do poeta de bancada, do poeta-editor, etc. O reconhecimento do cantador, como exerc’cio profissional, inicia-se na aceita�‹o popular e legitima-se, entre seus pares consagrados, no emparceiramento d�itico em momentos de cantoria. N‹o se trata mais de uma simples parceria para mais um momento de apresenta�‹o, de espet‡culo e de legitima�‹o do sujeito; nele se exercita a observa�‹o criteriosa, se analisa performances, perfis s‹o avaliados, se faz distin�›es, se definem qualidades, se apontam n’veis, se explicitam categorias, edifica-se um c‰non, constitui-se, assim, um procedimento identificador. Tal procedimento Ž uma tradi�‹o entre os cantadores e cada um reconhece os seus processos de canoniza�‹o na arte, perante seus companheiros e/ou mestres e tambŽm legitimadores. O uso que os poetas fazem dos nomes dos mestres/autoridades que os precederam e que s‹o consideradas por eles elementos representativos da poesia popular Ž um reconhecimento que Ž tambŽm busca de legitimidade e constru�‹o de prest’gio.

Diferentemente do aspecto perform‡tico do processo de legitima�‹o na oralidade, para o poeta de bancada, tudo se inicia a partir da publica�‹o do primeiro folheto, segue-se depois na avalia�‹o mediante a sua recep�‹o no mercado, seguindo pelos indicadores de novas tiragens e reedi�›es t’tulos e, por fim, na opini‹o dos seus pares e do pœblico consumidor que, em œltima inst‰ncia, consagra o autor e consolida as obras cl‡ssicas. Primeiro, o poeta escreve e publica os seus folhetos. E essa nova posi�‹o se fortalecer‡ se vier coroada de reedi�›es. Para o poeta de bancada, a escrita do folheto correspondia aproximadamente ao seu rito de passagem, Ž pela publica�‹o que o poeta inicia o seu processo de canoniza�‹o no universo da poesia escrita. Evidentemente que n‹o se pode pensar na exist�ncia de uma classifica�‹o r’gida nesse processo se o nosso paradigma for estranho ao pr—prio processo, todavia se percebe com clareza e objetividade as posi�›es hierarquicamente ocupadas.

 

 

 

 

 

 

Esse procedimento nos mostra os sujeitos compondo duas esferas, de posi�‹o e de disposi�‹o, em uma din‰mica de a�‹o e correla�‹o cont’nuas e mut‡veis. A esfera da posi�‹o se caracteriza por ser designativa, ao nomear as fun�›es dos sujeitos, tais como a do cantador, do poeta de bancada, do poeta-editor, do ilustrador, etc.; Ž intersubjetiva, no modo das rela�›es por ser entre os sujeitos da mesma esfera: Autor ↕ Editor ↕ Ilustrador; Ž adjetival, ao delinear aspectos qualitativos, poeta-maior, poeta-menor, editor-maior, editor-menor, etc. e, em decorr�ncia disso Ž vertical, pois estabelece uma hierarquia.

 

                                                       Figura 02 – Esfera da Posi�‹o

                            

                                                      Fonte: Arquivo pessoal (2020).

 

Na esfera da disposi�‹o, as rela�›es se caracterizam por serem extra subjetivas entre sujeitos de esferas distintas: Autor 1 ↔ Autor 2, Editor 1 ↔ Editor 2, Ilustrador 1 ↔ Ilustrador 2; mensurativa, por levar em considera�‹o a quantidade das produ�›es, a exemplo do nœmero de tiragens, as reedi�›es, as aquisi�›es de t’tulos, etc.; horizontal, pois o aspecto produtivo n‹o se vincula necessariamente ao aspecto adjetival.

                                                                 

                                         Figura 03 – Esfera da Disposi�‹o

                             

                                           Fonte: Arquivo pessoal (2020).

 

A esfera da posi�‹o possibilita a clareza da diferencia�‹o das fun�›es que se tornam afetadas n‹o pela simples distin�‹o de si mesmas, mas em decorr�ncia do atributo adjetival que posiciona o sujeito no interior da sua esfera o que vai influenciar nas rela�›es, posto que quanto mais favor‡vel for a sua posi�‹o melhor ser‡ a rela�‹o de compet�ncia diante dos seus pares. O destaque do sujeito no interior da esfera de posi�‹o, isto Ž, o reconhecimento de uma condi�‹o qualitativamente mais positiva n‹o s— define o seu destaque entre os pares como lhe favorece profissionalmente, possibilitando-lhe mais visibilidade. Em consequ�ncia disso, ocorrem, nessa esfera, embates entre os pares que est‹o ligados a diversos conflitos, tais como, conflitos de compet�ncia, conflitos de legitimidade do exerc’cio da fun�‹o, etc., o que Ž pr—prio das rela�›es de ajuste de posi�‹o nessa esfera. As posi�›es geram os seus pr—prios pretextos que legitimam os conflitos de compet�ncia na din‰mica das posi�›es.

Por outro lado, a esfera da disposi�‹o porta tens›es em estado de exig�ncias objetivas, de conflitos de compet�ncia decorrentes da condi�‹o do sujeito na esfera da posi�‹o. Tendo a compet�ncia como fim œltimo a distin�‹o. Entre os editores, por exemplo, Ž sinal de distin�‹o, entre outros fatores, a aquisi�‹o de novas m‡quinas de impress‹o, o aumento das tiragens, o aperfei�oamento da qualidade editorial das publica�›es, ou ainda, o aumento do nœmero de funcion‡rios. Esses ganhos representam para o editor, alŽm da prosperidade material, destaque e legitimidade entre seus pares.

Nesse sentido, as tiragens, o potencial gr‡fico, o nœmero de bons t’tulos e o fluxo de autores em evid�ncia, circulando na casa editorial, expressam o potencial econ™mico, o raio de a�‹o e de interfer�ncia do editor entre os demais sujeitos vinculados ao mecanismo de publica�‹o e circula�‹o do folheto. Portanto se estabelece a’ uma postura fundamental de mercado que Ž a de influ�ncia e, consequentemente, de produtividade que se expressa no prest’gio da casa editorial e que se reflete numa postura orientada a dinamizar o seu locus produtivo, o que remete ˆ necessidade de requisitos que propiciem ao editor melhores condi�›es de compet�ncia no mercado.

ƒ, portanto, na esfera da disposi�‹o que se engendram tens›es de ordem quantitativa, voltados ˆ produ�‹o, a exemplo de conflitos de legalidade de autoria, conflitos de direito de publica�‹o, formatos editoriais, formalidades e legalidades contratuais, etc., conforme atestam os tipos de Declara�‹o, a exemplo da Declara�‹o Imediata, Declara�‹o Mediata-Representada, Declara�‹o Mediata-Intermediada e Declara�‹o Mediata-Adquirida.[28] Nessa esfera se estabelece uma din‰mica de rela�›es na qual o poeta-editor desempenha um papel decisivo.

 

                                      Figura 04 – Gr‡fico da fun�‹o poeta-editor

                                    

                           Fonte: Sousa (2009).

 

Trata-se aqui, portanto, de uma circunst‰ncia de defini�‹o nesse espa�o cultural, um momento em que se busca a categoriza�‹o do modo como o sujeito participa, entre seus pares, de um processo de identifica�‹o. ƒ um procedimento categorial como forma de classifica�‹o e representa�‹o do sujeito que passa a exercer uma lideran�a legitimada.

Todavia n‹o se pode perder de vista que a classe dos poetas-editores de folhetos se constituiu numa categoria social e culturalmente distinta dos demais empreendedores do ramo gr‡fico, antes de tudo por ser essencialmente formada por produtores culturais, isto Ž, por produzirem cultura liter‡ria. O poeta-editor produz a cultura na medida em que torna publica uma estŽtica liter‡ria e, ao mesmo tempo, edifica a legitimidade de sua fun�‹o que n‹o se reduz ao trabalho de publica�‹o, mas que tambŽm n‹o pode ser compreendida sem ele. A atividade do poeta-editor Ž uma fundamentalmente uma din‰mica relacional entre ele e o autor, seguida de um complexo de rela�›es tambŽm com os demais sujeitos part’cipes do processo produtivo no qual o poeta-editor intermedia, orienta, regula, comunica, enfim, gesta a rela�‹o de produ�‹o do folheto que se engendra nas rela�›es humanas de produ�‹o entre os diversos sujeitos envolvidos nesse processo. Esse mecanismo de produ�‹o e circula�‹o Ž o que comp›e a for�a do Regime Estruturante.

Nas Pr‡ticas Constituintes, deparamo-nos com a�›es do poeta-editor que contribu’ram para refor�ar a sua pr—pria fun�‹o. A legitimidade da fun�‹o do editor caracterizava a demanda, no per’odo hist—rico de sua estabilidade, para alŽm das publica�›es dos folhetos. Essa demanda certamente permitiu ao editor decidir regras, o alinhamento das suas publica�›es e os recursos que melhor a elas se adaptariam. As condi�›es culturais pr—prias do tempo, a vida do campo, as feiras das cidades, as rotas da oralidade poŽtica, tantas narrativas que entrecruzaram poeticamente e tantos autores que se conheceram e se ignoraram em uma din‰mica global que n‹o dominavam – cujo todo n‹o perceberam e cuja amplitude lhes escapava; todos esses sujeitos e articula�›es n‹o fundaram apenas um modo de difus‹o poŽtica, produziram, sim, uma ruptura no exerc’cio tradicional, estabelecendo um marco entre o tradicional e o novo no universo da produ�‹o poŽtica popular, compondo, desse modo, o conjunto das intermedia�›es do poeta-editor, isto Ž, as Pr‡ticas Constituintes.

 

 

A Ordena�‹o Funcional

 

ƒ preciso ent‹o que se entenda agora que o Sistema de Publica�‹o do Folheto apresenta uma dupla-face. Numa delas est‹o os Elementos Instauradores que s‹o os Fatores Estruturais, o Regime Estruturante e as Pr‡ticas Constituintes, acima apresentados, e, na outra face a Ordena�‹o Funcional composta da Comunica�‹o Aplicada, da Media�‹o Produtiva e da Solidariedade Vinculante.

A casa editorial especializada na publica�‹o e/ou comercializa�‹o do folheto, deve ser, antes de tudo, concebida como uma ambitude da circula�‹o do poŽtico, do cultural e do trabalho de publica�‹o que articulava no seu interior os mecanismos de reprodu�‹o material e simb—lica do folheto; envolvendo, assim, aspectos editoriais, comerciais, liter‡rios, culturais. Nesse sentido, era uma realidade caracterizada por uma realidade complementar portadora de expectativas apoiadas em duas esferas que se complementam: a) o lugar da produ�‹o e b) lugar da cultura popular. O primeiro Ž o lugar das propriedades que constituem o cen‡rio das rela�›es de produ�‹o e o segundo, o lugar da cultura popular, o lugar do pœblico consumidor do folheto, bojo inspiracional donde as tradi�›es culturais entrela�adas de vozes e de textos emanam para o lugar do poeta e dele para o lugar da produ�‹o; integra�›es horizontais entre o lugar da produ�‹o e o lugar da cultura; abrindo-se, desse modo, dutos culturalmente comunicantes entre o interior da casa editorial e esse mundo do povo; linhas de circula�‹o entre o mundo da casa e o mundo l‡ fora; conjuga�›es entre a tipografia que imprime versos, dando conta de estetizar o mundo do homem, e o mundo do povo das feiras, dos mercados populares e das pra�as, exatamente o lugar onde o liter‡rio popular tem, ao mesmo tempo, seu ponto de partida e de chegada de modo mais efervescente, real e humano.

 

                                     Figura 05 – L.P: Lugar de Produ�‹o

                                                       C.A: Comunica�‹o Aplicada

                                                       L.C: Lugar da Cultura Popular

 

                                  

                   Fonte: Arquivo pessoal (2020).

 

O espa�o editorial deve ser entendido como um componente indispens‡vel ˆ din‰mica produtiva do folheto; uma esfera de di‡logos, acordos e intera�›es; um solo situado segundo uma topografia m—vel entre a casa editorial e o mundo da cultura popular, real, vivido l‡ fora; um tecido onde se encontram dois caminhos complementares e voltados a um mesmo fim que diz respeito ao interesse comum das partes envolvidas; um territ—rio de publica�‹o onde se oportuniza de uma maneira ou outra, a chance de se projetar autores e obras populares; o lugar da possibilidade de produ�‹o comercial que n‹o se permite ocupar inteiramente por uma mentalidade mercantilista; um campo onde se partilha um sentimento de pertencimento comum; a condi�‹o essencial de consenso que facultar‡ a experi�ncia de um tipo particular de rela�‹o humana num contexto de produ�‹o: a Intera�‹o Consensual.

ƒ a Intera�‹o Consensual uma capacidade pr‡tica que os sujeitos poŽticos e/ou produtivos t�m de se relacionarem inter e entre grupos, visando racionalmente objetivos que podem ser interpretados a partir dos procedimentos por eles mesmos adotados. Entendendo-se que o papel exercido por essa racionalidade se torna eficaz na medida em que n‹o se identifica com uma unilateralidade produtiva, voltada apenas aos meios de obten�‹o de fins imediatos, mas, ao contr‡rio, tambŽm tem como finalidade integrar os sujeitos produtivos entre si e com o pr—prio trabalho o que significa tambŽm um maior disp�ndio de esfor�os no sentido de uma busca cooperativa de consensos. Ent‹o as rela�›es de intera�‹o atuam como um princ’pio ativo, condutor e renovador do mecanismo de participa�‹o e comunica�‹o, uma vez que a din‰mica das demandas produtivas sempre revela o car‡ter provis—rio dos referidos mecanismos. ƒ nessa din‰mica que se d‡ o processo circular entre o lugar da cultura popular e o lugar da produ�‹o como evento de reprodu�‹o simb—lica perpassada pela Comunica�‹o Aplicada.

As rela�›es de intera�‹o se apoiam na poderosa media�‹o da Comunica�‹o Aplicada que se inscreve de maneira sutil em todas as pr‡ticas e processos da produ�‹o, tornando-se assim respons‡vel pela constru�‹o de decis›es segundo as demandas circunstanciais; pelo di‡logo capaz de coordenar entendimentos racionais e produtivos entre as partes envolvidas nesse processo. Torna-se, ent‹o, a Comunica�‹o Aplicada um ve’culo para a partilha dos conhecimentos estŽticos e editoriais e para a troca de argumentos que, livre das amarras e dos constrangimentos de uma rela�‹o humana de produ�‹o demasiada vertical, permite um enriquecimento de pontos de vista e um alargamento de perspectivas que delineia o espa�o da publica�‹o como um campo de possibilidades dial—gicas produtivas, posto que se torna um espa�o fŽrtil para a constru�‹o da opini‹o e da vontade dos sujeitos envolvidos no processo produtivo, onde eles sejam capazes de assumir suas posi�›es diante do que considera razo‡vel inserido na realidade de um contexto de discuss‹o dial—gica e de produ�‹o de sentido de modo partilhado.

Desempenhando, assim, a Comunica�‹o Aplicada um papel importante na busca de entendimento nas rela�›es intersubjetivas ao conquistar, por entre a multiplicidade e por entre determinadas imprecis›es da linguagem cotidiana, o consenso pr‡tico necess‡rio, e isto sem deixar de lidar com a realidade do dissenso, comum ˆ natureza das rela�›es de intera�‹o num contexto de produ�‹o onde os envolvidos s‹o sujeitos participantes e livres, o que n‹o elide a obten�‹o de consensos, ao contr‡rio, os que agem comunicativamente nesse espa�o o fazem com esse fim.

O mundo das rela�›es humanas de produ�‹o do folheto n‹o se alimentava apenas das rela�›es de Intera�‹o Consensual, decorrentes dos consensos alcan�ados sob os pressupostos da Comunica�‹o Aplicada, mas tambŽm da concilia�‹o entre as demandas internas da casa editorial e as do mercado consumidor, as quais influenciavam decisivamente no modo como o poeta-editor iria atuar. E, uma vez que essas demandas exigiam um ajuste para um melhor funcionamento interno da casa, a fun�‹o de media�‹o surgia, ent‹o, como ponto de equil’brio entre essas vari‡veis. N‹o caracterizava a media�‹o na intera�‹o a rigidez e as formas premeditadas, ao contr‡rio disso, operava na flexibiliza�‹o e na real possibilidade de mudan�a no exerc’cio da media�‹o, sem diminuir-lhe a efic‡cia; modificando-se n‹o s— no plano da a�‹o entre o poeta-editor e cada autor em particular, como tambŽm entre ele e os demais sujeitos part’cipes, da’ resulta a Media�‹o Produtiva.

O sujeito condutor das rela�›es de media�‹o, no caso o poeta-editor, Ž denominado mediador, posto que Ž ele o protagonista do di‡logo entre as partes – editor ↔ autor / editor ↔ ilustrador / editor ↔ distribuidor – mediante a resolu�‹o de demandas voltadas ˆ ordem da publica�‹o, isto Ž, direitos de publica�‹o e regras do mercado, buscando encontrar uma solu�‹o para as quest›es de modo que satisfa�a os interesses de ambas as partes. Sua influ�ncia resulta de sua autoridade que Ž garantida pelos pr—prios envolvidos, e da confian�a que lhe Ž atribu’da e da habilidade que ele tem para intervir nesse tipo espec’fico de negocia�‹o.

Esse tipo de media�‹o se inscreve na hist—ria da editora�‹o do folheto cordel, a partir das primeiras gera�›es de poetas-editores[29], contribuindo para que esse sistema de publica�‹o se tornasse cada vez mais criativo e aut™nomo[30]. E surge como resultado do trabalho constante de negocia�‹o entre os sujeitos diretamente envolvidos no processo de publica�‹o, embasado na autonomia dos participantes, visando, sobretudo atender ˆs necessidades produtivas que exigem sempre serem repensadas em suas poss’veis solu�›es o que per se sup›e um pensar na a�‹o de media�‹o cujos ingredientes se estende a todo o desenrolar progressivo do agir mediador.

Opera, assim, numa din‰mica do pensar e do agir mediativo que quer ser um elo entre os aspectos liter‡rios, editoriais e de mercado os quais podem variar no seu grau de viabilidade, mas que precisam ser conciliados tendo em vista o seu fim œltimo. ƒ a Media�‹o Produtiva um meio de constru�‹o de poss’veis solu�›es, um instrumento privilegiado para a cocria�‹o de significados, entre interlocutores, viabilizada concretamente pela Comunica�‹o Aplicada, visando atingir solu�›es produtivas no sistema de publica�‹o e, justamente por isso, deve ser sempre um meio de resolu�‹o de conflitos e demandas no qual o mediador necessariamente deve ser um sujeito que desfrute de uma certa ascend�ncia sobre os demais, sendo isso substancialmente decorrente da posi�‹o que ocupa diante das partes.

ƒ pela media�‹o que deve passar a efici�ncia comunicativa capaz de reunir satisfatoriamente pouco a pouco as aspira�›es das partes envolvidas; passagem que, observando atentamente as multiplicidades de demandas, precisa criar condi�›es capazes de conjugar elementos oriundos de uma ordem interior de produ�‹o ˆs necessidades reais de um mercado; articula�‹o que, ao mesmo tempo, precisa corresponder a uma ordem exterior que se imp›e e a uma ordem interior que deve gerar meios para uma participa�‹o interativa.

No desempenho da Media�‹o Produtiva, a Intera�‹o Consensual Ž um princ’pio condutor porque Ž espŽcie de energia para o processo e, assim sendo, o Ž em dois sentidos: conflu�ncia e irradia�‹o.

 

Figura 06 – Gr‡fico da Intera�‹o na Media�‹o

                                      

                          Fonte: Arquivo pessoal (2020).

 

No primeiro sentido, a Intera�‹o Consensual Ž conflu�ncia na Media�‹o Produtiva por ser sinal de unidade para as partes envolvidas, uma vez que, por ela s‹o perpassadas, no segundo sentido ela Ž irradia�‹o para as mesmas partes dos diversos campos produtivos em decorr�ncia da sua perspectiva aplic‡vel que age como concretiza�‹o e aperfei�oamento das demandas portadas por ambas as partes em quest‹o. A Intera�‹o Consensual converge para o interior da Media�‹o Produtiva o acordo e impulsiona para fora a decis‹o tomada em forma de produ�‹o e expans‹o consensual e pragm‡tica.

O trabalho do mediador n‹o se reduz ˆ resolu�‹o de conflitos, frequentemente ele age, pautado em sua experi�ncia, de forma preventiva sugerindo procedimentos que evitem ocasion‡-los, sendo assim, para determinadas circunst‰ncias, ele se empenha mais na regula�‹o de rela�›es que na solu�‹o de conflitos. E por ser um processo aberto se nutre constantemente do aperfei�oamento apoiado na Žtica da Comunica�‹o Aplicada, na autonomia e na responsabilidade dos participantes, bem como na autoridade do poeta-editor a qual foi reconhecida pelos mediados num contexto de rela�›es de Intera�‹o Consensual cuja legitimidade foi constitu’da em situa�›es inerente ao espa�o de produ�‹o.

Nesse espa�o, os indiv’duos t�m seu cotidiano imerso numa realidade de rela�›es humanas de produ�‹o, as quais se desenvolvem por meio do di‡logo direto e presencial e, justamente, por isso a casa editorial se torna um ambiente apto para o desenvolvimento de uma forma de comunica�‹o que busca o entendimento voltado a um objetivo pragm‡tico. Isso contribui para que as rela�›es humanas sejam marcadas pelo espontane’smo e favore�a a presen�a de uma solidariedade vinculada, vivenciada nesses espa�o pelos v‡rios profissionais e artistas que, segundo as suas pr—prias fun�›es, estabeleciam uma determinada natureza de contato com o poeta-editor[31] e que s— pode ser entendida a partir de uma intersubjetividade, na qual os sujeitos mediados pela Comunica�‹o Aplicada se entendem sobre os procedimentos produtivos que comp›e esse universo de publica�‹o.

 


Considera�›es finais

 

O sistema de publica�‹o do folheto se erigiu como uma for�a de resist�ncia, diante do sistema liter‡rio hegem™nico que se autonomeou de culto e fez-se distinto do popular. Assim sendo, o primeiro estabeleceu-se como um territ—rio de afirma�‹o, de participa�‹o de direitos e de expans‹o de uma estŽtica liter‡ria. E isto s— foi poss’vel por ter viabilizado, em seu interior, rela�›es que vincularam reais movimentos de autossustenta�‹o,[32] ao ter constitu’do seu pr—prio pœblico consumidor, suas linhas e formatos editoriais, sua forma de comercializa�‹o do folheto, bem como a malha de representantes comerciais. Enfim, gerou um ordenamento espec’fico de funcionamento que, alŽm de demarcar a sua autonomia, propiciou o nascimento do editor popular e legitimou a influ�ncia do poeta-editor no processo de publica�‹o.

A causa dessa legitimidade se entende a partir do esfor�o por se penetrar nesse espa�o de sentido relacional que Ž antes de converg�ncia que de produ�‹o. Tentamos aqui descobrir ou desvelar a din‰mica dessa raz‹o convergente que n‹o se deixa definir, captar, apreender, sen‹o nas rela�›es rec’procas entre os sujeitos produtivos, o que s— se torna poss’vel ao percebermos que o modo de rela�›es de intera�‹o e os caminhos da media�‹o est‹o ligadas pelo contexto produtivo, pela refer�ncia a um mesmo ‰mbito de sentido condensado em bem-sucedida experi�ncia comunicativa e que a cont’nua rela�‹o entre esses aspectos engendram um sujeito de a�‹o autorizada que pressup›e um espa�o e tempo necess‡rios ˆ sua forma�‹o. Portanto, todo o conjunto de a�›es e intermedia�›es do poeta-editor devem ser entendidas como uma postura de resist�ncia que explica a autonomia do sistema editorial, posto que inaugura uma nova ordem de produ�‹o, capaz de gerar, desenvolver e arquivar seus saberes tŽcnicos no transcurso da sua pr—pria hist—ria.

 

Refer�ncias

 

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. A Estrella da Poesia: impress›es de uma trajet—ria. 2009. 292f. Disserta�‹o (Mestrado em Letras). Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2009.

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. O cordel no prelo: trajet—rias e impress›es. In: MENDES, Simone; (Org.). Cordel nas Gerais: oralidade, m’dia e produ�‹o de sentido. Fortaleza: Gr‡fica Express‹o, 2010a, p. 161-179.

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. A emerg�ncia de um sistema dualista: tr‰nsitos e autonomias. Estudos de Literatura Brasileira Contempor‰nea. Bras’lia, n. 35, jan./jun. p. 31-39. 2010b.

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. Funda�›es e itiner‰ncias da poesia nordestina. Jo‹o Pessoa: Editora Universit‡ria/UFPB, 2012.

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. Tipografias de Cordel: o nascimento do editor. Paulo Afonso: Editora Fonte Viva, 2016.

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. A hist—ria de uma Estrella: a estrela do cordel em Campina Grande. 2 ed. Salvador: Fastdesign, 2018.

 

 

[Recebido: 17 ago 2020]

 



[24] Professor Substituto da UNEB e pesquisador em Literatura de Cordel.

[25] Optamos aqui pelo termo folheto que tambŽm engloba romance em vez de cordel.

[26] SOUSA, 2012.

[27] SOUSA, 2010a.

[28] SOUSA, 2016.

[29] SOUSA, 2009, p.107-111.

[30] SOUSA, 2010b.

[31] SOUSA, 2018.

[32] SOUSA, 2016.