VOZES DE MULHERES NO TERRITîRIO DO CORDEL E DA CANTORIA

 

 

WOMENÕS VOICES IN THE TERRITORY OF CORDEL AND CANTORIA

 

 

Ria Lemaire[33]

 

 

Resumo: Os debates p—s-moderno e decolonial sobre as rela�›es entre as civiliza�›es da oralidade e o mundo da escrita est‹o trazendo, embora tardiamente, uma epistemologia radicalmente cr’tica para o campo dos estudos da tradi�‹o nordestina da cantoria e do cordel. O novo paradigma — tanto hist—rico quanto contempor‰neo — permite colocar a quest‹o do papel e lugar das mulheres nesses territ—rios tradicionalmente masculinos. Ao focar um subg�nero dessa poesia originalmente improvisada, o repente misto, em que uma cantadora desafia um cantador, e, nesse subg�nero, a presen�a e fun�‹o da viol�ncia masculina e feminina, esse artigo prop›e uma reflex‹o cr’tica sobre temas centrais dos debates atuais sobre cordel, g�nero, mulher e viol�ncia.

Palavras-chave: Cordel. Cantoria. G�nero. Territ—rio. Viol�ncia masculina. Viol�ncia feminina.

 

Abstract: Post-modern critics of scriptocentrism and nowadays decolonial criticism are bringing – slowly and progressively -  the new paradigm of the orality-literacy-debate to the field of  repente,  the Northeastern tradition of improvised poetry, in its oral (cantoria) as well as in its  impressed (cordel)  form. The new paradigma – historical as well as contemporary –  enables us to discuss the question of womenÕs role and place in these traditionally masculine territories,  featuring  a sub-genre of this poetry, - repente misto – in which a female singer challenges a male singer. By focalizing the presence and function of male and female violence in this sub-genre, this article proposes a critical reflexion on central themes in actual debates on gender, women and violence.

Keywords: cordel. Cantoria. Gender. Territory. Gender-based violence.

 

 

Dois ramos de uma ‡rvore s—

 

A publica�‹o de O Livro Delas: cat‡logo de mulheres autoras no cordel e na cantoria nordestina (SANTOS, 2021) constitui n‹o s— um marco mili‡rio nos estudos de cordel, mas tambŽm a abertura, dentro da ‡rea, de uma nova linha de pesquisa inovadora, fundamentada na desconstru�‹o dos pressupostos vigentes do discurso acad�mico dominante sobre o cordel e da sua historiografia nacional. AlŽm disso, ela permitir‡ a integra�‹o, no campo dos estudos de g�nero e literatura, de uma ‡rea atŽ agora negligenciada: a de g�nero e estudos orais.

Comecemos por uma constata�‹o: cantoria e cordel s‹o considerados pela maioria dos estudiosos dois campos distintos no mundo sociocultural nordestino. A separa�‹o te—rica dos dois campos – o da cantoria como produto de uma oralidade ancestral e o do cordel como origin‡rio do mundo da escrita – correspondia aos interesses pol’ticos da cultura dominante daquela elite branca e de origem portuguesa que, nos anos sessenta e setenta do sŽculo passado, na Žpoca da Ditadura Militar, ÒreabilitouÓ o cordel – t‹o desprezado e marginalizado atŽ l‡! – como express‹o liter‡ria da alma nacional brasileira.

A reabilita�‹o pol’tico-liter‡ria, elaborada e propagada, sob a Žgide do Conselho Federal da Cultura, por intelectuais e acad�micos organizados em torno da Casa de Rui Barbosa, ia servir como suporte ideol—gico da pol’tica cultural nacionalista da Ditadura. O que o poeta Rouxinol do RinarŽ chamou um dia de Òdois ramos da mesma ‡rvoreÓ entrou no processo politico-liter‡rio da nacionaliza�‹o do cordel sob a forma de duas ‡rvores plantadas em territ—rios culturais diferentes. Consagrou-se o nome ibŽrico de cordel para o fen™meno editorial nordestino que os pr—prios poetas chamavam de folheto/jornal do povo e esse folheto ia ser, da’ em diante, estudado e divulgado como literatura popular brasileira.

 

 

O mito das origens brancas e portuguesas

 

Ao se separar cantoria e cordel, tornou-se poss’vel historiografar o folheto como descendente do cordel escrito/impresso de origem portuguesa. Integrado nessa genealogia alheia de textos escritos/impressos ibŽricos, o folheto tornou-se ÒnacionalÓ e express‹o da alma pura, aut�ntica, primitiva da Na�‹o brasileira. Tornou-se Literatura, quer dizer: fic�‹o e estŽtica, podendo a partir da’ ser estudado com os pressupostos, mŽtodos, critŽrios e ju’zes de valor convencionais dos estudos de Letras (Autor e Obra, c‰none, antologia etc.). E tornou-se popular no sentido humanista, erudito do termo, dentro da dicotomia elite culta versus povo inculto. Essa dicotomia instalou-se no discurso erudito do mundo ocidental nos come�os dos tempos modernos, como express‹o e legitima�‹o ideol—gica da crescente desigualdade econ™mica, social e pol’tica, sobrepondo-se ao sentido original – geo-socio-cultural – do conceito de povo.

PorŽm, o sentido original sobreviveu atŽ hoje. Patativa do AssarŽ, por exemplo, o definia como: Òa nossa terra, a nossa vida, a nossa genteÓ, quer dizer: um territ—rio, no sentido original do termo, caraterizado pela presen�a de uma ÒterraÓ (no sentido Òportugu�s de PortugalÓ do termo), quer dizer: uma regi‹o geograficamente delimitada, uma vida, cultura e mem—ria/tradi�‹o comuns a todos os indiv’duos que j‡ nela nasceram no passado, nela vivem no presente e v‹o nascer no futuro. Uma na�‹o no sentido original do termo (ÒterraÓ onde ÒnasceÓ), cujo passado continua vivo/vivido no presente e que lhes d‡, a esses povos, a consci�ncia inextirp‡vel de perten�a, empatia e coes‹o social.

O conceito de alma pura, aut�ntica, primitiva da Na�‹o brasileira, por sua vez, forneceu a base para a reinven�‹o do mito da morte iminente do folheto, mito importado e imitado do Romantismo alem‹o (Naturpoesie versus Kulturpoesie) do sŽculo XIX. Chegou juntamente com o conceito de tradi�‹o, ao qual esses eruditos alem‹es do sŽculo XIX tinham dado uma nova significa�‹o, a saber: tradi�‹o morta, arcaica, obsoleta e parada no passado; o contr‡rio do seu sentido original e do seu funcionamento real na comunidade nordestina.

Ao mesmo tempo, o pressuposto da origem escrita portuguesa do folheto permitiu que a cantoria, a saber, a comunica�‹o direta, oral, com o audit—rio nas cantorias, feiras e festas populares no seio da pr—pria comunidade, fosse considerada (teoricamente!) local, regional, quer dizer: inferior e relegada ao sempre desprezado campo dos estudos de folclore. O impacto desse discurso, que alia eurocentrismo e scriptocentrismo a nacionalismo, tem sido avassalador; ele contamina, atŽ hoje, como uma trama inconsciente, tanto a terminologia, os pressupostos e os posicionamentos te—ricos dos estudos de cordel — dos convencionais atŽ os mais cr’ticos —, quanto a vis‹o que os pr—prios poetas cantadores e cordelistas t�m da sua arte, profiss‹o e miss‹o.

 

Divide et impera

 

A estratŽgia discursiva da invers‹o e distor�‹o em que se baseia o discurso erudito sobre o cordel tem-se averiguado como perversa e eficaz. Ela Ž aplicada desde sempre pelo patriarcado – na sua vers‹o ocidental – no decorrer da sua luta milenar pela imposi�‹o do seu poder, da sua vis‹o do mundo como superior e da sua Hist—ria como œnica e verdadeira. Consiste em dividir o grupo s—cio-profissional dos poetas, cuja unidade j‡ era sempre vulner‡vel por causa da rivalidade masculina. Essa rivalidade foi, originalmente, a fonte de inspira�‹o principal do repente masculino, com os seus vencidos e o vencedor, reconhecido e aplaudido pelo pœblico no momento da performance. Essa divis‹o dicot™mica, ÒguerreiraÓ no sentido original, lœdico-sŽrio (HUIZINGA, 2007) da palavra, vai ser ressignificada tambŽm pelos eruditos para constituir a base de duas categorias Òliter‡riasÓ, desiguais e hierarquizadas, – os bons poetas e os Òmenos bonsÓ –, com o objetivo de destacar mais e enaltecer o grupo ÒsuperiorÓ, tendo em vista o futuro c‰none do cordel.

Dessa maneira, a rivalidade masculina continuamente ati�ada ia dessolidarizar, uns dos outros, os membros do mesmo grupo profissional, abrindo-se uma brecha para impor – de fora, de longe e de cima – uma autoridade de avalia�‹o superior e capaz de sobrepor, ˆ avalia�‹o interna pela pr—pria comunidade, o seu ju’zo de valor erudito e superior. A curto termo, isso permitiu aos detentores da nova teoria controlar o campo do cordel, ao privilegiar certos g�neros (mais Òliter‡riosÓ) em detrimento de outros g�neros (folheto de atualidade, folheto pol’tico, folheto de ci�ncia...) e marginalizar ou excluir aqueles ÒdissidentesÓ, que n‹o correspondiam ao modelo, alheio, liter‡rio e erudito, imposto de fora. A longo termo, essa estratŽgia causou a distor�‹o parcial do conhecimento e da vis‹o que tinham os pr—prios poetas sobre sua arte, miss‹o, identidade e hist—ria.

Um exemplo bem revelador dessa estratŽgia s‹o as cartas encontradas no Acervo Raymond Cantel da Universidade de Poitiers que revelam o surgimento, nos anos setenta do sŽculo passado, entre os eruditos da Casa, do questionamento da ÒautenticidadeÓ daqueles poetas de cordel que n‹o eram analfabetos. Os debatedores perguntam-se e perguntam ao ilustre professor franc�s, com muita seriedade, se um Òn‹o-analfabetoÓ pode ser considerado poeta de cordel e ser inclu’do, por exemplo, nas antologias de cordel, bases do futuro c‰none. Segundo a doutrina oficial por eles elaborada, alfabetizado n‹o podia, uma vez que os poetas de cordel eram incultos e analfabetos![34]

N‹o Ž dif’cil imaginar-se o que ia acontecer quando os pressupostos/preconceitos mis—ginos e androc�ntricos da alta burguesia da Žpoca da Ditadura Militar se associaram ao seu eurocentrismo, scriptocentrismo e nacionalismo j‡ comentados. N‹o se encontra nos cat‡logos, antologias e c‰none da Casa Rui Barbosa – dos mais velhos atŽ aos mais recentes – nenhuma mulher poeta. Dentro do conjunto coeso de pressupostos falsos do seu mito das origens foi necess‡rio e inevit‡vel n‹o s— anunciar a morte iminente do folheto, para poder silenciar a voz viva e din‰mica do povo nordestino, como tambŽm ignorar, e de antem‹o, a voz das suas mulheres. Teorizada, na tradi�‹o alheia de Homo sapiens humanista, a cultura do folheto s— podia ser exclusivamente masculina.

 

 

Vozes rebeldes: agora s‹o outros 500 anos!

 

ƒ a partir do ano 2000 que come�am a surgir vozes rebeldes, tais como as da Sociedade dos Poetas Mauditos no Cariri cearense (GRANGEIRO, 2020). Mauditos no sentido ir™nico do termo: eles fazem propositadamente versos Òmal ditosÓ, segundo os critŽrios convencionais, e seus integrantes n‹o s‹o analfabetos nem semi-analfabetos.

A provoca�‹o dos jovens poetas, homens e mulheres, fundamenta-se na consci�ncia de que os pr—prios conceitos de Literatura, de alma pura e tradi�‹o morta servem para negar toda e qualquer capacidade de evolu�‹o e inova�‹o do cordel. Essa nega�‹o, por sua vez, servia para desvalorizar e obliterar o papel e miss‹o cultural e hist—rica do folheto como express‹o da atualidade, realidade e verdade da vida nordestina. Ela servia para silenciar, de antem‹o, as eventuais vozes cr’ticas da contemporaneidade. Essas vozes vieram denunciar a mentira, a m‡-fŽ e a euforia das elites nacionais que, naquele momento, comemoravam os 500 anos da ÒDescobertaÓ do Brasil, apresentada como primeiro cap’tulo da Hist—ria nacional. Esse mito das origens da elite branca do pa’s – o da chegada, em Òterras de ninguŽmÓ, da civiliza�‹o crist‹, trazida e oferecida pelos portugueses com muitos sacrif’cios e hero’smo aos povos ind’genas origin‡rios –, foi desmascarado pelos poetas mauditos. Foi, na verdade, uma invas‹o ileg’tima por uma casta branca de conquistadores-predadores, com padres-pregadores aliados; foi o come�o da era colonial e a implanta�‹o do regime usurpador do colonialismo no Brasil.

Essa nova consci�ncia imp›e, como os poetas Mauditos iam mostrar em 2000 com a publica�‹o inicial de 12 folhetos em torno do tema ÒAgora s‹o outros 500 anosÓ, uma ruptura radical com a Hist—ria oficial, ensinada e imposta por meio do ensino formal nacional como œnica e verdadeira. Estamos no limiar do pensamento ÒdecolonialÓ que hoje em dia, vinte anos mais tarde, come�a a se generalizar no mundo latino-americano. Os ÒmauditosÕ questionam e desconstroem a legitima�‹o tradicional que justificava a coloniza�‹o como uma miss‹o civilizat—ria, crist‹ e sagrada; ideologia que legitimou durante 500 anos os piores crimes e que as elites do pa’s continuam repetindo, re-divulgando e propagando no limiar do sŽculo XXI.

Tr�s poetisas cofundadoras da Sociedade dos Poetas Mauditos conscientizaram-se, ao mesmo tempo, como feministas, detentoras de uma vis‹o do mundo diferente da dos homens. Hoje, elas s‹o professoras universit‡rias que t�m uma reputa�‹o nacional e internacional no campo dos estudos de mulher e de g�nero, duas delas tambŽm no campo do cordel. S‹o elas a poetisa e historiadora Ediane Nobre (na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), que defendeu, em 2014, uma tese de doutoramento sobre a beata Maria de Araœjo; a poetisa Salete Maria da Silva (professora da Universidade Federal da Bahia – UFBA), que atualmente Ž considerada uma das grandes vozes poŽticas do cordel da sua gera�‹o; e a poetisa Fanka Santos – de batismo Francisca Pereira dos Santos –, que como professora da Universidade Federal do Cariri (UFCA) dedica parte dos seus estudos acad�micos ao resgate das vozes de mulheres-poetas cantadoras e cordelistas deliberadamente silenciadas nos estudos acad�micos e na historiografia do folheto de cordel.

Ao aplicar o mŽtodo e a pr‡tica de pesquisa que foram a estratŽgia principal dos eruditos acad�micos dos anos de sessenta para a imposi�‹o da sua vis‹o do cordel – os cat‡logos e as antologias –, Fanka Santos defendeu, em 2009, uma tese de doutoramento que estabeleceu as bases epistemol—gicas e te—ricas de um futuro cat‡logo das mulheres de cordel. Uma bolsa de p—s-doutorado lhe permitiu, em seguida, compor o cat‡logo O Livro Delas, que reœne os folhetos de 264 mulheres cordelistas juntamente com os materiais que ela conseguiu reunir sobre 62 cantadoras, todas publicadas em um s— cat‡logo. Dois ramos de uma ‡rvore s—! Duas outras teses de doutoramento, defendidas pelas organizadoras deste nœmero de Boitat‡, vieram refor�ar as bases te—ricas do cat‡logo. Bruna Paiva de Lucena trouxe a ÒmauditaÓ poetisa Salete Maria da Silva ao palco acad�mico com uma tese de doutoramento, defendida na Universidade de Bras’lia (LUCENA, 2018). AndrŽa Bet‰nia da Silva, por sua vez, defendeu em 2014, na Universidade Federal da Bahia, uma tese sobre a transi�‹o e evolu�‹o da cantoria de pŽ-de-parede tradicional para os festivais modernos; a tese inclui como protagonistas mulheres-cantadoras-repentistas.

Figura 1 – Xilogravura de Marcelo Soares

Fonte: Acervo da autora.

Essas e outras pesquisas confirmam o fato de que, como nas desgarradas e no fado de Portugal e da Galiza, a cantoria tem tr�s variantes, a saber: repente de dois homens, repente de homem com mulher e repente de duas mulheres, cada subg�nero com a mesma forma e linguagem poŽtica, mas com tem‡ticas diferentes.

No mesmo per’odo (2000-2020), observa-se no campo do folheto e da cantoria uma verdadeira explos‹o de novas vozes de mulheres poetisas e uma visibilidade cada vez maior da sua atua�‹o como agentes culturais autoconscientes e fortes[35]. Assim, fortalecem-se a consci�ncia e a convic�‹o que O Livro Delas – como cat‡logo das mulheres cordelistas e cantadoras atuantes maioritariamente ainda no sŽculo XX –, j‡ trazia e que as poetisas ÒmauditasÓ ilustraram: a de que as mulheres n‹o s— se destacam por sua presen�a cada vez mais numerosa e autoconsciente, como tambŽm por trazerem vozes diferentes que cantam outra abordagem e vis‹o das ÒcoisasÓ do mundo.

Dessa forma, Ž urgente repensar o cordel e a cantoria para alŽm do discurso oficial nacionalista, euro, scripto e androc�ntrico brasileiro e propor novas epistemes para sua releitura cr’tica, considerando-se os seguintes aspectos:

 

- N‹o se trata de uma tradi�‹o quase morta, obsoleta e parada, mas sim de uma tradi�‹o viva, din‰mica, no sentido original do termo tradi�‹o, derivado do latim tranditionem, quer dizer: ato de transmitir. Na oralidade, esse ato implica um processo complexo, n‹o s— de uma simples transmiss‹o/entrega, como tambŽm de repeti�‹o, reinven�‹o e ressignifica�‹o na continuidade do tempo hist—rico e de gera�›es de poetas e poetisas transmissoras.

- N‹o se trata de cordel escrito versus cantoria oral, mas de uma fase da hist—ria mundial das tecnologias da informa�‹o e da comunica�‹o, a saber: o cap’tulo que conta a vers‹o nordestina da transi�‹o para a escrita/impressa de uma tradi�‹o poŽtica oral prŽ-existente.

- N‹o se trata de um cordel de origem simplesmente portuguesa; o cordel nordestino Ž – e Ž antes de mais nada – um produto complexo, regional da transi�‹o e evolu�‹o (quase) universal da oralidade para a escrita e a imprensa (ABREU, 1999).

- N‹o existe uma Hist—ria œnica e s— de homens; houve sempre duas hist—rias numa dualidade complementar e plural (variando de uma regi‹o para a outra) de duas linhagens culturais diferentes. Existiu, desde sempre, um patrim™nio (conjunto de bens legado por um pai em linha patrilinear aos filhos) ao lado de um matrim™nio matrilinear que se inter-relacionam e interagem. Aquele hegem™nico e imponente e que fala muito alto, este marginalizado e silenciado, mas nem por isso menos presente no cora�‹o da comunidade tradicional. A redescoberta do matrim™nio das mulheres no campo da cantoria-cordel, considerado exclusivamente masculino, exige uma abordagem nova, intercultural e interdisciplinar que permitir‡ dar o salto epistemol—gico e te—rico indispens‡vel para podermos historiografar a presen�a e a atua�‹o da voz das mulheres nesses territ—rios tradicionalmente masculinos[36].

- Esse cordel n‹o Ž o produto m’tico de um Estado-Na�‹o, mas express‹o originalmente local e regional da realidade e verdade da vida nordestina; ele n‹o Ž para-literatura ficcional, mas cultura/arte, express‹o poŽtica e testemunho da vida dessa terra, gente e cultura espec’ficas. Ele Ž, para resumir, literatura no sentido original do termo (em latim, littera = letra escrita), que registra n‹o s— obras ficcionais, como tambŽm – e sobretudo – toda a riqueza da experi�ncia e conhecimento da vida vivida pelas diversas comunidades nordestinas com a suas culturas locais e sub-regionais. A da cultura do Cariri, por exemplo, que n‹o Ž a do Piau’, nem a da Para’ba, nem a da Serra do Teixeira (terra de tantas gera�›es de grandes poetas)... (RAMALHO; LEMAIRE, 2011).

 

 

De dualidade a dualismo

 

 

Dualidade plural

 

Globalmente – n‹o digo universal nem exclusivamente! –, tanto os antrop—logos quanto os especialistas – linguistas, etn—logos e folcloristas – das culturas indo-europeias distinguem nas comunidades humanas uma divis‹o dual b‡sica, a saber, um Òmundo dos homensÓ e um Òmundo das mulheresÓ, quer dizer, uma dualidade dentro da qual inœmeras variantes, trocas, tens›es e desigualdades eram poss’veis; uma dualidade plural em constante intera�‹o e evolu�‹o.

Figura 2 – Repente misto do famoso xil—grafo nordestino Dila

 

Fonte: Acervo da autora.

O economista-etn—logo alem‹o Karl BŸcher fundamentou-se nessa dualidade, ao formular a teoria da exist�ncia de duas tradi�›es poŽticas no mundo indo-europeu, a masculina e a feminina, como produtos da divis‹o dos trabalhos econ™mico e social entre os sexos, postulando que para cada tipo de trabalho havia can�›es de trabalho e de lazer com ritmos e conteœdos diferentes (B†CHER, 1896). BŸcher mostra que Ž o mundo poŽtico das mulheres que detŽm as tradi�›es mais ricas e diversificadas, em rela�‹o ao dos homens, e que s‹o elas as detentoras, guardi‹s, produtoras e reprodutoras primordiais da mem—ria viva das culturas tradicionais indo-europeias.

Quase cem anos mais tarde, o etn—logo hœngaro Imre Katona publica o artigo intitulado ÒReminiscencies of Primitive Divisions of Labor between Sexes and Age Groups in the Peasant Folklore of Modern TimesÓ (KATONA, 1979), em que elabora a distin�‹o dual de BŸcher ao relacionar esses gender-specific ritmos e conteœdos ˆ distin�‹o b‡sica da teoria liter‡ria novecentista entre os dois grandes g�neros liter‡rios: o Žpico e o l’rico. A partir das diversas formas de dualidade plural[37], Katona v� o mundo dos homens como o do canto Žpico e de outras formas de canto narrativo aparentado, tais como o paneg’rico, a genealogia e os g�neros que enaltecem e glorificam o poder, o hero’smo e a superioridade masculinas. Eles formariam o verso da medalha ÒŽpicaÓ, havendo tambŽm, a seu reverso ÒŽpicoÓ com g�neros, tais como a s‡tira, a tro�a, a zombaria, o esc‡rnio, o maldizer e a par—dia.

O mundo das mulheres Ž o mundo dos g�neros l’rico e l’rico-narrativo. O g�nero l’rico Ž funcional: a poesia cantada marca o ritmo do trabalho cotidiano e da dan�a. Geralmente s‹o cantigas dialogadas, improvisadas, baseadas na memoriza�‹o e improvisa�‹o de novos versos. ƒ esse desafio que torna mais alegres e ligeiros os trabalhos muitas vezes mon—tonos, pelo prazer lœdico do jogo poŽtico. H‡ uma unidade de Som e Letra, com predomin‰ncia do Som, cujo ritmo marca o ritmo espec’fico do trabalho ou da dan�a.

O estudo de Imre Katona confirma as conclus›es de BŸcher e, ao dedicar-se ao tema da divis‹o do trabalho cultural entre os sexos, ele mostra que essa divis‹o do ÒtrabalhoÓ n‹o era r’gida, e menos ainda excludente! Havia trocas, apropria�›es e interc‰mbios cont’nuos entre os dois mundos. Katona chegou ˆ conclus‹o de que uma mŽdia de uns 10% das produ�›es culturais era produto desses interc‰mbios. Confirmadas, nos œltimos cinquenta anos, por estudos dedicados a outros per’odos hist—ricos e ‡reas geogr‡ficas, as pesquisas de BŸcher e Katona abrem novas perspectivas para o estudo das vozes das mulheres na cantoria e no cordel. Na vis‹o de Imra Katona, Fanka Santos reuniu em O Livro Delas aqueles 10%, mais ou menos, de vozes femininas que se aventuraram no territ—rio poŽtico da voz masculina, como hoje em dia, muitos poetas cantadores invadem o territ—rio feminino da cantiga l’rica e de amor, o que teria sido considerado tradicionalmente um ato meio ÒefeminadoÓ.

 

De interc‰mbio ˆ exclus‹o

Figura 3 – Xilogravura de J. Miguel

Fonte: Acervo da autora.

Quando, hoje, falamos de sexo/g�nero, automaticamente concebemos uma estrutura bipolar, dicot™mica e hierarquizante, n‹o dual, mas dualista. Esse pressuposto da dicotomia est‡ na base da vis‹o humanista do mundo ocidental e instala-se no limiar do que chamamos de Tempos Modernos, adquirindo a sua express‹o filos—fica no conceito de dualismo com o fil—sofo franc�s Pierre Bayle (1647-1706). A sua primeira ocorr�ncia data de 1679, com a defini�‹o/significado de: sistema, doutrina baseada na exist�ncia, sob a forma de hierarquia, de dois princ’pios contr‡rios que se excluem mutuamente (masculino versus feminino, heterossexual versus homossexual, branco contra negro, cultura contra natureza, primitivismo contra Progresso, cultura oral versus cultura escrita, entre muitos outros).

Essa base dualista do pensamento ocidental moderno contribuiu muito para a legitima�‹o ideol—gica do silenciamento das mulheres, do feminic’dio de mais de cem mil mulheres nas fogueiras da Inquisi�‹o, da escravid‹o e do genoc’dio de milh›es de negros e ind’genas, da persegui�‹o dos homossexuais, do racismo, da destrui�‹o sistem‡tica da natureza. O discurso oficial e erudito sobre cantoria e cordel, ele tambŽm, Ž um produto t’pico desse dualismo.

As culturas n‹o ocidentais e as da prŽ-modernidade ocidental, por sua vez, fundamentam-se, ainda, no princ’pio da dualidade com um leque plural, infinito, de formas poŽticas, de complementaridades, variedades, desigualdades, conflitos, trocas, emprŽstimos e interrela�›es. Os textos poŽticos ÒintercambiadosÓ s‹o imita�›es geralmente lœdicas de g�neros poŽticos Òdo outro sexoÓ. As imita�›es tornam-se ao mesmo tempo reinven�›es e ressignifica�›es, ao levarem para o palco, dentro dos quadros do g�nero tradicionalmente unissexo, a voz e a vis‹o das coisas do outro sexo. Elas s‹o geralmente muito apreciadas e aplaudidas pela comunidade!

ƒ importante estar consciente do fato de que, nas tradi�›es orais, esse procedimento n‹o Ž considerado pl‡gio como no mundo moderno! Ele constitui uma pr‡tica discursiva, uma estratŽgia lœdico-sŽria, altamente apreciada, de transmiss‹o, enriquecimento e divulga�‹o da mem—ria e da tradi�‹o e, em um sentido comunit‡rio e social, serve tambŽm como v‡lvula de escape de tens›es entre os sexos, quer dizer: como estratŽgia de refor�o da coes‹o social. A concep�‹o do texto escrito como propriedade individual de um Autor masculino (FOUCAULT, 1998) s— se instalar‡ no mundo ocidental – e a partir do mundo da escrita e da imprensa –, nos in’cios dos Tempos Modernos, juntamente com a no�‹o de pl‡gio. No mundo da oralidade, em que a memoriza�‹o (por repeti�‹o e reinven�‹o) constitui a conditio sine qua non da pr—pria exist�ncia da tradi�‹o oral e a estratŽgia por excel�ncia da transmiss‹o, integra�‹o e salvaguarda do saber, n‹o existe pl‡gio no sentido moderno do termo. Quando uma performance ÒintercambiadaÓ tem muito sucesso, ela fica no outro ÒmundoÓ e integra-se a ele: o her—i do romance heroico-narrativo, por exemplo, pode metamorfosear-se em hero’na, o romance l’rico-narrativo transformar-se em Žpico, ou em vida de santo ou santa, proposta por um poeta religioso, ou ainda em par—dia e zombaria de comportamentos t’picos do outro sexo.

Um music—logo alem‹o do sŽculo XIX definiu o fen™meno como Wandermelodien, mœsicas que wandern – vagabundeiam, andam de terra em terra – e mudam com os lugares que elas visitam, com os tempos – e templos! – pelos quais passam, com as condi�›es hist—ricas que evoluem, sempre as mesmas e reconhec’veis como tal e ao mesmo tempo sempre diferentes. Pensamos nos jograis da Idade MŽdia que os conc’lios da Igreja cat—lica condenavam por cantarem com vozes ÒefeminadasÓ, can�›es de mulheres (tais como cantigas de amigo, de romaria, cantigas de trabalho, cantigas bailadas) ou, mais tarde, nos cantadores de romance ibŽricos do sŽculo XX que cantavam em pœblico romances l’rico-narrativos que eles apresentavam como can�›es aprendidas com a av—, a tia ou a m‹e.

Nessa dire�‹o, podemos descobrir qual foi o papel dos eruditos humanistas dos sŽculos XV e XVI, respons‡veis por criar a base da historiografia e das ci�ncias da literatura e das artes. Os textos das mulheres medievais, transcritos, plagiados por essa elite que acaba de inventar a no�‹o de pl‡gio, ressignificados por eles, entrar‹o na sua cultura escrita e impressa, em cancioneiros, leigos e/ou religiosos, em livros de poesia atribu’dos a poetas masculinos, trovadores ou reis – tais como D. Dinis, Afonso X, o S‡bio – ou bispos, membros da nobreza e da alta burguesia. Quando se inicia a historiografia das literaturas nacionais, em finais do sŽculo XIX, essas atribui�›es renascentistas ser‹o consideradas provas de autoria masculina na galeria dos Autores geniais, individuais, que v‹o preencher os volumes das Hist—rias nacionais das Literaturas dos Estados-Na�›es; Ž essa hist—ria falsificada que obliterou os matrim™nios das mulheres e se ensina atŽ hoje no ensino formal secund‡rio e universit‡rio.

As outras vozes de artistas-poetas-contadores a cantadores tradicionais, porta-vozes da comunidade, ficaram como tradi�›es orais das comunidades locais e regionais, mas na clandestinidade em face do medo permanente de persegui�‹o. Desprezadas e odiadas pelos detentores do poder pol’tico-religioso (BURKE, 2010), elas sobreviveram, cada vez mais fragmentadas, no seio das comunidades. A sua reabilita�‹o te—rica e ÒidealistaÓ pelas elites, na Žpoca do Romantismo, como alma pura da Na�‹o, n‹o por‡ fim ˆs persecu�›es factuais que continuar‹o ainda bem adiante no sŽculo XX. Em 1848, inventa-se o nome de folk-lore (sabedoria do povo), inicialmente no sentido positivo e o dos seus estudiosos, os folkloristas.

Uma vez os Estados-Na�›es todos bem instalados, depois de 1870, esse sentido positivo torna-se importuno e inc™modo. A necessidade de criar um imagin‡rio nacional, unificador das centenas de pequenas na�›es da Velha Europa, leva as elites das novas Òcomunidades imaginadasÓ (ANDERSON, 2008) a fundarem as faculdades de Letras (Hist—ria, L’ngua e Hist—ria da Literatura nacionais), onde se ensinar‹o unicamente os textos ressignificados da tradi�‹o escrita humanista e se propagar‡, geralmente e com raras exce�›es, um profundo desprezo em rela�‹o ˆ tradi�‹o oral e aos seus estudiosos e pesquisadores.

 

 

Revisitar um territ—rio tradicionalmente masculino

 

                                                                                  Chica Barrosa onde canta

                                                                                  faz o mundo estremecer.

                                                                                  Faz o sol se abalar;

                                                                                  todo planeta descer.

                                                                                  Quem vier cantar comigo,

                                                                                  correr‡ grande perigo,

                                                                                  atŽ de morte sofrer.

 

                                                                                                         Chica Barroso

 

 

Vozes de mulheres que se desterritorializaram

 

Temos a sorte excepcional de j‡ possuirmos um primeiro esbo�o da genealogia das vozes das mulheres repentistas e poetisas – redigida por um grande poeta repentista, cordelista e professor-pesquisador da tradi�‹o poŽtica nordestina, JosŽ Alves Sobrinho, de Campina Grande, na Para’ba. Coautor, com o professor çtila de Almeida, do Dicionario bio-bibliografico de repentistas e poetas de bancada, publicado em1977, Sobrinho publicar‡ mais tarde, depois da morte do professor çtila, outro livro, intitulado Cantadores, Repentistas e Poetas Populares (SOBRINHO, 2003). Nele, o poeta conta em verso, na melhor tradi�‹o do g�nero poŽtico da genealogia cantada ou declamada, a genealogia de seis gera�›es de poetas masculinos para, em seguida, apresentar a das mulheres poetisas e cantadoras de repente do Nordeste. A apresenta�‹o pelo poeta – juntos mas separados –, sob a forma dual, mostra que existiam, na experi�ncia do poeta, vivida Òde dentroÓ da sua comunidade, dois mundos poŽticos, o dos homens e o das mulheres, inter-relacionados, interconectados e interativos.

Nos versos cl‡ssicos do repente – a sextilha e a dŽcima –, o poeta-pesquisador apresenta seis gera�›es de grandes repentistas, poetas e poetisas de reputa�‹o confirmada. As duas genealogias contam juntas 948 versos, dos quais 816 versos sobre poetas e 132 sobre poetisas, quer dizer: uns 12% dos versos globalmente s‹o reservados para a voz das mulheres. Essa porcentagem confirma a mŽdia global de 10% de interc‰mbios que o etn—logo Imre Katona indica no seu estudo, tanto para o territ—rio masculino quanto para o feminino.

A genealogia feminina come�a pela estrofe que comemora a primeira gera�‹o, a das mais antigas poetisas, algumas j‡ lend‡rias:

Falo em Rita Medeiros

Lend‡ria por tradi�‹o

Naninha Gorda dos Brejos

Zefinha do Chaboc‹o

E a grande Chica Barrosa

Camila do Martinz‹o (SOBRINHO, 2003, p. 90)

Os versos sublinham o talento dessas mulheres e o seu dom’nio perfeito das regras da arte do repente, como se v� na œltima estrofe:

Temos Chiquinha Ribeiro

Baiana de boa estima

Ala’de Ferreirinha

Seu repente Ž obra-prima

Seu verso tem ritmo e mŽtrica

ƒ exigente na rima (SOBRINHO, p. 91)

E atŽ, ˆs vezes, evocam a superioridade de mulheres repentistas temidas, como foi a famosa Chica Barroso, e como era tambŽm Vov— Pangula:

Maria Ribeira Santos

Chamada vov— Pangula

De Valen�a do Piau’

Faz no verso o que calcula

L‡ naquela regi‹o

Com ela n‹o h‡ quem bula (SOBRINHO, 2003, p. 91)

 

Podemos, a partir da’, abandonar o discurso dicot™mico desse dualismo da modernidade cujo c’rculo hermen�utico fechado leva a ignorar ou, no melhor dos casos, a explicar a presen�a ineg‡vel de cantadoras/cordelistas como excepcional e as pr—prias poetisas como mulheres Òmasculin(izad)asÓ, como as qualificaram alguns observadores eruditos. Poderemos escutar as vozes de Chica, Pangula, Mocinha, Bastinha, Josenir, Salete, entre tantas outras, como contribui�›es de uma linhagem secular de mulheres fortes, autoconscientes e conscientes de serem agentes, cocriadoras e reinventoras da realidade e cultura nordestinas. S‹o vozes de Òhero’nasÓ, mulheres ÒfeministasÓ que, cada uma na sua Žpoca e no seu contexto social e pol’tico – e apesar das rea�›es ˆs vezes violent’ssimas e agressivas de homens – se posicionaram como detentoras/guardi‹s e reinventoras de um matrim™nio local, regional, atŽ dentro dos quadros de um g�nero/territ—rio tradicionalmente masculino cuja arte poŽtica ÒprofissionalÓ essas mulheres tambŽm sabiam brilhantemente ilustrar.

 

 

Viol�ncia, s‡tira, indecoro e obscenidade de vozes femininas no cordel

 

                                                                                             Pisa medonha eu lhe dou

                                                                                              de cabelo se arrancar,

                                                                                             de fofar couro de lombo

                                                                                             do pesco�o ao calcanhar;

                                                                                              se n‹o se tratar com tempo,

                                                                                              talvez n‹o possa escapar!

                                                                                              Minha pisa Ž venenosa

                                                                                             que n‹o se pode curar.

                                                                                             Cada tacada que dou,

                                                                                             vejo o peda�o voar.

 

                                                                                                                     Chica Barrosa

 

A music—loga cearense e professora da Universidade Estadual do Cear‡ Elba Braga Ramalho publicou, no ano 2000, um estudo intitulado Cantoria Nordestina: mœsica e palavra. No cap’tulo intitulado ÒA parceria: do antagonista ao parceiroÓ (RAMALHO, 2000, p. 124-130), resultado de muitos anos de pesquisa de campo em terras cearenses, a autora descreve o processo sociocultural interessant’ssimo de uma muta�‹o, a que talvez tenha mais impactado no sŽculo XX o territ—rio da cantoria, a saber: a transi�‹o progressiva do cantador antagonista tradicional ao cantador parceiro, numa sociedade cada vez mais modernizada e urbanizada.

A situa�‹o quase arquet’pica do cantador antagonista ilustra-se talvez mais eficazmente pela evoca�‹o do poeta n™made de outrora, que chegava numa comunidade onde era ainda desconhecido. Ao entrar nela, ele adentrava tambŽm, querendo ou n‹o, no territ—rio, Òca�a reservadaÓ, dos poetas residentes locais. De antem‹o, ele ser‡ considerado concorrente, rival, advers‡rio, opositor, como eram tambŽm, ali‡s, os homens que vinham de fora para namorar uma mulher da comunidade. Essas situa�›es, provocadoras para os homens residentes, podiam acabar muito mal e com muita viol�ncia f’sica. A comunidade, ansiosa por conhecer as novidades, not’cias e hist—rias de fora que o novo poeta trazia, tentava resolver as amea�as e tens›es provocadas pela chegada do ÒestrangeiroÓ, organizando um evento lœdico-sŽrio ritualizado e controlado por ela (HUIZINGA, 2007). Essa ÒcantoriaÓ obrigava os seus pr—prios poetas a transformar e sublimar o seu —dio do rival e viol�ncia f’sica em viol�ncia verbal e poŽtica, permitindo ao recŽm-chegado ostentar as suas compet�ncias para legitimar a sua visita.

Essa foi a realidade e a fun�‹o eminentemente social do repente/improviso tradicional nordestino desde os seus come�os. Ela evoluiu e mudou radicalmente no sŽculo XX, como mostram os estudos de Elba Braga Ramalho e a tese de doutoramento defendida por AndrŽa Bet‰nia da Silva, intitulada Entre pŽs-de-parede e festivais: rota(s) das poŽticas orais na cantoria de improviso (SILVA, 2014). Os poetas individuais e rivais transformaram-se em dupla de companheiros/parceiros. A viol�ncia, fonte de inspira�‹o inicial do g�nero, perdeu o seu lugar central, sendo o pœblico dos festivais o proponente do tema a ser trabalhado pela dupla. A viol�ncia foi substitu’da pela vontade e motiva�‹o de serem juntos ÒaÓ melhor dupla no palco, como concorrentes e vencedores de outras duplas. Esse fen™meno n‹o ocorreu, por exemplo, no repente africano, halo, que continua, mutatis mutandis, como exerc’cio e jogo lœdico-sŽrio, no seio de comunidades, onde o halo funciona atŽ hoje como v‡lvula de escape para tens›es e conflitos sociais dentro da comunidade e como instrumento de que ela disp›e para ÒeducarÓ, ritualizando-a, a viol�ncia masculina e salvaguardar a coes‹o social.

 

 

Pensar a viol�ncia feminina

 

Podemos agora olhar com lentes diferentes para um fen™meno que observei muitas vezes e que, no in’cio, atŽ me chocava, a saber, o da viol�ncia, obscenidade e indecoro dos versos de certas mulheres repentistas e poetisas. Essa viol�ncia verbal deixava-me ao mesmo tempo com mal-estar perante as rea�›es excessivamente negativas (puta, macho, pior que homem!, feia, grosseira, para s— citar as menos agressivas!) de colegas pesquisadores, indignados e revoltados, apesar dos aplausos, ades‹o e entusiasmo do pœblico, sobretudo quando essa mulher era declarada vencedora.

Imaginar o contexto tradicional do repente permite compreender melhor a situa�‹o da mulher-repentista, um Òestrangeiro-mulherÓ que entra no territ—rio masculino do repente e que atŽ tem o direito de adentrar nesse espa�o, de participar do jogo, mas ter‡ de respeitar as regras desse jogo. Quer dizer, cumprir duas condi�›es: o respeito aos c—digos do antagonismo b‡sico do jogo poŽtico e a demonstra�‹o de um ex’mio conhecimento da sua arte poŽtica. Ela tem que se mostrar superior ao advers‡rio, para o pœblico o declarar vencido.

Esse jogo Ž apimentado de maneira muito especial ao oferecer um palco a todas as poss’veis frustra�›es, tens›es, conflitos e preconceitos gerados pelo conv’vio dos dois sexos no mundo relativamente fechado da comunidade tradicional. No fundo, trata-se de um jogo-ritual que permite evacuar, soltar e curar o que se denomina na psican‡lise VerdrŠngung, refoulement, repress‹o de puls›es (sexuais, de viol�ncia, de —dio) estocadas no inconsciente. Tantas vezes senti uma vibra�‹o, uma excita�‹o, ouvi um fr�mito, antes mesmo de uma mulher entrar no c’rculo ou subir ao palco para cantar! A’, o desafio era grande e especial; era preciso escolher o tom (sarc‡stico, jocoso, ir™nico, provocador) e o subg�nero poŽtico dentro da gama de possibilidades ofertadas, tais como maldizer, esc‡rnio, obscenidade, zombaria. O essencial era fazer melhor, ser mais forte, cantar o verso mais bonito e perfeito na rima e no ritmo. Esse era o grande desafio das cantadoras que sa’am do c’rculo formado pelo pœblico conhecedor-avaliador para um desafio/provoca�‹o grande: aventurar-se atŽ ao centro do territ—rio masculino.

Nesse sentido, h‡ outra intepreta�‹o poss’vel para o fato averiguado de que muitos poetas se recusam, geralmente com uma atitude de imenso desprezo e arrog‰ncia, a cantar com uma mulher. Certa vez, JosŽ Alves Sobrinho me disse que minha interpreta�‹o dessa atitude – como se tratando de um preconceito sexista – era muito superficial, o que outros grandes poetas depois me confirmaram. Na verdade, nesse territ—rio masculino do repente, ser o vencido do duelo poŽtico j‡ Ž, em si, uma desonra. Ser o vencido de um vencedor ÒestrangeiroÓ, seja ele masculino ou feminino, Ž desonra e vergonha! Para o poeta masculino, o risco era muito grande, uma vez que o pœblico gostava desse subg�nero poŽtico e admirava, de antem‹o, a coragem da mulher e o seu dom’nio da ars poŽtica do repente. Na verdade, como Sobrinho e outros poetas explicavam, essa atitude de superioridade e desprezo ocultava o medo medonho que tinham muitos poetas de ter que sair vencido do duelo poŽtico com mulher.

Houve poetisas que procuravam outras estratŽgias, n‹o violentas, para a sua voz ser escutada. Algumas delas j‡ anunciam a transi�‹o do repente tradicional, violento e antagonista, ao repente dos parceiros-companheiros que se instala progressivamente na segunda parte do sŽculo XX. JosŽ Alves Sobrinho, por exemplo, evoca, com muito carinho,

 

A Terezinha Tietre

De S‹o JosŽ dos Cordeiros.

S— cantava elogiando

O verso dos companheiros.

Deixou de cantar, porŽm

Causou saudade aos parceiros (SOBRINHO, 2003, p. 98)

 

Mais uma vez, por tr‡s do elogio do poeta, desenha-se a estrutura b‡sica – Žpica – do mundo masculino que a mulher provocadora tinha que respeitar e as regras do jogo poŽtico Žpico masculino, quer dizer: zombar ou elogiar.

 

 

Considera�›es finais

 

O exemplo da fun�‹o social da arte lœdico-poŽtica do repente (e sua forma impressa no folheto de cordel) e da viol�ncia da linguagem poŽtica de homens e mulheres repentistas nesse territ—rio tradicionalmente masculino permitiu ilustrar a necessidade e a urg�ncia da revis‹o das episteme do discurso convencional sobre cantoria e cordel. Para quem quiser interpretar e historiografar textos ou g�neros liter‡rios origin‡rios das tradi�›es orais, Ž fundamental, antes de mais nada, conhecer a fundo o contexto s—cio-hist—rico e cultural das obras e dos seus autores. De um momento, de um contexto (regional, social, hist—rico...), de um pœblico para o outro, a significa�‹o dos gestos, das palavras, das imagens pode ser diferente, tornar-se amb’gua, ter duplo sentido ou sentido figurado e levar o pesquisador, convencido da superioridade e e universalidade da sua metodologia e terminologia, a interpreta�›es erradas.

PorŽm, o que importa mais ainda Ž tentar questionar o nosso olhar sobre eles. Esse questionamento baseia-se na consci�ncia de que a Òordem do discursoÓ (Foucault, 1996) – ocidental, colonial e patriarcal – formata tanto o nosso pensamento e linguagem quanto o nosso olhar sobre o mundo e a nossa realidade. Queiramos ou n‹o queiramos, sejamos homens ou mulheres, essa ordem Ž fundamentalmente colonizadora, mutiladora e hierarquizante. Como disse recentemente um grande pensador do movimento internacional Men Engage Against Violence[38] num debate sobre viol�ncia masculina e educa�‹o: ÒWe are all trapped in the framing of the same narrativeÓ. Estamos todos encarcerados na estrutura da mesma narrativa.

Esse olhar colonizador parte de um observador que se considera centro e protagonista; convencido de que os seus conceitos, critŽrios, categorias e ju’zes de valor sejam objetivos, cient’ficos e lhe fornecem instrumentos v‡lidos para definir, classificar, intepretar e avaliar tudo e todos os outros. Trata-se de uma armadilha desastrosa, formatada por sŽculos de pressupostos que s‹o, na verdade preconceitos e pretens›es injustificadas. Inœmeros s‹o os exemplos de ÒnarrativasÓ e teorias err™neas constru’das em cima do pressuposto de que o Sujeito-pesquisador possui o olhar ÒobjetivoÓ e Òcient’ficoÓ sobre o seu Objeto de pesquisa, como s‹o inesgot‡veis as fontes das Òpiadas de pesquisadorÓ nas quais os poetas da oralidade denunciaram e continuam denunciando, no mundo inteiro, essa pretens‹o absurda da superioridade da ci�ncia ocidental.

Para cumprir o anœncio e promessa que fizeram, no Cariri, no ano 2000, os Poetas dos cordŽis ÒmauditosÓ e inventar esses novos Òoutros 500 anosÓ da hist—ria da humanidade, teremos que contar/narrar direitinho, antes de mais nada, a hist—ria dos seus antepassados-poetas, alŽm de inventar vocabul‡rios n‹o dicot™micos para esse futuro. Criar esse futuro implica o restabelecer daquela vis‹o do mundo das civiliza�›es da oralidade que n‹o se ilude com a cren�a de um Progresso infinito, hoje em dia cada vez mais inveross’mil, violento e mort’fero.

Esses cantadores e cantadoras que ritualizavam e colocavam aberta e corajosamente no palco da comunidade nordestina a viol�ncia masculina como praga social a ser debatida, re-educada, curada e ÒvencidaÓ para o bem-estar de todos, n‹o s— legaram para as futuras gera�›es uma linguagem poŽtica e estratŽgias eficazes de comunica�‹o social, pol’tica e educativa, mas deixaram tambŽm uma amostra de um mundo diferente e dual, mais humano, mais respeitoso das leis da Vida que o sistema colonial e seus aliados eruditos que compuseram e impuseram a Hist—ria oficial do Brasil tentaram, em v‹o, obliterar.

 

 

Refer�ncias

 

ABREU, M‡rcia. Hist—rias de cordŽis e folhetos. Campinas: UNICAMP, 1999.

ANDERSON, Benedict. Comunidades imagin‡rias: reflex›es sobre a origem e a difus‹o do nacionalismo. Trad. Denise Bottmann. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 2008.

B†CHER, Karl. Arbeit und Rhythmus, Leipzig, 1896.

BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. Trad. Denise Bottmann. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FOUCAULT, Michel. ÒWhat is an author?Ó. In Aesthetics, Method and Epistemology, Faubion, James ed., 205-222. New York: The New Press.,1996.

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso: aula inaugural no Coll�ge de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradu�‹o de Laura Fraga de Almeida Sampaio. S‹o Paulo: Edi�›es Loyola, 1996.

GRANGEIRO, Cl‡udia Rejanne Pinheiro (org.). Benditos ÒMauditosÓ: tradi�‹o e transgress‹o na Literatura de Cordel. Curitiba: Editora CRV, 2020.

HUIZINGA, Johan. Homo ludens: O jogo como elemento da cultura. Trad. Jo‹o Paulo Monteiro. S‹o Paulo: Perspectiva, 2007.

KATONA, Imre. ÔReminiscencies of Primitive Divisions of Labor between Sexes and Age Groups in the Peasant Folklore of Modern TimesÕ. In: Diamond S. ed., Towards a Marxist Anthropology, Mouton The Hague, 1979: 377-383.

LEMAIRE, Ria. ÒPatrim™nio e Matrim™nio I: proposta para uma nova historiografia da cultura ocidentalÓ. Educar em Revista n. 70, julho-ago 2018: 17-33.

LUCENA, Bruna Paiva de. PoŽticas a cŽu aberto: o cordel e a cr’tica liter‡ria. Brasilia: Edi�›es Carolina, 2018.

RAMALHO, Elba Braga. Cantoria nordestina: mœsica e palavra. S‹o Paulo: Terceira Margem, 2000.

RAMALHO, Maria de Lourdes Nunes; LEMAIRE, Ria. A feira e O trovador encantado. Universidade de Corunha (Esp.); EDUEPB (Campina Grande): Biblioteca Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, 2011.

SANTOS, Francisca Pereira dos. O Livro delas: cat‡logo de mulheres autoras no cordel e na cantoria nordestina. Fortaleza: IMEC, 2021.

SANTOS, Francisca Pereira dos. A peleja poŽtica da poetisa Bastinha com o poeta Patativa do AssarŽ. Fortaleza: Ed. IRIS, 2011.

SEGATO, Rita. G�nero e colonialidade em busca de chaves de leitura e de um vocabul‡rio estratŽgico descolonial, CES, e-cadernos, 18. Coimbra, 2012.

SILVA, AndrŽa Bet‰nia da. Entre pŽs-de-parede e festivais: rota(s) das poŽticas orais na cantoria de improviso. UFBA, 2014.

SOBRINHO, JosŽ Alves. Cantadores, Repentistas e Poetas Populares. Campina Grande. Bagagem. 2003.

 

[Entregue : 03 mai 2021]



[33] Professora emŽrita da UniversitŽ de Poitiers. Centre de Recherches Latino-AmŽricaines. Poitiers, Fran�a. E-mail: rialemaire@hotmail.com

[34] Em A peleja poŽtica epistolar entre a poetisa Bastinha e o poeta Patativa do AssarŽ (SANTOS, 2011, p. 46-47), Francisca Pereira Santos publicou trechos dessa correspond�ncia.

[35] Existe, desde 2013, a Rede Mnemosine, fundada pela pesquisadora/narradora/cordelista Josy Correia. Inspirada pela tese de doutoramento de Fanka Santos e oficializada em 2015, a rede promove a�›es de mapeamento, pesquisa, difus‹o e frui�‹o de folhetos, recitais e feiras produzidas por mulheres. No ano de 2017, chegou a Portugal, onde possui um acervo de folhetos femininos, partilhados com a Universidade do Algarve e promove eventos, programas radiof™nicos e audiovisuais, transmitidos ao vivo pela Internet. Contato: redemnemosine@gmail.com

[36] A respeito do conceito de matrim™nio, ver Lemaire (2018).

[37] Atualmente Ž Rita Segato que, j‡ nos quadros do pensamento decolonial, retoma a no�‹o de dualidade plural como base da metodologia do trabalho antropol—gico, n‹o sobre mas com as (mulheres das) comunidades ind’genas do Brasil (SEGATO, 2012).

[38] Men Engage Ž um movimento intercontinental, criado por homens e apoiado por movimentos de mulheres do mundo inteiro, que, todos juntos, objetivam e praticam um questionamento radical da viol�ncia masculina e seus funcionamentos nas sociedades humanas. Um simp—sio virtual, o UBUNTU SYMPOSIUM, reœne, em cont’nuo e durante oito meses (de novembro de 2020 a junho de 2021), ativistas, militantes, movimentos, pensadores, profissionais e inteletuais para divulgar e debater as condi�›es e experi�ncias de uma re-educa�‹o dessa viol�ncia masculina como conditio sine qua non de uma humaniza�‹o e pacifica�‹o do planeta-mundo.