Poesia in concert: a palavra de volta ˆ rua[43]

 

Poesia in concert: the word back on the street

 

 

 

Kaedmon Sellberg[44]

https://orcid.org/0000-0002-4185-2598

 

 

Resumo: O Poesia in Concert Ž um evento londrinense que data da dŽcada de 1990 e ocorre atŽ hoje. S‹o apresenta�›es com mœsica e poesia feito, inicialmente, pelo agrupamento de poetas e artistas M‡rio Bortolotto (dramaturgo), Rodrigo Garcia Lopes (poeta), Maur’cio Arruda Mendon�a (poeta) e S’lvio DemŽtrio (mœsico). Em 2009 o evento retorna, com o mesmo nome, inserido no festival liter‡rio de Londrina, Londrix, com a frente de Christine Vianna, professora e musicista da banda Benditos Energœmenos. Entre 1990 e 2009, h‡, naturalmente, uma transforma�‹o do contexto social, hist—rico, pol’tico, no ‰mbito nacional e londrinense, que motiva estratŽgias diferentes de inser�‹o do Poesia in Concert no espa�o pœblico. O artigo se prop›e a estudar, comparativamente e brevemente, os dois momentos do Poesia in Concert e suas rela�›es com o espa�o pœblico de Londrina. Em termos curtos, observa-se uma atualiza�‹o do sentido do evento para a cidade e para seus agentes, embora ainda se mantenha como espa�o de oposi�‹o ao status quo. A pesquisa foi feita a partir do levantamento de refer�ncias culturais, de entrevistas e aporte te—rico.

Palavras-Chave: Poesia; Mœsica; Performance; Londrina; Poesia in Concert

 

Abstract (Times New Roman, 12, bold): Poesia in Concert is an artistic event in Londrina, PR – Brazil, dating from the 1990s that still takes place to this day. It revolves around presentations with music and poetry performed, initially, by the group of poets and artists M‡rio Bortolotto (playwright), Rodrigo Garcia Lopes (poet), Maur’cio Arruda Mendon�a (poet) and S’lvio DemŽtrio (musician). After a break in the mid-90s, the event returns in 2009, with the same name, inserted in the literary festival of Londrina, Londrix, being Christine Vianna, vocalist of the band Benditos Energœmenos, the main poet/singer. Between 1990 and 2009, there is, of course, a transformation within the social, historical, political context, at national and regional level, which motivates different strategies of insertion in the public space. The article aims to study, comparatively and briefly, the two moments of Poesia in Concert and its relations with the public space of Londrina. In short terms, Poesia in Concert and its meaning have been updated for current literary and artistic needs, educating the public to artistic expression less common in the mainstream market. The research was based on the survey of cultural references, interviews and theoretical contribution.

Keywords: Poetry; Music; Performance; Londrina; Poesia in Concert;

 

 

Introdu�‹o

 

O Poesia in Concert, iniciado em 1993, foi um agrupamento de poetas, dramaturgos e mœsicos de Londrina: Mario Bortolotto (1962, ator, diretor, dramaturgo, escritor), Rodrigo Garcia Lopes (1965, poeta, mœsico, tradutor), Mauricio Arruda Mendon�a (1964, dramaturgo, poeta, mœsico, tradutor) e S’lvio DemŽtrio (1970, jornalista, professor universit‡rio, mœsico) que, embora n‹o estivesse ligado ˆs produ�›es art’sticas, tinha um programa na R‡dio Uel da Žpoca. O agrupamento lia poemas de diferentes origens (autorais, tradu�›es, nacionais) acompanhados de mœsica, frequentemente, blues, MPB e rock. O primeiro momento do Poesia termina em 1994, seguido de um hiato atŽ a incorpora�‹o oficial do evento, retomado pela atriz, poeta, cantora, professora Christine Vianna, no Londrix (festival liter‡rio de Londrina) em 2009. Durante esse per’odo, concertos isolados aconteceram com a mesma proposta: poema e mœsica. A dificuldade metodol—gica de tra�ar uma linha temporal, contextual e coesa, Ž a de discutir se essas express›es independentes compartilhavam do mesmo significado social. Esteticamente, v�-se a coes‹o.

O que este artigo prop›e Ž:

a)     apresentar o Poesia in Concert nos dois momentos citados, atravŽs de entrevistas coletadas, v’deos assistidos, apresenta�›es analisadas;

b)    comparar as duas express›es, localizar diferen�as e padr›es, que situem a import‰ncia social do evento na hist—ria de Londrina;

Para a realiza�‹o do artigo, alŽm de levantamentos de refer�ncias bibliogr‡ficas sobre Londrina e sobre o Poesia in Concert da dŽcada de 80 e 90, foram entrevistados M‡rio Bortolotto, Rodrigo Garcia Lopes, S’lvio DemŽtrio e Cristiane Vianna, em 2018. Maur’cio n‹o p™de ser entrevistado devido a um problema de saœde, infelizmente. Ao longo do artigo, cita�›es das entrevistas ser‹o colocadas entre aspas. Todas as entrevistas estar‹o dispon’veis em link nas refer�ncias. Os v’deos usados para an‡lise podem ser encontrados no canal ÒCemitŽrio de Autom—veisÓ, dispon’vel no Youtube. Link nas refer�ncias.

A partir daqui, apresento o Poesia in Concert que explora a dimens‹o sonora da palavra com a fun�‹o de levantar bandeira pol’tica e cultural: fazer a palavra voltar para a rua, como dir‡ Rodrigo Garcia Lopes. O autor observava que a palavra permaneceu na torre de marfim do poeta (como diz o ditado) por muito tempo. Entretanto, h‡ diferentes formas de interpretar a Òtorre de marfimÓ em 1990: a ditatura militar, que dŽcadas antes foi a principal fonte de censura liter‡ria; o pr—prio circuito liter‡rio, que era um ciclo privilegiado de escolarizados atŽ a segunda metade do sŽculo XX; ou, ainda, o espa�o que ocupava a literatura nas universidades em rela�‹o ao espa�o pœblico. Por pœblico, entende-se o bar, a rua, a esquina da pra�a.

H‡ diversas Òtorres de marfimÓ que enclausuraram a palavra liter‡ria no Brasil atŽ 1990. O ponto comum entre todas as torres Ž a Òpalavra liter‡ria em distanciamento socialÓ em rela�‹o ˆ rua. Ou seja, a palavra liter‡ria n‹o participava da estŽtica do Òpapo furadoÓ, da conversa de meio-fio, da conversa desengon�ada do bar. N‹o participava da inevitabilidade do som. A p‡gina era educada demais para se impor dessa forma. A palavra na rua evoca a circunst‰ncia biol—gica, corporal, presencial – o som da cidade, a mœsica tocada, a performance. Nesse sentido, o argumento do Poesia in Concert Ž que na palavra Òdo distanciamento socialÓ h‡ um sil�ncio comum ao livro. Para bem ou para mal, a mobilidade do objeto impresso fragmenta o significado do texto conforme Ž lido em diferentes contextos, a partir de diferentes leitores. Por isso a brincadeira do Òdistanciamento socialÓ da palavra que o Poesia, desde 1993, quis fazer retornar ˆ rua. Quando a palavra Ž solta na performance sonora, o contexto Ž da aglomera�‹o, os significados se aproximam porque se aproximam as pessoas.

Quem eram os atores e as influ�ncias do Poesia in Concert, portanto? Como se pode antecipar, inserir a poesia liter‡ria no espa�o pœblico Ž do campo da margem, da juventude, da sensa�‹o e do corpo, que encontra ‰ncora na literatura beatnik e simbolista, representada por Arthur Rimbaud. Essa foi, de fato, a bagagem que Mario Bortolotto e Rodrigo Garcia Lopes trouxeram ao Poesia. Rodrigo estava nos Estados Unidos entre 1990 e 1992, no Arizona, cursando o mestrado Humanidades Interdisciplinares, que resultar‡ no comp�ndio de entrevistas, em forma do livro Vozes & vis›es: panorama da arte e da cultura norte americanas hoje, publicado no Brasil pela Editora Iluminuras em 1996. Entre os entrevistados est‹o William Burroughs, John Cage, Allen Ginsberg, Thom Gunn, Wanda Coleman, Amiri Baraka, nomes associados ˆ arte de vanguarda, ao beatnik, ao blues, ˆ cultura afrodescendente americana. Outros nomes citados por Rodrigo Garcia Lopes, porŽm n‹o entrevistados para o livro, s‹o David Lynch e Francis Ford Coppola.

Amigo de tradu�‹o do Rodrigo, Maur’cio Mendon�a de Arruda, hoje dramaturgo premiado internacionalmente, traduziu com ele Sylvia Plath, Poemas (1990) e Iluminuras (1994), obra do Arthur Rimbaud. Vale a pena mencionar tambŽm a antologia Trilha Forrada de Folhas – Nenpuku Sato, um Mestre de Haikai no Brasil (1999), do poeta japon�s Nenpuku Sato, o introdutor do haikai no Brasil. Paulo Leminski bebeu dessa fonte.

J‡ Mario Bortolotto traz consigo o teatro, o Chiclete com Banana, que a partir de 1987 ser‡ chamado CemitŽrio de Autom—veis. Na dŽcada de 1990, o grupo j‡ era premiado e reconhecido em S‹o Paulo e S‹o JosŽ dos Campos. Nessa mesma Žpoca sentia-se a necessidade de advogar pela cena local, conforme complementa Mario Bortolotto, pois a efervesc�ncia oitocentista que tinha levantado o teatro decaiu a partir dos anos 90. O mesmo ocorria com a literatura londrinense. Os nomes art’sticos de Londrina iam muito bem entre grupos art’sticos. O que faltava era realmente, tornar a arte da rua, torn‡-la uma experi�ncia do pœblico.

Cito tr�s trechos para os amarrar em seguida:

 

Ao pensar sobre os sons de uma cidade, muitos ambientes sonoros emergem aos nossos ouvidos. Certamente, os sons da cidade, diretamente ligados a sua morfologia e sua arquitetura, nunca foram ou ser‹o os mesmos, seja em T—quio, Londres ou Londrina, pois, como o observa o ge—grafo FrŽderic Roulier (1999), Òos tipos de economia, os comportamentos sociais, a tecnologia e a densidade populacional induzem varia�›es que fazem com que cada cidade possua uma identidade sonoraÓ ou Òpaisagens sonorasÓ caracter’sticas. (CARNEIROS DOS SANTOS, 2011, p. 83, negritos meus)

 

As vanguardas hist—ricas e a p—s-vanguarda da segunda metade sŽculo XX deixaram uma grande li�‹o sobre dissolu�‹o de fronteiras entre literatura e outras artes, em que a performance se tornou uma importante refer�ncia para a cr’tica. (FERNANDES, 2017, p. 104, negritos meus)

 

Ora, nestes fen™menos festivos, por um lado aplica-se o ajuntamento (endoidecimento) e, por outro, a pluralidade de cada um. O imagin‡rio est‡ na ordem do dia e com ele a multiplicidade de sentidos que cada pessoa d‡ ˆ sua exist�ncia. (MAFFESOLI, 2002, p. 84, negritos meus)

De cima abaixo, observa-se uma rela�‹o entre arquitetura urbana, f’sica, concreta, tambŽm abordada como uma estrutura abstrata, no sentido de um comportamento art’stico, ideol—gico. De acordo com Frank (1979, p. 13), h‡ um espa�o de fazer arte e literatura que ocorre em fun�‹o do seu espa�o arquitet™nico, social e vice-versa. Ambos estabelecem uma identidade – e, para este artigo, usarei o termo afinidade – entre mem—ria (passado) e cria�‹o (presente). A simbiose se processa em fen™meno liter‡rio. A afinidade entre arquitetura e literatura ser‡ o ponto-comum para o espa�o do Poesia in Concert em 1993. Qual era o espa�o londrinense?

Londrina experienciava um refluxo da efervesc�ncia cultural da dŽcada de 80: o teatro era reconhecido. A mœsica sofria os voos de um MPB que discutiu com o recŽm finado ufanismo ditatorial. A literatura tinha contato com: Paulo Leminski, o inutens’lio curitibano e com a influ�ncia das tradu�›es e entrevistas de beatniks, simbolistas, vanguardistas e poemas minimalistas (haikai). Era uma linguagem que flertava com a dramaturgia londrinense de Bortolotto. Inclusive, essa linguagem fazia mais a cara dos bares do que dos teatros tradicionais. O PROTEU (Projeto Experimental de Teatro Universit‡rio, criado em 1978) era o teatro Òdiferent‹oÓ, levou o papel principal da boemia londrinense, alternativo em rela�‹o a valores mercadol—gicos e engajado na consolida�‹o do FILO (Festival Internacional de Londrina). O PROTEU influencia os nomes importantes da hist—ria da arte em Londrina e tambŽm o teatro da vanguarda de S‹o Paulo. Por exemplo, CemitŽrio de Autom—veis ser‡ o nome da importante Vila Cultural em Londrina, inaugurada em 2007 por Christine Vianna via PROMIC (Programa Municipal de Incentivo ˆ Cultura).

Ou seja, o Teatro em Londrina dos anos 80 e dos anos 90 n‹o tinha do que se envergonhar. Em um festival de teatro em S‹o JosŽ dos Campos, o grupo teatral CemitŽrio de Autom—veis e a Cia. Dram‡tica Bombom pra Que se Pirulito tem Pauzinho Pra se Chupar, tambŽm de Londrina, ganharam 10 dos Ò12 ou 13Ó pr�mios (Mario n‹o se recorda). ÒSobrou pro resto do Brasil tr�s pr�miosÓ, conta M‡rio em uma entrevista de 1990 na TV Tropical de Londrina, dispon’vel nas refer�ncias do artigo. J‡ o pœblico londrinense era um pouco recalcado na dŽcada final. Lotar um teatro de 200 pessoas era muito dif’cil.

Partindo dessa conjectura que, em matŽria de literatura e de mœsica n‹o era muito diferente, nota-se uma presen�a cultural de peso em contraste com um pœblico escasso. O espa�o art’stico de Londrina se organizava, socialmente e esteticamente, em torno de uma certa bo�mia e da performance. ƒ um terreno fŽrtil para saudar a nostalgia de Rodrigo que um pouco antes estava nos Estados Unidos traduzindo seus poemas em bares com acompanhamentos de mœsicos no Arizona. ÒEu voltei de l‡ querendo fazer coisas em LondrinaÓ, o poeta conta. J‡ se observa um deslocamento estŽtico dos beatniks norte-americanos e suas poesias bo�mias para dentro da arquitetura londrinense. Caso se mergulhe um pouco mais na experi�ncia estŽtica beatnik, observa-se uma poesia que andava com o jazz estadunidense dos anos 50 e 60.

Rodrigo traz sua experi�ncia estadunidense ao Brasil, cuja predomin‰ncia estŽtica era o movimento neorrealista da dŽcada de 30, ecoada pelo engajamento necess‡rio (sempre) de artistas locais, brasileiros. H‡ uma pequena barreira, embora n‹o insuper‡vel, entre uma tradi�‹o liter‡ria que gostaria de subjugar a pura Òarte pela arteÓ vanguardista (como de M‡rio, Rodrigo e Maur’cio) e ainda educar o pœblico ˆ arte. Aqui, Rodrigo faz sua tarefa social e art’stica: des-criptografar a ‡urea escol‡stica de um poema, torn‡-lo do bar, da rua, da boca, em oposi�‹o ˆ sacralidade dada ˆ palavra por uma modernidade conservadora. ƒ sua flexibiliza�‹o da cultura da escrita.

Finalmente, j‡ em termos geogr‡ficos, a Òpoesia da RuaÓ pode ser compreendida como uma Òpoesia da Humait‡Ó. Em 1990, na longa extens‹o entre as ruas Prefeito Ferreira Lima e Humait‡, havia repœblicas de jovens de maioria universit‡ria. TambŽm se encontram bares que convidavam ˆ experi�ncia bo�mia. AlŽm dessas ruas, na Av. Bandeirantes, havia o Bar Valentino, palco principal das apresenta�›es do Poesia in Concert. Curiosamente, hoje o Bar Valentino se encontra na Prefeito Faria Lima. Mais abaixo se encontram as imagens.

Portanto, h‡ um duplo jogo sem‰ntico em Òpoesia da RuaÓ. Na sem‰ntica da rua conotativa, um imagin‡rio de protesto aos espa�os aristocr‡ticos, elitizados, um espa�o pensado pela sua mobilidade social. Na sem‰ntica da rua denotativa, embora n‹o seja uma regra, a rua era localizada geograficamente entre a Prefeito Faria Lima-Huma’ta-Av. Bandeirantes, onde se encontrava a maioria dos atores sociais do evento Poesia in Concert.

Nessa rela�‹o conotativa-denotativa, encontra-se a tal presen�a arquitet™nica-estŽtica da rua. Composto de sujeitos art’sticos e universit‡rios, a poesia voltou ˆ rua na Prefeitura Ferreira Lima com a Humait‡ e foi atŽ ao Bar Valentino, na Žpoca presente na av. Bandeirantes, nœmero 61. Como contam S’lvio DemŽtrio e Mario Bortolotto, os espet‡culos no bar estavam lotados. Era de um relativo sucesso, de loucura, de encher a casa do Bar Valentino, de deixar gente do lado de fora, de levar essas apresenta�›es para fora de Londrina, atŽ Curitiba. No sentido de ressignificar uma realidade social, o Poesia in Concert de 1993 foi bem-sucedido.

 

 

Fora do Valeco

 

O Valeco ou O Bar Valentino era sofisticado, escreveu Mario Bortolotto. ÒEra o bar que a rapaziada do Grupo Proteu adotou e l‡ sempre estava cheio de atores, mœsicos, artistas pl‡sticos, etc. E s— tocava jazz de trilha sonora, alŽm da melhor macarronada da cidadeÓ.

 O Bar Valentino, hoje na rua Prefeito Faria Lima, 486, antigamente na avenida Bandeirantes, 61, era um espa�o para pessoas art’sticas, talvez tanto quanto a Vila Cultural CemitŽrio de Autom—veis seja hoje. Toda a ‡rea entre a rua Humait‡ e a Ferreira Lima era contemplada pela juventude, aglutinada com antigas repœblicas da rua Humait‡. ÒDe manh‹, pra vir pra UEL, eles vinham de carona. Ficavam pedindo caronaÓ, conta S’lvio DemŽtrio. Eram lugares menos gourmetizados, com tradi�‹o bo�mia, acess’vel.

 

Extens‹o Prefeito Faria Lima e Huma’ta

 

 

Fonte: Google Maps de Londrina, 2022

 

            No c’rculo vermelho ˆ esquerda do leitor, pr—ximo ˆ Rodovia Celso Garcia, encontra-se a UEL (Universidade Estadual de Londrina). No c’rculo vermelho central, na rua Prefeito Faria Lima e ao lado da Universidade Positivo, encontra-se hoje o Bar Valentino. No bal‹o ˆ direita, a rua Humait‡, que termina na Avenida Higien—polis, uma das avenidas principais de Londrina. No c’rculo vermelho ˆ direita, o antigo espa�o do Valentino. Entre o espa�o intelectual de Londrina (UEL) e um dos espa�os centrais do ponto de vista comercial (Av. Maring‡, Av. Higien—polis, Av. Bandeirantes), havia extens‹o colonizada por repœblicas e espa�os marginais (bares, adegadas) cruzando essas extremidades, observada na linha preta. J‡ o lago Igap—, um dos pontos importantes de lazer da cidade, cruza essa via de cima a baixo. N‹o Ž dif’cil imaginar como esse tr‡fego geogr‡fico influenciava na opera�‹o social desse per’odo, desses artistas, dessa juventude.

Como atŽ 2005 o Bar Valentino era localizado na avenida Bandeirantes, o fluxo de caronas e de pessoas exigia subir a Humait‡ em dire�‹o ˆ Higien—polis e, em seguida, descer uma das ruas perpendiculares atŽ a rotat—ria da Bandeirantes. M‡rio e S’lvio contam sobre uma agita�‹o naquele espa�o. M‡rio conta ainda uma experi�ncia pessoal:  

ÒEu gostava muito de l‡, embora o meu poder aquisitivo n‹o me permitisse desfrutar do whisky do lugar, mas eu tinha alguns amigos gar�ons que conseguiam traficar algumas doses pra mim. Eu ficava sentado no muro l‡ fora e os copos de whisky se materializavam nas minhas m‹os. [...] Era foda!Ó

 

 

Extens‹o Prefeito Faria Lima e Humait‡

Grifo rosa: Humait‡ ao Bar Valentino (ponto vermelho)

Fonte: Google Maps de Londrina, 2022

 

Nesse espa�o, jovens nascidos entre 1960 e 1970 viviam o rescaldo da abertura do pa’s ap—s o fim da ditadura. Por conta da explora�‹o comercial e da reabertura, essa juventude convivia com a m’dia estadunidense no Brasil. Havia, claro, nomes brasileiros ganhando peso – a influ�ncia da literatura beatnik j‡ aparecia em Paulo Leminski, por exemplo. S’lvio DemŽtrio menciona alguns brasileiros como art’sticos aut�nticos avessos ao mercado de reprodutibilidade. Havia, tambŽm, influ�ncias de cinema, mœsica e atŽ quadrinhos.

 

 

Fonte: MatŽria na Folha de Londrina, 1 Set 1993, arquivada e emprestada por Silvio Demetr’o

Reportagem Os Insatisfeitos

MatŽria reporta juventude londrinense em 1993

 


Em uma matŽria publicada na Folha de Londrina em 1¼ de setembro de 1993, a manchete ÒOs InsatisfeitosÓ descreve a situa�‹o de autoflagelo de uma garota de 21 anos, uma tentativa de suic’dio, suavizada pela pr—pria entrevistada: ÒAcho que estava s— tentando chamar a aten�‹o, n‹o queria realmente morrerÓ. Seguido de testemunhos de denominados ÒinsatisfeitosÓ, a matŽria chega atŽ S’lvio Ricardo DemŽtrio, 24 anos, estudante de jornalismo, Òsolit‡rio divertidoÓ, cuja insatisfa�‹o fora descrita como sin™nimo de uma inquieta�‹o interna, uma insatisfa�‹o com o social como se o questionasse. ÒQuem Ž novo e est‡ esperando alguma coisa Ž insatisfeito. S— os que n‹o esperam nada Ž que est‹o satisfeitos.Ó ÒI CanÕt Get No SatisfactionÓ, mœsica dos Rolling Stones foi citada para descrever sua sensa�‹o, de quem via em Paulo Coelho e Duran Duran acomoda�‹o cultural.

Logo abaixo, o cartunista Angeli continua o assunto da insatisfa�‹o, expressando no�›es da vida bo�mia paulistana entre 1980 e 1990. H‡ uma tirinha com dois personagens seus dessa Žpoca: os velhos hippies, Wood & Stock, refer�ncia ao festival Woodstock da dŽcada de 60. Esses e outros personagens expressariam tra�os da sua personalidade:

 

ÒEu sou recluso, quase n‹o saio de estœdio. Sou uma pessoa deslocada, me sinto contemplador e n‹o um cara participativo; n‹o compactuo com o mundo e isso ati�a o meu senso cr’tico. As pessoas positivas demais n‹o tem [sic] gra�a. Eu acho que todo alegre no fundo Ž um paranoico, alguŽm que perdeu o senso cr’tico.Ó

 

A matŽria (meio sensacionalista, meio tendenciosa) Ž vista, aqui, como registro de temas e de pensamentos dos jovens de 1993, que criavam seu pr—prio discurso social, estŽtico, ideol—gico, sobre seus comportamentos. A insatisfa�‹o Ž linha vertebral, um descontentamento com o sistema social e pol’tico. Em s’ntese, um status quo que n‹o valia a pena ser vivido. S’lvio DemŽtrio cita v‡rias influ�ncias para Òos insatisfeitosÓ: Sam Shepard Ž citado como influ�ncia do pœblico e dos artistas do Poesia in Concert, j‡ que suas pe�as de teatro relatavam personagens sintom‡ticos de um sonho americano falho, de uma fratura no ideal da fam’lia americana. N‹o surpreende que Mario Bortolotto, em 2017 e 2016, tenha dirigido as pe�as Oeste Verdadeiro (True West, de 1980) e ÒCrian�a EnterradaÓ (Buried Child, de 1977), no Teatro e Bar CemitŽrio de Autom—veis em S‹o Paulo[45]. J‡ nos filmes, assim como viu-se a inten�‹o do Rodrigo Garcia Lopes em ter um cara-a-cara com Francis Ford Coppola, Silvio cita O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish, de 1983), do mesmo diretor, cujo personagem central Ž um jovem l’der de gangue de uma fam’lia desajustada. E o filme Condenados pelo V’cio (Barfly, de 1987) inspirado no alter ego de Charles Bukowski, Henry Chinaski, um alco—lico em Los Angeles, do diretor Barbet Schroeder.

Uma mœsica de Barfly, para citar uma influ�ncia pr‡tica, foi usada como acompanhamento musical durante um dos eventos do Poesia in Concert. Essas e outras refer�ncias menores marinavam, como caldos, a experi�ncia juvenil. Por exemplo, como conta S’lvio, houve umas decis›es Òsem no�‹oÓ e t’picas de uma juventude em busca de criar uma afinidade com a insatisfa�‹o. Decis›es como: Òvou embora daqui porque t™ cansado; puts, cara, isso n‹o se faz. Mas era assim que as coisas funcionavam.Ó. A aventura pessoal, o dizer ÒsimÓ ˆ vida que, como veremos mais tarde, j‡ estava registrada em Rimbaud, Nietzsche, beatniks, compartilhada pelos personagens dos filmes.

Eram as influ�ncias brasileiras no Poesia in Concert mais h’bridas que as influ�ncias estadunidenses, pois nossos brasileiros eram n™mades. O Poesia n‹o tinha uma inten�‹o regionalista; isso seria um ufanismo do per’odo anterior ao qual o Poesia queria marcar oposi�‹o, a ditadura militar nacionalista. S’lvio conta, a princ’pio, uma forma�‹o musical do Hermano Reis, Grupo DÕAlma e outros nomes do universo violon’stico brasileiro. Mais tarde, o conv’vio com Mario traria uma mœsica ligada ao universo da gera�‹o beat: jaz bepop, blues, trilha sonora do filme Paris, Texas (1984). De Londrina, atŽ Bernardo Pellegrini e o Bando do C‹o Sem Dono, embora n‹o participasse diretamente do evento, dialogava com ele. Um poema musicalizado pelo Rodrigo, trabalhado junto com o S’lvio, com slides de blues, foi gravado pelo Bernardo nos anos 90. As letras da mœsica, assim como o estilo do Bando, mais uma vez, colocam em evid�ncia a caracter’stica bo�mia do som e das experi�ncias de vida.

 

Dentro do Valeco

 

Segundo um documento publicado pelo site da Prefeitura de Londrina, na primeira p‡gina:

No come�o da dŽcada de 80, segundo Jo‹o Henrique Bernardi, o Valentino era o local para onde iam as pessoas que acompanhavam o movimento teatral da cidade quando uma pe�a nova estreava, sendo cen‡rio da rivalidade entre os maiores grupos de teatro de Londrina. O bar ainda passou pelas m‹os de outro dono, Marcos Marangoni, atŽ chegar aos donos atuais, Valdomiro e Rosangela ChammŽ, que est‹o ˆ frente da administra�‹o do Valentino desde 1991. Em 25 anos de hist—ria, o bar foi segunda casa dos bo�mios da cidade de todas as ra�as, cren�as e op�›es sexuais, foi palco de pe�as de teatro, shows musicais de todos os estilos, atividades do FILO, exposi�›es de artistas pl‡sticos, lan�amentos de livros e CDs, mostras de v’deo. Foi inspira�‹o para mœsicas, poemas, livro, curta-metragens, hist—rias em quadrinhos. Recebeu visitantes ilustres, como Paulo Leminsky [sic], Glauco, Angeli, C‡ssia Eller e diversos mœsicos e atores que se apresentaram na cidade. O Valentino n‹o Ž apenas palco, mas Personagem da hist—ria cultural de Londrina. (LONDRINA.PR.GOV.BR, p. 01)

 

Fonte: MatŽria na Folha de Londrina, 7 Abr 1993, arquivada e emprestada por Silvio Demetr’o

 

Poesia in Concert

Reportagem de evento no bar Valentino


Londrina contava com um teatro que efervesceu a cidade, uma literatura em torno da marginalidade beatnik (mesmo que a literatura tenha ficado abandonada, como as not’cias de 1993 mostram), MPB, rock e jazz, um espa�o bo�mio para artistas. No Bar Valentino, o Poesia in Concert cola estes fragmentos art’sticos em um caldo coeso. Veja, por exemplo, um dos concertos que se chamava ÒPalavra cantada Ž palavra voandoÓ. A performance trazia, por exemplo, Mario Bortolotto com textos do Bukowski, em seguida tradu�›es de Rimbaud, e, mais tarde, inclusive Maur’cio com sua influ�ncia japonesa, o haikai. Uma verdadeira ÒJam PoetryÓ, como conta Silvio, pois envolve geleia, gosma, de misturas e sons de costura. AtŽ coisas improvisadas. Billy Holliday foi cantada, alŽm de outras experi�ncias de solid‹o do gueto americano. Essa geleia, que de um ponto de vista historiogr‡fico atŽ pertence a um nœcleo relativamente est‡vel de influ�ncias, encontra uma Òcontradi�‹oÓ do ponto de vista cr’tico liter‡rio.

 

A reportagem acima cita refer�ncias marginais (Leminski, Sylvia Plath, gera�‹o beat: Burroughs, Kerouac) em rela�‹o ao c‰none tradicional. Mais curioso Ž que, em certos momentos da cr’tica liter‡ria, essas refer�ncias degeneraram a cultura e a poesia can™nica americana. Par‡grafos depois – assim como na outra not’cia da Folha – introduz-se uma compara�‹o com nomes aceitos pelo c‰none, como os trovadores do sŽculo medieval e os gregos. A reportagem e os convidados pareiam comunidades culturais e estil’sticas, aparentemente, vistas como ant’teses. A Folha escreve Òsalmo e rapÓ e ÒAllen Ginsberg, por exemplo, ser‡ recitado como se fosse um salmoÓ.

O nivelamento entre dois estados distintos de cr’tica (a gera�‹o marginal e os trovadores, os rapsodos) Ž selado pelo Poesia in Concert enquanto uma Òreconquista de um lugar para a poesia na cidadeÓ. Assim fica registrado o impacto do Poesia em m’dia pœblica: a flexibiliza�‹o da trova para margem, a concilia�‹o da progressista gera�‹o beat com a tradi�‹o do rapsodo. Na dŽcada de 90 londrinense, essa afinidade poŽtica condizia com um pœblico que intelectualizava o marginal e marginalizava a canonicidade, como discurso cr’tico ˆs bases morais da ditadora, dos discursos c’vicos, ufanistas.

Essa afinidade poŽtica, entretanto, j‡ era comum no circuito cr’tico. Em uma entrevista com Burroughs, Rodrigo questiona o autor sobre seu processo de autor marginal ˆ institucionaliza�‹o liter‡ria. Burroughs responde: ÒDe certa forma isso Ž verdade. Eu sou os Estados Unidos da AmŽrica!Ó (LOPES, 1996, p. 13), o mesmo Burroughs que, segundo Rodrigo Garcia Lopes, Òfoi um dos escritores do sŽculo 20 que mais levou adiante o Ôdesregramento gradual e racional de todos os sentidosÕ proposto por RimbaudÓ[46] Outra afinidade entre o movimento cr’tico e o movimento art’stico do Poesia in Concert est‡ Anna Balakian, no livro O Simbolismo, publicado inicialmente em 1967, e publicado no Brasil pela editora Perspectiva em 1985. A literatura de Rimbaud ocorre pelo afastamento do liter‡rio, com suas aventuras pessoais: ÒRimbaud foi, na verdade, o œnico que escolheu a chamada Ôfuga da literaturaÕÓ (BALAKIAN, 1985, p, 49). Rimbaud voa para a realidade, em oposi�‹o ao her—i simbolista de Villiers, Ax‘l, que se isola na ina�‹o e no sonho da torre de m‡rmore liter‡ria.  O tipo de viagem pessoal que encontra nos beatniks uma solu�‹o agrad‡vel – tornar a viagem (a perambula�‹o na rua, o deslocamento social) um processo liter‡rio, bem ao jeito da an‡lise de Frank (1979, p. 13). A arquitetura da cidade, nesse sentido, passa a ser um espa�o para o liter‡rio do sŽculo XX. A experi�ncia de viagem transforma-se em viagem liter‡ria.

Rapidamente, aponto a institucionaliza�‹o de Burroughs como um processo liter‡rio da cr’tica americana que, p—s dŽcada de 60, n‹o conseguiria mais fingir que os Estados Unidos pertencia apenas aos subœrbios (LOPES, 1996, p. 15). Isso seria ser c™modo com o neoconservadorismo que viria nos anos Ronald Reagan duas dŽcadas depois. Em dire�‹o a an‡lise de uma performance do Poesia in Concert, cito uma entrevista feita com Michael Maffesoli (2012, p. 166), no qual o autor explica:

 

ƒ por isso que o pensamento cr’tico n‹o me parece mais ser um pensamento contempor‰neo. ƒ dif’cil de dizer, eu sei. Quando pensamos como intelectuais, pensamento cr’tico Ž a grande tradi�‹o moderna do sŽculo XIX. O que quer dizer cr’tica? Em grego, krimeia, Ž a balan�a do juiz. Pesam-se as coisas e retŽm-se o que precisa reter, jogando-se fora o que n‹o presta. Marx dizia que o intelectual Ž o cŽrebro, o prolet‡rio Ž o vento, querendo dizer com isso que o prolet‡rio agia, mas era necess‡rio o cŽrebro que lhe desse ˆ luz. Atualmente, parece-me prevalecer uma posi�‹o afirmativa da exist�ncia. O pensamento cr’tico Ž o pensamento do n‹o; o pensamento afirmativo, ali‡s, nietzschiano, Ž o pensamento do sim. Dizer sim ˆ vida. Ao passo que no pensamento cr’tico observam-se bem as formas de perfei�‹o, as formas de submiss‹o, as formas de explora�‹o, etc., mas apesar de tudo existe o desejo de viver essa vida. O drama Ž que existe uma discrep‰ncia, um fosso enorme entre o pensamento intelectual e o vivido social em geral, e em particular no que tange ˆs novas gera�›es. Para mim, todo o meu trabalho, tal como disse no meu livro A raz‹o sens’vel (um livro de epistemologia) tem sido o de mostrar que Ž preciso desenvolver a exist�ncia de um pensamento, que n‹o seja um pensamento do exterior e cr’tico, mas que seja um pensamento do interior, que acompanha a vida.

 

No livro Elogio ˆ Raz‹o Sens’vel (1998), Maffesoli discute uma forma de Òpensamento org‰nicoÓ, ou pensamento do ventre[47], no qual o corpo p—s-moderno, em ruptura com o pensamento cr’tico, escol‡stico, vive um ÒprŽ-modernoÓ, uma organicidade ÒarcaicaÓ (ou, chamadas assim apenas em rela�‹o ao pensamento moderno) a fim de dar for�a a esse ventre. De acordo com Maffesoli (1998, p. 64-65), a organicidade remete para o vivente e para as for�as que o animam. O que vive tende a se reunir, a conjugar os elementos d’spares. ƒ quando Òo conjunto todo se sustentaÓ que h‡ vida. A observa�‹o ressoa n‹o apenas com a organiza�‹o de elementos d’spares da cr’tica liter‡ria no Poesia in Concert, como tambŽm com uma atitude espec’fica da juventude da Žpoca: uma intelectualiza�‹o (ent‹o, afinal, um pensamento cr’tico) das experi�ncias do ventre, do corpo, da sensa�‹o. Dar o ventre ˆ palavra – corporific‡-la em pœblico.

De volta ao Bar Valentino, o deslocamento social para aquele Òambiente de BurroughsÓ buscava flexibilizar uma cr’tica e um processo liter‡rio que n‹o poderia ser vivida na ina�‹o e no sonho de Ax‘l. Nietzscheanamente falando, o dizer ÒsimÓ ao desregramento da vida, j‡ prenunciado na aventura pessoal de Rimbaud, precisava imergir na rua. Logo, pensar o Bar Valentino enquanto espa�o do ventre n‹o Ž ignorar o pensamento cr’tico. Ao contr‡rio, Ž pensar os fen™menos do Poesia in Concert como articuladores cr’ticos, intelectuais, n‹o apenas da experi�ncia ditatorial, mas tambŽm como um espa�o de cr’ticos sobre a cr’tica liter‡ria tradicional.

Gostaria, portanto, de analisar uma performance do Poesia in Concert da dŽcada de 90 dispon’vel no link a seguir, o qual sugiro acessar antes de avan�ar o texto: <https://www.youtube.com/watch?v=Ar2W0QdCl48>.

Em seguida, deixo um link, apenas para compara�‹o, da mesma performance sendo ensaiada: <https://www.youtube.com/watch?v=H0qhVvquy3Q&t>   

Sobre o equipamento do palco, Ònada muito sofisticado em termos de equipamentoÓ, Mario e Rodrigo dizem. Microfones e um viol‹o. A balada em quest‹o Ž entre country e blues, tŽcnicas de slides do viol‹o e um som descontra’do. Nada grave, nada melanc—lico, um pouco texano, um pouco relaxado. Um pouco daquela Òmœsica de barÓ mesmo.

Rodrigo est‡ prestes a ler uma tradu�‹o de Lawrence Ferlinghetti (precursor dos beatniks), ÒSometime During Eternity...Ó. Destaco aqui uma frase de Leminski que Rodrigo confidenciou a mim ÒCantar Ž apenas a maneira mais bonita de dizerÓ. Assim como os slides do viol‹o, haver‡ uma escorregada – entre dizer e cantar – durante a performance e, propositalmente, obscurecida sobre seu ponto exato de transi�‹o. Ou seja, Rodrigo propositalmente quer obscurecer a tŽcnica de sua voz, se Ž canto ou se est‡ dizendo. Escreverei um asterisco (*) a fim de transcrever os momentos de imprecis‹o. Entre par�nteses est‡ a interven�‹o de Rodrigo no poema, ou seja, partes que n‹o correspondem a uma tradu�‹o, correspondem a marca de oralidade perform‡tica.

Rodrigo segura um papel na m‹o. Come�a:

 

Era uma vez

Durante a eternidade

Uns carinhas entram em cena

e um deles

Que pinta meio tarde no peda�o

ƒ um tipo de um carpinteiro, meio bicho grilo

Vindo de algum lugar careta, tipo... Galileia

E o cara come�a a delirar e dizer que ele Ž o ÒO caraÓ – o ÒO caraÓ

E que t‡ em liga�‹o direta com a figura que fez o cŽu e a terra

E que o sujeito que aprontou essa com a gente Ž o papai dele

E tem mais: o carinha diz que tudo isso est‡ escrito nos rolos de pergaminho

que os br—ders dele mocozaram em algum canto do mar morto

*H‡ muito tempo atr‡s...

E que v‹o ficar assim perdidos durante milhares e milhares e milhares de anos

*1947, pra ser exato

E mesmo assim, ninguŽm t‡ nem a’ pra o que ele diz

A’ dizem assim pra ele, nŽ (pro Jesus, obviamente, que Ž a figura toda): *bixo, voc� Ž quente

E penduram o cara numa cruz pra ele esfriar a cabe�a

E desse dia em diante todo mundo entra numas e come�a a fazer modelitos dessa cruz, que o cara t‡ pregado, e ficam cantando embaixo dela pedindo pra ele ([come�a a gaguejar]) descer dali [ca�oa a ora�‹o rab’nica, fazendo sons guturais, incompreens’veis] e entrar pro grupo e tirar um som tambŽm, j‡ que ele Ž o fera, o cara quente, o... (tal, nŽ, o cara) que tem que mandar a ver (mesmo, nŽ, porque se n‹o for Jesus, hoje em dia, eu n‹o sei quem Ž), se n‹o, nada v�

s— que dali o cara n‹o desce nem a pau

Fica ali pendurad‹o, fica ali frio, ali na dele, dando um time (meu Òtime!Ó [abre os bra�os imitando a crucifica�‹o]

E, tambŽm, segundo informam as œltimas not’cias das ag�ncias internacionais, vindo de fontes nada fidedignas, como sempre

realmente – morto

 

Na performance, h‡ palavras marginais, misturas entre ingl�s e portugu�s, uma caracter’stica da urbanidade brasileira – que tambŽm resgata um estilo vanguardista de Oswald de 22. O nomadismo de informa�‹o, citado por S’lvio, alŽm de refer�ncias art’sticas, traz refer�ncias lingu’sticas aportuguesadas. Observa-se, tambŽm, inser�›es subjetivas de Rodrigo entre um verso e outro do poema de Ferlinghetti, quando, por exemplo, ca�oa o termo ÒtimeÓ ao simular a gravidade do Cristo na Cruz: ÒMeu, time!Ó (imita a crucifica�‹o). Entre uma palavra e outra h‡ o blues: a aten�‹o desfoca, acidentalmente/escorregadiamente, daquela sem‰ntica liter‡ria, ficcional, para a atmosfera bo�mia do bar, da rua: as conversas paralelas, o tr‰nsito dos carros, o ru’do dos garfos e pratos, o relacionar-se com a espuma da cerveja e beb�-la enquanto alguŽm assopra a fuma�a do cigarro e o country-blues os imerge no bar. Quase n‹o se sente que se trata de uma conversa sobre a b’blia – ent‹o volta-se ˆ narrativa, ao eu-l’rico que, localizado naquele espa�o com qual se relacionam, marca sua presen�a como membro do espa�o.

A linguagem perform‡tica antropomorfiza a boemia e o viol‹o como quem diz: ÒArthur Rimbaud era como n—s. N—s existimos com os gregos antigos. O blues foi inventado em uma lira deitada de trovador que fumou algum —pio; se perdeu em hero’na encontrada no bar da av. Bandeirantes, nœmero 61, banheiro do sŽculo XX. E a santifica�‹o de Cristo Ž um assunto para os slides dos negros – porque, como a rua e como o blues, a cruz somos todos n—s. Jesus, afinal, era da margem e foi a�oitado. Era grunge. Era da parte de baixo do continente americano. Era de Londrina. Era do Valeco.Ó

ƒ o limiar cr’tico por onde nasce o Poesia in Concert: viver o arca’smo do ventre com a experi�ncia dionis’aca sonora, grega, da maneira de um trovador. Nesta performance, h‡ o fen™meno cr’tico-liter‡rio que, atŽ hoje, faz parte da heran�a cultural de Londrina: ser cr’tica, ser liter‡ria, e ainda assim sentir a pulga atr‡s da orelha quando se trata do c‰none.

Conforme explica Rodrigo, n‹o havia nada acad�mico. Nada formal. Nada intencional. Era uma maneira natural como viam a cultura: sincr™nica, ver todos os poetas como absolutamente contempor‰neos e, por isso, n‹o haveria necessidade de deslocar Shakespeare de um poeta contempor‰neo brasileiro. ƒ a vis‹o sincr™nica que herda de Ezra Pound, sobretudo a vis‹o da poesia produzida atŽ hoje como um manancial, como uma fonte rica, himalaia, como um topo que pode ser escalado por v‡rios lugares. Nesta perspectiva de um manancial, Rodrigo acaba recuperando a oralidade – traduz, por exemplo, o poema O Navegante (The Seafarer), poema anglo-sax‹ (antes da l’ngua inglesa) com mais de 900 anos de idade. ƒ curioso, portanto, a perspectiva do Rodrigo de observar o Poesia in Concert como uma produ�‹o nada acad�mica. Pois, embora n‹o tenha nascido pela Academia, os discursos e deslocamentos se tornaram pontualmente cr’ticos de um sistema de vida ufanista, tradicionalista, Òdos bons costumes, dos bons valoresÓ.

O poema de volta ˆ rua deve perder o car‡ter escol‡stico para vocalizar a for�a do ventre – o ÒdeslizeÓ entre falar e cantar, como critŽrio estŽtico, seria o que localizaria o poema na vanguarda ou no cl‡ssico, talvez, entre a universidade e o mercado massivo. Enfim, Ž importante que o poema esteja nos bares para embebedar seu ventre. ƒ importante que se torne pœblico para evitar, nos momentos de distanciamento social, ser monopolizado pelo processo acad�mico.

 

Legado e conclus‹o

 

Trata-se de uma lei social bem conhecida: todas as coisas tendem a debilitar-se. Perde-se mem—ria da efervesc�ncia fundadora. O choque amoroso torna-se tŽdio conjugal, a energia revolucion‡ria metamorfoseia-se em partido pol’tico institucional, o dinamismo juvenil dos come�os inverte-se em repetitividade mon—tona. AtŽ mesmo a intui�‹o criativa de um pensamento inovador tende a tornar-se sistema est‡tico com os seus dogmas e o seus c‹es de guarda zelando, ciosamente, pela rigidez doutrinal (MAFFESOLI, 2002, p. 22)

 

Os criadores do Poesia in Concert saem de Londrina no final da dŽcada de 90. Depois dos anos 2000, Rodrigo, M‡rio e Maur’cio permaneceram artistas com estŽticas performativas. M‡rio participa de dois grupos, Trovadores do Mioc‡rdio e o Jazz Poetry. O Trovadores trabalha com um DJ que providencia camas sonoras para as leituras. Costuma trabalhar com temas. Em setembro do ano da conclus‹o deste trabalho (2018), pretendiam comemorar o anivers‡rio de Nick Cave. J‡ no Jazz Poetry, os escritores escolhem o jazz que acompanha textos autorais. Rodrigo desabafa sobre as apresenta�›es contempor‰neas do Poesia em Londrina: Òa œnica coisa que parece repetitiva e sem criatividade Ž que Ž sempre o bluesÓ, conta.

Hoje, o Valentino, na Rua Prefeito Faria Lima, passou a ser visto como um lugar menos da margem, mais elitizado – de fato, em Londrina de 2018, os espa�os das coisas marginais, viscerais e espont‰neas s‹o outros. Outras s‹o, tambŽm, as estŽticas do ÒmarginalÓ. A Vila Cultura CemitŽrio de Autom—veis Ž o espa�o principal, onde, inclusive, acontecem a maioria dos encontros de Poesia in Concert.

Christine Vianna, porta-voz do Benditos Energœmenos (banda de poema e mœsica blues, inicialmente fazia leituras de poemas brasileiros, inclusive fora do Brasil, atŽ, ultimamente, investir em trabalhos autorais) era pœblico do Poesia in Concert em 1990. Aproximou-se da mœsica atravŽs do Poesia. Em 2009, reinsere o Poesia na pauta londrinense celebrando o anivers‡rio da cidade de 75 anos, que acontece em 10 de dezembro. Apresenta o show no Museu de Arte, em julho e, em novembro, na Vila Cultural. A partir de 2010, o incorpora ao Londrix, que planeja as apresenta�›es do Poesia principalmente na Vila Cultural (j‡ aconteceu, tambŽm, na Concha Acœstica, em Londrina, em 2012).

O festival liter‡rio de londrina, Londrix, discute a palavra atravŽs de v‡rios ‰ngulos: confraterniza�‹o com escritores, oficinas, palestras, leituras, lan�amentos de livros. Christine resolveu retomar o Poesia in Concert neste contexto de tate‡-lo, de perceb�-lo, de expandir a experi�ncia com a palavra. A diferen�a Ž que, anexado ao Londrix, o espa�o Ž tambŽm de um pensamento conscientemente cr’tico (uma vez que o festival Ž organizado, principalmente, por nomes da Universidade Estadual de Londrina). Nesse festival, de experi�ncia cr’tica e de experi�ncia do ventre da palavra, a vida de bar Ž mais limitada.

Entenda: na dŽcada de 90, o Poesia in Concert era um evento do bar. Um lugar de comŽrcio, aberto cotidianamente, no qual o pœblico vai e vem com liberdade. Com a inser�‹o do evento em um festival e um espa�o cultural espec’fico, no qual a experi�ncia direta da boemia no bar Ž restrita, a palavra-voz do Poesia sofre outra experi�ncia sociol—gica. N‹o corre o risco, como era o caso do Poesia em 90, de um cliente despreparado entrar no bar e por acaso sentir o h‡lito alco—lico de Rimbaud. H‡ boemia e h‡ bebidas na Vila Cultural, mesmo assim. O que ocorre Ž que quase 40 anos depois da ditadura, as necessidades cr’ticas da literatura s‹o outras.

Com a inser�‹o do Poesia in Concert em um festival liter‡rio, o equipamento e as possibilidades aumentam com o investimento monet‡rio. Christine relatou o nœmero de bandas locais, por exemplo, que se empenham em trazer novas materialidades sonoras ˆ palavra. Bonus Trash, com punk rock e performances energŽticas, quase esquizofr�nicas, como se a ansiedade man’aca ganhasse pernas. Outras bandas locais, como Radicais Livresü que em parceria com o Benditos, sonorizaram poemas de Herman Schmitz, curitibano naturalizado londrinense. Dentro de um festival liter‡rio, s‹o v‡rias as conversas liter‡rias, v‡rias as refer�ncias e, conforme avan�am os anos e as percep�›es – e os poetas – Ž natural que se notem novas performances montadas. Inclusive novos objetivos.

Se antes o Poesia in Concert queria questionar o conceito de liter‡rio, hoje quer assegurar uma educa�‹o pol’tica sobre o conceito. Christine, como professora e musicista, usou o projeto para levar poemas londrinenses ˆs escolas. Alunos vinham pedir os poemas apresentados, ela conta a experi�ncia. ÒVoc� canta, professora? N‹o canto, eu falo.Ó – agora Ž o trajeto contr‡rio. O foco se torna questionar o conceito de ÒmœsicaÓ e ÒsomÓ pela for�a liter‡ria. Nesse percurso, a educa�‹o retira o aluno apenas da experi�ncia do ventre para inseri-lo ˆ experi�ncia cognitiva (um objetivo que, na presente dŽcada, parece mais adequado).

Antes o discurso fazia oposi�‹o ˆ ufanismo ditatorial e ˆ pris‹o da palavra acad�mica; hoje, as necessidades de oposi�‹o s‹o outras. Christine reitera: as redes de literatura de massa n‹o trabalham o diferencial; e o diferencial desconstr—i uma estrutura de realidade fixa. Cabe ˆ vanguarda, que est‡ ˆ frente na quest‹o cultural, mostrar coisas que s‹o produzidas ˆ margem da rede de massa.

Nesse sentido, n‹o Ž preciso mais recitar Burroughs, Kerouac, Leminski; todos esses nomes v‹o muito bem e obrigado. O atual Òlevantar bandeiraÓ Ž levantar o nome de um autor independente para o conhecimento pœblico. Esse Ž o novo prop—sito do Poesia in Concert: fundamentar um espa�o de arte independente, e disseminar a mesma arte independente entre os espa�os londrinenses, um circuito de divulga�‹o e fundamenta�‹o da arte local.

Observe uma diferen�a de resposta de palco: em uma apresenta�‹o relatada por Christine com o Benditos em Curitiba, havia 800 pessoas, espa�o lotado. Era uma homenagem a Paulo Leminski. Um b�bado, talvez drogado, subiu no palco e abaixou a cal�a. Segundo a autora, ele ficou assim, meio de quatro. Aquilo foi constrangedor, desconcentrou, tirou a aten�‹o do show para o mo�o – e o que fazer, ent‹o? O show n‹o podia parar, conta Christine. Se a poesia n‹o enla�a o pœblico, ele se perde; voc� tem que prender aten�‹o com o fluxo. ÒEu abaixei no mesmo n’vel que eleÓ, ela diz. ÒE fiz o poema pra eleÓ. Ele ficou calmo; estava agitado... e acredito que tenha sido envolvido pela poesia – Òeu olhei pra eleÓ, e as pessoas aplaudiram muito.

Ë diferen�a dos mœsicos, poetas e tradutores universit‡rios, recŽm-formados, que atuaram no primeiro Poesia in Concert para um pœblico de bar, o contexto escolar de Christine contextualiza a literatura inicialmente com formar e educar, menos preocupada com o ÒdesregrarÓ dos sentidos. ƒ question‡vel se a resposta de palco do primeiro Poesia ao b�bado teria sido acalm‡-lo.

Assim, menos preocupada com o discurso de uma Òpalavra no barÓ, h‡ um discurso mais apegado ˆ palavra enquanto um direito humano de Antonio Candido. Inclusive, literatura pensada como ativismo pol’tico e manuten�‹o de espa�o para os direitos humanos. Nesse sentido, no Poesia in Concert atual h‡ uma ideologia da raiz, que parte, por exemplo, dos poemas e do blues americanos, ressaltados nas figuras Amiri (1996, p. 44-47) e Wanda (1996, p. 113-116), entrevistadas por Rodrigo Garcia Lopes. Embora nos dois Poesias haja diferentes rela�›es sociol—gicas com Londrina, o evento permanece como um espa�o para discursar um processo cr’tico da literatura contr‡rio ˆ cifra monet‡ria da literatura de massa.

O sentido do Poesia in Concert (Òpalavra que retorna ˆ ruaÓ) Ž um sentido que se ressignificou conforme as necessidades sociol—gicas da ÒpalavraÓ e da ÒruaÓ mudaram. Antes, levar a palavra para rua e para o bar. Agora, lev‡-la ˆs escolas. Quando vestida de elite, dar-lhe roupas da rua; quando se tornar marginalizada demais, reivindicar uma palavra que resguarda direitos humanos. Se a palavra for monetizada pelos recursos de massa, educar ao diferencial, educar ˆ palavra enquanto um outro. Ora, assim como Burroughs foi institucionalizado pela cr’tica norte-americana, a qu’mica efervescente do Poesia marginal se transformou em uma matŽria-prima. Agora, o que fazer com um Burroughs que j‡ Ž vendido atŽ em lojas de rodovi‡rias? Responder com aqueles que raramente conseguem uma prateleira.

A literatura, a palavra, participam dos processos de lucro. ƒ indubit‡vel. A Forbes publica anualmente uma lista com 10 escritores de fic�‹o norte-americana milion‡rios. A palavra Ž comercializada em forma de Facebook, WhatÕs App e Tweets globalmente compartilhados. E, com o racioc’nio relativista p—s-moderno, haver‡ discuss›es intermin‡veis sobre o que existe ou n‹o de literatura nisso. A palavra gira um capital consider‡vel. O que o cr’tico liter‡rio e o empres‡rio t�m em comum Ž querer entender quais palavras s‹o mais capitalistas do que vanguardistas. Entre os dois momentos do Poesia, Rodrigo Garcia e o Benditos Energœmenos quiserem abordar a palavra pelo sentido contr‡rio ˆ mare.

Embora os sentidos e as proje�›es do Poesia in Concert tenham sido atualizados, observa-se um espa�o londrinense para se opor ao sentido mainstreem da palavra. Talvez seja essa a maior heran�a de colocar a palavra na rua. Conhecer aquele que, no centro da cidade ou na periferia, Ž o outro.

 

 

Refer�ncias

 

BALAKIAN, Anna. O Simbolismo. Tradu�‹o JosŽ Bonif‡cio. S‹o Paulo: Editora Perspectiva, 1985.

BULIK, Linda. Entrevista com Michel Maffesoli. In: SANTOS, Volnei Edson dos. (Org.). O tr‡gico e seus rastros. Londrina: EDUEL, 2012

 

CARNEIRO DOS SANTOS, F‡tima. Vozes da cidade: por uma escuta que inventa. In: EWALD, Felipe GrŸne... [et al.]. Cartografias da voz: poesia oral e sonora: tradi�‹o e vanguarda S‹o Paulo: Letra e Voz; Curitiba: Funda�‹o Arauc‡ria, 2011.

 

FERNANDES, Frederico. O caso Londrix: subjetividade, territorializa�‹o e pol’tica na poesia de Maur’cio Arruda Mendon�a. Estudos de literatura brasileira contempor‰nea, n. 52, p. 102-121, set./dez. 2017.

 

FRANK, Ellen Eve. Literary Architecture: Essays Toward a Tradition: Walter Pater, Gerard Manley Hopkins, Marcel Proust, Henry James. Berkeley University of California Press, 1979.

 

MAFFESOLI, Michel. Entre o bem e o mal: comp�ndio de subvers‹o p—s-moderna. Tradu�‹o de Joana Chaves. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.

 

___________. Elogio ˆ raz‹o sens’vel. Tradu�‹o de Albert Christophe Migueis Stuckenbruck. Petr—polis: Vozes, 1998.

 

LOPES, Rodrigo Garcia. Vozes & vis›es: panorama da arte e da cultura norte americanas hoje. S‹o Paulo: Editora Iluminuras, 1996.

 

ZUMTHOR, Paul. Escritura e Nomadismo. Tradu�‹o de Jerusa Pires Ferreira e S™nia Queiroz. S‹o Paulo: Ateli� editorial, 1995.

 

___________. Performance, recep�‹o, leitura. Tradu�‹o de Suely Fenerich. S‹o Paulo: EDUC, 2000.

 

Refer�ncias digitais

 

Bar e Restaurante Valentino. Dispon’vel em: <http://www1.londrina.pr.gov.br/dados/images/stories/Storage/sec_cultura/patrimonio_historico/bar-restaurante-valentino.pdf> Acesso em: 18 Aug 2017

 

Canal CemitŽrio de Autom—veis no Youtube. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/user/cemiterioautomoveis> Acesso em: 27 Jul 2018

 

Valentino Londrina Poesia in Concert. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=H0qhVvquy3Q&t> Acesso em: 6 Jul 2018

 

Poesia in Concert 01. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=tIy0OEMNABY> Acesso em: 4 Jul 2018

 

Poesia in Concert 02. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=84CEnYt6oug> Acesso em: 4 Jul 2018

 

Poesia in Concert 03. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=pZ8dq0HVwFQ> Acesso em: 4 Jul 2018

 

Poesia in Concert 04. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=VhzqaZVJGDE> Acesso em: 6 Jul 2018

 

Poesia in Concert 05. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=iwjNapgt1Uc&t> Acesso em: 6 Jul 2018

 

Poesia in Concert 06. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=Ar2W0QdCl48&t> Acesso em: 6 Jul 2018

 

Poesia in Concert 07. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=mWQVuw3AoRA> Acesso em: 6 Jul 2018

 

Resumo debate cultura em Londrina. Dispon’vel em <https://www.youtube.com/watch?v=hfLs-pmZWm0> Acesso em: 22 Jun 2018

 

Pasta com entrevistas realizadas.

Dispon’vel em: <https://1drv.ms/u/s!AknHzGD3Drz3gdYOg8ti2RsNAdRBqA?e=eltDAg> Acesso em: 4 de Maio de 2021

 

 

 

[Recebido: 04 mai 2021 – Aceito: 04 jun 2021]

 

 



[43]  Artigo escrito inicialmente como relat—rio de inicia�‹o cient’fica entre 2017-2018, com bolsa CNPq.

[44]  Aluno de doutorado em Letras pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) desde 2021. E-mail para contato: kaedmon.sellberg@hotmail.com.

[45] Not’cia dispon’vel em: Òhttps://guia.folha.uol.com.br/teatro/2017/04/mario-bortolotto-dirige-texto-do-dramaturgo-americano-sam-shepard.shtmlÓ, publicada em 7 de Abril de 2017.

[46] Dispon’vel em: <https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,poeta-narra-encontro-com-william-burroughs,1125360> publicado

[47] Ò [...] percebemos que o importante hoje Ž o ventre, isto Ž, o emocional, as emo�›es, e n‹o o racional. ƒ por esta raz‹o que a palavra ÒhistŽrico" – n‹o numa acep�‹o pejorativa – mostra a import‰ncia do œtero, isto Ž, do ventre. Em grego, hysterus Ž o ventre.Ó  Dispon’vel em: < https://www.fronteiras.com/entrevistas/michel-maffesoli-nao-e-mais-o-futuro-que-importa-e-sim-o-presente> publicado em