Paisagem Religiosa: o Catolicismo Popular e as Companhias de Reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG

 

 

Religious Landscape: Popular Catholicism and the Company of Kings and the Company of the Baby Jesus of Carmo Do Rio Claro, MG

 

 

F‡bio Martins[38]

https://orcid.org/0000-0003-4290-4086

 

Leonel Brizolla Monastirsky[39]

https://orcid.org/0000-0003-1853-8960

 

 

Resumo: No munic’pio de Carmo do Rio Claro-MG evidencia-se a express‹o do catolicismo popular, com destaque para um sistema cultural religioso e inœmeras pr‡ticas de religiosidade vinculadas ao calend‡rio litœrgico. A partir da observa�‹o das Companhias de Reis e do Menino Jesus buscou-se identificar as diversas pr‡ticas de religiosidade popular e a espacialidade dos s’mbolos e manifesta�›es religiosas. Ainda focou-se na identifica�‹o e interpreta�‹o da simbologia que as sustentam. Como metodologia adotou-se a pesquisa de campo - com a observa�‹o participante e a realiza�‹o de entrevistas. O conceito de paisagem religiosa foi contemplado na perspectiva da Geografia Cultural como pressuposto para se pensar as Companhias de Reis e do Menino Jesus enquanto um sistema de cren�a religiosa, permeada por c—digos, s’mbolos e signos que revelam pr‡ticas hist—ricas, viv�ncias, mem—rias individuais e coletivas para ser preservadas.

Palavras-chave: Paisagem; Religiosidade; Manifesta�›es religiosas; Catolicismo popular; Geografia Cultural.

 

Abstract: In the munic’pality of Carmo do Rio Claro-MG, the expression of popular Catholicism is evident, with emphasis on a religious cultural system and numerous practices of religiosity linked to the liturgical calendar. From the close observation of the Company of Kings and the Company of the Baby Jesus, we sought to identify the various practices of popular religiosity and the spatiality of symbols and religious manifestations. It also focused on identifying and interpreting the symbolism that underpins them. Field research was adopted as a methodology - with participant observation and the conducting of interviews. The concept of religious landscape was considered from the perspective of Cultural Geography as a presupposition for thinking about the Company of Kings and the Company of Baby Jesus as a system of religious belief, permeated by codes, symbols and signs that reveal historical practices, experiences, as well as individual and collective memories to be preserved.

Keywords: Landscape; Religiosity; Religious Manifestations; Popular Catholicism; Cultural Geography.

 

 

Introdu�‹o

 

A presen�a das manifesta�›es de religiosidade do catolicismo popular na paisagem de Carmo do Rio Claro-MG[40], se configura desde a funda�‹o do munic’pio, dos cinco grupos de Companhias de Reis, quatro ternos de Congo, um terno de Mo�ambique, alŽm de grupos de homens rezadores para almas. Atualmente, apenas quatro grupos de Companhias mant�m suas atividades, sendo tr�s Companhias no per’metro urbano: Companhia do Menino Jesus e duas Companhias de Reis (Estrela da Guia e Estrela do Oriente), alŽm de uma Companhia de Reis no distrito rural das Tr�s Barras. 

Com a significativa redu�‹o dessas manifesta�›es de religiosidade popular e a representatividade dessa tradi�‹o cultural no estado e no pr—prio munic’pio, como elemento integrante da paisagem tem-se sua presen�a durante o ciclo natalino, em locais como pra�as, igrejas, ruas, estradas, casas, na jornada dos foli›es.

A presente pesquisa tem como objetivo identificar as diversas pr‡ticas de religiosidade popular e a espacialidade que assume os s’mbolos e manifesta�›es religiosas. A escolha da tem‡tica e do recorte espacial justificam-se pela identifica�‹o de uma multiplicidade de saberes e pr‡ticas populares envolvendo a religiosidade.  Adotou-se como aporte metodol—gico a pesquisa de campo durante o per’odo de 25 de dezembro de 2018 a 27 janeiro de 2019, atravŽs da observa�‹o participante e entrevistas semiestruturadas.

O trabalho de campo permite captar subjetividades, significados, sentidos e caracter’sticas socioculturais. Uma das pr‡ticas de pesquisa qualitativa mais difundida Ž a observa�‹o participante ou participativa, em que existe media�‹o, a�‹o dial—gica e elabora�‹o conjunta entre o pesquisador com os interesses da comunidade ou grupo, Òenvolvendo tomadas de decis›es sobre uso de recursos, demanda ou ado�‹o de pol’ticas pœblicas.Ó (HEIDRICH, 2016, p. 25).

Na primeira se�‹o faz-se uma discuss‹o te—rico-conceitual da paisagem religiosa pela perspectiva da Geografia Cultural. Na segunda se�‹o revela-se a paisagem religiosa desde a funda�‹o do munic’pio mineiro mantendo viva uma sŽrie de tradi�›es, como as Companhias de Reis e do Menino Jesus. A terceira se�‹o aborda na paisagem a religiosidade popular atrelada ao catolicismo.

 

 

A paisagem religiosa na geografia cultural

 

As pesquisas da geografia cultural, p—s 1970, abordam Ò[...] o simbolismo de coisas e objetos na paisagemÓ enfatizando aspectos materiais e imateriais da cultura. (ROSENDAHL, 2012, p. 29-31). De acordo com Claval (1999, p. 14), a paisagem Ž como objeto de interpreta�‹o, pois Òcarrega a marca da cultura e serve-lhe de matrizÓ, assim como, Ž moldada e projetada pelas convic�›es religiosas.

Contudo, Òa religi‹o influencia, enfim, os ritmos de vida de todos pelos calend‡rios e as festas que institui. Ela cria para os sacerdotes e religiosos, g�neros de vida espec’ficos.Ó E, a partir de 1976, em Yi-Fu Tuan destaca Ò[...]o peso das representa�›es religiosasÓ, com intuito do conhecimento acerca da Òl—gica profunda das ideias, das ideologias ou das religi›es para ver como elas modelam a experi�ncia que as pessoas t�m no mundo e como influem sobre sua a�‹o.Ó (CLAVAL, 1999, p. 53).

A paisagem descrita por Dardel (2015, p. 32) circunscreve Òa inser�‹o do homem no mundo, lugar de um combate pela vida, manifesta�‹o de seu ser com os outros, base de seu ser social.Ó

A paisagem Ž um conjunto, uma converg�ncia, um momento vivido, uma liga�‹o interna, uma impress‹o que une todos os elementos. [...] A paisagem se unifica em torno de uma tonalidade afetiva dominante, perfeitamente v‡lida, ainda que refrat‡ria a toda redu�‹o puramente cient’fica. Ela coloca em quest‹o a totalidade do ser humano, suas liga�›es existenciais com a terra, ou se preferimos, sua geograficidade original: a terra como lugar, base e meio de sua realiza�‹o. (DARDEL, 2015, p. 31).

A Escola de Berkeley trouxe as qualidades simb—licas da paisagem, que sustentam seu significado social, como um texto Ò[...] a ser lido e interpretado como documento socialÓ, uma imagem cultural, que pode ser revelada enquanto configura�‹o de s’mbolos e signos atravŽs de diversos meios e superf’cies [...]Ó. (COSGROVE; JACKSON, 2011, p. 137).

Geertz (2012) prop›e a an‡lise de cren�as e pr‡ticas religiosas enquanto um sistema cultural, do qual o conceito semi—tico de cultura se adapta.

E sabendo-se que a paisagem conforme Torres (2013) est‡ em constante transforma�‹o e repleta de elementos simb—licos, sua leitura de mundo se estabelece a partir da experi�ncia de cada indiv’duo que interage com ela, Ò[...] seja no plano da materialidade das coisas que os seres humanos constroem/desconstroem e organizam no espa�o, seja no plano da imaterialidade; dos sentidos e significados atribu’dos a cada elemento constituinte da paisagemÓ. (p. 95).

As paisagens segundo Torres (2013) cont�m hist—rias e discursos, expressos em mem—rias individuais e coletivas de valores constru’dos ao longo do tempo, alŽm de confirmarem-se no subjetivo de cada indiv’duo, as paisagens tornam-se elos de contato a partir de experi�ncias de coletividade.

Os discursos decorrentes da paisagem e presentes nela podem estar contidos em uma ou mais formas simb—licas (arte, mito, religi‹o, linguagem), o que garante o sentido atribu’do a cada paisagem. Portanto, numa observa�‹o estŽtica da paisagem que considere apenas os subs’dios materiais vis’veis, elementos do sagrado podem passar despercebidos, o que inviabiliza ou minimiza o potencial do estudo da paisagem religiosa. (idem, p. 98).

Kozel (2012) destaca a paisagem pelos mœltiplos elementos (visuais, sonoros, odor’feros, palat‡veis e t‡cteis), sendo estes, portadores de significados por aqueles que os vivenciam. Portanto, h‡ Òinœmeras maneiras de represent‡-la, uma vez que tambŽm s‹o inœmeras as percep�›es, valores e significa�›es de quem vive e capta essa paisagem.Ó (p. 68).

Cada paisagem Ž produto e produtora de cultura, e Ž possuidora de formas e cores, odores, sons e movimentos, que podem ser experienciados por cada pessoa que nela se insira, ou abstra’do por aquele que l� pelos relatos e/ou imagens. Nesse sentido, Ž por meio da paisagem que os elementos que integram no espa�o Ôsaltam aos olhosÕ do ser humano, Ôgritam aos seus ouvidosÕ, e envolvem-no nas suas dimens›es sens’veis. (KOZEL, 2012, p. 69).

Desse modo, a reflex‹o posta por esses autores possibilita a compreens‹o da paisagem das Companhias de Reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG enquanto um sistema de cren�a religiosa permeada por c—digos, s’mbolos e signos, que se revelam atravŽs das viv�ncias, mem—rias individuais e coletivas.

 

Paisagem religiosa em Carmo do Rio Claro-MG

 

 

O processo hist—rico de forma�‹o cultural em Carmo do Rio Claro-MG, desenvolveu-se em face a uma paisagem marcada por serras, vales, ribeir›es, cachoeiras, alŽm do Rio Grande (Jetic‡) e do Rio Sapuca’. Conforme Grilo (1996, p. 11-14), a paisagem revela-se pela linguagem poŽtica e geogr‡fica:

Vemos l‡ no alto. Depois de um breve descanso do esfor�o de subida, calmamente fiquemos de pŽ e olhemos a nossa volta. Se apontarmos o nosso bra�o direito para o lado onde o sol est‡ nascendo, veremos ˆ nossa frente bem aqui embaixo, ao pŽ da serra a cidade est‡ acordando... Um pouco a direita e seguindo para o norte, que Ž tudo o que vemos ˆ nossa frente, h‡ uma superf’cie prateada e recortada: s‹o as ‡guas da represa de Furnas que chegam atŽ perto da cidade. Depois das ‡guas, cresce a silhueta escuro-azulada das serras; come�am bem a frente, como Serra da Tromba e v‹o se espichando na dire�‹o do nosso bra�o esquerdo (para Oeste), como Serra do Ferreira, Serra do Tabuleiro e Serra dos Pinheiros, bem longe, na dire�‹o de Alpin—polis... Ali, ao pŽ do Tabuleiro e dos Pinheiros, h‡ um represamento especial das ‡guas. Hoje n‹o d‡ pra perceber que Ž um rio, mas Ž um rio represado, e um rio muito importante para n—s: o Sapuca’.

Enquanto isso, vamos olhar na dire�‹o do nosso bra�o esquerdo: aqui embaixo, bem ao lado da cidade, come�a uma outra serra formada por duas sequ�ncias: a da Rapadura e do Santana. Dirige-se sempre para o oeste inclinando um pouco a norte: parece que vai se encontrar com a dos Pinheiros l‡ longe, j‡ perto da Ventania.

Entre estas, e na mesma dire�‹o, fica, portanto, uma regi‹o baixa, alongada, com pouca eleva�‹o, v‡rios c—rregos pequenos que, daqui do alto, quando os vemos, parecem fiozinhos de prata. Podemos chamar a esta ‡rea de vale e talvez pudŽssemos dar-lhe o nome de Vale do ItapichŽ, pois este Ž seu principal ribeir‹o. TambŽm segue na dire�‹o da Serra da Ventania e morre l‡, aos seus pŽs.

Olhando, ao contr‡rio, na dire�‹o de nosso bra�o direito (leste) vemos em primeiro lugar o pr—prio prolongamento da serra em que estamos, que Ž hoje chamada de Tormenta. Logo depois dela, mais ‡gua, mais represa. A’ tambŽm est‡ o Rio que n‹o vemos, o Sapuca’...Para alŽm das ‡guas, podemos ver um pouco emba�ados os prolongamentos dos morros e as regi›es mais planas que formam os campos. De um lado, os morros e as regi›es mais planas que formam os campos, os Campos Gerais, o Campo do Meio e outros...Temos de virar de costas. Vamos apontar agora o nosso bra�o esquerdo na dire�‹o do sol nascente e dando as costas a Serra da Tromba e a cidade. Bem a nossa frente (Sul) logo ao pŽ da serra em que estamos, podemos ver uma ponta da represa que depois se prolonga em dois fios de ‡gua: Ž onde o Rio Claro, que vem mais do sul, se encontra com o Santa QuitŽria, que vem quase beirando a Serra da Rapadura. Hoje desaparecem juntos na represa; antes, desaguavam juntos no Rio Sapuca’, formando a barra do Rio Claro. Depois se estendem outros morros, outras serras, outras pontas de represa – uma delas, bem ao longe, Ž a do Rio Mo�ambo ou Muzambo – outras, mais pr—ximas s‹o as do Correnteza, do Cavaco etc.

Nesta paisagem t‹o rebuscada de morros, serras, rios e c—rregos de Carmo do Rio Claro-MG reverbera-se manifesta�›es de religiosidade popular vinculadas aos calend‡rios litœrgico e c’clico, pautado em celebra�›es - missas, novenas, prociss›es, comemora�›es e festejos.

Identificou-se a seguinte organiza�‹o das atividades religiosas e per’odos em um calend‡rio litœrgico (Quadro 01): entre os meses de dezembro e janeiro contempla-se o ciclo de comemora�›es natalinas que se encerra com a festa da epifania; entre os meses de fevereiro, mar�o e abril, contempla-se o per’odo de quarenta dias da quaresma, alŽm das celebra�›es da semana santa; j‡ entre os meses de junho a novembro, contemplam-se as celebra�›es e ou comemora�›es mensais: Corpus Christi (junho), padroeira do munic’pio Nossa Senhora do Carmo (julho), Bom Jesus dos Aflitos do Itacy (agosto), Nossa Senhora Aparecida (outubro) e finados (novembro). (INFORMA‚ÌO VERBAL[41]).

 

Quadro 01- Calend‡rio Litœrgico

Celebra�›es e Manifesta�›es de Religiosidade em Carmo Do Rio Claro (MG)

 

ATIVIDADE

PERêODO

LOCAL

DEZEMBRO

Novenas de Natal

Durante todo o m�s de dezembro

Casa das fam’lias

Apresenta�‹o dos Grupos de Companhias de Reis e do Menino Jesus

25 de dezembro a 06 de janeiro - per’odo que pode se estender em fun�‹o das demandas de promessas

Casa das fam’lias (devotos de Santos Reis)

Missa da Passagem de Ano

òltimo dia do m�s de dezembro

Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima e Sagrada Fam’lia

JANEIRO

Festejo de chegada dos grupos de Companhia de Reis e do Menino Jesus

Dia 06 de janeiro

Participa�‹o dos grupos Companhias nas missas.

Chegada das Companhias de Reis: Sal‹o de festa Igreja Matriz Sagrada Fam’lia e do Menino Jesus: Lar do Idoso Frederico Ozana

FEVEREIRO - MAR‚O - ABRIL

Quaresma

 

40 dias

V‡rias localidades: atividades que se iniciam na Quarta-Feira de Cinzas e se estendem atŽ a comemora�‹o da P‡scoa

Quarta-feira de Cinzas

Ap—s os festejos de carnaval entre os meses de fevereiro ou mar�o

Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima e Sagrada Fam’lia: celebra�›es com a un�‹o e distribui�‹o de cinzas

Vias Sacras

40 dias durante a quaresma: quartas e sextas

Pelas ruas da cidade ou dentro da Igreja

Prociss‹o Penitencial

Todas as sextas durante a quaresma

Ruas da cidade: 5 horas da manh‹

Prociss‹o Domingo de Ramos

Durante a Semana Santa

Capela N. Sr. dos Passos atŽ a Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima

Prociss‹o do Dep—sito

Segunda-feira ˆ noite - Semana Santa

Condu�‹o das Imagens de N. Sr. dos Passos (por homens) e de N. Sr.» das Dores (por mulheres) as suas Capelas de origem

Vig’lia

Segunda-feira ˆ noite - Semana Santa

Capela N. Sr. dos Passos

Prociss‹o do Encontro

Quarta-feira ˆ noite - Semana Santa

Condu�‹o das Imagens de N. Sr. dos Passos (por homens) e de N. Sr. a. das Dores (por mulheres) atŽ a Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima

Institui�‹o da Eucaristia e Missa de Lava PŽs

Quinta-feira ˆ noite - Semana Santa

Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima

Ato de Penit�ncia

Quinta-feira ˆ noite - Semana Santa

Subida da Serra da Tormenta

Via Sacra dos Jovens

Sexta-feira da paix‹o Semana Santa

Subida da Serra da Tormenta

Prociss‹o das Velas: Jesus morto com os esquifes

Sexta-feira da paix‹o - Semana Santa

A imagem de Jesus morto com os esquifes sai da Igreja Matriz e faz um percurso em torno da Pra�a Cap. Pedro Tito Pereira com retorno ˆ Matriz

Missa de Aleluia

S‡bado ap—s sexta-feira da Paix‹o de Cristo

Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo e Sagrada Fam’lia

Prociss‹o da Ressurrei�‹o

Domingo de manh‹ ap—s S‡bado de Aleluia

Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo: Missa na Capela do Senhor dos Passos com prociss‹o atŽ a Matriz Senhora de Carmo

Sagrada Fam’lia: ruas do bairro Jardim AmŽrica

JUNHO

Celebra�›es de Corpus Christi

Comemorado no m�s de junho 60 dias ap—s a P‡scoa

Igreja Matriz Nossa Senhora de Carmo e Sagrada Fam’lia: confec�‹o de tapetes art’sticos para prociss‹o nas ruas pr—ximas ˆs igrejas

JULHO

Comemora�›es padroeira Nossa Senhora do Carmo: prociss‹o e festejos

16 de julho

Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo:

Prociss‹o de Nossa Senhora do Carmo pelas ruas da cidade; alŽm de festa de barraca armada na pra�a em frente ˆ Igreja

AGOSTO

Celebra�›es e festejos Bom Jesus dos Aflitos do Itacy

29 de julho a 06 de agosto

 

Santu‡rio Bom Jesus dos Aflitos: Novena e missas do Bom Jesus dos Aflitos, distrito do Itacy, fluxo de 30 a 50 mil devotos

OUTUBRO

Nossa Senhora Aparecida

15 de outubro

Subida da serra da tormenta atŽ a capelinha Nossa Senhora Aparecida; Celebra�›es de missas nas matrizes Nossa Senhora de F‡tima e Sagrada Fam’lia

NOVEMBRO

Finados

O2 de novembro

Visita�‹o aos tœmulos no cemitŽrio municipal de Carmo do Rio Claro (MG)

Fonte: Informa�‹o Verbal, 2029. Org.: O Autor

 

Existem ainda, as pr‡ticas de religiosidade que acontecem semanalmente, como as missas nos bairros e na zona rural, o ter�o dos homens, grupos de ora�›es, catequese e visita�‹o da capelinha M‹e Rainha nas casas dos devotos (Quadro 2).

 

Quadro 02- Atividades de Religiosidade que acontecem durante todo o ano

ATIVIDADE

LOCAL

Missas semanais nas Igrejas Matrizes

Igreja Matriz Nossa Senhora de Carmo e Sagrada Fam’lia

Missas com celebra�›es nos bairros

Capela Nosso Senhor dos Passos, Jacuba, Ros‡rio, Porto, Bananal, S‹o Benedito e Nosso Senhor dos Aflitos

Ter�o dos homens

Segunda-feira Par—quia Sagrada Fam’lia e quarta-feira Par—quia Nossa Senhora do Carmo

Grupos de ora�›es

Segunda-feira: Par—quia Sagrada Fam’lia; Quarta-feira: Capela do Hospital (S‹o Vicente de Paulo) e sexta-feira: Capela S‹o Benedito

Visita�‹o uma vez por m�s da capelinha M‹e Rainha Nossa Senhora de Schoenstatt

Casas de devotos

Catequese

Par—quia Nossa Senhora do Carmo funciona de segunda a sexta com hor‡rios espec’ficos

Par—quia Sagrada Fam’lia: Primeira etapa (eucaristia), quarta-feira ˆs 17:30. Segunda etapa (crisma) domingo ˆs 18:00

Missas rurais

Par—quia Sagrada Fam’lia: quinta-feira em um bairro rural.

Par—quia Nossa Senhora do Carmo: quarta-feira em um bairro rural

Missas setoriais (bairros)

Par—quia Nossa Senhora do Carmo celebra na segunda-feira e no s‡bado missas nos bairros

Grupo de Jovens

Encontro semanal ˆs quintas-feiras ˆ noite ap—s a missa

Fonte: Informa�‹o Verbal, 2029. Org.: O Autor

 

As diversas pr‡ticas de religiosidade configuram a paisagem de Carmo do Rio Claro, h‡ cerca de um sŽculo e meio, por meio de elementos simb—licos materiais e imateriais que carregam consigo elos de uma tradi�‹o em celebra�›es e festejos, experienciados de forma coletiva ou individual em face de distintas espacialidades.

As espacialidades (imagem 1) vivenciadas pelas pr‡ticas de religiosidade do catolicismo popular vinculam-se a nove locais - igrejas matrizes: Nossa Senhora do Carmo, situada no centro da cidade e a Sagrada Fam’lia, situada no bairro Rua Nova; Capela Nosso Senhor dos Passos, situada aos ÔpŽs da Serra da TormentaÕ e a Capela de Nossa Senhora Aparecida no alto da Serra da Tormenta; Igreja do Ros‡rio e Igreja S‹o Benedito nos bairros do Ros‡rio e S‹o Benedito; Centro de Forma�‹o S‹o JosŽ situado no bairro Cora�‹o Eucar’stico; Capela do Hospital S‹o Vicente de Paulo situado no bairro Santo Ant™nio; e o CemitŽrio Municipal situado no bairro Rua Nova.

 

A capela Nosso Senhor dos Passos, constru’da em estilo colonial aos pŽs da Serra da Tormenta no ano de 1860, constitui-se a edifica�‹o mais antiga do munic’pio e abriga a imagem de Nosso Senhor dos Passos que faz parte da prestigiada Prociss‹o do Encontro realizada durante a semana santa.

No centro da cidade fica a igreja matriz Nossa Senhora do Carmo, onde h‡ mais de um sŽculo ocorre a maior parte das celebra�›es e ritos religiosos, como as prociss›es do Encontro e do Senhor Morto, que na semana santa reœnem milhares de fiŽis em caminhada pelas ruas da cidade, alŽm das celebra�›es de Corpus Christi e a festa em louvor a Nossa Senhora do Carmo.

Uma espacialidade Ž evidenciada na quarta-feira da semana santa, quando realizam a prociss‹o do Encontro. Enquanto a imagem sacra de Nosso Senhor dos Passos Ž carregada por homens que partem da Capela Nosso Senhor dos Passos com destino ˆ igreja matriz Nossa Senhora do Carmo, a imagem de Nossa Senhora das Dores paralelamente Ž carregada atŽ aquela, por mulheres da Igreja de Nossa Senhora do Ros‡rio.

 

Imagem 1 - Espacialidades vivenciadas pelas pr‡ticas de religiosidade do catolicismo popular em Carmo do Rio Claro - MG.

Ilustra�›es: Autor (2020), Aquarela sobre papel.


A prociss‹o de Jesus Morto com os Esquifes acontece na noite da sexta-feira da semana santa (da paix‹o). Popularmente conhecida como prociss‹o das Velas, os fiŽis, empunhando suas velas acesas, conduzem ora�›es e cantos penitenciais fœnebres de alus‹o a Jesus Morto. Ap—s a prociss‹o, a imagem de Jesus Morto adentra a igreja Nossa Senhora do Carmo onde as pessoas fazem suas rever�ncias ˆ imagem.

 No m�s de julho, comemora-se o anivers‡rio da padroeira do munic’pio com festejos de barraca em frente ˆ igreja matriz, alŽm da prociss‹o, na qual os fiŽis proferem hinos de louvor ˆ imagem de Nossa Senhora do Carmo. 

A Igreja Nossa Senhora do Ros‡rio e S‹o Benedito, atŽ meados de 1990, realizavam pr‡ticas vinculadas ˆ religiosidade de matrizes africanas, como a Congada e o Mo�ambique, quando existiam ternos de congo e Mo�ambique que sa’am em cortejo pelas ruas da cidade ao encontro do seu rei e da sua rainha. A chegada destes grupos acontecia na pra�a localizada em frente ˆ Igreja do Ros‡rio, entre o cruzeiro e a igreja, dan�avam e cantavam sincronizados ˆ sonoridade dos instrumentos percussivos e das latinhas com pedrinhas e sementes amarradas nas pernas. A pra�a tambŽm era palco de outras celebra�›es dedicadas ˆ Nossa Senhora do Ros‡rio, onde se realizava a prociss‹o pelo bairro, missas e o festejo.

Ainda na pra�a em frente ˆ Igreja do Ros‡rio atŽ a dŽcada de 1990, durante o ciclo natalino, no dia 06 de janeiro, acontecia o rito de chegada (imagem 2) do grupo de Companhia de Reis Estrela da Guia para celebrar o dia dos Santos Reis. Arcos de bambu, fitas e correntes de papŽis coloridos enfeitavam a pra�a, de modo que a paisagem se transformava no palco de consagra�‹o de mais um ciclo de jornada completado pelos foli›es.

Imagem 2 - Rito de chegada Companhia de Reis Estrela da Guia.

Fonte: Acervo do Grupo (S. d.).


Nos meses de junho ou julho a pra�a do Ros‡rio era decorada com bandeirinhas. Ali acontecia a festa junina com a apresenta�‹o de quadrilhas. TambŽm era comum nesse per’odo a pr‡tica de ter�os dedicados aos santos cat—licos, como S‹o Jo‹o e Santo Ant™nio. Em v‡rias casas da cidade erguiam-se mastros de bambu, com lim›es espetados em suas varetas. No seu topo, colocava-se a imagem de um santo, que era decorada com flores de pl‡stico ao seu redor.

No cruzeiro localizado em frente ˆ Igreja do Ros‡rio e em outros, realiza-se a pr‡tica de descarte de imagens de santos quebrados, devido ˆ tradi�‹o popular de que o descarte incorreto traz castigos. O cruzeiro tambŽm era o local de onde partiam na madrugada, no per’odo da quaresma, um grupo de homens, os cantadores para as almas. Acompanhados de um instrumento percussivo de madeira, matraca, cantavam na frente de algumas casas para as almas de pessoas j‡ falecidas. Existia a cren�a de que n‹o se podia observar esse rito, sobre o risco de visualizar imagens das almas dos falecidos.

Na Serra da Tormenta, todos os anos, milhares de fiŽis realizam a subida atŽ seu cume, onde encontra-se localizada a capela dedicada ˆ Nossa Senhora Aparecida, para os agradecimentos, ora�›es e dep—sito de objetos pelas gra�as alcan�adas.

No ano de 2006, ocorreu a constru�‹o da Igreja Matriz Sagrada Fam’lia e com isso as principais atividades religiosas, ritos e celebra�›es, passaram a acontecer de forma paralela nas duas par—quias.

O Santu‡rio Bom Jesus dos Aflitos atrai no m�s de agosto um fluxo de 30 a 50 mil pessoas, para as celebra�›es de missas e novenas. Parte dos fiŽis atravessa de balsa a represa de Furnas, para visitar o santu‡rio e depositar objetos ˆs gra�as alcan�adas.

As manifesta�›es ligadas ao catolicismo de Carmo do Rio Claro-MG fazem-se presentes no calend‡rio litœrgico durante todo o ano, de modo que milhares de fiŽis (re)vivem pr‡ticas de fŽ dedicadas a distintos santos em diferentes espacialidades. Nesse contexto, marcado pelas manifesta�›es de religiosidade popular, aprofundar-se-‡ nas Companhias de Reis e do Menino Jesus.

 

 

Uma paisagem religiosa pelo catolicismo popular: as Companhias de Reis e do Menino Jesus

1.Tendo, pois, Jesus nascido em BelŽm de Jud‡, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a JerusalŽm. 2. Perguntaram eles: ÔOnde est‡ o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos ador‡-loÕ. 3. A essa not’cia, o rei Herodes ficou perturbado e toda JerusalŽm com ele. 4. Convocou os pr’ncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo. 5. Disseram-lhe: ÔEm BelŽm, na Judeia, porque assim foi escrito pelo profeta: 6. E tu, BelŽm, terra de Jud‡, n‹o Žs de modo algum a menor entre as cidades de Jud‡, porque de ti sair‡ o chefe que governar‡ Israel, meu povoÕ. 7. Herodes, ent‹o, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a Žpoca exata em que o astro lhes tinha aparecido. 8. E, enviando-os a BelŽm, disse: ÔIde e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu tambŽm v‡ ador‡-loÕ. 9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi precedendo atŽ chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou. 10. A apari�‹o daquela estrela os encheu de profunda alegria. 11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua m‹e. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra. 12. Avisados em sonhos de n‹o tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.Õ (MATHEUS II: 1-12). 

Ap—s um ano de espera, Ž chegada a hora! J‡ nasceu o menino Deus. Os instrumentos que se encontravam adormecidos em um cantinho de suas moradas reavivam-se: a sanfona volta a respirar as melodias da devo�‹o; a caixa sente aos poucos o despertar de sua coura�a animal, que ressuscita ao esticar/estralar/receber o pulsar das batidas, que emergem em comunh‹o com o cora�‹o daqueles que insistem em reviver esta tradi�‹o; o chocalho se contorce ao guizo movimento repetitivo; o pandeiro se revolta ao trepidar de um ritmo frenŽtico a sentir o contato das m‹os que o movimenta de um lado a outro, num zigue-zague sonoro; os encordoamentos aos poucos aproximam dedos e corpos em busca da afina�‹o perfeita, que dar‡ ritmo aos diferentes timbres de vozes ˆqueles que est‹o em prontid‹o: Ž chegada a hora!

Tr�s Reis preparam-se novamente para sair em jornada. Guiados pela estrela do oriente v‹o em busca do Menino Deus, da esperan�a e da fŽ. Revelam-se atravŽs do objeto sagrado: a bandeira, e seguem sempre ˆ frente acompanhados por cantadores e basti›es que fazem alus‹o aos guardas de Herodes em disfarce, com a miss‹o de matar o recŽm-nascido em BelŽm de Jud‡.

A paisagem sonora dos transeuntes/autom—veis/p‡ssaros/ ou do sil�ncio noturno cede espa�o aos anjos que cantam na gl—ria: Ž chegada a hora! Assim, a paisagem se transforma em face de uma melodia caracter’stica, da qual o gingado da sanfona, aliado ˆ batida da caixa anuncia: Ž chegada a hora! Ao longe, a popula�‹o avista a chegada dos Reis Santos que s‹o escoltados pelo colorido dos adere�os/roupagens dos foli›es. Basti›es sussurram em meio a performances corporais, e s‹o observados por devotos em janelas/portas/cal�adas de suas moradas.

As portas abertas se fazem c—digo ˆ recep�‹o: d‡ licen�a patr‹o/d‡ licen�a patroa, Ž chegada a hora! Em sil�ncio, junto ao representante da morada, Tr�s Reis Santos adentram na busca pelo Menino Deus; mœsicos cantadores v‹o se acomodando. Encontramos o menino Deus: Ž chegada a hora da adora�‹o! O s’mbolo do arrependimento se revela na figura dos basti›es, que em nome dos Tr�s Reis Santos proferem adora�›es e ofertas simb—licas: ouro, incenso e mirra na forma de trovas.

Mas a troca de ofertas vai alŽm; e os instrumentos musicais anunciam: Ž chegada a hora de ben�‹o ˆs fam’lias! Em nome dos Tr�s Reis Santos, vozes germinam solo-conjunto; embaixador-poeta-criador atento aos detalhes profere versos em forma de cantos: b�n�‹os, pedidos e agradecimentos; e assim os salutares de vozes encaixam-se em seis tonalidades distintas. Na paisagem ’ntima da morada, devotos acompanhados de emo�›es distintas, expressam l‡grimas em face de olhares enobrecidos: reveladores testemunhos de sœplicas e gra�as. Completadas as sauda�›es: Ž chegada a hora da despedida. Um instante, pois Tr�s Reis Santos ainda ter‹o que visitar os c™modos da morada, neste ’ntimo sobrep›em-se b�n�‹os a objetos e fotografias dos entes familiares.

ƒ chegada a hora: pagamento de promessas! A retribui�‹o de uma gra�a pode se configurar atravŽs de um banquete: cafŽ, almo�o ou janta. A paisagem neste momento se mistura entre as melodias de sons, devo�‹o, aromas. Card‡pios variados exibem a diversidade de texturas/cores/sabores/paladares. Alimentos que despertam gratid‹o daqueles que em suas jornadas s‹o contemplados com a fartura e la�os de sociabilidade, reveladores de trocas simb—licas: alimentos para corpo em contrapartida ao alimento para a alma: fŽ/b�n�‹os ofertadas aos familiares. Tr�s Reis Santos agradecem e v‹o embora descansar para mais um dia de caminhada.

Ap—s cumprido mais um ciclo de jornada Ž chegada a hora dos festejos! Encontraram o menino Deus! A sociedade carmelitana, reunida, aguarda a chegada dos viajadores. Bingos, leil›es, comidas, bebidas e mœsica comp›em a paisagem; arcos de bambu adornados por correntes coloridas de papel que s‹o rompidos, simbolizam as dificuldades superadas em cada dia desta longa jornada que abre caminho a BelŽm.  ƒ chegada a hora: eis que vieram ador‡-lo! Ali est‡ o Menino Deus! Viva o Menino Deus! Na orla do altar, a musicalidade embriagada de emo�‹o toma conta dos viajadores que proferem versos e prosas atravŽs de cantos/adora�›es ao Menino Deus! Salve, Salve: Pastores e Foli›es! Eis que foi cumprida nossa miss‹o; Ž chegada a hora do retorno e atŽ o ano... se Deus quiser!

Esta paisagem religiosa indica um mundo c—smico, santificado no tempo sagrado das festas, tempo m’tico, tempo litœrgico, ou seja, um tempo circular, revers’vel, recuper‡vel, indefinidamente repet’vel, ÒespŽcie de eterno presente m’tico que o homem emprega periodicamente pela linguagem dos ritos.Ó (ELIADE, 2018, p. 64).

As Folias ou Companhias de Reis s‹o constru�›es cosmol—gicas do catolicismo popular orientadas pelo nascimento de Cristo e pela Epifania, de modo a reproduzir a viagem dos Tr�s Reis Magos, guiados por uma estrela para a adora�‹o do menino Jesus em BelŽm. Brand‹o (1977) destaca que as Folias de Reis s‹o formadas por um grupo de precat—rios que saem em jornada no ciclo natalino de 25 de dezembro a 6 de janeiro, composta por mœsicos, instrumentistas, bandeiristas e palha�os - os foli›es v‹o de casa em casa apresentando suas cantorias, levando b�n�‹os ˆs fam’lias de devotos e recolhendo esmolas. 

 

Imagem 3 - Cortejo Companhia de Reis Estrela da Guia.

Fotografia: Autor (2020).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O fen™meno religioso conforme Pereira e Torres (2016) abarca a experi�ncia humana em extratos f’sicos materiais e simb—licos, e, funde o mundo dos sentidos com o mundo da imagina�‹o. Assim, tem-se Òespacialidades f’sicas, como templos, igrejas, santu‡rios, sinagogas, mesquitas, terreiros e demais constru�›es diversasÓ; como tambŽm espacialidades n‹o materiais: Òdiscursos, narrativas, mitos, sistemas teol—gicos, mœsicas, sons etcÓ. Tais espacialidades podem estar em movimento Ò[...] como as peregrina�›es, as romarias, as v‡rias jornadas espirituais ou comportamentos rituaisÓ. (p. 98).

A Companhia do Menino Jesus, presente no munic’pio de Carmo do Rio Claro-MG desde o ano de 1929, possui, inclusive, adapta�›es em sua estrutura e rito em rela�‹o ˆs Companhias de Reis. Os personagens presentes s‹o: Sime‹o, tr�s reizinhos e os pastores-cantadores que carregam o orat—rio com o menino Jesus (presŽpio andante) atŽ a casa dos fiŽis.

Imagem 4 - Companhia do Menino Jesus.

Fotografia: Autor (2020).


O espa�o sagrado que se constitui em torno dos referenciais e simbologias divide-se segundo Gil Filho (2008) em tr�s espacialidades: concreta de express›es religiosas, do pensamento religioso e das representa�›es simb—licas. Na espacialidade concreta tem-se o espa�o sagrado recebendo as pr‡ticas religiosas. Na espacialidade das representa�›es simb—licas projeta-se o plano da linguagem aos referenciais religiosos e na espacialidade de pensamento religioso articula o plano sens’vel ao do conhecimento religioso. 

            Estas espacialidades podem ser observadas em Carmo do Rio Claro em uma das falas da entrevista realizada em 2019 com um dos foli›es:

No evangelho existe uma pequena descri�‹o, o que nos Ž transmitido Ž que suas viagens tiveram in’cio no dia primeiro de janeiro e que sa’ram cada um de suas terras guiados por um sinal. Viajaram o dia todo e no final daquele primeiro dia eles se encontraram, se conheceram, dormiram e no segundo dia perceberam que apesar de serem de diferentes regi›es e sem estabelecer nenhuma comunica�‹o anterior, tinham o mesmo objetivo e receberam os mesmos sinais. Do segundo ao quarto dia em suas caminhadas, foram conhecendo suas diferen�as e o que cada um poderia oferecer para o outro. No quinto dia avistaram JerusalŽm, uma cidade grandiosa, sede do poder, o que chamou a aten�‹o dos Tr�s Reis. Vislumbrados acreditavam que o Rei do mundo s— poderia estar por ali, esquecendo-se do humilde sinal, a estrela que os guiava atŽ ent‹o, e foram atŽ a cidade de JerusalŽm. A partir da’ encontramos no evangelho de Matheus, o relato de que chegando atŽ a cidade, Herodes n‹o sabia do que se tratava, mandou que os Tr�s Reis seguissem viagem, pois ali n‹o existia nenhum outro rei alŽm dele, e pediu que sua guarda os acompanhasse. A partir do momento em que deixaram a cidade de JerusalŽm para tr‡s com a ilus‹o da claridade, conseguiram avistar novamente o sinal da simplicidade, a luz da estrela que os guiavam em sua viagem. Completando o sexto dia, chegaram atŽ BelŽm, uma cidade pobrezinha onde encontraram e adoraram o Menino Jesus. Esta caminhada do dia 01 ao dia 06 Ž uma caminhada de aprendizado, partilha. Assim como em nossas vidas, eles tiveram seus deslizes deixando se ofuscar pela grandeza de JerusalŽm, mas voltaram seu olhar novamente para a simplicidade do projeto de Deus para n—s. (INFORMA‚ÌO VERBAL, 2019).

Gil Filho (2008) tambŽm sugere quatro inst‰ncias de an‡lise aos estudos de fen™menos religiosos, sendo, a Òpaisagem religiosaÓ com sua materialidade, exterioridade e express‹o do sagrado; o Òsistema simb—lico culturalÓ com seu referencial conceitual, a l—gica simb—lica e o contexto religioso; as Òescrituras e tradi�›es sagradasÓ com as constru�›es epistemol—gicas, seu registro e transmiss‹o; e o Òsentimento religiosoÓ como a experi�ncia pessoal do sagrado.

Nesse sentido, compreende-se que as manifesta�›es de religiosidade popular: Companhias de Reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG, constituem elementos caracter’sticos de subjetividades presentes na paisagem religiosa local. As Companhias, atreladas ao calend‡rio litœrgico (natal/epifania), expressam-se atravŽs de peregrina�›es (espacialidades em movimentos em meio as ruas, casas, igrejas) permeadas por distintos momentos: ritos, performances, rela�›es de sociabilidades e trocas simb—licas.

 

 

Considera�›es finais

 

Desde os fins do sŽculo XVIII, o processo de forma�‹o e desenvolvimento hist—rico-cultural do munic’pio de Carmo do Rio Claro-MG se consolidou diante de um sistema cultural religioso alicer�ado em valores e preceitos do catolicismo. Inœmeras pr‡ticas de religiosidade popular vinculadas ao calend‡rio litœrgico, se consagram h‡ mais de dois sŽculos e seu reflexo faz-se presente na paisagem. Para Torres (2013), a paisagem Ž reflexo da rela�‹o direta com o ser humano, no plano material ou imaterial, pois comp›em-se de discursos e formas simb—licas - arte, mito, religi‹o e linguagem. Segundo Torres (2013) e Kozel (2012) o conceito de paisagem configura-se pela tr’ade: olhar/sentir/ouvir e perpassa por diferentes aspectos sensitivos - formas, cheiros, sons, texturas, cores, sabores, movimentos -, com os quais os indiv’duos percebem e atribuem significados a cada elemento constituinte.

 

 

Refer�ncias

 

BRANDÌO, C. R. A folia de reis de Moss‰medes. Rio de Janeiro: MinistŽrio da Educa�‹o e Cultura, Departamento de Assuntos Culturais, Funda�‹o Nacional de Arte-FUNARTE, 1977.

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CLAVAL, P. A geografia cultural. Florian—polis: UFSC, 1999.

 

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COSGROVE, D. Em dire�‹o a uma geografia radical: problemas da teoria. In: CORRæA, R. L., ROSENDAHL, Z. Introdu�‹o ˆ geografia cultural. 5. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

 

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DARDEL, E. O homem e a terra: a natureza da realidade geogr‡fica. S‹o Paulo: Perspectiva, 2015.

 

ELIADE, M. O sagrado e o profano: a ess�ncia das religi›es. S‹o Paulo: Martins Fontes, 2018.

 

GEERTZ, C. A interpreta�‹o das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2012.

 

GIL FILHO, S. F. Espa�o sagrado: estudos em geografia da religi‹o. Curitiba: Ibpex, 2008.

 

GRILO, A. T. Carmo do Rio Claro: aulas de hist—ria social caderno 1.  Carmo do Rio Claro: Departamento de Educa�‹o e Cultura, 1996.

 

HEIDRICH, ç. L. MŽtodo e metodologias na pesquisa das geografias com cultura e sociedade. In: HEIDRICH, çlvaro Luiz; PIRES, Claudia Luisa Zeferino. Abordagens e pr‡ticas da pesquisa qualitativa em geografia e saberes sobre espa�o e cultura. Porto Alegre: Letra1, 2016.

 

KOZEL, S. GeopoŽtica das paisagens: olhar, sentir e ouvir a natureza. Caderno de Geografia, Belo Horizonte, v. 22, n. 37, 2012.

 

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ROSENDAHL, Z. Hist—ria, teoria e mŽtodo em geografia da religi‹o. Espa�o e cultura, Rio de Janeiro, n. 31, p. 24-39, 2012.

 

TORRES, M. A. As paisagens da mem—ria e a identidade religiosa. Raega - O Espa�o Geogr‡fico em An‡lise, Curitiba, v. 27, p. 94-110, 2013.

 

 

[Entregue: 15 jul 21 – Aceito: 15 ago 21]



[38] Doutorando no Programa de P—s-gradua�‹o em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, Mestre em Gest‹o do Territ—rio pelo PPGEO-UEPG, Especialista em Hist—ria, Arte e Cultura pelo PPGH-UEPG, Graduado (Bacharel e Licenciatura) em Artes Pl‡sticas pela UFU, Integrante dos grupos de pesquisa CNPQ: Geografia e Hist—ria: mem—ria social e patrim™nio cultural UEPG, Grupo de Pr‡ticas de Pesquisas Qualitativas em Geografia UEPG e do Nœcleo de Pesquisa em Pintura e Ensino UFU, Atua como professor de Artes pela Secretaria de Estado da Educa�‹o do Paran‡, Artista Visual, suas pesquisas abarcam os seguintes temas: Arte - Educa�‹o, Paisagem, Bens Culturais, Antropologia Visual e Folias de Reis.

[39] Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (2007), Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (1997), Especialista em Geografia Humana pela Unicentro (1991), licenciado em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (1984) e Bacharel em Administra�‹o de Empresas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (1984). Professor Associado da Universidade Estadual de Ponta Grossa: Programa de P—s-gradua�‹o em Geografia e Departamento de Geoci�ncias. çreas de atua�‹o: Geografia Social e Cultural, Geografia Hist—rica (mem—ria social, patrim™nio cultural, hist—ria da cidade, planejamento urbano e turismo). L’der do Grupo de Pesquisa (CNPq/UEPG): Geografia e Hist—ria: Patrim™nio Cultural e Mem—ria Social. Presidente da Associa�‹o de Preserva�‹o do Patrim™nio Cultural e Natural (APPAC). Membro do Conselho Municipal do Patrim™nio Cultural de Ponta Grossa (COMPAC) – UEPG.

 

[40] O munic’pio de Carmo do Rio Claro situa-se na mesorregi‹o Sul/Sudoeste do estado de Minas Gerais, a 363 quil™metros da capital Belo Horizonte e possui popula�‹o estimada pelo IBGE (2018) entorno de 21.180 habitantes.

[41] Entrevista concedida ao autor em 23/01/2019 com os membros das equipes pastorais do Conselho pastoral paroquial Sagrada Fam’lia e do Conselho pastoral paroquial Nossa Senhora do Carmo.