VOZES DE
MULHERES NO TERRITîRIO DO CORDEL E DA CANTORIA
WOMENÕS VOICES
IN THE TERRITORY OF CORDEL AND CANTORIA
Ria Lemaire[33]
Resumo: Os debates p—s-moderno e decolonial sobre as rela�›es entre as
civiliza�›es da oralidade e o mundo da escrita est‹o trazendo, embora
tardiamente, uma epistemologia radicalmente cr’tica para o campo dos estudos da
tradi�‹o nordestina da cantoria e do cordel. O novo paradigma — tanto
hist—rico quanto contempor‰neo — permite colocar a quest‹o do papel e
lugar das mulheres nesses territ—rios tradicionalmente masculinos. Ao focar um
subg�nero dessa poesia originalmente improvisada, o repente misto, em que uma
cantadora desafia um cantador, e, nesse subg�nero, a presen�a e fun�‹o da
viol�ncia masculina e feminina, esse artigo prop›e uma reflex‹o cr’tica sobre
temas centrais dos debates atuais sobre cordel, g�nero, mulher e viol�ncia.
Palavras-chave: Cordel. Cantoria. G�nero.
Territ—rio. Viol�ncia masculina. Viol�ncia feminina.
Abstract: Post-modern critics of scriptocentrism and nowadays decolonial criticism
are bringing – slowly and progressively - the new paradigm of the
orality-literacy-debate to the field of
repente, the
Northeastern tradition of improvised poetry, in its oral (cantoria) as
well as in its impressed (cordel) form. The new paradigma –
historical as well as contemporary –
enables us to discuss the question of womenÕs role and place in these
traditionally masculine territories,
featuring a sub-genre of
this poetry, - repente misto – in which a female singer challenges
a male singer. By focalizing the presence and function of male and female
violence in this sub-genre, this article proposes a critical reflexion on
central themes in actual debates on gender, women and violence.
Keywords: cordel.
Cantoria. Gender. Territory. Gender-based violence.
Dois ramos de
uma ‡rvore s—
A publica�‹o de O Livro Delas: cat‡logo de mulheres autoras no cordel e na cantoria
nordestina (SANTOS, 2021) constitui n‹o s— um marco mili‡rio nos estudos de
cordel, mas tambŽm a abertura, dentro da ‡rea, de uma nova linha de pesquisa
inovadora, fundamentada na desconstru�‹o dos pressupostos vigentes do discurso
acad�mico dominante sobre o cordel e da sua historiografia nacional. AlŽm disso,
ela permitir‡ a integra�‹o, no campo dos estudos de g�nero e literatura, de uma
‡rea atŽ agora negligenciada: a de g�nero e estudos orais.
Comecemos por uma constata�‹o: cantoria e
cordel s‹o considerados pela maioria dos estudiosos dois campos distintos no
mundo sociocultural nordestino. A separa�‹o te—rica dos dois campos – o
da cantoria como produto de uma oralidade ancestral e o do cordel como
origin‡rio do mundo da escrita – correspondia aos interesses pol’ticos da
cultura dominante daquela elite branca e de origem portuguesa que, nos anos
sessenta e setenta do sŽculo passado, na Žpoca da Ditadura Militar,
ÒreabilitouÓ o cordel – t‹o desprezado e marginalizado atŽ l‡! –
como express‹o liter‡ria da alma nacional brasileira.
A reabilita�‹o pol’tico-liter‡ria,
elaborada e propagada, sob a Žgide do Conselho Federal da Cultura, por
intelectuais e acad�micos organizados em torno da Casa de Rui Barbosa, ia
servir como suporte ideol—gico da pol’tica cultural nacionalista da Ditadura. O
que o poeta Rouxinol do RinarŽ chamou um dia de Òdois ramos da mesma ‡rvoreÓ
entrou no processo politico-liter‡rio da nacionaliza�‹o do cordel sob a forma
de duas ‡rvores plantadas em territ—rios culturais diferentes. Consagrou-se o
nome ibŽrico de cordel para o
fen™meno editorial nordestino que os pr—prios poetas chamavam de folheto/jornal do povo e esse
folheto ia ser, da’ em diante, estudado e divulgado como literatura popular brasileira.
O mito das
origens brancas e portuguesas
Ao se separar cantoria e cordel,
tornou-se poss’vel historiografar o folheto
como descendente do cordel
escrito/impresso de origem portuguesa. Integrado nessa genealogia alheia de
textos escritos/impressos ibŽricos, o folheto tornou-se ÒnacionalÓ e express‹o
da alma pura, aut�ntica, primitiva da Na�‹o brasileira. Tornou-se Literatura, quer dizer: fic�‹o e
estŽtica, podendo a partir da’ ser estudado com os pressupostos, mŽtodos,
critŽrios e ju’zes de valor convencionais dos estudos de Letras (Autor e Obra,
c‰none, antologia etc.). E tornou-se popular
no sentido humanista, erudito do termo, dentro da dicotomia elite culta versus povo inculto. Essa dicotomia instalou-se no discurso erudito do
mundo ocidental nos come�os dos tempos modernos, como express‹o e legitima�‹o
ideol—gica da crescente desigualdade econ™mica, social e pol’tica,
sobrepondo-se ao sentido original – geo-socio-cultural – do
conceito de povo.
PorŽm, o sentido original sobreviveu atŽ
hoje. Patativa do AssarŽ, por exemplo, o definia como: Òa nossa terra, a nossa
vida, a nossa genteÓ, quer dizer: um territ—rio,
no sentido original do termo, caraterizado pela presen�a de uma ÒterraÓ (no
sentido Òportugu�s de PortugalÓ do termo), quer dizer: uma regi‹o
geograficamente delimitada, uma vida, cultura e mem—ria/tradi�‹o comuns a todos
os indiv’duos que j‡ nela nasceram no passado, nela vivem no presente e v‹o
nascer no futuro. Uma na�‹o no
sentido original do termo (ÒterraÓ onde ÒnasceÓ), cujo passado continua
vivo/vivido no presente e que lhes d‡, a esses povos, a consci�ncia
inextirp‡vel de perten�a, empatia e coes‹o social.
O conceito de alma pura, aut�ntica, primitiva da Na�‹o brasileira, por sua vez,
forneceu a base para a reinven�‹o do mito da morte iminente do folheto, mito
importado e imitado do Romantismo alem‹o (Naturpoesie
versus Kulturpoesie) do sŽculo
XIX. Chegou juntamente com o conceito de tradi�‹o, ao qual esses eruditos alem‹es do
sŽculo XIX tinham dado uma nova significa�‹o, a saber: tradi�‹o morta, arcaica,
obsoleta e parada no passado; o contr‡rio do seu sentido original e do seu
funcionamento real na comunidade nordestina.
Ao
mesmo tempo, o pressuposto da origem escrita portuguesa do folheto permitiu que
a cantoria, a saber, a comunica�‹o direta, oral, com o audit—rio nas cantorias,
feiras e festas populares no seio da pr—pria comunidade, fosse considerada
(teoricamente!) local, regional, quer dizer: inferior e relegada ao sempre
desprezado campo dos estudos de folclore. O impacto desse discurso, que alia
eurocentrismo e scriptocentrismo a nacionalismo, tem sido avassalador; ele
contamina, atŽ hoje, como uma trama inconsciente, tanto a terminologia, os
pressupostos e os posicionamentos te—ricos dos estudos de cordel — dos
convencionais atŽ os mais cr’ticos —, quanto a vis‹o que os pr—prios
poetas cantadores e cordelistas t�m da sua arte, profiss‹o e miss‹o.
Divide et impera
A estratŽgia discursiva da invers‹o e
distor�‹o em que se baseia o discurso erudito sobre o cordel tem-se averiguado
como perversa e eficaz. Ela Ž aplicada desde sempre pelo patriarcado – na
sua vers‹o ocidental – no decorrer da sua luta milenar pela imposi�‹o do
seu poder, da sua vis‹o do mundo como superior e da sua Hist—ria como œnica e
verdadeira. Consiste em dividir o grupo s—cio-profissional dos poetas, cuja
unidade j‡ era sempre vulner‡vel por causa da rivalidade masculina. Essa
rivalidade foi, originalmente, a fonte de inspira�‹o principal do repente
masculino, com os seus vencidos e o vencedor, reconhecido e aplaudido pelo
pœblico no momento da performance. Essa divis‹o dicot™mica, ÒguerreiraÓ
no sentido original, lœdico-sŽrio (HUIZINGA, 2007) da palavra, vai ser
ressignificada tambŽm pelos eruditos para constituir a base de duas categorias
Òliter‡riasÓ, desiguais e hierarquizadas, – os bons poetas e os Òmenos
bonsÓ –, com o objetivo de destacar mais e enaltecer o grupo ÒsuperiorÓ,
tendo em vista o futuro c‰none do cordel.
Dessa maneira, a rivalidade masculina
continuamente ati�ada ia dessolidarizar, uns dos outros, os membros do mesmo
grupo profissional, abrindo-se uma brecha para impor – de fora, de longe
e de cima – uma autoridade de avalia�‹o superior e capaz de sobrepor, ˆ
avalia�‹o interna pela pr—pria comunidade, o seu ju’zo de valor erudito e
superior. A curto termo, isso permitiu aos detentores da nova teoria controlar
o campo do cordel, ao privilegiar certos g�neros (mais Òliter‡riosÓ) em
detrimento de outros g�neros (folheto de atualidade, folheto pol’tico, folheto
de ci�ncia...) e marginalizar ou excluir aqueles ÒdissidentesÓ, que n‹o
correspondiam ao modelo, alheio, liter‡rio e erudito, imposto de fora. A longo
termo, essa estratŽgia causou a distor�‹o parcial do conhecimento e da vis‹o
que tinham os pr—prios poetas sobre sua arte, miss‹o, identidade e hist—ria.
Um exemplo bem revelador dessa estratŽgia
s‹o as cartas encontradas no Acervo Raymond Cantel da Universidade de Poitiers
que revelam o surgimento, nos anos setenta do sŽculo passado, entre os eruditos
da Casa, do questionamento da ÒautenticidadeÓ daqueles poetas de cordel que n‹o
eram analfabetos. Os debatedores perguntam-se e perguntam ao ilustre professor
franc�s, com muita seriedade, se um Òn‹o-analfabetoÓ pode ser considerado poeta
de cordel e ser inclu’do, por exemplo, nas antologias de cordel, bases do
futuro c‰none. Segundo a doutrina oficial por eles elaborada, alfabetizado n‹o
podia, uma vez que os poetas de cordel eram incultos e analfabetos![34]
N‹o Ž dif’cil imaginar-se o que ia
acontecer quando os pressupostos/preconceitos mis—ginos e androc�ntricos da
alta burguesia da Žpoca da Ditadura Militar se associaram ao seu eurocentrismo,
scriptocentrismo e nacionalismo
j‡ comentados. N‹o se encontra nos cat‡logos, antologias e c‰none da Casa Rui Barbosa – dos mais velhos atŽ aos mais
recentes – nenhuma mulher poeta. Dentro do conjunto coeso de pressupostos
falsos do seu mito das origens foi necess‡rio e inevit‡vel n‹o s— anunciar a
morte iminente do folheto, para poder silenciar a voz viva e din‰mica do povo
nordestino, como tambŽm ignorar, e de antem‹o, a voz das suas mulheres.
Teorizada, na tradi�‹o alheia de Homo
sapiens humanista, a cultura do folheto s— podia ser exclusivamente
masculina.
Vozes rebeldes:
agora s‹o outros 500 anos!
ƒ a partir do ano 2000 que come�am a
surgir vozes rebeldes, tais como as da Sociedade dos Poetas Mauditos no Cariri
cearense (GRANGEIRO, 2020). Mauditos no sentido ir™nico do termo: eles
fazem propositadamente versos Òmal ditosÓ, segundo os critŽrios convencionais,
e seus integrantes n‹o s‹o analfabetos nem semi-analfabetos.
A provoca�‹o dos jovens poetas, homens e
mulheres, fundamenta-se na consci�ncia de que os pr—prios conceitos de Literatura, de alma pura e tradi�‹o morta servem
para negar toda e qualquer capacidade de evolu�‹o e inova�‹o do cordel. Essa
nega�‹o, por sua vez, servia para desvalorizar e obliterar o papel e miss‹o
cultural e hist—rica do folheto como express‹o da atualidade, realidade e
verdade da vida nordestina. Ela servia para silenciar, de antem‹o, as eventuais
vozes cr’ticas da contemporaneidade. Essas vozes vieram denunciar a mentira, a
m‡-fŽ e a euforia das elites nacionais que, naquele momento, comemoravam os 500
anos da ÒDescobertaÓ do Brasil, apresentada como primeiro cap’tulo da Hist—ria
nacional. Esse mito das origens da
elite branca do pa’s – o da chegada, em Òterras de ninguŽmÓ, da
civiliza�‹o crist‹, trazida e oferecida pelos portugueses com muitos
sacrif’cios e hero’smo aos povos ind’genas origin‡rios –, foi desmascarado
pelos poetas mauditos. Foi, na verdade, uma invas‹o ileg’tima por uma casta
branca de conquistadores-predadores, com padres-pregadores aliados; foi o
come�o da era colonial e a implanta�‹o do regime usurpador do colonialismo no
Brasil.
Essa nova consci�ncia imp›e, como os
poetas Mauditos iam mostrar em 2000 com a publica�‹o inicial de 12 folhetos em
torno do tema ÒAgora s‹o outros 500 anosÓ, uma ruptura radical com a Hist—ria
oficial, ensinada e imposta por meio do ensino formal nacional como œnica e verdadeira.
Estamos no limiar do pensamento ÒdecolonialÓ que hoje em dia, vinte anos mais
tarde, come�a a se generalizar no mundo latino-americano. Os ÒmauditosÕ
questionam e desconstroem a legitima�‹o tradicional que justificava a
coloniza�‹o como uma miss‹o civilizat—ria, crist‹ e sagrada; ideologia que
legitimou durante 500 anos os piores crimes e que as elites do pa’s continuam
repetindo, re-divulgando e propagando no limiar do sŽculo XXI.
Tr�s poetisas cofundadoras da Sociedade
dos Poetas Mauditos conscientizaram-se, ao mesmo tempo, como feministas,
detentoras de uma vis‹o do mundo diferente da dos homens. Hoje, elas s‹o
professoras universit‡rias que t�m uma reputa�‹o nacional e internacional no
campo dos estudos de mulher e de g�nero, duas delas tambŽm no campo do cordel.
S‹o elas a poetisa e historiadora Ediane Nobre (na Universidade Federal de
Pernambuco – UFPE), que defendeu, em 2014, uma tese de doutoramento sobre
a beata Maria de Araœjo; a poetisa Salete Maria da Silva (professora da
Universidade Federal da Bahia – UFBA), que atualmente Ž considerada uma
das grandes vozes poŽticas do cordel da sua gera�‹o; e a poetisa Fanka Santos
– de batismo Francisca Pereira dos Santos –, que como professora da
Universidade Federal do Cariri (UFCA) dedica parte dos seus estudos acad�micos
ao resgate das vozes de mulheres-poetas cantadoras e cordelistas deliberadamente
silenciadas nos estudos acad�micos e na historiografia do folheto de cordel.
Ao aplicar o mŽtodo e a pr‡tica de
pesquisa que foram a estratŽgia principal dos eruditos acad�micos dos anos de
sessenta para a imposi�‹o da sua vis‹o do cordel – os cat‡logos e as
antologias –, Fanka Santos defendeu, em 2009, uma tese de doutoramento
que estabeleceu as bases epistemol—gicas e te—ricas de um futuro cat‡logo das
mulheres de cordel. Uma bolsa de p—s-doutorado lhe permitiu, em seguida, compor
o cat‡logo O Livro Delas, que reœne os folhetos de 264 mulheres
cordelistas juntamente com os materiais que ela conseguiu reunir sobre 62
cantadoras, todas publicadas em um s— cat‡logo. Dois ramos de uma ‡rvore s—!
Duas outras teses de doutoramento, defendidas pelas organizadoras deste nœmero
de Boitat‡, vieram refor�ar as bases te—ricas do cat‡logo. Bruna Paiva de
Lucena trouxe a ÒmauditaÓ poetisa Salete Maria da Silva ao palco acad�mico com
uma tese de doutoramento, defendida na Universidade de Bras’lia (LUCENA, 2018).
AndrŽa Bet‰nia da Silva, por sua vez, defendeu em 2014, na Universidade Federal
da Bahia, uma tese sobre a transi�‹o e evolu�‹o da cantoria de pŽ-de-parede
tradicional para os festivais modernos; a tese inclui como protagonistas
mulheres-cantadoras-repentistas.
Figura 1 – Xilogravura de Marcelo Soares
Fonte: Acervo da autora.
Essas e outras pesquisas confirmam o fato
de que, como nas desgarradas e no fado de Portugal e da Galiza, a cantoria tem
tr�s variantes, a saber: repente de dois homens, repente de homem com mulher e
repente de duas mulheres, cada subg�nero com a mesma forma e linguagem poŽtica,
mas com tem‡ticas diferentes.
No mesmo per’odo (2000-2020), observa-se
no campo do folheto e da cantoria uma verdadeira explos‹o de novas vozes de
mulheres poetisas e uma visibilidade cada vez maior da sua atua�‹o como agentes
culturais autoconscientes e fortes[35].
Assim, fortalecem-se a consci�ncia e a convic�‹o que O Livro Delas – como cat‡logo das mulheres cordelistas e
cantadoras atuantes maioritariamente ainda no sŽculo XX –, j‡ trazia e
que as poetisas ÒmauditasÓ ilustraram: a de que as mulheres n‹o s— se destacam
por sua presen�a cada vez mais numerosa e autoconsciente, como tambŽm por
trazerem vozes diferentes que cantam outra abordagem e vis‹o das ÒcoisasÓ do
mundo.
Dessa forma, Ž urgente repensar o cordel
e a cantoria para alŽm do discurso oficial nacionalista, euro, scripto e
androc�ntrico brasileiro e propor novas epistemes
para sua releitura cr’tica, considerando-se os seguintes aspectos:
- N‹o se trata de uma tradi�‹o
quase morta, obsoleta e parada, mas sim de
uma tradi�‹o viva, din‰mica, no
sentido original do termo tradi�‹o, derivado do latim tranditionem,
quer dizer: ato de transmitir. Na oralidade, esse ato implica um processo
complexo, n‹o s— de uma simples transmiss‹o/entrega, como tambŽm de repeti�‹o,
reinven�‹o e ressignifica�‹o na continuidade do tempo hist—rico e de gera�›es
de poetas e poetisas transmissoras.
- N‹o se trata de cordel escrito versus cantoria oral, mas de uma fase da hist—ria mundial das
tecnologias da informa�‹o e da comunica�‹o, a saber: o cap’tulo que conta a
vers‹o nordestina da transi�‹o para a escrita/impressa de uma tradi�‹o poŽtica
oral prŽ-existente.
- N‹o se trata de um cordel
de origem simplesmente portuguesa; o cordel nordestino Ž – e Ž antes
de mais nada – um produto complexo, regional da transi�‹o e evolu�‹o
(quase) universal da oralidade para a escrita e a imprensa (ABREU, 1999).
- N‹o existe uma Hist—ria œnica e s— de homens; houve sempre
duas hist—rias numa dualidade complementar e plural (variando de uma regi‹o
para a outra) de duas linhagens culturais diferentes. Existiu, desde sempre, um
patrim™nio (conjunto de bens legado por um pai em linha patrilinear aos filhos) ao
lado de um matrim™nio matrilinear que se inter-relacionam e interagem. Aquele hegem™nico e imponente
e que fala muito alto, este marginalizado e silenciado, mas nem por isso menos
presente no cora�‹o da comunidade tradicional. A redescoberta do matrim™nio das mulheres no campo da
cantoria-cordel, considerado exclusivamente masculino, exige uma abordagem
nova, intercultural e interdisciplinar que permitir‡ dar o salto epistemol—gico
e te—rico indispens‡vel para podermos historiografar a presen�a e a atua�‹o da
voz das mulheres nesses territ—rios tradicionalmente masculinos[36].
- Esse cordel n‹o
Ž o produto m’tico de um Estado-Na�‹o, mas express‹o originalmente local e
regional da realidade e verdade da vida nordestina; ele n‹o Ž para-literatura ficcional, mas cultura/arte, express‹o
poŽtica e testemunho da vida dessa terra, gente e cultura espec’ficas. Ele Ž,
para resumir, literatura no sentido
original do termo (em latim, littera =
letra escrita), que registra n‹o s— obras ficcionais, como tambŽm – e
sobretudo – toda a riqueza da experi�ncia e conhecimento da vida vivida
pelas diversas comunidades nordestinas com a suas culturas locais e
sub-regionais. A da cultura do Cariri, por exemplo, que n‹o Ž a do Piau’, nem a
da Para’ba, nem a da Serra do Teixeira (terra de tantas gera�›es de grandes
poetas)... (RAMALHO; LEMAIRE, 2011).
De dualidade a dualismo
Dualidade plural
Globalmente – n‹o digo universal
nem exclusivamente! –, tanto os antrop—logos quanto os especialistas
– linguistas, etn—logos e folcloristas – das culturas
indo-europeias distinguem nas comunidades humanas uma divis‹o dual b‡sica, a
saber, um Òmundo dos homensÓ e um Òmundo das mulheresÓ, quer dizer, uma dualidade dentro da qual inœmeras
variantes, trocas, tens›es e desigualdades eram poss’veis; uma dualidade plural
em constante intera�‹o e evolu�‹o.
Figura 2 – Repente misto do famoso
xil—grafo nordestino Dila
Fonte: Acervo da autora.
O economista-etn—logo alem‹o Karl BŸcher
fundamentou-se nessa dualidade, ao formular a teoria da exist�ncia de duas
tradi�›es poŽticas no mundo indo-europeu, a masculina e a feminina, como
produtos da divis‹o dos trabalhos econ™mico e social entre os sexos, postulando
que para cada tipo de trabalho havia can�›es de trabalho e de lazer com ritmos
e conteœdos diferentes (B†CHER, 1896). BŸcher mostra que Ž o mundo poŽtico das
mulheres que detŽm as tradi�›es mais ricas e diversificadas, em rela�‹o ao dos
homens, e que s‹o elas as detentoras, guardi‹s, produtoras e reprodutoras
primordiais da mem—ria viva das culturas tradicionais indo-europeias.
Quase cem anos mais tarde, o etn—logo hœngaro
Imre Katona publica o artigo intitulado ÒReminiscencies
of Primitive Divisions of Labor between Sexes and Age Groups in the Peasant
Folklore of Modern TimesÓ (KATONA, 1979), em que elabora a distin�‹o
dual de BŸcher ao relacionar esses gender-specific ritmos e conteœdos ˆ
distin�‹o b‡sica da teoria liter‡ria novecentista entre os dois grandes g�neros
liter‡rios: o Žpico e o l’rico. A partir das diversas formas de dualidade
plural[37],
Katona v� o mundo dos homens como o do canto Žpico e de outras formas de canto
narrativo aparentado, tais como o paneg’rico, a genealogia e os g�neros que
enaltecem e glorificam o poder, o hero’smo e a superioridade masculinas. Eles
formariam o verso da medalha ÒŽpicaÓ, havendo tambŽm, a seu reverso ÒŽpicoÓ com
g�neros, tais como a s‡tira, a tro�a, a zombaria, o esc‡rnio, o maldizer e a
par—dia.
O mundo das mulheres Ž o mundo dos
g�neros l’rico e l’rico-narrativo. O g�nero l’rico Ž funcional: a poesia
cantada marca o ritmo do trabalho cotidiano e da dan�a. Geralmente s‹o cantigas
dialogadas, improvisadas, baseadas na memoriza�‹o e improvisa�‹o de novos
versos. ƒ esse desafio que torna mais alegres e ligeiros os trabalhos muitas
vezes mon—tonos, pelo prazer lœdico do jogo poŽtico. H‡ uma unidade de Som e
Letra, com predomin‰ncia do Som, cujo ritmo marca o ritmo espec’fico do
trabalho ou da dan�a.
O estudo de Imre Katona confirma as
conclus›es de BŸcher e, ao dedicar-se ao tema da divis‹o do trabalho cultural
entre os sexos, ele mostra que essa divis‹o do ÒtrabalhoÓ n‹o era r’gida, e
menos ainda excludente! Havia trocas, apropria�›es e interc‰mbios cont’nuos
entre os dois mundos. Katona chegou ˆ conclus‹o de que uma mŽdia de uns 10% das
produ�›es culturais era produto desses interc‰mbios. Confirmadas, nos œltimos
cinquenta anos, por estudos dedicados a outros per’odos hist—ricos e ‡reas
geogr‡ficas, as pesquisas de BŸcher e Katona abrem novas perspectivas para o
estudo das vozes das mulheres na cantoria e no cordel. Na vis‹o de Imra Katona,
Fanka Santos reuniu em O Livro
Delas aqueles 10%, mais ou menos, de vozes femininas que se aventuraram no
territ—rio poŽtico da voz masculina, como hoje em dia, muitos poetas cantadores
invadem o territ—rio feminino da cantiga l’rica e de amor, o que teria sido
considerado tradicionalmente um ato meio ÒefeminadoÓ.
De interc‰mbio ˆ
exclus‹o
Figura 3 – Xilogravura de J. Miguel
Fonte:
Acervo da autora.
Quando, hoje, falamos de sexo/g�nero,
automaticamente concebemos uma estrutura bipolar, dicot™mica e hierarquizante,
n‹o dual, mas dualista. Esse pressuposto da dicotomia est‡ na base da
vis‹o humanista do mundo ocidental e instala-se no limiar do que chamamos de Tempos
Modernos, adquirindo a sua express‹o filos—fica no conceito de dualismo
com o fil—sofo franc�s Pierre Bayle (1647-1706). A sua primeira ocorr�ncia data
de 1679, com a defini�‹o/significado de: sistema, doutrina baseada na
exist�ncia, sob a forma de hierarquia, de dois princ’pios contr‡rios que se
excluem mutuamente (masculino versus feminino, heterossexual versus
homossexual, branco contra negro, cultura contra natureza, primitivismo contra
Progresso, cultura oral versus cultura escrita, entre muitos outros).
Essa base dualista do pensamento
ocidental moderno contribuiu muito para a legitima�‹o ideol—gica do silenciamento
das mulheres, do feminic’dio de mais de cem mil mulheres nas fogueiras da
Inquisi�‹o, da escravid‹o e do genoc’dio de milh›es de negros e ind’genas, da
persegui�‹o dos homossexuais, do racismo, da destrui�‹o sistem‡tica da
natureza. O discurso oficial e erudito sobre cantoria e cordel, ele tambŽm, Ž
um produto t’pico desse dualismo.
As culturas n‹o ocidentais e as da
prŽ-modernidade ocidental, por sua vez, fundamentam-se, ainda, no princ’pio da dualidade com um leque plural, infinito,
de formas poŽticas, de complementaridades, variedades, desigualdades,
conflitos, trocas, emprŽstimos e interrela�›es. Os textos poŽticos
ÒintercambiadosÓ s‹o imita�›es geralmente lœdicas de g�neros poŽticos Òdo outro
sexoÓ. As imita�›es tornam-se ao mesmo tempo reinven�›es e ressignifica�›es, ao
levarem para o palco, dentro dos quadros do g�nero tradicionalmente unissexo, a
voz e a vis‹o das coisas do outro sexo. Elas s‹o geralmente muito apreciadas e
aplaudidas pela comunidade!
ƒ importante estar consciente do fato de que,
nas tradi�›es orais, esse procedimento n‹o Ž considerado pl‡gio como no mundo
moderno! Ele constitui uma pr‡tica discursiva, uma estratŽgia lœdico-sŽria,
altamente apreciada, de transmiss‹o, enriquecimento e divulga�‹o da mem—ria e
da tradi�‹o e, em um sentido comunit‡rio e social, serve tambŽm como v‡lvula de
escape de tens›es entre os sexos, quer dizer: como estratŽgia de refor�o da
coes‹o social. A concep�‹o do texto escrito como propriedade individual de um
Autor masculino (FOUCAULT, 1998) s— se instalar‡ no mundo ocidental – e a
partir do mundo da escrita e da imprensa –, nos in’cios dos Tempos
Modernos, juntamente com a no�‹o de pl‡gio. No mundo da oralidade, em
que a memoriza�‹o (por repeti�‹o e reinven�‹o) constitui a conditio sine qua
non da pr—pria exist�ncia da tradi�‹o oral e a estratŽgia por excel�ncia da
transmiss‹o, integra�‹o e salvaguarda do saber, n‹o existe pl‡gio no
sentido moderno do termo. Quando uma performance ÒintercambiadaÓ tem
muito sucesso, ela fica no outro ÒmundoÓ e integra-se a ele: o her—i do romance
heroico-narrativo, por exemplo, pode metamorfosear-se em hero’na, o romance
l’rico-narrativo transformar-se em Žpico, ou em vida de santo ou santa,
proposta por um poeta religioso, ou ainda em par—dia e zombaria de comportamentos
t’picos do outro sexo.
Um music—logo alem‹o do sŽculo XIX
definiu o fen™meno como Wandermelodien,
mœsicas que wandern –
vagabundeiam, andam de terra em terra – e mudam com os lugares que elas
visitam, com os tempos – e templos! – pelos quais passam, com as
condi�›es hist—ricas que evoluem, sempre as mesmas e reconhec’veis como tal e
ao mesmo tempo sempre diferentes. Pensamos nos jograis da Idade MŽdia que os
conc’lios da Igreja cat—lica condenavam por cantarem com vozes ÒefeminadasÓ,
can�›es de mulheres (tais como cantigas de amigo, de romaria, cantigas de
trabalho, cantigas bailadas) ou, mais tarde, nos cantadores de romance ibŽricos
do sŽculo XX que cantavam em pœblico romances l’rico-narrativos que eles
apresentavam como can�›es aprendidas com a av—, a tia ou a m‹e.
Nessa dire�‹o, podemos descobrir qual foi
o papel dos eruditos humanistas dos sŽculos XV e XVI, respons‡veis por criar a
base da historiografia e das ci�ncias da literatura e das artes. Os textos das
mulheres medievais, transcritos, plagiados por essa elite que acaba de inventar
a no�‹o de pl‡gio, ressignificados
por eles, entrar‹o na sua cultura escrita e impressa, em cancioneiros, leigos
e/ou religiosos, em livros de poesia atribu’dos a poetas masculinos, trovadores
ou reis – tais como D. Dinis, Afonso X, o S‡bio – ou bispos,
membros da nobreza e da alta burguesia. Quando se inicia a historiografia das
literaturas nacionais, em finais do sŽculo XIX, essas atribui�›es renascentistas ser‹o consideradas provas de autoria
masculina na galeria dos Autores geniais, individuais, que v‹o preencher os
volumes das Hist—rias nacionais das Literaturas dos Estados-Na�›es; Ž essa
hist—ria falsificada que obliterou os matrim™nios das mulheres e se ensina atŽ
hoje no ensino formal secund‡rio e universit‡rio.
As outras vozes de
artistas-poetas-contadores a cantadores tradicionais, porta-vozes da
comunidade, ficaram como tradi�›es orais das comunidades locais e regionais,
mas na clandestinidade em face do medo permanente de persegui�‹o. Desprezadas e
odiadas pelos detentores do poder pol’tico-religioso (BURKE, 2010), elas
sobreviveram, cada vez mais fragmentadas, no seio das comunidades. A sua reabilita�‹o
te—rica e ÒidealistaÓ pelas elites, na Žpoca do Romantismo, como alma pura da
Na�‹o, n‹o por‡ fim ˆs persecu�›es factuais que continuar‹o ainda bem adiante
no sŽculo XX. Em 1848, inventa-se o nome de folk-lore (sabedoria do povo),
inicialmente no sentido positivo e o dos seus estudiosos, os folkloristas.
Uma vez os Estados-Na�›es todos bem
instalados, depois de 1870, esse sentido positivo torna-se importuno e
inc™modo. A necessidade de criar um imagin‡rio nacional, unificador das
centenas de pequenas na�›es da Velha Europa, leva as elites das novas
Òcomunidades imaginadasÓ (ANDERSON, 2008) a fundarem as faculdades de Letras
(Hist—ria, L’ngua e Hist—ria da Literatura nacionais), onde se ensinar‹o
unicamente os textos ressignificados da tradi�‹o escrita humanista e se
propagar‡, geralmente e com raras exce�›es, um profundo desprezo em rela�‹o ˆ
tradi�‹o oral e aos seus estudiosos e pesquisadores.
Revisitar um
territ—rio tradicionalmente masculino
Chica Barrosa onde
canta
faz
o mundo estremecer.
Faz
o sol se abalar;
todo planeta descer.
Quem
vier cantar comigo,
correr‡
grande perigo,
atŽ
de morte sofrer.
Chica Barroso
Vozes de
mulheres que se desterritorializaram
Temos a sorte excepcional de j‡
possuirmos um primeiro esbo�o da genealogia das vozes das mulheres repentistas
e poetisas – redigida por um grande poeta repentista, cordelista e
professor-pesquisador da tradi�‹o poŽtica nordestina, JosŽ Alves Sobrinho, de
Campina Grande, na Para’ba. Coautor, com o professor çtila de Almeida, do
Dicionario bio-bibliografico de repentistas e poetas de bancada, publicado
em1977, Sobrinho publicar‡ mais tarde, depois da morte do professor
çtila, outro livro, intitulado Cantadores, Repentistas e Poetas Populares (SOBRINHO,
2003). Nele, o poeta conta em verso, na melhor tradi�‹o do g�nero
poŽtico da genealogia cantada ou declamada, a genealogia de seis gera�›es de
poetas masculinos para, em seguida, apresentar a das mulheres poetisas e
cantadoras de repente do Nordeste. A apresenta�‹o pelo poeta – juntos mas
separados –, sob a forma dual, mostra que existiam, na experi�ncia do
poeta, vivida Òde dentroÓ da sua comunidade, dois mundos poŽticos, o dos homens
e o das mulheres, inter-relacionados, interconectados e interativos.
Nos versos cl‡ssicos do repente – a
sextilha e a dŽcima –, o poeta-pesquisador apresenta seis gera�›es de
grandes repentistas, poetas e poetisas de reputa�‹o confirmada. As duas
genealogias contam juntas 948 versos, dos quais 816 versos sobre poetas e 132
sobre poetisas, quer dizer: uns 12% dos versos globalmente s‹o reservados para
a voz das mulheres. Essa porcentagem confirma a mŽdia global de 10% de
interc‰mbios que o etn—logo Imre Katona indica no seu estudo, tanto para o
territ—rio masculino quanto para o feminino.
A genealogia feminina come�a pela estrofe
que comemora a primeira gera�‹o, a das mais antigas poetisas, algumas j‡
lend‡rias:
Falo em Rita Medeiros
Lend‡ria por tradi�‹o
Naninha Gorda dos Brejos
Zefinha do Chaboc‹o
E a grande Chica Barrosa
Camila do Martinz‹o (SOBRINHO,
2003, p. 90)
Os versos sublinham o talento dessas
mulheres e o seu dom’nio perfeito das regras da arte do repente, como se v� na
œltima estrofe:
Temos Chiquinha Ribeiro
Baiana de boa estima
Ala’de Ferreirinha
Seu repente Ž obra-prima
Seu verso tem ritmo e mŽtrica
ƒ exigente na rima (SOBRINHO, p.
91)
E atŽ, ˆs vezes, evocam a superioridade
de mulheres repentistas temidas, como foi a famosa Chica Barroso, e como era
tambŽm Vov— Pangula:
Maria Ribeira Santos
Chamada vov— Pangula
De Valen�a do Piau’
Faz no verso o que calcula
L‡ naquela regi‹o
Com ela n‹o h‡ quem bula
(SOBRINHO, 2003, p. 91)
Podemos, a partir da’, abandonar o
discurso dicot™mico desse dualismo da modernidade cujo c’rculo hermen�utico
fechado leva a ignorar ou, no melhor dos casos, a explicar a presen�a ineg‡vel
de cantadoras/cordelistas como excepcional e as pr—prias poetisas como mulheres
Òmasculin(izad)asÓ, como as qualificaram alguns observadores eruditos.
Poderemos escutar as vozes de Chica, Pangula, Mocinha, Bastinha, Josenir,
Salete, entre tantas outras, como contribui�›es de uma linhagem secular de
mulheres fortes, autoconscientes e conscientes de serem agentes, cocriadoras e
reinventoras da realidade e cultura nordestinas. S‹o vozes de Òhero’nasÓ,
mulheres ÒfeministasÓ que, cada uma na sua Žpoca e no seu contexto social e
pol’tico – e apesar das rea�›es ˆs vezes violent’ssimas e agressivas de
homens – se posicionaram como detentoras/guardi‹s e reinventoras de um matrim™nio local, regional, atŽ dentro
dos quadros de um g�nero/territ—rio tradicionalmente masculino cuja arte
poŽtica ÒprofissionalÓ essas mulheres tambŽm sabiam brilhantemente ilustrar.
Viol�ncia,
s‡tira, indecoro e obscenidade de vozes femininas no cordel
Pisa medonha eu lhe dou
de cabelo se arrancar,
de
fofar couro de lombo
do
pesco�o ao calcanhar;
se n‹o se tratar com tempo,
talvez n‹o possa escapar!
Minha
pisa Ž venenosa
que
n‹o se pode curar.
Cada
tacada que dou,
vejo
o peda�o voar.
Chica
Barrosa
A music—loga cearense e professora da
Universidade Estadual do Cear‡ Elba Braga Ramalho publicou, no ano 2000, um
estudo intitulado Cantoria Nordestina:
mœsica e palavra. No cap’tulo intitulado ÒA parceria: do antagonista ao
parceiroÓ (RAMALHO, 2000, p. 124-130), resultado de muitos anos de pesquisa de
campo em terras cearenses, a autora descreve o processo sociocultural
interessant’ssimo de uma muta�‹o, a que talvez tenha mais impactado no sŽculo
XX o territ—rio da cantoria, a saber: a transi�‹o progressiva do cantador antagonista tradicional ao cantador parceiro, numa sociedade cada vez mais
modernizada e urbanizada.
A situa�‹o quase arquet’pica do cantador
antagonista ilustra-se talvez mais eficazmente pela evoca�‹o do poeta n™made de
outrora, que chegava numa comunidade onde era ainda desconhecido. Ao entrar
nela, ele adentrava tambŽm, querendo ou n‹o, no territ—rio, Òca�a reservadaÓ,
dos poetas residentes locais. De antem‹o, ele ser‡ considerado concorrente,
rival, advers‡rio, opositor, como eram tambŽm, ali‡s, os homens que vinham de
fora para namorar uma mulher da comunidade. Essas situa�›es, provocadoras para
os homens residentes, podiam acabar muito mal e com muita viol�ncia f’sica. A
comunidade, ansiosa por conhecer as novidades, not’cias e hist—rias de fora que
o novo poeta trazia, tentava resolver as amea�as e tens›es provocadas pela
chegada do ÒestrangeiroÓ, organizando um evento lœdico-sŽrio ritualizado e
controlado por ela (HUIZINGA, 2007). Essa ÒcantoriaÓ obrigava os seus pr—prios
poetas a transformar e sublimar o seu —dio do rival e viol�ncia f’sica em
viol�ncia verbal e poŽtica, permitindo ao recŽm-chegado ostentar as suas
compet�ncias para legitimar a sua visita.
Essa foi a realidade e a fun�‹o
eminentemente social do repente/improviso tradicional nordestino desde os seus
come�os. Ela evoluiu e mudou radicalmente no sŽculo XX, como mostram os estudos
de Elba Braga Ramalho e a tese de doutoramento defendida por AndrŽa Bet‰nia da
Silva, intitulada Entre pŽs-de-parede e
festivais: rota(s) das poŽticas orais na cantoria de improviso (SILVA, 2014). Os poetas individuais
e rivais transformaram-se em dupla de companheiros/parceiros. A viol�ncia,
fonte de inspira�‹o inicial do g�nero, perdeu o seu lugar central, sendo o
pœblico dos festivais o proponente do tema a ser trabalhado pela dupla. A
viol�ncia foi substitu’da pela vontade e motiva�‹o de serem juntos ÒaÓ melhor
dupla no palco, como concorrentes e vencedores de outras duplas. Esse fen™meno
n‹o ocorreu, por exemplo, no repente africano, halo, que continua, mutatis
mutandis, como exerc’cio e jogo lœdico-sŽrio, no seio de comunidades, onde
o halo funciona atŽ hoje como v‡lvula de escape para tens›es e conflitos
sociais dentro da comunidade e como instrumento de que ela disp›e para
ÒeducarÓ, ritualizando-a, a viol�ncia masculina e salvaguardar a coes‹o social.
Pensar a
viol�ncia feminina
Podemos agora olhar com lentes diferentes
para um fen™meno que observei muitas vezes e que, no in’cio, atŽ me chocava, a
saber, o da viol�ncia, obscenidade e indecoro dos versos de certas mulheres
repentistas e poetisas. Essa viol�ncia verbal deixava-me ao mesmo tempo com
mal-estar perante as rea�›es excessivamente negativas (puta, macho,
pior que homem!, feia, grosseira, para s— citar as menos
agressivas!) de colegas pesquisadores, indignados e revoltados, apesar dos
aplausos, ades‹o e entusiasmo do pœblico, sobretudo quando essa mulher era
declarada vencedora.
Imaginar o contexto tradicional do
repente permite compreender melhor a situa�‹o da mulher-repentista, um
Òestrangeiro-mulherÓ que entra no territ—rio masculino do repente e que atŽ tem
o direito de adentrar nesse espa�o, de participar do jogo, mas ter‡ de
respeitar as regras desse jogo. Quer dizer, cumprir duas condi�›es: o respeito
aos c—digos do antagonismo b‡sico do jogo poŽtico e a demonstra�‹o de um ex’mio
conhecimento da sua arte poŽtica. Ela tem que se mostrar superior ao
advers‡rio, para o pœblico o declarar vencido.
Esse jogo Ž apimentado de maneira muito
especial ao oferecer um palco a todas as poss’veis frustra�›es, tens›es,
conflitos e preconceitos gerados pelo conv’vio dos dois sexos no mundo
relativamente fechado da comunidade tradicional. No fundo, trata-se de um
jogo-ritual que permite evacuar, soltar e curar o que se denomina na
psican‡lise VerdrŠngung, refoulement, repress‹o de puls›es (sexuais, de
viol�ncia, de —dio) estocadas no inconsciente. Tantas vezes senti uma vibra�‹o,
uma excita�‹o, ouvi um fr�mito, antes mesmo de uma mulher entrar no c’rculo ou
subir ao palco para cantar! A’, o desafio era grande e especial; era preciso
escolher o tom (sarc‡stico, jocoso, ir™nico, provocador) e o subg�nero poŽtico
dentro da gama de possibilidades ofertadas, tais como maldizer, esc‡rnio,
obscenidade, zombaria. O essencial era fazer melhor, ser mais forte, cantar o
verso mais bonito e perfeito na rima e no ritmo. Esse era o grande desafio das
cantadoras que sa’am do c’rculo formado pelo pœblico conhecedor-avaliador para
um desafio/provoca�‹o grande: aventurar-se atŽ ao centro do territ—rio
masculino.
Nesse sentido, h‡ outra intepreta�‹o
poss’vel para o fato averiguado de que muitos poetas se recusam, geralmente com
uma atitude de imenso desprezo e arrog‰ncia, a cantar com uma mulher. Certa
vez, JosŽ Alves Sobrinho me disse que minha interpreta�‹o dessa atitude –
como se tratando de um preconceito sexista – era muito superficial, o que
outros grandes poetas depois me confirmaram. Na verdade, nesse territ—rio
masculino do repente, ser o vencido do duelo poŽtico j‡ Ž, em si, uma desonra.
Ser o vencido de um vencedor ÒestrangeiroÓ, seja ele masculino ou feminino, Ž
desonra e vergonha! Para o poeta masculino, o risco era muito grande, uma vez
que o pœblico gostava desse subg�nero poŽtico e admirava, de antem‹o, a coragem
da mulher e o seu dom’nio da ars poŽtica do repente. Na verdade, como
Sobrinho e outros poetas explicavam, essa atitude de superioridade e desprezo
ocultava o medo medonho que tinham muitos poetas de ter que sair vencido do
duelo poŽtico com mulher.
Houve poetisas que procuravam outras
estratŽgias, n‹o violentas, para a sua voz ser escutada. Algumas delas j‡
anunciam a transi�‹o do repente tradicional, violento e antagonista, ao repente
dos parceiros-companheiros que se instala progressivamente na segunda parte do
sŽculo XX. JosŽ Alves Sobrinho, por exemplo, evoca, com muito carinho,
A Terezinha
Tietre
De S‹o JosŽ dos
Cordeiros.
S— cantava
elogiando
O verso dos
companheiros.
Deixou de
cantar, porŽm
Causou saudade
aos parceiros (SOBRINHO, 2003, p. 98)
Mais uma vez, por tr‡s do elogio do
poeta, desenha-se a estrutura b‡sica – Žpica – do mundo masculino
que a mulher provocadora tinha que respeitar e as regras do jogo poŽtico Žpico
masculino, quer dizer: zombar ou elogiar.
Considera�›es
finais
O exemplo da fun�‹o social da arte
lœdico-poŽtica do repente (e sua forma impressa no folheto de cordel) e da
viol�ncia da linguagem poŽtica de homens e mulheres repentistas nesse
territ—rio tradicionalmente masculino permitiu ilustrar a necessidade e a
urg�ncia da revis‹o das episteme do discurso convencional sobre cantoria e
cordel. Para quem quiser interpretar e historiografar textos ou g�neros
liter‡rios origin‡rios das tradi�›es orais, Ž fundamental, antes de mais nada,
conhecer a fundo o contexto s—cio-hist—rico e cultural das obras e dos seus
autores. De um momento, de um contexto (regional, social, hist—rico...), de um
pœblico para o outro, a significa�‹o dos gestos, das palavras, das imagens pode
ser diferente, tornar-se amb’gua, ter duplo sentido ou sentido figurado e levar
o pesquisador, convencido da superioridade e e universalidade da sua
metodologia e terminologia, a interpreta�›es erradas.
PorŽm, o que importa mais ainda Ž tentar
questionar o nosso olhar sobre eles. Esse questionamento baseia-se na
consci�ncia de que a Òordem do discursoÓ (Foucault, 1996) – ocidental,
colonial e patriarcal – formata tanto o nosso pensamento e linguagem
quanto o nosso olhar sobre o mundo e a nossa realidade. Queiramos ou n‹o
queiramos, sejamos homens ou mulheres, essa ordem Ž fundamentalmente
colonizadora, mutiladora e hierarquizante. Como disse recentemente um grande
pensador do movimento internacional Men Engage Against Violence[38]
num debate sobre viol�ncia masculina e educa�‹o: ÒWe are all trapped in the
framing of the same narrativeÓ. Estamos todos encarcerados na estrutura da
mesma narrativa.
Esse olhar colonizador parte de um
observador que se considera centro e protagonista; convencido de que os seus
conceitos, critŽrios, categorias e ju’zes de valor sejam objetivos, cient’ficos
e lhe fornecem instrumentos v‡lidos para definir, classificar, intepretar e
avaliar tudo e todos os outros. Trata-se de uma armadilha desastrosa, formatada
por sŽculos de pressupostos que s‹o, na verdade preconceitos e pretens›es
injustificadas. Inœmeros s‹o os exemplos de ÒnarrativasÓ e teorias err™neas
constru’das em cima do pressuposto de que o Sujeito-pesquisador possui o olhar
ÒobjetivoÓ e Òcient’ficoÓ sobre o seu Objeto de pesquisa, como s‹o inesgot‡veis
as fontes das Òpiadas de pesquisadorÓ nas quais os poetas da oralidade
denunciaram e continuam denunciando, no mundo inteiro, essa pretens‹o absurda
da superioridade da ci�ncia ocidental.
Para cumprir o anœncio e promessa que
fizeram, no Cariri, no ano 2000, os Poetas dos cordŽis ÒmauditosÓ e inventar
esses novos Òoutros 500 anosÓ da hist—ria da humanidade, teremos que
contar/narrar direitinho, antes de mais nada, a hist—ria dos seus
antepassados-poetas, alŽm de inventar vocabul‡rios n‹o dicot™micos para esse
futuro. Criar esse futuro implica o restabelecer daquela vis‹o do mundo das
civiliza�›es da oralidade que n‹o se ilude com a cren�a de um Progresso
infinito, hoje em dia cada vez mais inveross’mil, violento e mort’fero.
Esses cantadores e cantadoras que
ritualizavam e colocavam aberta e corajosamente no palco da comunidade
nordestina a viol�ncia masculina como praga social a ser debatida, re-educada,
curada e ÒvencidaÓ para o bem-estar de todos, n‹o s— legaram para as futuras
gera�›es uma linguagem poŽtica e estratŽgias eficazes de comunica�‹o social,
pol’tica e educativa, mas deixaram tambŽm uma amostra de um mundo diferente e
dual, mais humano, mais respeitoso das leis da Vida que o sistema colonial e
seus aliados eruditos que compuseram e impuseram a Hist—ria oficial do Brasil
tentaram, em v‹o, obliterar.
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SOBRINHO, JosŽ Alves. Cantadores, Repentistas e Poetas
Populares. Campina Grande. Bagagem. 2003.
[Entregue : 03 mai 2021]
[33] Professora emŽrita da UniversitŽ de
Poitiers. Centre de Recherches Latino-AmŽricaines. Poitiers, Fran�a. E-mail:
rialemaire@hotmail.com
[34] Em A peleja poŽtica epistolar
entre a poetisa Bastinha e o poeta Patativa do AssarŽ (SANTOS, 2011, p.
46-47), Francisca Pereira Santos publicou trechos dessa correspond�ncia.
[35] Existe, desde 2013, a Rede
Mnemosine, fundada pela pesquisadora/narradora/cordelista Josy Correia.
Inspirada pela tese de doutoramento de Fanka Santos e oficializada em 2015, a
rede promove a�›es de mapeamento, pesquisa, difus‹o e frui�‹o de folhetos,
recitais e feiras produzidas por mulheres. No ano de 2017, chegou a Portugal,
onde possui um acervo de folhetos femininos, partilhados com a Universidade do
Algarve e promove eventos, programas radiof™nicos e audiovisuais, transmitidos
ao vivo pela Internet. Contato: redemnemosine@gmail.com
[36] A respeito do conceito de matrim™nio,
ver Lemaire (2018).
[37] Atualmente Ž Rita Segato que, j‡ nos
quadros do pensamento decolonial, retoma a no�‹o de dualidade plural como base da metodologia do trabalho
antropol—gico, n‹o sobre mas com as (mulheres das) comunidades
ind’genas do Brasil (SEGATO, 2012).
[38] Men Engage Ž um movimento
intercontinental, criado por homens e apoiado por movimentos de mulheres do
mundo inteiro, que, todos juntos, objetivam e praticam um questionamento radical
da viol�ncia masculina e seus funcionamentos nas sociedades humanas. Um
simp—sio virtual, o UBUNTU SYMPOSIUM, reœne, em cont’nuo e durante oito
meses (de novembro de 2020 a junho de 2021), ativistas, militantes, movimentos,
pensadores, profissionais e inteletuais para divulgar e debater as condi�›es e
experi�ncias de uma re-educa�‹o dessa viol�ncia masculina como conditio sine
qua non de uma humaniza�‹o e pacifica�‹o do planeta-mundo.