Paisagem Religiosa: o Catolicismo Popular e as Companhias de
Reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG
Religious Landscape: Popular Catholicism and the Company of
Kings and the Company of the Baby Jesus of Carmo Do Rio Claro, MG
F‡bio Martins[38]
https://orcid.org/0000-0003-4290-4086
Leonel Brizolla Monastirsky[39]
https://orcid.org/0000-0003-1853-8960
Resumo:
No munic’pio de Carmo do Rio
Claro-MG evidencia-se a express‹o do catolicismo popular, com destaque para um
sistema cultural religioso e inœmeras pr‡ticas de religiosidade vinculadas ao
calend‡rio litœrgico. A partir da observa�‹o das Companhias de Reis e do Menino
Jesus buscou-se identificar as diversas pr‡ticas de religiosidade popular e a
espacialidade dos s’mbolos e manifesta�›es religiosas. Ainda focou-se na
identifica�‹o e interpreta�‹o da simbologia que as sustentam. Como metodologia
adotou-se a pesquisa de campo - com a observa�‹o participante e a realiza�‹o de
entrevistas. O conceito de paisagem religiosa foi contemplado na perspectiva da
Geografia Cultural como pressuposto para se pensar as Companhias de Reis e do
Menino Jesus enquanto um sistema de cren�a religiosa, permeada por c—digos,
s’mbolos e signos que revelam pr‡ticas hist—ricas, viv�ncias, mem—rias
individuais e coletivas para ser preservadas.
Palavras-chave: Paisagem; Religiosidade;
Manifesta�›es religiosas; Catolicismo popular; Geografia Cultural.
Abstract:
In the munic’pality of Carmo do Rio
Claro-MG, the expression of popular Catholicism is evident, with emphasis on a
religious cultural system and numerous practices of religiosity linked to the
liturgical calendar. From the close observation of the Company of Kings and the
Company of the Baby Jesus, we sought to identify the various practices of
popular religiosity and the spatiality of symbols and religious manifestations.
It also focused on identifying and interpreting the symbolism that underpins
them. Field research was adopted as a methodology - with participant
observation and the conducting of interviews. The concept of religious
landscape was considered from the perspective of Cultural Geography as a
presupposition for thinking about the Company of Kings and the Company of Baby
Jesus as a system of religious belief, permeated by codes, symbols and signs
that reveal historical practices, experiences, as well as individual and
collective memories to be preserved.
Keywords: Landscape; Religiosity; Religious Manifestations;
Popular Catholicism; Cultural Geography.
Introdu�‹o
A presen�a das manifesta�›es de religiosidade do catolicismo
popular na paisagem de Carmo do Rio Claro-MG[40],
se configura desde a funda�‹o do munic’pio, dos cinco grupos de Companhias de
Reis, quatro ternos de Congo, um terno de Mo�ambique, alŽm de grupos de homens
rezadores para almas. Atualmente, apenas quatro grupos de Companhias mant�m
suas atividades, sendo tr�s Companhias no per’metro urbano: Companhia do Menino
Jesus e duas Companhias de Reis (Estrela da Guia e Estrela do Oriente), alŽm de
uma Companhia de Reis no distrito rural das Tr�s Barras.
Com a
significativa redu�‹o dessas manifesta�›es de religiosidade popular e a
representatividade dessa tradi�‹o cultural no estado e no pr—prio munic’pio,
como elemento integrante da paisagem tem-se sua presen�a durante o ciclo
natalino, em locais como pra�as, igrejas, ruas, estradas, casas, na jornada dos
foli›es.
A
presente pesquisa tem como objetivo identificar as diversas pr‡ticas de
religiosidade popular e a espacialidade que assume os s’mbolos e manifesta�›es
religiosas. A escolha da tem‡tica e do recorte espacial justificam-se pela
identifica�‹o de uma multiplicidade de saberes e pr‡ticas populares envolvendo
a religiosidade. Adotou-se como
aporte metodol—gico a pesquisa de campo durante o per’odo de 25 de dezembro de
2018 a 27 janeiro de 2019, atravŽs da observa�‹o participante e entrevistas
semiestruturadas.
O trabalho de campo permite captar subjetividades,
significados, sentidos e caracter’sticas socioculturais. Uma das pr‡ticas de
pesquisa qualitativa mais difundida Ž a observa�‹o participante ou
participativa, em que existe media�‹o, a�‹o dial—gica e elabora�‹o conjunta
entre o pesquisador com os interesses da comunidade ou grupo, Òenvolvendo
tomadas de decis›es sobre uso de recursos, demanda ou ado�‹o de pol’ticas
pœblicas.Ó (HEIDRICH, 2016, p. 25).
Na primeira se�‹o faz-se uma discuss‹o te—rico-conceitual da
paisagem religiosa pela perspectiva da Geografia Cultural. Na segunda se�‹o
revela-se a paisagem religiosa desde a funda�‹o do munic’pio mineiro mantendo
viva uma sŽrie de tradi�›es, como as Companhias de Reis e do Menino Jesus. A
terceira se�‹o aborda na paisagem a religiosidade popular atrelada ao catolicismo.
A paisagem
religiosa na geografia cultural
As
pesquisas da geografia cultural, p—s 1970, abordam Ò[...] o simbolismo de
coisas e objetos na paisagemÓ enfatizando aspectos materiais e imateriais da
cultura. (ROSENDAHL, 2012, p. 29-31). De acordo com Claval (1999, p. 14), a
paisagem Ž como objeto de interpreta�‹o, pois Òcarrega a marca da cultura e
serve-lhe de matrizÓ, assim como, Ž moldada e projetada pelas convic�›es
religiosas.
Contudo,
Òa religi‹o influencia, enfim, os ritmos de vida de todos pelos calend‡rios e
as festas que institui. Ela cria para os sacerdotes e religiosos, g�neros de
vida espec’ficos.Ó E, a partir de 1976, em Yi-Fu Tuan destaca Ò[...]o peso das
representa�›es religiosasÓ, com intuito do conhecimento acerca da Òl—gica
profunda das ideias, das ideologias ou das religi›es para ver como elas modelam
a experi�ncia que as pessoas t�m no mundo e como influem sobre sua a�‹o.Ó
(CLAVAL, 1999, p. 53).
A
paisagem descrita por Dardel (2015, p. 32) circunscreve Òa inser�‹o do homem no
mundo, lugar de um combate pela vida, manifesta�‹o de seu ser com os outros,
base de seu ser social.Ó
A paisagem Ž um conjunto, uma converg�ncia, um momento vivido, uma
liga�‹o interna, uma impress‹o que une todos os elementos. [...] A paisagem se
unifica em torno de uma tonalidade afetiva dominante, perfeitamente v‡lida,
ainda que refrat‡ria a toda redu�‹o puramente cient’fica. Ela coloca em quest‹o
a totalidade do ser humano, suas liga�›es existenciais com a terra, ou se
preferimos, sua geograficidade original: a terra como lugar, base e meio de sua
realiza�‹o. (DARDEL, 2015, p. 31).
A
Escola de Berkeley trouxe as qualidades simb—licas da paisagem, que sustentam
seu significado social, como um texto Ò[...] a ser lido e interpretado como
documento socialÓ, uma imagem cultural, que pode ser revelada enquanto configura�‹o
de s’mbolos e signos atravŽs de diversos meios e superf’cies [...]Ó. (COSGROVE;
JACKSON, 2011, p. 137).
Geertz
(2012) prop›e a an‡lise de cren�as e pr‡ticas religiosas enquanto um sistema
cultural, do qual o conceito semi—tico de cultura se adapta.
E sabendo-se que a paisagem conforme Torres (2013) est‡ em
constante transforma�‹o e repleta de elementos simb—licos, sua leitura de mundo
se estabelece a partir da experi�ncia de cada indiv’duo que interage com ela,
Ò[...] seja no plano da materialidade das coisas que os seres humanos
constroem/desconstroem e organizam no espa�o, seja no plano da imaterialidade;
dos sentidos e significados atribu’dos a cada elemento constituinte da
paisagemÓ. (p. 95).
As paisagens segundo Torres (2013) cont�m hist—rias e
discursos, expressos em mem—rias individuais e coletivas de valores constru’dos
ao longo do tempo, alŽm de confirmarem-se no subjetivo de cada indiv’duo, as
paisagens tornam-se elos de contato a partir de experi�ncias de coletividade.
Os discursos decorrentes da paisagem e presentes nela podem estar
contidos em uma ou mais formas simb—licas (arte, mito, religi‹o, linguagem), o
que garante o sentido atribu’do a cada paisagem. Portanto, numa observa�‹o
estŽtica da paisagem que considere apenas os subs’dios materiais vis’veis,
elementos do sagrado podem passar despercebidos, o que inviabiliza ou minimiza
o potencial do estudo da paisagem religiosa. (idem, p. 98).
Kozel
(2012) destaca a paisagem pelos mœltiplos elementos (visuais, sonoros,
odor’feros, palat‡veis e t‡cteis), sendo estes, portadores de significados por
aqueles que os vivenciam. Portanto, h‡ Òinœmeras maneiras de represent‡-la, uma
vez que tambŽm s‹o inœmeras as percep�›es, valores e significa�›es de quem vive
e capta essa paisagem.Ó (p. 68).
Cada paisagem Ž produto e produtora de cultura, e Ž possuidora de
formas e cores, odores, sons e movimentos, que podem ser experienciados por
cada pessoa que nela se insira, ou abstra’do por aquele que l� pelos relatos
e/ou imagens. Nesse sentido, Ž por meio da paisagem que os elementos que
integram no espa�o Ôsaltam aos olhosÕ do ser humano, Ôgritam aos seus ouvidosÕ,
e envolvem-no nas suas dimens›es sens’veis. (KOZEL, 2012, p. 69).
Desse
modo, a reflex‹o posta por esses autores possibilita a compreens‹o da paisagem
das Companhias de Reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG enquanto um
sistema de cren�a religiosa permeada por c—digos, s’mbolos e signos, que se
revelam atravŽs das viv�ncias, mem—rias individuais e coletivas.
Paisagem
religiosa em Carmo do Rio Claro-MG
O
processo hist—rico de forma�‹o cultural em Carmo do Rio Claro-MG,
desenvolveu-se em face a uma paisagem marcada por serras, vales, ribeir›es,
cachoeiras, alŽm do Rio Grande (Jetic‡) e do Rio Sapuca’. Conforme Grilo (1996,
p. 11-14), a paisagem revela-se pela linguagem poŽtica e geogr‡fica:
Vemos l‡ no alto. Depois de um breve descanso do esfor�o de
subida, calmamente fiquemos de pŽ e olhemos a nossa volta. Se apontarmos o
nosso bra�o direito para o lado onde o sol est‡ nascendo, veremos ˆ nossa
frente bem aqui embaixo, ao pŽ da serra a cidade est‡ acordando... Um pouco a
direita e seguindo para o norte, que Ž tudo o que vemos ˆ nossa frente, h‡ uma
superf’cie prateada e recortada: s‹o as ‡guas da represa de Furnas que chegam
atŽ perto da cidade. Depois das ‡guas, cresce a silhueta escuro-azulada das
serras; come�am bem a frente, como Serra da Tromba e v‹o se espichando na
dire�‹o do nosso bra�o esquerdo (para Oeste), como Serra do Ferreira, Serra do
Tabuleiro e Serra dos Pinheiros, bem longe, na dire�‹o de Alpin—polis... Ali,
ao pŽ do Tabuleiro e dos Pinheiros, h‡ um represamento especial das ‡guas. Hoje
n‹o d‡ pra perceber que Ž um rio, mas Ž um rio represado, e um rio muito
importante para n—s: o Sapuca’.
Enquanto isso, vamos olhar na dire�‹o do nosso bra�o esquerdo:
aqui embaixo, bem ao lado da cidade, come�a uma outra serra formada por duas
sequ�ncias: a da Rapadura e do Santana. Dirige-se sempre para o oeste
inclinando um pouco a norte: parece que vai se encontrar com a dos Pinheiros l‡
longe, j‡ perto da Ventania.
Entre estas, e na mesma dire�‹o, fica, portanto, uma regi‹o baixa,
alongada, com pouca eleva�‹o, v‡rios c—rregos pequenos que, daqui do alto,
quando os vemos, parecem fiozinhos de prata. Podemos chamar a esta ‡rea de vale
e talvez pudŽssemos dar-lhe o nome de Vale do ItapichŽ, pois este Ž seu
principal ribeir‹o. TambŽm segue na dire�‹o da Serra da Ventania e morre l‡,
aos seus pŽs.
Olhando, ao contr‡rio, na dire�‹o de nosso bra�o direito (leste)
vemos em primeiro lugar o pr—prio prolongamento da serra em que estamos, que Ž
hoje chamada de Tormenta. Logo depois dela, mais ‡gua, mais represa. A’ tambŽm
est‡ o Rio que n‹o vemos, o Sapuca’...Para alŽm das ‡guas, podemos ver um pouco
emba�ados os prolongamentos dos morros e as regi›es mais planas que formam os
campos. De um lado, os morros e as regi›es mais planas que formam os campos, os
Campos Gerais, o Campo do Meio e outros...Temos de virar de costas. Vamos
apontar agora o nosso bra�o esquerdo na dire�‹o do sol nascente e dando as
costas a Serra da Tromba e a cidade. Bem a nossa frente (Sul) logo ao pŽ da
serra em que estamos, podemos ver uma ponta da represa que depois se prolonga
em dois fios de ‡gua: Ž onde o Rio Claro, que vem mais do sul, se encontra com
o Santa QuitŽria, que vem quase beirando a Serra da Rapadura. Hoje desaparecem
juntos na represa; antes, desaguavam juntos no Rio Sapuca’, formando a barra do
Rio Claro. Depois se estendem outros morros, outras serras, outras pontas de
represa – uma delas, bem ao longe, Ž a do Rio Mo�ambo ou Muzambo –
outras, mais pr—ximas s‹o as do Correnteza, do Cavaco etc.
Nesta
paisagem t‹o rebuscada de morros, serras, rios e c—rregos de Carmo do Rio
Claro-MG reverbera-se manifesta�›es de religiosidade popular vinculadas aos
calend‡rios litœrgico e c’clico, pautado em celebra�›es - missas, novenas,
prociss›es, comemora�›es e festejos.
Identificou-se
a seguinte organiza�‹o das atividades religiosas e per’odos em um calend‡rio
litœrgico (Quadro 01): entre os meses de dezembro
e janeiro contempla-se o ciclo de
comemora�›es natalinas que se encerra com a festa da epifania; entre os
meses de fevereiro, mar�o e abril,
contempla-se o per’odo de quarenta dias da
quaresma, alŽm das celebra�›es da semana
santa; j‡ entre os meses de junho a
novembro, contemplam-se as celebra�›es
e ou comemora�›es mensais: Corpus Christi (junho), padroeira do munic’pio
Nossa Senhora do Carmo (julho), Bom Jesus dos Aflitos do Itacy (agosto), Nossa
Senhora Aparecida (outubro) e finados (novembro). (INFORMA‚ÌO VERBAL[41]).
Quadro 01- Calend‡rio Litœrgico
Celebra�›es e Manifesta�›es de Religiosidade em Carmo Do Rio
Claro (MG)
|
ATIVIDADE |
PERêODO |
LOCAL |
|
DEZEMBRO |
||
|
Novenas
de Natal |
Durante todo o m�s de dezembro |
Casa das fam’lias |
|
Apresenta�‹o
dos Grupos de Companhias de Reis e do Menino Jesus |
25 de dezembro a 06 de janeiro -
per’odo que pode se estender em fun�‹o das demandas de promessas |
Casa das fam’lias (devotos de
Santos Reis) |
|
Missa
da Passagem de Ano |
òltimo dia do m�s de dezembro |
Igreja Matriz Nossa Senhora de
F‡tima e Sagrada Fam’lia |
|
JANEIRO |
||
|
Festejo
de chegada dos grupos de Companhia de Reis e do Menino Jesus |
Dia 06 de janeiro |
Participa�‹o dos grupos Companhias
nas missas. Chegada das Companhias de Reis:
Sal‹o de festa Igreja Matriz Sagrada Fam’lia e do Menino Jesus: Lar do Idoso
Frederico Ozana |
|
FEVEREIRO - MAR‚O - ABRIL |
||
|
Quaresma |
40 dias |
V‡rias localidades: atividades que
se iniciam na Quarta-Feira de Cinzas e se estendem atŽ a comemora�‹o da
P‡scoa |
|
Quarta-feira
de Cinzas |
Ap—s os festejos de carnaval entre
os meses de fevereiro ou mar�o |
Igreja Matriz Nossa Senhora de
F‡tima e Sagrada Fam’lia: celebra�›es com a un�‹o e distribui�‹o de cinzas |
|
Vias
Sacras |
40 dias durante a quaresma:
quartas e sextas |
Pelas ruas da cidade ou dentro da
Igreja |
|
Prociss‹o
Penitencial |
Todas as sextas durante a quaresma |
Ruas da cidade: 5 horas da manh‹ |
|
Prociss‹o
Domingo de Ramos |
Durante a Semana Santa |
Capela N. Sr. dos Passos atŽ a Igreja
Matriz Nossa Senhora de F‡tima |
|
Prociss‹o
do Dep—sito |
Segunda-feira ˆ noite - Semana
Santa |
Condu�‹o das Imagens de N. Sr. dos
Passos (por homens) e de N. Sr.» das Dores (por mulheres) as suas Capelas de
origem |
|
Vig’lia
|
Segunda-feira ˆ noite - Semana
Santa |
Capela N. Sr. dos Passos |
|
Prociss‹o
do Encontro |
Quarta-feira ˆ noite - Semana
Santa |
Condu�‹o das Imagens de N. Sr. dos
Passos (por homens) e de N. Sr. a. das Dores (por mulheres) atŽ a Igreja
Matriz Nossa Senhora de F‡tima |
|
Institui�‹o
da Eucaristia e Missa de Lava PŽs |
Quinta-feira ˆ noite - Semana
Santa |
Igreja Matriz Nossa Senhora de
F‡tima |
|
Ato
de Penit�ncia |
Quinta-feira ˆ noite - Semana
Santa |
Subida da Serra da Tormenta |
|
Via
Sacra dos Jovens |
Sexta-feira da paix‹o Semana Santa |
Subida da Serra da Tormenta |
|
Prociss‹o
das Velas: Jesus morto com os esquifes |
Sexta-feira da paix‹o - Semana
Santa |
A imagem de Jesus morto com os
esquifes sai da Igreja Matriz e faz um percurso em torno da Pra�a Cap. Pedro
Tito Pereira com retorno ˆ Matriz |
|
Missa
de Aleluia |
S‡bado ap—s sexta-feira da Paix‹o
de Cristo |
Igreja Matriz Nossa Senhora do
Carmo e Sagrada Fam’lia |
|
Prociss‹o
da Ressurrei�‹o |
Domingo de manh‹ ap—s S‡bado de
Aleluia |
Igreja Matriz Nossa Senhora do
Carmo: Missa na Capela do Senhor dos Passos com prociss‹o atŽ a Matriz
Senhora de Carmo Sagrada Fam’lia: ruas do bairro
Jardim AmŽrica |
|
JUNHO |
||
|
Celebra�›es
de Corpus Christi |
Comemorado no m�s de junho 60 dias
ap—s a P‡scoa |
Igreja Matriz Nossa Senhora de
Carmo e Sagrada Fam’lia: confec�‹o de tapetes art’sticos para prociss‹o nas
ruas pr—ximas ˆs igrejas |
|
JULHO |
||
|
Comemora�›es
padroeira Nossa Senhora do Carmo: prociss‹o e festejos |
16 de julho |
Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo: Prociss‹o de Nossa Senhora do
Carmo pelas ruas da cidade; alŽm de festa de barraca armada na pra�a em
frente ˆ Igreja |
|
AGOSTO |
||
|
Celebra�›es
e festejos Bom Jesus dos Aflitos do Itacy |
29 de julho a 06 de agosto |
Santu‡rio Bom Jesus dos Aflitos:
Novena e missas do Bom Jesus dos Aflitos, distrito do Itacy, fluxo de 30 a 50
mil devotos |
|
OUTUBRO |
||
|
Nossa
Senhora Aparecida |
15 de outubro |
Subida da serra da tormenta atŽ a
capelinha Nossa Senhora Aparecida; Celebra�›es de missas nas matrizes Nossa
Senhora de F‡tima e Sagrada Fam’lia |
|
NOVEMBRO |
||
|
Finados |
O2 de novembro |
Visita�‹o aos tœmulos no cemitŽrio
municipal de Carmo do Rio Claro (MG) |
Fonte: Informa�‹o Verbal, 2029. Org.: O Autor
Existem
ainda, as pr‡ticas de religiosidade que acontecem semanalmente, como as missas
nos bairros e na zona rural, o ter�o dos homens, grupos de ora�›es, catequese e
visita�‹o da capelinha M‹e Rainha nas casas dos devotos (Quadro 2).
Quadro 02- Atividades de Religiosidade que acontecem durante
todo o ano
|
LOCAL |
|
|
Missas
semanais nas Igrejas Matrizes |
Igreja Matriz Nossa Senhora de
Carmo e Sagrada Fam’lia |
|
Missas
com celebra�›es nos bairros |
Capela Nosso Senhor dos Passos,
Jacuba, Ros‡rio, Porto, Bananal, S‹o Benedito e Nosso Senhor dos Aflitos |
|
Ter�o
dos homens |
Segunda-feira Par—quia Sagrada
Fam’lia e quarta-feira Par—quia Nossa Senhora do Carmo |
|
Grupos
de ora�›es |
Segunda-feira: Par—quia Sagrada
Fam’lia; Quarta-feira: Capela do Hospital (S‹o Vicente de Paulo) e
sexta-feira: Capela S‹o Benedito |
|
Visita�‹o
uma vez por m�s da capelinha M‹e Rainha Nossa Senhora de Schoenstatt |
Casas de devotos |
|
Catequese
|
Par—quia Nossa Senhora do Carmo
funciona de segunda a sexta com hor‡rios espec’ficos Par—quia Sagrada Fam’lia: Primeira
etapa (eucaristia), quarta-feira ˆs 17:30. Segunda etapa (crisma) domingo ˆs
18:00 |
|
Missas
rurais |
Par—quia Sagrada Fam’lia:
quinta-feira em um bairro rural. Par—quia Nossa Senhora do Carmo: quarta-feira
em um bairro rural |
|
Missas
setoriais (bairros) |
Par—quia Nossa Senhora do Carmo
celebra na segunda-feira e no s‡bado missas nos bairros |
|
Grupo
de Jovens |
Encontro semanal ˆs quintas-feiras
ˆ noite ap—s a missa |
Fonte: Informa�‹o Verbal, 2029. Org.: O Autor
As
diversas pr‡ticas de religiosidade configuram a paisagem de Carmo do Rio Claro,
h‡ cerca de um sŽculo e meio, por meio de elementos simb—licos materiais e
imateriais que carregam consigo elos de uma tradi�‹o em celebra�›es e festejos,
experienciados de forma coletiva ou individual em face de distintas
espacialidades.
As
espacialidades (imagem 1) vivenciadas pelas
pr‡ticas de religiosidade do catolicismo popular vinculam-se a nove locais -
igrejas matrizes: Nossa Senhora do Carmo, situada no centro da cidade e a
Sagrada Fam’lia, situada no bairro Rua Nova; Capela Nosso Senhor dos Passos,
situada aos ÔpŽs da Serra da TormentaÕ e a Capela de Nossa Senhora Aparecida no
alto da Serra da Tormenta; Igreja do Ros‡rio e Igreja S‹o Benedito nos bairros
do Ros‡rio e S‹o Benedito; Centro de Forma�‹o S‹o JosŽ situado no bairro
Cora�‹o Eucar’stico; Capela do Hospital S‹o Vicente de Paulo situado no bairro
Santo Ant™nio; e o CemitŽrio Municipal situado no bairro Rua Nova.
A
capela Nosso Senhor dos Passos, constru’da em estilo colonial aos pŽs da Serra
da Tormenta no ano de 1860, constitui-se a edifica�‹o mais antiga do munic’pio
e abriga a imagem de Nosso Senhor dos Passos que faz parte da prestigiada
Prociss‹o do Encontro realizada durante a semana santa.
No centro da cidade fica a igreja matriz Nossa Senhora do
Carmo, onde h‡ mais de um sŽculo ocorre a maior parte das celebra�›es e ritos
religiosos, como as prociss›es do Encontro e do Senhor Morto, que na semana
santa reœnem milhares de fiŽis em caminhada pelas ruas da cidade, alŽm das
celebra�›es de Corpus Christi e a festa em louvor a Nossa Senhora do Carmo.
Uma
espacialidade Ž evidenciada na quarta-feira da semana santa, quando realizam a
prociss‹o do Encontro. Enquanto a imagem sacra de Nosso Senhor dos Passos Ž
carregada por homens que partem da Capela Nosso Senhor dos Passos com destino ˆ
igreja matriz Nossa Senhora do Carmo, a imagem de Nossa Senhora das Dores
paralelamente Ž carregada atŽ aquela, por mulheres da Igreja de Nossa Senhora
do Ros‡rio.
Imagem 1 - Espacialidades vivenciadas pelas pr‡ticas de
religiosidade do catolicismo popular em Carmo do Rio Claro - MG. Ilustra�›es: Autor (2020), Aquarela
sobre papel.
A prociss‹o de Jesus Morto com os Esquifes acontece na noite
da sexta-feira da semana santa (da paix‹o). Popularmente conhecida como
prociss‹o das Velas, os fiŽis, empunhando suas velas acesas, conduzem ora�›es e
cantos penitenciais fœnebres de alus‹o a Jesus Morto. Ap—s a prociss‹o, a
imagem de Jesus Morto adentra a igreja Nossa Senhora do Carmo onde as pessoas
fazem suas rever�ncias ˆ imagem.
No m�s de julho, comemora-se o
anivers‡rio da padroeira do munic’pio com festejos de barraca em frente ˆ
igreja matriz, alŽm da prociss‹o, na qual os fiŽis proferem hinos de louvor ˆ
imagem de Nossa Senhora do Carmo.
A
Igreja Nossa Senhora do Ros‡rio e S‹o Benedito, atŽ meados de 1990, realizavam
pr‡ticas vinculadas ˆ religiosidade de matrizes africanas, como a Congada e o
Mo�ambique, quando existiam ternos de congo e Mo�ambique que sa’am em cortejo
pelas ruas da cidade ao encontro do seu rei e da sua rainha. A chegada destes
grupos acontecia na pra�a localizada em frente ˆ Igreja do Ros‡rio, entre o
cruzeiro e a igreja, dan�avam e cantavam sincronizados ˆ sonoridade dos
instrumentos percussivos e das latinhas com pedrinhas e sementes amarradas nas
pernas. A pra�a tambŽm era palco de outras celebra�›es dedicadas ˆ Nossa Senhora
do Ros‡rio, onde se realizava a prociss‹o pelo bairro, missas e o festejo.
Ainda
na pra�a em frente ˆ Igreja do Ros‡rio atŽ a dŽcada de 1990, durante o ciclo
natalino, no dia 06 de janeiro, acontecia o rito de chegada (imagem 2) do grupo
de Companhia de Reis Estrela da Guia para celebrar o dia dos Santos Reis. Arcos
de bambu, fitas e correntes de papŽis coloridos enfeitavam a pra�a, de modo que
a paisagem se transformava no palco de consagra�‹o de mais um ciclo de jornada
completado pelos foli›es.
Imagem 2 - Rito de
chegada Companhia de Reis Estrela da Guia. Fonte: Acervo do Grupo (S. d.).
Nos meses de junho ou julho a pra�a do Ros‡rio era decorada
com bandeirinhas. Ali acontecia a festa junina com a apresenta�‹o de
quadrilhas. TambŽm era comum nesse per’odo a pr‡tica de ter�os dedicados aos
santos cat—licos, como S‹o Jo‹o e Santo Ant™nio. Em v‡rias casas da cidade
erguiam-se mastros de bambu, com lim›es espetados em suas varetas. No seu topo,
colocava-se a imagem de um santo, que era decorada com flores de pl‡stico ao
seu redor.
No
cruzeiro localizado em frente ˆ Igreja do Ros‡rio e em outros, realiza-se a
pr‡tica de descarte de imagens de santos quebrados, devido ˆ tradi�‹o popular
de que o descarte incorreto traz castigos. O cruzeiro tambŽm era o local de
onde partiam na madrugada, no per’odo da quaresma, um grupo de homens, os
cantadores para as almas. Acompanhados de um instrumento percussivo de madeira,
matraca, cantavam na frente de algumas casas para as almas de pessoas j‡
falecidas. Existia a cren�a de que n‹o se podia observar esse rito, sobre o
risco de visualizar imagens das almas dos falecidos.
Na
Serra da Tormenta, todos os anos, milhares de fiŽis realizam a subida atŽ seu
cume, onde encontra-se localizada a capela dedicada ˆ Nossa Senhora Aparecida,
para os agradecimentos, ora�›es e dep—sito de objetos pelas gra�as alcan�adas.
No ano
de 2006, ocorreu a constru�‹o da Igreja Matriz Sagrada Fam’lia e com isso as
principais atividades religiosas, ritos e celebra�›es, passaram a acontecer de
forma paralela nas duas par—quias.
O
Santu‡rio Bom Jesus dos Aflitos atrai no m�s de agosto um fluxo de 30 a 50 mil
pessoas, para as celebra�›es de missas e novenas. Parte dos fiŽis atravessa de
balsa a represa de Furnas, para visitar o santu‡rio e depositar objetos ˆs
gra�as alcan�adas.
As
manifesta�›es ligadas ao catolicismo de Carmo do Rio Claro-MG fazem-se
presentes no calend‡rio litœrgico durante todo o ano, de modo que milhares de
fiŽis (re)vivem pr‡ticas de fŽ dedicadas a distintos santos em diferentes
espacialidades. Nesse contexto, marcado pelas manifesta�›es de religiosidade
popular, aprofundar-se-‡ nas Companhias de Reis e do Menino Jesus.
Uma paisagem religiosa pelo catolicismo popular: as
Companhias de Reis e do Menino Jesus
1.Tendo, pois, Jesus nascido
em BelŽm de Jud‡, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a
JerusalŽm. 2. Perguntaram eles: ÔOnde est‡ o rei dos judeus que acaba de
nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos ador‡-loÕ. 3. A essa not’cia, o
rei Herodes ficou perturbado e toda JerusalŽm com ele. 4. Convocou os pr’ncipes
dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o
Cristo. 5. Disseram-lhe: ÔEm BelŽm, na Judeia, porque assim foi escrito pelo
profeta: 6. E tu, BelŽm, terra de Jud‡, n‹o Žs de modo algum a menor entre as
cidades de Jud‡, porque de ti sair‡ o chefe que governar‡ Israel, meu povoÕ. 7.
Herodes, ent‹o, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a Žpoca
exata em que o astro lhes tinha aparecido. 8. E, enviando-os a BelŽm, disse:
ÔIde e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado,
comunicai-me, para que eu tambŽm v‡ ador‡-loÕ. 9. Tendo eles ouvido as palavras
do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi
precedendo atŽ chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou. 10. A
apari�‹o daquela estrela os encheu de profunda alegria. 11. Entrando na casa,
acharam o menino com Maria, sua m‹e. Prostrando-se diante dele, o adoraram.
Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e
mirra. 12. Avisados em sonhos de n‹o tornarem a Herodes, voltaram para sua
terra por outro caminho.Õ (MATHEUS II: 1-12).
Ap—s
um ano de espera, Ž chegada a hora! J‡ nasceu o menino Deus. Os instrumentos
que se encontravam adormecidos em um cantinho de suas moradas reavivam-se: a
sanfona volta a respirar as melodias da devo�‹o; a caixa sente aos poucos o
despertar de sua coura�a animal, que ressuscita ao esticar/estralar/receber o
pulsar das batidas, que emergem em comunh‹o com o cora�‹o daqueles que insistem
em reviver esta tradi�‹o; o chocalho se contorce ao guizo movimento repetitivo;
o pandeiro se revolta ao trepidar de um ritmo frenŽtico a sentir o contato das
m‹os que o movimenta de um lado a outro, num zigue-zague sonoro; os
encordoamentos aos poucos aproximam dedos e corpos em busca da afina�‹o
perfeita, que dar‡ ritmo aos diferentes timbres de vozes ˆqueles que est‹o em
prontid‹o: Ž chegada a hora!
Tr�s
Reis preparam-se novamente para sair em jornada. Guiados pela estrela do
oriente v‹o em busca do Menino Deus, da esperan�a e da fŽ. Revelam-se atravŽs
do objeto sagrado: a bandeira, e seguem sempre ˆ frente acompanhados por
cantadores e basti›es que fazem alus‹o aos guardas de Herodes em disfarce, com
a miss‹o de matar o recŽm-nascido em BelŽm de Jud‡.
A
paisagem sonora dos transeuntes/autom—veis/p‡ssaros/ ou do sil�ncio noturno
cede espa�o aos anjos que cantam na gl—ria: Ž chegada a hora! Assim, a paisagem
se transforma em face de uma melodia caracter’stica, da qual o gingado da
sanfona, aliado ˆ batida da caixa anuncia: Ž chegada a hora! Ao longe, a
popula�‹o avista a chegada dos Reis Santos que s‹o escoltados pelo colorido dos
adere�os/roupagens dos foli›es. Basti›es sussurram em meio a performances
corporais, e s‹o observados por devotos em janelas/portas/cal�adas de suas
moradas.
As
portas abertas se fazem c—digo ˆ recep�‹o: d‡ licen�a patr‹o/d‡ licen�a patroa,
Ž chegada a hora! Em sil�ncio, junto ao representante da morada, Tr�s Reis
Santos adentram na busca pelo Menino Deus; mœsicos cantadores v‹o se
acomodando. Encontramos o menino Deus: Ž chegada a hora da adora�‹o! O s’mbolo
do arrependimento se revela na figura dos basti›es, que em nome dos Tr�s Reis
Santos proferem adora�›es e ofertas simb—licas: ouro, incenso e mirra na forma
de trovas.
Mas a
troca de ofertas vai alŽm; e os instrumentos musicais anunciam: Ž chegada a
hora de ben�‹o ˆs fam’lias! Em nome dos Tr�s Reis Santos, vozes germinam
solo-conjunto; embaixador-poeta-criador atento aos detalhes profere versos em
forma de cantos: b�n�‹os, pedidos e agradecimentos; e assim os salutares de
vozes encaixam-se em seis tonalidades distintas. Na paisagem ’ntima da morada,
devotos acompanhados de emo�›es distintas, expressam l‡grimas em face de
olhares enobrecidos: reveladores testemunhos de sœplicas e gra�as. Completadas
as sauda�›es: Ž chegada a hora da despedida. Um instante, pois Tr�s Reis Santos
ainda ter‹o que visitar os c™modos da morada, neste ’ntimo sobrep›em-se b�n�‹os
a objetos e fotografias dos entes familiares.
ƒ
chegada a hora: pagamento de promessas! A retribui�‹o de uma gra�a pode se
configurar atravŽs de um banquete: cafŽ, almo�o ou janta. A paisagem neste
momento se mistura entre as melodias de sons, devo�‹o, aromas. Card‡pios
variados exibem a diversidade de texturas/cores/sabores/paladares. Alimentos
que despertam gratid‹o daqueles que em suas jornadas s‹o contemplados com a
fartura e la�os de sociabilidade, reveladores de trocas simb—licas: alimentos
para corpo em contrapartida ao alimento para a alma: fŽ/b�n�‹os ofertadas aos
familiares. Tr�s Reis Santos agradecem e v‹o embora descansar para mais um dia
de caminhada.
Ap—s cumprido mais um ciclo de jornada Ž chegada a hora dos
festejos! Encontraram o menino Deus! A sociedade carmelitana, reunida, aguarda
a chegada dos viajadores. Bingos, leil›es, comidas, bebidas e mœsica comp›em a
paisagem; arcos de bambu adornados por correntes coloridas de papel que s‹o
rompidos, simbolizam as dificuldades superadas em cada dia desta longa jornada
que abre caminho a BelŽm. ƒ chegada
a hora: eis que vieram ador‡-lo! Ali est‡ o Menino Deus! Viva o Menino Deus! Na
orla do altar, a musicalidade embriagada de emo�‹o toma conta dos viajadores
que proferem versos e prosas atravŽs de cantos/adora�›es ao Menino Deus! Salve,
Salve: Pastores e Foli›es! Eis que foi cumprida nossa miss‹o; Ž chegada a hora
do retorno e atŽ o ano... se Deus quiser!
Esta
paisagem religiosa indica um mundo c—smico, santificado no tempo sagrado das
festas, tempo m’tico, tempo litœrgico, ou seja, um tempo circular, revers’vel,
recuper‡vel, indefinidamente repet’vel, ÒespŽcie de eterno presente m’tico que
o homem emprega periodicamente pela linguagem dos ritos.Ó (ELIADE, 2018, p.
64).
As
Folias ou Companhias de Reis s‹o constru�›es cosmol—gicas do catolicismo
popular orientadas pelo nascimento de Cristo e pela Epifania, de modo a
reproduzir a viagem dos Tr�s Reis Magos, guiados por uma estrela para a adora�‹o
do menino Jesus em BelŽm. Brand‹o (1977) destaca que as Folias de Reis s‹o
formadas por um grupo de precat—rios que saem em jornada no ciclo natalino de
25 de dezembro a 6 de janeiro, composta por mœsicos, instrumentistas,
bandeiristas e palha�os - os foli›es v‹o de casa em casa apresentando suas
cantorias, levando b�n�‹os ˆs fam’lias de devotos e recolhendo esmolas.
Imagem 3 - Cortejo
Companhia de Reis Estrela da Guia. Fotografia: Autor (2020).
O fen™meno religioso conforme Pereira e Torres (2016) abarca
a experi�ncia humana em extratos f’sicos materiais e simb—licos, e, funde o
mundo dos sentidos com o mundo da imagina�‹o.
Assim, tem-se Òespacialidades f’sicas, como templos,
igrejas, santu‡rios, sinagogas, mesquitas, terreiros e demais constru�›es
diversasÓ; como tambŽm espacialidades n‹o materiais: Òdiscursos, narrativas,
mitos, sistemas teol—gicos, mœsicas, sons etcÓ. Tais espacialidades podem estar
em movimento Ò[...] como as peregrina�›es, as romarias, as v‡rias jornadas espirituais
ou comportamentos rituaisÓ. (p. 98).
A Companhia do Menino Jesus, presente no munic’pio de Carmo
do Rio Claro-MG desde o ano de 1929, possui, inclusive, adapta�›es em sua
estrutura e rito em rela�‹o ˆs Companhias de Reis. Os personagens presentes
s‹o: Sime‹o, tr�s reizinhos e os pastores-cantadores que carregam o orat—rio
com o menino Jesus (presŽpio andante) atŽ a casa dos fiŽis.
Imagem 4 -
Companhia do Menino Jesus. Fotografia: Autor (2020).
O espa�o sagrado que se constitui em torno dos referenciais
e simbologias divide-se segundo Gil Filho (2008) em tr�s espacialidades:
concreta de express›es religiosas, do pensamento religioso e das representa�›es
simb—licas. Na espacialidade concreta tem-se o espa�o sagrado recebendo as
pr‡ticas religiosas. Na espacialidade das representa�›es simb—licas projeta-se
o plano da linguagem aos referenciais religiosos e na espacialidade de
pensamento religioso articula o plano sens’vel ao do conhecimento religioso.
Estas
espacialidades podem ser observadas em Carmo do Rio Claro em uma das falas da
entrevista realizada em 2019 com um dos foli›es:
No evangelho existe uma pequena descri�‹o, o que nos Ž transmitido
Ž que suas viagens tiveram in’cio no dia primeiro de janeiro e que sa’ram cada
um de suas terras guiados por um sinal. Viajaram o dia todo e no final daquele
primeiro dia eles se encontraram, se conheceram, dormiram e no segundo dia
perceberam que apesar de serem de diferentes regi›es e sem estabelecer nenhuma
comunica�‹o anterior, tinham o mesmo objetivo e receberam os mesmos sinais. Do
segundo ao quarto dia em suas caminhadas, foram conhecendo suas diferen�as e o
que cada um poderia oferecer para o outro. No quinto dia avistaram JerusalŽm,
uma cidade grandiosa, sede do poder, o que chamou a aten�‹o dos Tr�s Reis.
Vislumbrados acreditavam que o Rei do mundo s— poderia estar por ali,
esquecendo-se do humilde sinal, a estrela que os guiava atŽ ent‹o, e foram atŽ
a cidade de JerusalŽm. A partir da’ encontramos no evangelho de Matheus, o
relato de que chegando atŽ a cidade, Herodes n‹o sabia do que se tratava,
mandou que os Tr�s Reis seguissem viagem, pois ali n‹o existia nenhum outro rei
alŽm dele, e pediu que sua guarda os acompanhasse. A partir do momento em que
deixaram a cidade de JerusalŽm para tr‡s com a ilus‹o da claridade, conseguiram
avistar novamente o sinal da simplicidade, a luz da estrela que os guiavam em
sua viagem. Completando o sexto dia, chegaram atŽ BelŽm, uma cidade pobrezinha
onde encontraram e adoraram o Menino Jesus. Esta caminhada do dia 01 ao dia 06
Ž uma caminhada de aprendizado, partilha. Assim como em nossas vidas, eles
tiveram seus deslizes deixando se ofuscar pela grandeza de JerusalŽm, mas
voltaram seu olhar novamente para a simplicidade do projeto de Deus para n—s.
(INFORMA‚ÌO VERBAL, 2019).
Gil
Filho (2008) tambŽm sugere quatro inst‰ncias de an‡lise aos estudos de
fen™menos religiosos, sendo, a Òpaisagem religiosaÓ com sua materialidade,
exterioridade e express‹o do sagrado; o Òsistema simb—lico culturalÓ com seu
referencial conceitual, a l—gica simb—lica e o contexto religioso; as
Òescrituras e tradi�›es sagradasÓ com as constru�›es epistemol—gicas, seu
registro e transmiss‹o; e o Òsentimento religiosoÓ como a experi�ncia pessoal
do sagrado.
Nesse
sentido, compreende-se que as manifesta�›es de religiosidade popular:
Companhias de Reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG, constituem
elementos caracter’sticos de subjetividades presentes na paisagem religiosa
local. As Companhias, atreladas ao calend‡rio litœrgico (natal/epifania),
expressam-se atravŽs de peregrina�›es (espacialidades em movimentos em meio as
ruas, casas, igrejas) permeadas por distintos momentos: ritos, performances,
rela�›es de sociabilidades e trocas simb—licas.
Considera�›es finais
Desde
os fins do sŽculo XVIII, o processo de forma�‹o e desenvolvimento
hist—rico-cultural do munic’pio de Carmo do Rio Claro-MG se consolidou diante
de um sistema cultural religioso alicer�ado em valores e preceitos do
catolicismo. Inœmeras pr‡ticas de religiosidade popular vinculadas ao
calend‡rio litœrgico, se consagram h‡ mais de dois sŽculos e seu reflexo faz-se
presente na paisagem. Para Torres (2013), a paisagem Ž reflexo da rela�‹o
direta com o ser humano, no plano material ou imaterial, pois comp›em-se de
discursos e formas simb—licas - arte, mito, religi‹o e linguagem. Segundo
Torres (2013) e Kozel (2012) o conceito de paisagem configura-se pela tr’ade:
olhar/sentir/ouvir e perpassa por diferentes aspectos sensitivos - formas,
cheiros, sons, texturas, cores, sabores, movimentos -, com os quais os
indiv’duos percebem e atribuem significados a cada elemento constituinte.
Refer�ncias
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[Entregue: 15 jul 21 –
Aceito: 15 ago 21]
[38] Doutorando no Programa
de P—s-gradua�‹o em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa,
Mestre em Gest‹o do Territ—rio pelo PPGEO-UEPG, Especialista em Hist—ria, Arte
e Cultura pelo PPGH-UEPG, Graduado (Bacharel e Licenciatura) em Artes Pl‡sticas
pela UFU, Integrante dos grupos de pesquisa CNPQ: Geografia e Hist—ria: mem—ria
social e patrim™nio cultural UEPG, Grupo de
Pr‡ticas de Pesquisas Qualitativas em Geografia UEPG e do Nœcleo de
Pesquisa em Pintura e Ensino UFU, Atua como professor de Artes pela Secretaria
de Estado da Educa�‹o do Paran‡, Artista Visual, suas pesquisas abarcam os
seguintes temas: Arte - Educa�‹o, Paisagem, Bens Culturais, Antropologia Visual
e Folias de Reis.
[39] Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (2007),
Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (1997),
Especialista em Geografia Humana pela Unicentro (1991), licenciado em Geografia
pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (1984) e Bacharel em Administra�‹o
de Empresas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (1984). Professor
Associado da Universidade Estadual de Ponta Grossa: Programa de P—s-gradua�‹o
em Geografia e Departamento de Geoci�ncias. çreas de atua�‹o: Geografia Social
e Cultural, Geografia Hist—rica (mem—ria social, patrim™nio cultural, hist—ria
da cidade, planejamento urbano e turismo). L’der do Grupo de Pesquisa
(CNPq/UEPG): Geografia e Hist—ria: Patrim™nio Cultural e Mem—ria Social.
Presidente da Associa�‹o de Preserva�‹o do Patrim™nio Cultural e Natural
(APPAC). Membro do Conselho Municipal do Patrim™nio Cultural de Ponta Grossa
(COMPAC) – UEPG.
[40] O munic’pio de Carmo do Rio Claro situa-se na mesorregi‹o
Sul/Sudoeste do estado de Minas Gerais, a 363 quil™metros da capital Belo
Horizonte e possui popula�‹o estimada pelo IBGE (2018) entorno de 21.180
habitantes.
[41] Entrevista concedida ao autor em 23/01/2019 com os membros
das equipes pastorais do Conselho pastoral paroquial Sagrada Fam’lia e do Conselho
pastoral paroquial Nossa Senhora do Carmo.