PoŽticas Orais, corpo-mem—ria e o ritmo das narrativas de mestres e mestras contadores de hist—rias tradicionais

 

 

Oral Poetics, memory-body and the rhythm from narratives of masters storytellers of traditional stories

 

 

Luciene Souza Santos[97]

https://orcid.org/0000-0002-6751-1070

 

Margarida da Silveira Corsi[98]

https://orcid.org/0000-0002-5216-8660

 

Lana Lula Amorim[99]

https://orcid.org/0000-0003-3784-4357

 

 

Resumo: O presente artigo versa sobre a literatura oral e a sua rela�‹o com a mem—ria, por meio da voz de mestres e mestras da tradi�‹o, guardi›es da arte de contar hist—rias. A mem—ria aqui apresentada nasce das viv�ncias e necessidades de comunidades que tambŽm as transmitem entre gera�›es. Uma mem—ria pass’vel de sofrer mudan�as geradas pelo tempo e pelas mœltiplas vozes que a transmitem de um ouvido a outro, de um espa�o-tempo a outro. O texto reflete ainda sobre a import‰ncia do corpo enquanto lugar de mem—ria, engendrado em seus ritos, rituais e narrativas e compreende a literatura oral sob novas perspectivas paradigm‡ticas e epistemol—gicas. Por fim, esse trabalho tem seu foco tambŽm na compreens‹o de que Ž escutando os contadores de hist—rias, com suas narrativas de vida e contos de tradi�‹o que a leitura da palavra, compreendida aqui como palavra no mundo e com o mundo, que a transmiss‹o de saberes pelas vias da oralidade acontece. Esses mestres e mestras carregam consigo o papel de salvaguardar e dar movimento ˆs mem—rias hist—ricas e saberes coletivos, construindo as culturas e rompendo as lacunas, que ainda existem, entre o passado e o presente, entre a escrita e a oralidade.

Palavras-chave: PoŽticas orais. Corpo-mem—ria. Contadores de hist—rias tradicionais.

 

 

Abstract: This article argues about oral literature and its relation with memory through the voice of tradition masters, guardians of the storytelling art. The memory presented here arises from the experiences and needs of communities that also transmit them among generations. A memory liable to undergo changes generated by time and by the multiple voices that transmit it from one ear to another, from one space-time to another. The text also reflects about the importance of the body as a place of memory, engendered in its rites, rituals and narratives and comprises oral literature under new paradigmatic and epistemological perspectives. Finally, this work also focuses on understanding that it is listening to storytellers with their life narratives and traditional talesthat the reading word, understood here as the word in the world and with the world, that the knowledge transmission through oral routes happens. These masters has the important role of safeguarding and movementing historical memories and collective knowledge, building cultures and bridging the gaps that still exists, between the past and the present, between writing and orality.

Keywords: Oral Poetics; Memory-body; Traditional storytellers.

 

 

O papel da mem—ria enquanto resultado do entrela�amento das experi�ncias cotidianas e o seu lugar nas pr‡ticas dos contadores de hist—rias

 

Era uma vez uma mulher que, ao amamentar, entoou a primeira can�‹o de ninar, plantando, no pequeno recŽm-nascido, a semente do desejo de ouvir a voz que traz conhecimentos, viv�ncias, medos e prazeres. N‹o muito distante dali, um velho pajŽ narrava aos curumins lendas sobre Tup‹, Jaci e Guaraci. Do outro lado da montanha, um anci‹o africano contava, aos mais jovens, hist—rias da m‹e-çfrica. O que eles t�m em comum? Esses tr�s contadores – de modo semelhante aos repentistas, cantadores, griots, rakugokas, anci›es de tribos ind’genas ou av—s urbanas – guardam na mem—ria viv�ncias, tradi�›es, mitos, cren�as e, de modos singulares, transmitem seus conhecimentos e li�›es aos ouvintes, como se lhes entregassem um tesouro precioso que deve ser guardado, mas tambŽm dividido.

A literatura oral est‡ ligada ˆ voz e ˆ mem—ria. Ela nasce das viv�ncias e necessidades de comunidades que tambŽm as transmitem de boca em boca para ouvidos atentos e sedentos de conhecimento e fantasia. Narrada ou cantada oralmente, ela torna-se suscept’vel ˆs mudan�as impostas pelo tempo e pelas mœltiplas vozes que a transmitem de um ouvido a outro, de um espa�o a outro, de uma comunidade a outra.

Muitos g�neros da oralidade s‹o compostos em versos, como as narrativas cordelizadas, estruturadas em sextilhas, septilhas ou dŽcimas, que comprovam a afirma�‹o de que Òo ritmo das frases, as partes finais ou iniciais semelhantes facilitam tremendamente a memoriza�‹oÓ (LUYTEN, 1992, p. 8). A memoriza�‹o depende de muitos aspectos da narra�‹o. A escolha das palavras, a musicalidade e a concis‹o dos elementos contribuem para que o narrador/contador guarde e transmita as li�›es e os encantamentos das narrativas.

Silva (2009) argumenta que as hist—rias orais s‹o formadas na base da mem—ria popular, sem determinar autoria, tempo, espa�o, sem atribuir nomes pr—prios. ƒ na Òvoz murmuranteÓ da oralidade que os contos populares, romances sertanejos, cantigas, x‡caras ganham vida e s‹o transmitidos de boca em boca, atravŽs dos tempos e espa�os. Assim tambŽm argumenta Oliveira (2012, p. 52), ao afirmar que as narrativas populares

conectam o homem com o seu mundo concreto, descrevem as vicissitudes e os caminhos seguidos ou por trilhar, mostram claramente a possibilidade de interven�‹o no real, na medida em que a palavra ÒvoaÓ de boca a ouvido, perpetuando a voz de um povo.

Deposit‡rios de um tesouro imenso, os contadores de hist—rias transmitem aos ouvintes um conjunto de ideias, fatos e sonhos, atravŽs de contos, lendas, provŽrbios, ditados populares, can�›es e f‡bulas, provenientes do passado long’nquo, quando a mem—ria era o modo primordial de preservar e transmitir hist—rias, cren�as e valores. Passadas de gera�‹o em gera�‹o, essas narrativas v‹o ganhando contornos pr—prios, de acordo com as necessidades das gera�›es, comunidades e estilos dos contadores de hist—rias. Assim,

as tradi�›es populares como bens culturais imateriais s‹o flu’dos e din‰micos, transformam-se continuamente, absorvendo elementos de outras culturas atravŽs dos mais variados meios. A pr—pria palavra tradi�‹o, do latim traditio, tradere, implica uma a�‹o de entregar, de transmitir, de levar e de trazer de um lugar a outro (OLIVEIRA, 2012, p. 50).

Esse levar de um espa�o a outro ou de um ouvido a outro Ž majestosamente exercido por contadores de hist—rias, cantadores de repente, recitadores de poesias orais. Narradores que transmitem as tradi�›es e hist—rias de suas na�›es, e tambŽm de terras long’nquas, associando viv�ncias, cren�as e culturas, que servem de exemplo para as viv�ncias dos ouvintes. S‹o estas viv�ncias, saberes e sonhos que tornam poss’veis hist—rias de peixes m‡gicos, m‡quinas voadoras, bois misteriosos, mo�as transformadas em touros, pedras em mo�as, curumins em p‡ssaros, assim como de vaqueiros, cangaceiros ou beatos imbu’dos de imensa coragem.

AlŽm da import‰ncia da mem—ria, que permite ao contador de hist—rias transmitir oralmente fatos e mitos, o tempo da narra�‹o Ž tambŽm um elemento primordial da tradi�‹o oral. H‡ um complexo fio da mem—ria que perpassa por diferentes modalidades de tempo. Por exemplo, as express›es ÒEra uma vezÓ, ÒCerta vezÓ, remetem ao tempo m’tico, da imagina�‹o, um passado indefinido que permite ao narrador contar hist—rias inimagin‡veis. H‡ o tempo hist—rico, que pode relatar oralmente fatos vivenciados pelo narrador, que, confiante em sua mem—ria e em suas viv�ncias, relata-as aos seus descendentes.

Outro tempo poss’vel Ž o tempo familiar que permite aos descendentes contarem a seus filhos e netos hist—rias de seus antepassados, como aquelas que o pracinha da Segunda Guerra trouxe na sua bagagem de experi�ncias. ƒ poss’vel tambŽm falar em tempo pessoal, que diz respeito ao tempo dos nossos pais ou dos pais de nossos pais, que frequentemente afirmam ÒNo meu tempo...Ó para enfatizar todo g�nero de mudan�as ocorridas desde suas inf‰ncias. Todas estas modalidades de tempo remetem a narra�›es orais que transmitem experi�ncias vividas, ouvidas ou hist—rias ficcionais.

Nas narrativas orais tambŽm percebemos um espa�o vol‡til que Ž marcado em express›es como ÒNum lugar muito distanteÓ, ÒNum certo reinoÓ, que permitem ao ouvinte a experi�ncia cat‡rtica de criar o lugar ideal ou relacion‡-lo ao seu espa�o particular. Assim tambŽm ocorre com rela�‹o ˆ composi�‹o dos perfis das personagens que, atravŽs de express›es como ÒHavia uma mulherÓ, nos liberta da obrigatoriedade de um perfil fixo de mulher e nos permite cri‡-lo em nossa imagina�‹o, a partir de nossas viv�ncias, cren�as e desejos.

Na acep�‹o de Zumthor (2018), a narra�‹o de uma hist—ria comporta muito mais que aspectos verbais. A enuncia�‹o oral associa-se ˆ voz, ˆ entona�‹o, aos gestos, ˆs pausas, ˆs express›es faciais, aos movimentos do corpo de quem narra, os quais chegam a quem ouve como elementos da trama, contribuindo para a significa�‹o do texto narrado ou cantado. Tudo isso est‡ implicado na performance da narra�‹o, Òœnico modo vivo de comunica�‹o poŽticaÓ (ZUMTHOR, 2018, p. 33), que nos permite experimentar a vida enquanto contamos ou ouvimos uma hist—ria. Lembremos ainda que, para Zumthor (2018, p. 18),

Nas poŽticas transmitidas pela voz [...], a autonomia relativa do texto, em rela�‹o ˆ obra, diminui muito: [...] todo lugar da obra se investiria dos elementos perform‡ticos, n‹o textuais, como a pessoa e o jogo do intŽrprete, o audit—rio, as circunst‰ncias, o ambiente cultural e, em profundidade, as rela�›es intersubjetivas, as rela�›es entre a representa�‹o e o vivido.

Para definir o conceito de performance, o medievalista recorre a suas leituras e pesquisas e conclui que precisamos considerar diversos aspectos, dentre os quais, destacamos: a necessidade de Òum acontecimento oral e gestualÓ; Òa ideia de presen�a de um corpoÓ; Òa energia propriamente poŽticaÓ marcada nas sensa�›es de contadores e ouvintes; a no�‹o de espa�o que se torna poss’vel atravŽs do corpo (ZUMTHOR, 2018, p. 36-38).

Conforme Oliveira (2012, p. 48), Ž preciso considerar as fases Òprodu�‹o, transmiss‹o (comunica�‹o), recep�‹o, conserva�‹o e repeti�‹oÓ de hist—rias para encontrar as vozes sibilantes deste processo que vai da oralidade ˆ escrita. Est‡gios trabalhados por Zumthor (2018, p. 60), respectivamente, acerca da oralidade, como: forma�‹o, transmiss‹o, recep�‹o, conserva�‹o e reitera�‹o. De acordo com Zumthor (2018), se a forma�‹o se opera pela voz, a transmiss‹o se d‡ quando um personagem, usando voz e gesto, recorre a palavra, que ser‡ recebida por outro personagem por meio da audi�‹o e da vis‹o, processos unidos pela performance do discurso, copresen�a geradora do prazer. A conserva�‹o est‡ a cargo da mem—ria, Òmas a mem—ria implica, na Ôreitera�‹oÕ, incessantes varia�›es recriadorasÓ (ZUMTHOR, 2018, p. 61), o que o autor chama de mov�ncia.

Contadores s‹o n™mades por excel�ncia – ou porque viajam de um pa’s a outro, de uma cidade a outra, de uma fazenda a outra, enfim, de um espa�o a outro; ou porque cruzam a linha do imagin‡rio, buscando outra atmosfera poss’vel que lhes permita e nos permita segui-los de um mundo a outro. Muitas hist—rias chegam atravŽs de homens e mulheres que v‹o de fazenda em fazenda, de cidade em cidade, narrando suas hist—rias maravilhosas que nos convidam a abrir nossas portas e almas. Essas narrativas nos incitam e nos levam a acolher essas palavras como um tesouro precioso e a aprender com elas que o estrangeiro/desconhecido pode ser um amigo que ainda n‹o encontramos. Elas nos ensinam que Ž preciso abrir nossos cora�›es para novas aventuras, novos conhecimentos, novas culturas (BRICOUT, s.d).

Aceitar o convite da voz narrativa funciona como entrar num mundo desconhecido, pertencente a outro, imergindo em outra atmosfera, como dos mitos e hist—rias ind’genas ou africanos, do mundo maravilhoso de cavaleiros de prata, pav›es misteriosos, mo�as invis’veis, melancias encantadas, mulheres douradas, pr’ncipes valentes, homens lobos, curupiras, caiporas, mapinguaris, mulas sem cabe�a, botos que se transformam em homens, sereias com cantos hipn—ticos.

Silva (2009, p. 233) afirma que Òo folclore e a literatura oral est‹o na base da literatura de muitos lugaresÓ, confirmando o ideal de que a oralidade fornece ˆs narrativas orais populares, assim como aos g�neros consagrados pela cr’tica, um repert—rio precioso de hist—rias. De acordo com Cascudo (1984, p. 24),

Todos os autos populares, dan�as dram‡ticas, as jornadas dos pastoris, as louva�›es das lapinhas, Chegan�as, Bumba-meu-boi, Fandango, Congos, o mundo sonoro e policolor dos reisados, aglutinando saltos de outras representa�›es apagadas da mem—ria coletiva, resistindo numa figura, num verso, num desenho coreogr‡fico, s‹o elementos vivos da literatura oral.

Foi tambŽm no imagin‡rio popular que surgiram as primeiras hist—rias narradas pela voz de contadores e transmitidas de gera�‹o em gera�‹o atŽ um dia serem recolhidas por alguŽm, passando a serem transmitidas de forma impressa, possibilitando o contexto da leitura silenciosa. A partir da’, Òo narrador passa a ser essa voz que, representada na brancura da p‡gina, aspira a concretude na intera�‹o com o leitorÓ (PORTELA, 2009, p. 748). Entretanto, este narrador carrega, frequentemente, tra�os da enuncia�‹o oral, assegurando elementos da performance de vozes ancestrais. Zumthor (2018, p. 70-71), ao tratar da leitura, afirma que a compreens‹o das palavras necessita de Òuma interven�‹o corporal, sob forma de uma opera�‹o vocal: seja aquela da voz percebida, pronunciada ou ouvida ou de uma voz inaud’vel, de uma articula�‹o interiorizadaÓ.

De acordo com Oliveira (2012), Ž na oralidade que a pr—pria literatura can™nica tem sua origem. Toda fic�‹o e toda poesia podem ter origem na voz de um contador de hist—rias, que criou, ouviu ou presenciou um acontecimento, contou e aumentou fatos (ficcionais, mitol—gicos, hist—ricos) e os transmitiu a outro alguŽm que fez o mesmo e assim por diante, ad aeternum. Isso prova que a literatura impressa serviu-se e serve-se ainda da fic�‹o oral, especialmente no que tange aos mitos e lendas reescritos em diversos g�neros e suportes da literatura. Mas a literatura oral est‡ viva entre n—s. As manifesta�›es orais de diversos g�neros fazem parte de nossa exist�ncia. Nas tribos, nas pequenas cidades ou nos grandes centros, testemunhamos inœmeros exemplos e contadores e contadoras de hist—rias, que possibilitam diversas formas de Òcorpo-a-corpo com o mundoÓ e de rupturas da Òclausura do corpoÓ (ZUMTHOR, 2018, p. 71.77).

Os aspectos art’sticos e etnogr‡ficos do texto oral reafirmam seu valor estŽtico e cultural. S‹o narrativas que comportam imagens sem‰nticas relacionadas a determinadas culturas, comprovando o valor da mem—ria e da voz como elementos imprescind’veis na transmiss‹o de conhecimentos culturais, hist—ricos, sociais e art’sticos. Todos estes aspectos fortalecem a import‰ncia de contar e ouvir hist—rias, nos dias de hoje e antigamente, e reiteram a necessidade de recuperar e recolher hist—rias que s‹o ou foram contadas por homens e mulheres cheios de palavras, gestos e cultura.

 

 

Corpo-mem—ria e a performance dos narradores orais

 

Certa tarde, na vida que dan�a ou na dan�a que vive, ouvi um tambor, segui seu chamado e fui encantada. O encanto veio das letras que brotam das pedrinhas miudinhas, que constituem o ch‹o de um viver atento, vibrante, agradecido, que sabe ouvir o que Ž e o que j‡ foi, que sabe agradecer os que j‡ viveram e que, por isso, ainda vivem (Lara Say‹o).

Enquanto grupos sociais, os indiv’duos buscaram seus meios de se organizar e de construir ou reconstruir os modos de ser e estar no mundo. Os lugares, as hist—rias, os saberes e fazeres d‹o o tom e o sabor a tudo aquilo que vai se constituindo e dando sentido ao que h‡ no mundo. AtravŽs das formas como os indiv’duos interferem e tambŽm transformam esses espa�os, sejam eles f’sicos ou simb—licos, Ž que vai se inscrevendo a hist—ria da humanidade. Nesse locus da historicidade Ž onde se aloca a fundamental import‰ncia da palavra, seja ela escrita ou falada para a transmiss‹o, compreens‹o e apreens‹o dos saberes sociais.

No entanto, Ž fundamental compreender que os estudos da palavra, aqui referidos, assumem uma natureza representativa para alŽm das compreens›es do que epistemologicamente se disp™s os estudos da literatura tradicionalmente. Somente na compreens‹o da leitura em di‡logo com outras linguagens e da elabora�‹o do sentido dela no mundo, Ž que se torna poss’vel adentrar no campo das poŽticas orais. E nesse sentido, entram as quest›es da palavra escrita, mas tambŽm sua rela�‹o com os cantos, as dan�as, os ritmos, os gestos e, sobretudo, a voz.

O estudo da voz nas poŽticas orais amplifica a certeza de um reconhecimento duplo para as quest›es da literatura oral: primeiro a elucida�‹o de que essas poŽticas n‹o estavam centradas especificamente nos estudos liter‡rios, mas na sua intersec�‹o e di‡logo entre v‡rias ‡reas, interligando e compreendendo sua dimens‹o estŽtica, enquanto norteadora da exist�ncia de uma no�‹o a respeito do performativo-liter‡rio que ali surge. E a segunda trata especificamente sobre a import‰ncia do corpo inscrito na literatura. Um corpo que tem historicidade, que se move e movimenta, criando uma espŽcie de rito de si, composto de uma escritura e permitindo-se ler, ˆ medida que transmite saberes oriundos de suas viv�ncias, mem—rias e saberes.

A no�‹o de corpo como lugar de mem—ria, representa o reconhecimento das dimens›es estŽticas e perform‡ticas da palavra, uma vez que os aspectos art’sticos dos movimentos f’sicos e das express›es corporais v‹o se agregando e entrela�ando em diferentes nuances aos aspectos sem‰nticos da palavra escrita, atŽ se perpetrarem numa nova compreens‹o do corpo como lugar de mem—ria. Isso, para os contadores de hist—rias orais, se evidencia na expressividade latente de suas narrativas. Sobre essa sem‰ntica poŽtica, Zumthor (2007, p. 78) elucida:

Nesse sentido, pode-se dizer que o discurso poŽtico valoriza e explora um fato central, no qual se fundamenta, sem o qual Ž inconceb’vel: em uma sem‰ntica que abarca o mundo (Ž eminentemente o caso da sem‰ntica poŽtica), o corpo Ž ao mesmo tempo o ponto de partida, o ponto de origem e o referente do discurso. O corpo d‡ a medida e as dimens›es do mundo; o que Ž verdade na ordem lingu’stica, na qual, segundo o uso universal das l’nguas, os eixos espaciais direita/esquerda, alto/baixo e outros s‹o apenas proje�‹o do corpo sobre o cosmo. ƒ por isso que o texto poŽtico significa o mundo. ƒ pelo corpo que o sentido Ž a’ percebido.

O lugar da poŽtica inscrita no corpo Ž o ponto de partida para se compreender um universo que se abre no campo epist�mico dos estudos das poŽticas orais, e, adentrar nos seus signos e significados, Ž inicialmente repensar o poder da palavra poŽtica. AlŽm disso, Ž fundamental analisar nesse jogo, a rela�‹o lœdica do corpo-poesia com as formas narrativas que deles se extraem. Isso porque, atravŽs da performance em si, os narradores ou contadores de hist—rias v‹o transmitindo suas leituras, suas hist—rias e seus saberes, transmutando em mem—rias coletivas, o que antes era compreendido apenas como experi�ncias individuais ou de um determinado grupo.

O texto poŽtico Ž, portanto, ressignificado, ˆ medida que a fus‹o corpo-palavra-leitura se estabelece na compreens‹o de que o texto est‡ em todas as coisas e lugares e que ele dialoga com o corpo e sua corporeidade, estabelecendo essa rela�‹o da palavra escrita com a palavra falada. Expressa nos ritos e rituais, a palavra escrita est‡, portanto, atrelada a seus significados, mas para alŽm deles, se agrega tambŽm ˆs mœltiplas linguagens do corpo e dos seus ritmos. Sobre isso, Derrida (2008, p. 14) discute a respeito da necessidade de uma ruptura do logocentrismo na escrita, e enfatiza:

Em todos os casos, a voz Ž o que est‡ mais pr—ximo do significado, tanto quando este Ž determinado rigorosamente como sentido (pensado ou vivido) como quando o Ž, com menos precis‹o, como coisa. Com respeito ao que uniria indissoluvelmente a voz ˆ alma ou ao pensamento do sentido significado, e mesmo ˆ coisa mesma [...], todos significantes, e em primeiro lugar o significante escrito, seria derivado. Seria sempre tŽcnico e representativo. N‹o teria nenhum sentido constituinte. Esta deriva�‹o Ž a pr—pria origem da no�‹o de ÒsignificanteÓ. A no�‹o de signo implica sempre, nela mesma, a distin�‹o do significado e do significante, nem que fossem no limite, como diz Saussure, como as duas faces de uma œnica folha. Tal no�‹o permanece, portanto, na descend�ncia deste logocentrismo que Ž tambŽm um fonocentrismo: proximidade absoluta da voz e do ser, da voz e do sentido do ser, da voz e da idealidade do sentido.

AlŽm de uma proposta de disruptura com a supremacia do texto escrito, essa concep�‹o vem reivindicar a necessidade de um questionamento que a literatura necessita e prescreve a respeito do lugar da palavra no ‰mbito das poŽticas orais e isso subverte e transcende a pr—pria no�‹o de literatura, alŽm de abrir as portas para o fortalecimento dos estudos da literatura oral na contemporaneidade. Nesse prisma, encontra-se a no�‹o de corpo como rito, uma vez que a palavra pode ser lida para alŽm do texto escrito, atravŽs da gestualidade e da performance que o narrador das literaturas orais representa, a partir de suas narrativas. Se para Derrida (2008) n‹o existe o fora do texto, a leitura do texto nunca se encerra em si mesma e est‡ sempre aberta ˆ leitura do outro e de outros textos.

A quest‹o do texto, nesse sentido, se resolve no di‡logo com o corpo enquanto palavra, pleno de toda a sua historicidade. ƒ iluminada a no�‹o do corpo como performance da palavra, uma vez que, partindo da premissa de que, se n‹o existe nada fora do texto, n‹o existe tambŽm nada fora do corpo. Nesse sentido, a gestualidade assume sua import‰ncia na compreens‹o dos textos das poŽticas orais, j‡ que Ž atravŽs da voz, dos cantos, dos ritmos, das express›es que se encontra o tom da literatura oral. Sobre isso, Zumthor (2007, p. 77), explica:

E nesse sentido que se diz, de maneira paradoxal, que se pensa sempre com o corpo: o discurso que alguŽm me faz sobre o mundo (qualquer que seja o aspecto do mundo de que ele me fala) constitui para mim um corpo-a-corpo com o mundo. O mundo me toca, eu sou tocado por ele; a�‹o dupla, revers’vel, igualmente v‡lida nos dois sentidos. Essa ideia, eclipsada durante um certo tempo, renasce hoje, em uma espŽcie de volta ao recha�ado, e, sem dœvida, ligado ao conjunto de fen™menos contempor‰neos que se embrulham sob o termo duvidoso de p—s-modernidade. A generaliza�‹o, hoje, da ideia de performance Ž uma das consequ�ncias.

Sobre esse conjunto de fen™menos contempor‰neos a que se refere Zumthor, debru�a-se a import‰ncia dos estudos da mem—ria e sua rela�‹o com a literatura oral. Legar ˆ hist—ria da literatura a import‰ncia das narrativas enquanto compreens‹o de mundo ao redor se faz necess‡rio nos estudos contempor‰neos, uma vez que a presen�a do narrador e suas hist—rias esteve, vez por outra, envolvida com a no�‹o de tradi�‹o, como sin™nimo daquilo que Ž passado, obsolescente ou, como prop›e a concep�‹o benjaminiana de narrador, um conhecimento acabado em si e que deve ser transmitido ˆs futuras gera�›es em suas formas mais puras, fixas e im—veis.

Ao contr‡rio, ouvir as hist—rias dos narradores na contemporaneidade, buscando os sentidos de sua historicidade latente, mas em conson‰ncia com sua mov�ncia, Ž o legado que as literaturas orais na p—s-modernidade deixam para os estudos liter‡rios. E nessa compreens‹o, se forem agregadas as quest›es das literaturas orais de origem africana, Ž poss’vel enriquecer ainda mais essa perspectiva de valor de sua historicidade e valora�‹o de mem—rias hist—ricas e sociais. Sobre a dimens‹o estŽtica da cria�‹o liter‡ria africana, RisŽrio (1996, p. 24) assertivamente destaca que

A riqueza da cria�‹o textual na çfrica Ž um fato indisput‡vel. A menos que uma inten�‹o ideol—gica expl’cita tente rasurar programaticamente a exist�ncia milenar do texto criativo naquele continente, como na Žpoca em que fantasias racistas de calibre variado se esfor�aram para expurgar o negro da esfera da espŽcie humana. Ali‡s, aqueles que um dia pretenderam expulsar o negro do c’rculo da humanidade, ou quando nada, confin‡-lo a um compartimento subterr‰neo desta, tipo dernier Žchelon da espŽcie, tiveram diante de si, como obst‡culo intranspon’vel, a for�a e a finura das produ�›es estŽticas africanas.

Com essa cr’tica assertiva em rela�‹o ˆ recep�‹o do texto liter‡rio e ao reconhecimento da riqueza cultural que os estudos liter‡rios legaram do continente africano, RisŽrio corrobora a import‰ncia da valoriza�‹o das narrativas transmitidas pelos contadores de hist—ria orais de origem africana. Esses s‡bios transmissores das suas origens, atravŽs de pr‡ticas perform‡ticas da conta�‹o de hist—rias, atravŽs das literaturas, dan�as, cantos e ritmo, encontram-se ainda hoje por todo o mundo, exercendo a miss‹o de transmiss‹o dos saberes seculares t‹o fundamentais, mas incipientemente valorizados e reconhecidos para a humanidade.

De fato, n‹o se pretende aqui adentrar a conceitua�‹o das tem‡ticas dos gri™s, especificamente, no sentido de ampliar a conceitua�‹o do termo, nem tampouco problematizar a fundo tais atribui�›es e fun�›es, apesar de t‹o importantes e fundamentais para a hist—ria da humanidade, porŽm a inten�‹o de traz�-los ˆ discuss‹o Ž lan�ar luz ˆ import‰ncia da palavra – escrita e falada – africana, na compreens‹o dos estudos da literatura oral, uma vez que os povos de origem africana s‹o identificados e definidos como os mestres e mestras da palavra oral, portanto est‹o sempre associados ao reconhecimento da import‰ncia das poŽticas orais.

Enfim, a partir dessas reflex›es, apreende-se a import‰ncia do corpo enquanto lugar de mem—ria, engendrado em seus ritos, rituais e narrativas, uma vez que sendo compreendida a literatura oral sob novas perspectivas paradigm‡ticas e epistemol—gicas, se compreende tambŽm a import‰ncia da ressignifica�‹o do corpo como rito, corpo enquanto leitor do mundo, uma vez que a palavra, seja ela escrita ou falada, est‡ no mundo e que antes de tudo, Ž a partir do corpo que se chega a ela. Nesse sentido, se refaz a compreens‹o da leitura da palavra, a leitura da escrita e a conson‰ncia de ambas com a leitura da palavra-corpo-escrita.

 

 

Um estudo da mem—ria a partir das narrativas orais: os mestres contadores de hist—rias da tradi�‹o e seu papel na transmiss‹o da cultura

 

Os pequenos sonhos, dizem os habitantes da floresta de Elgon, na çfrica Central, n‹o t�m grande import‰ncia. Mas, se uma pessoa tiver um Òsonho grandeÓ, toda a comunidade deve ser reunida para ouvi-lo. Ent‹o, como um elgoni sabe que foi um sonho grande? Ao acordar, h‡ um sentimento instintivo sobre a sua significa�‹o para o grupo – mant�-lo em segredo Ž um pensamento que nunca ocorre (Clyde W. Ford[100]).

Os sentidos on’ricos dos povos elgoni descrevem claramente um cen‡rio permeado de mem—rias. Dessas mem—rias que v‹o se recriando, ˆ medida que s‹o contadas, que s‹o trocadas, que s‹o repassadas, como num conto, como num canto, como num sonho. No amplo sentido te—rico, os estudos de mem—ria abarcam o campo cient’fico global que envolve e intersecciona os estudos da psicologia, da hist—ria, das linguagens, do corpo e suas rela�›es com o tempo-espa�o em que est‹o inseridos. Reconhecer, o que aqui interessa a respeito desses estudos, os da mem—ria social dos povos, a partir de uma perspectiva problem‡tica da hist—ria, explicam de certo modo, as concep�›es do que vem a ser a mem—ria coletiva e quais s‹o os seus lugares simb—licos e espaciais. Sobre isso, Candau (2019, p. 157) elucida:

A fun�‹o identit‡ria desses lugares fica expl’cita na defini�‹o que Ž dada a eles pelo historiador: Òtoda unidade significativa de ordem material ou ideal, da qual a vontade dos homens ou o trabalho do tempo fez um elemento simb—lico do patrim™nio memorial de uma comunidade qualquerÓ. Um lugar de mem—ria Ž um lugar onde a mem—ria trabalha.

Essa premissa vem complementar a no�‹o de que se existem lugares de mem—ria, sejam eles f’sicos ou simb—licos e imagŽticos-afetivos, a tradi�‹o poŽtica nos remeteria a esses lugares, a partir de seus mitos, narrativas lend‡rias, ritos e rituais. No entanto, Candau (2019, p. 164) traz ˆ luz a discuss‹o de que as mem—rias est‹o sempre em movimento em rela�‹o ˆ sua historicidade e para que n‹o recaia no equ’voco de querer mant�-la em conserva�‹o, elas devem obedecer um princ’pio de afirma�‹o de si mesma, mas sendo compreendidas como um Ò projeto inacabadoÓ, sem a ideia on’rica de conservar os fatos tais quais aconteceram, nem de se refazer o passado, uma vez que a mem—ria coletiva s— se constitui a partir de uma mov�ncia ativa, permeada de historicidade, estabelecendo as fronteiras, mas perfazendo as lacunas entre passado e presente.

Le Goff (1990) entende a narra�‹o ou o ato narrativo como um ato mnem™nico fundamental, ou seja, narrar hist—rias Ž, em si, uma maneira de dialogar, gerir e experimentar as mem—rias, sejam elas individuais ou coletivas. Imergido pelas no�›es do tempo, cabe estabelecer a que dist‰ncia temporal essas mem—rias se constituem na dialŽtica distin�‹o entre o tempo presente e os acontecimentos do passado. ƒ din‰mica, pois essa distin�‹o se refaz ˆ medida da reciprocidade existente nesses di‡logos dos tempos. Sobre isso, Le Goff (1990, p. 205) define:

A distin�‹o passado/presente que aqui nos ocupa Ž a que existe na consci�ncia coletiva, em especial na consci�ncia social hist—rica. Mas torna-se necess‡rio, antes de mais nada, chamar a aten�‹o para a pertin�ncia desta posi�‹o e evocar o par passado/presente em outras perspectivas, que ultrapassam as da mem—ria coletiva e da Hist—ria.

A import‰ncia da mem—ria, a partir das perspectivas da transmiss‹o dos saberes do passado, Ž a de que os narradores e mestres da oralidade definidos como seus principais difusores refazem e salvaguardam um passado ancestral, permeado de saberes tradicionais em conson‰ncia com as concep�›es dos estudos da mem—ria, da literatura oral e todas as suas possibilidades de di‡logo. Sobre isso, Abib (2017, p. 89) explica:

Talvez, uma das caracter’sticas mais marcantes das manifesta�›es oriundas do universo da cultura popular, em qualquer parte do mundo, e que nos remetem a essa l—gica diferenciada que busquei analisar, sejam justamente as formas de transmiss‹o de seu passado – que carrega a mitologia ancestral e os saberes tradicionais do grupo – atravŽs de tr�s elementos fundamentais presentes nesse universo: a mem—ria, a oralidade e a ritualidade.

Isso quer dizer das mem—rias individuais e da maneira como elas v‹o se configurando como coletivas e partilhadas, atravŽs dos processos como a oralidade e os rituais dos narradores, fortalecendo a import‰ncia das tradi�›es, oriundas do passado, mas n‹o perdendo de vista a no�‹o de cultura em movimento e tradi�‹o n‹o-est‡tica, como prop›em Lopes e Simas (2020, p.75), que, ao explicarem o mito da vida, morte e ressurrei�‹o, trazem claramente essa no�‹o de tradi�‹o em movimento. Uma vez que a pr—pria vida se reinventa, reinventam-se tambŽm as tradi�›es, os saberes e as hist—rias que se contam delas. Nesse sentido, fica translœcida a no�‹o de que Ž atravŽs de mitos como esse que a

poderosa s’ntese da ideia de morte como condi�‹o necess‡ria para que exista a vida, comporta uma fabulosa variante de leitura e mostra como os saberes africanos normalmente se referem a uma ideia de tradi�‹o que n‹o Ž est‡tica. Nas culturas orais, o conhecimento se fundamenta no ato de se transmitir ou entregar algo para que o receptor tenha condi�›es de colocar mais um elo em uma corrente din‰mica e mut‡vel (LOPES; SIMAS, 2020, p. 75).

Passado e presente se fundem nessa din‰mica. Ainda assim, Ž substancial a representa�‹o das tradi�›es para a constru�‹o de uma compreens‹o maior, que abarque rigorosamente os conceitos das culturas, essas sendo compreendidas no plural, tal e qual mandam as quest›es dos tempos contempor‰neos, uma vez que as identidades s‹o representadas como mœltiplas (HALL, 2006), tambŽm as culturas pertencentes delas s‹o pluralizadas. Mas a import‰ncia da tradi�‹o, como heran�a, como legado, como estrato e ponto de partida dessas culturas, n‹o pode ser negada, esquecida e perdida na dan�a do tempo. Por esses caminhos, os da tradi�‹o, Ž que se explicam a import‰ncia das narrativas e principalmente dos narradores na tarefa de transformar os saberes individuais em experi�ncias de mem—rias coletivas. Sobre isso, entende-se que,

De fato, cada vez que no interior de um grupo restrito as mem—rias individuais querem e podem se abrir facilmente umas ˆs outras, como nos casos em que existe uma Òescuta compartilhadaÓ visando os mesmos objetos (por exemplo, monumentos, comemora�›es, lugares que ter‹o o papel de Òponto de apoioÓ, de Òsementes da recorda�‹oÓ), percebe-se ent‹o uma focaliza�‹o cultural e homogeneiza�‹o parcial das representa�›es do passado (CANDAU, 2019, p. 46).

Retoma-se assim, a quest‹o das poŽticas orais e a sua interrela�‹o com a perspectiva da mem—ria, como se amarrasse o fio de uma colcha de retalhos, na intersec�‹o entre as poŽticas orais com a mem—ria e a tradi�‹o cultural e suas nuances existentes em conc—rdia com a palavra escrita e inscrita no corpo. ƒ na import‰ncia ambivalente na elabora�‹o das mem—rias, dentro do espa�o lœdico do tempo, que se estabelece a rela�‹o entre mem—ria e as poŽticas orais. Desse encantamento entre ambas, percebe-se que ÒMem—ria e poesia se encontram no jogo de cria�‹o do mundo. Jogo do tempo: do que Ž, do que foi e do que ser‡, que ao se mostrar no canto do poeta, instaura uma Žpoca hist—ricaÓ (ABIB, 2014, p. 94).

Assim, e por fim, Ž na escuta das hist—rias dos narradores, das hist—rias da vida, da leitura da palavra, compreendida aqui como palavra no mundo e com o mundo, Ž que nasce e cresce a import‰ncia do contador de hist—rias e de todos os mestres da tradi�‹o que t�m a miss‹o da transmiss‹o de saberes pelas vias da oralidade. Esses que est‹o certamente a servi�o de algo maior, o de salvaguardar e dar movimento ˆs mem—rias hist—ricas e saberes coletivos, construindo as culturas e rompendo as lacunas, que ainda existem, entre o passado e o presente, entre a escrita e a oralidade, num bonito jogo simb—lico de vida, morte e ressurrei�‹o.

 

 

Refer�ncias

 

ABIB, Pedro Rodolpho Jungers. Capoeira Angola: cultura popular e o jogo dos saberes na roda. 2. ed. Salvador: EDUFBA, 2017.

 

BRICOUT, Bernadette. EPISODE 1: La ClŽ des contes (58min). LA COMPAGNIE DES AUTEURS, par Matthieu Garrigou-Lagrange. France Culture. s.d. Dispon’vel em: https://www.franceculture.fr/emissions/la-compagnie-des-auteurs/contes-14-la-cle-des-contes. Acesso em: 13 jul. 2020.

 

CASCUDO, Luis da Camara. Literatura oral no Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; S‹o Paulo: Edusp, 1984.

 

CANDAU, Jo‘l. Mem—ria e identidade. Trad. Maria Let’cia Ferreira. S‹o Paulo: Contexto, 2019.

 

DERRIDA, Jaques. Gramatologia. Trad. M’riam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro. S‹o Paulo: Ed. Perspectiva, 2008.

 

_________. Gramatologia. Trad. Miriam Schnaiderman e Renato J. Ribeiro. S‹o Paulo: Perspectiva, 1973.

 

HALL, Stuart. A identidade cultural na p—s-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

 

LE GOFF, Jacques. Hist—ria e Mem—ria. Trad. Bernardo Leit‹o. Campinas: Ed. UNICAMPI, 1990.

 

LOPES, Nei; SIMAS, Luiz Ant™nio. Filosofias Africanas: uma introdu�‹o. 2. ed. Rio de Janeiro: Civiliza�‹o Brasileira, 2020.

 

LUYTEN, Joseph M. O que Ž Literatura popular. 5. edi�‹o. S‹o Paulo: Brasiliense, 1992.

 

OLIVEIRA, Carlos Jorge Dantas de. A Forma�‹o da Literatura de Cordel Brasileira, Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela (USC), 2012. 381f. Tese de Doutorado (Programa de Doutorado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada – Faculdade de Filologia, Universidade de Santiago de Compostela – 2012).

 

PORTELLA, Mirtes Maria de Oliveira. Entre a letra e a voz: o espa�o do leitor no conto de tradi�‹o oral. In: CELLI – Col—quio de Estudos Lingu’sticos e Liter‡rios 3, 2007, Maring‡. Anais... Maring‡, 2009, p. 749-760.

 

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SILVA, Celso Cisto. A literatura popular: sil�ncios e murmœrios na hist—ria da literatura brasileira. Letr™nica. v. 2, n. 2, p. 233-248, dezembro 2009.

 

ZUMTHOR, Paul. Performance, Recep�‹o, Leitura. (1990). Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. S‹o Paulo: UBU Editora, 2018.

 

_________. Performance, Recep�‹o, Leitura. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. 2. ed. rev. e ampl. S‹o Paulo: Cosac Naify, 2007.

 

 

[Recebido:16 fev 2021– Aceito: 16 mar 2021]

 



[97] Possui gradua�‹o em Licenciatura em Letras Vern‡culas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (1999), Mestrado em Educa�‹o pela Universidade Federal da Bahia (2005) e Doutorado em Programa de P—s-Gradua�‹o em Educa�‹o pela Universidade Federal da Bahia (2013). Atualmente Ž professora adjunta da Universidade Estadual de Feira de Santana e Contadora de Hist—rias. Coordena o Programa de P—s-gradua�‹o Mestrado Profissional em Letras /PROFLETRAS/UEFS e Ž l’der do Grupo de Estudos e Pesquisas em PoŽticas Orais/UEFS. Tem experi�ncia na ‡rea de Educa�‹o, com �nfase em Pol’tica Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: Conta�‹o de Hist—rias, Leitura, Literatura Infantil e Juvenil, Forma�‹o do Leitor e EaD. 

[98] Possuo gradua�‹o em Letras pela Universidade Estadual de Maring‡ (1996), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Jœlio de Mesquita Filho (2001) e doutorado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Jœlio de Mesquita Filho (2007). Sou professora ASSOCIADO C e fa�o parte do quadro permanente da Universidade Estadual de Maring‡. Tenho experi�ncia na ‡rea de Letras, com �nfase em Literatura e Cinema e ensino de L’nguas, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura comparada, literatura e outras artes, ensino de literatura, leitura e letramento texto liter‡rio, intera�‹o verbal, l’nguas estrangeiras modernas. Atuo na P—s-gradua�‹o do Profletras, Mestrado profissional em Letras, ministrando a disciplina Leitura do texto liter‡rio. Participo do grupo de pesquisa ÒRessignifica�›es do passado na AmŽrica: processos de leitura, escrita e tradu�‹o de g�neros h’bridos de hist—ria e fic�‹o – vias para a descoloniza�‹oÓ. Com P—s-doutorado intitulado ÒLa dame aux CamŽlias – romance, drama, —pera, filme, cordel: releituras comparadas do perfil de uma cortes‹Ó, na UNIOESTE/Cascavel, sob tutoria do Professor doutor Gilmei Francisco Fleck; em parceria com a UniversitŽ Lyon 2, sob tutoria da Professora Doutora Maria da Concei�ao Coelho Ferreira.

[99] Mestranda em Estudos Liter‡rios pela UEFS (Bolsista Capes). Pedagoga pela Universidade Federal da Bahia (2007). Trabalhou como arte-educadora no Espa�o Cultural Pierre Verger entre os anos de 2010-2016, nas ‡reas de Cultura Digital e incentivo ˆ leitura, tendo recebido o PrŽmio Pontos de Leitura (2012). Ministra oficinas de escrita e leitura, tendo participado da exposi�‹o "As aventura de Pierre Verger" (2015). Trabalhou como pedagoga no Programa de Inform‡tica na Educa�‹o Especial da OSID, orientando projetos de pessoas com defici�ncia, durante os anos de 2005 a 2007. Durante dois anos foi bolsista de Inicia�‹o cient’fica PIBIC, nas ‡reas de gest‹o educacional e educa�‹o e diversidade. Atua como pesquisadora e professora, principalmente nos seguintes temas: educa�‹o e diversidade - inform‡tica educativa - arte-educa�‹o - educa�‹o e cultura.

 

[100] FORD, W. Clyde. O her—i com rosto africano: mitos da çfrica. S‹o Paulo: Summus, 1999.