Intertextos de Romeu e Julieta nos folhetos nordestinos
Intertexts of Romeo and Juliet in northeastern
leaflets
Weber Firmino Alves[23]
https://orcid.org/0000-0001-9012-9112
Naelza
de Araœjo Wanderley[24]
https://orcid.org/0000-0002-3622-7317
Resumo: As adapta�›es constituem
um fen™meno longevo que remonta ˆ GrŽcia antiga, quando os poetas iniciaram a
pr‡tica da releitura dos mitos, com a liberdade de modific‡-los e introduzir
inova�›es. Semelhantemente, os
cordelistas nordestinos, ao adaptarem narrativas can™nicas para os versos
populares dos folhetos, assumiram o papel de ÒtradutoresÓ de uma tradi�‹o
liter‡ria que passa a ser escrita em uma linguagem mais pr—xima do povo. Assim, o presente artigo discute a presen�a do intertexto de Romeu
e Julieta em folhetos nordestinos, incorporando adapta�›es dos textos-fonte. A leitura dos textos estabelece uma
compara�‹o com os intertextos desse amor contrariado nos cordŽis de Jo‹o
Martins de Athayde, Maria Ilza Bezerra, Sebasti‹o Marinho e StŽlio Torquato Lima,
a partir das ideias de Abreu (2004), Hutcheon (2013), Kristeva (2005),
Rougemont (1988), entre outros. Faz-se
uma avalia�‹o da constru�‹o do enredo de Romeu
e Julieta na tradi�‹o liter‡ria, com vistas a perceber nas adapta�›es para
o romanceiro nordestino, suas diverg�ncias e semelhan�as, compreendendo-se que
as adapta�›es n‹o s‹o c—pias, mas funcionam como produ�›es distintas,
assumindo importantes fun�›es sociais no contexto da cultura-alvo,
principalmente a de socializar um texto universal para a cultura local.
Palavras-Chave: Amor contrariado; Romeu e Julieta; Literatura; Cordel.
Abstract: Adaptations are a
long-lived phenomenon that dates back to ancient Greece, when poets began the
practice of re-reading myths, with the freedom to modify them and introduce
innovations. Similarly, Northeastern poets, by adapting canonical narratives to
the popular verses of the leaflets, assumed the role of ÒtranslatorsÓ of a
literary tradition that is now written in a language closer to the people.
Thus, this article discusses the presence of the Romeo and Juliet intertext in
northeastern leaflets, incorporating adaptations from the source texts. Reading
the texts establishes a comparison with the intertexts of this forbidden love
in the cordel
booklets of Jo‹o Martins de Athayde, Maria Ilza Bezerra,
Sebasti‹o Marinho and StŽlio Torquato Lima, based on the ideas of Abreu (2004),
Hutcheon (2013), Kristeva (2005), Rougemont (1988), among others. An evaluation
of the construction of the plot of Romeo and Juliet in the literary tradition
is made, with a view to realizing in the adaptations for the Northeastern
flyers, their divergences and similarities, understanding that the adaptations
are not copies, but function as distinct productions, assuming important social
functions in the context of the target culture, mainly that of socializing a
universal text for the local culture.
Keywords: Forbidden love; Romeo
and Juliet; Literature;
Cordel booklets.
Introdu�‹o
A hist—ria de Romeu e Julieta Ž conhecida como a
grande narrativa ocidental do amor rom‰ntico e retrata o sentimento puro de
afei�‹o entre dois jovens de fam’lias rivais que se apaixonam e p›em em xeque a
tradi�‹o de —dio entre suas fam’lias. Embora seja conhecida muito mais pela pe�a
de Shakespeare, a constru�‹o dessa hist—ria ocorreu ao longo de v‡rios sŽculos
atŽ tomar a forma proposta pelo bardo ingl�s. Entretanto, as adapta�›es do
enredo n‹o se encerraram na literatura inglesa, pois continuam sendo
(re)elaboradas atravŽs de recontos que s‹o apresentados ao pœblico em
diferentes suportes e linguagens.
Entre esses recontos
encontram-se as adapta�›es elaboradas por cordelistas nordestinos, os quais
tambŽm se interessaram pela tem‡tica da hist—ria desses amantes, sobretudo pelo
aspecto de contrariedade da realiza�‹o amorosa. Em um processo de recorte,
inven�‹o e adapta�‹o, estes ÒtradutoresÓ do povo colocaram no papel o produto
de suas leituras, adaptando a trama ao contexto da regi‹o e ˆ linguagem de seu
pœblico leitor.
Romeu e Julieta e a tem‡tica do sofrimento amoroso
A palavra amor Ž um substantivo
cuja defini�‹o evoca conceitos diversos, seja devido ˆ diversidade do objeto a
quem o dirigimos, ou mesmo devido ˆs inten�›es de quem o experimenta. O verbo
amar, seu derivado, pode designar, no uso cotidiano, desde o sentimento de
afei�‹o por um familiar, um carinho fraterno, ou mesmo a atra�‹o er—tica. A
literatura se apropriou deste sentimento como tema de suas produ�›es art’sticas
porque, enquanto manifesta�‹o do fazer humano, a arte reflete nossas
experi�ncias.
A cl‡ssica hist—ria de
Romeu e Julieta remonta a uma tradi�‹o liter‡ria que tematiza o amor a partir
de suas contrariedades, sendo herdeira de diversos enredos cuja trama culmina
na morte dos amantes, sob a Žgide de que ÒŽ melhor morrer do que n‹o amarÓ. Na
tradi�‹o latina, temos ci�ncia do poema P’ramo
e Tisbe, de Ov’dio, publicado na sua Metamorfoses,
uma hist—ria que se acredita fazer parte do conjunto de narrativas que
inspiraram a composi�‹o romejulietiana[25].
Esse mito latino explica
a cor avermelhada da amora em face de que, perante uma amoreira plantada junto
ao sepulcro do rei Nine, matou-se pelo amor um casal de jovens apaixonados. Os
jovens s‹o vizinhos na Babil™nia, se apaixonam e fazem votos de casar, mas os
seus pais pro’bem o enlace amoroso, impedindo-os atŽ de conversarem. Diante
disso, trocam apenas gestos e olhares, atŽ descobrirem uma fenda no muro de
suas casas, por onde secretamente trocam declara�›es de amor e sentem o h‡lito
um do outro. Ent‹o, pela fenda, os amantes marcam um encontro noturno no
sepulcro do rei Nino. Tisbe chegou primeiro, mas acabou se escondendo numa
gruta pr—xima diante da chegada de uma leoa ainda com o sangue da presa na boca,
em dire�‹o ˆ fonte para saciar sua sede. A fera rasgou o len�o ca’do da jovem,
deixando-o embebecido de sangue. Ao chegar na fonte, P’ramo entendeu que sua
amada teria sido tragada por uma fera e resolveu tirar sua pr—pria vida com sua
espada, culpando-se da morte de Tisbe. Por sua vez, chegando junto ˆ amoreira,
estranhando a mudan�a na cor da amora que, de branca se tornara escura como o
sangue, gritou ao ver o corpo de P’ramo. Desesperada, a jovem decide tambŽm se juntar
na morte ao seu amado, conforme registra Ov’dio (2016, p.120):
Teu
amor, tua m‹o te h‹o dado a morte!
Eu tambŽm tenho m‹os
(exclama a triste),
Eu tambŽm tenho amor
capaz de extremos,
Que esfor�o me dar‡ para
seguir-te.
Sim, eu te seguirei,
serei chamada
Da tua desventura a
causa, a s—cia.
Ai! S— podia a morte
separar-nos...
Mas n‹o, nem ela mesma
nos separa.
î v—s, dai terno ouvido
ˆs preces de ambos,
M’seros pais de m’seros
amantes,
Que une por lei do Fado
Amor, e a Morte;
Deixai que o mesmo
tœmulo os encerre.
E
tu, ‡rvore, tu, que est‡s cobrindo
Agora um s— cad‡ver
miserando,
Logo dois cobrir‡s.
Sinais conserva
Da tragŽdia que v�s, e
por teus frutos
Difunde sempre a cor de
luto, e m‡goa,
Monumento fatal do negro
caso.
A
composi�‹o dram‡tica do poema constr—i um clima de sensibilidade e pureza entre
os amantes, despertando no leitor a compreens‹o de que, em face do imposs’vel,
quando contrariado, o puro amor n‹o teme e prefere a morte. De tristeza, os
alvos frutos da amoreira se tornaram rubros de negra cor, umedecidos pelo
sangue dos amantes para nunca mais serem como antes. Finalmente, os pais do
casal aceitam reunir as cinzas dos dois numa mesma urna e, apenas na morte, o
casal termina junto.
Encontra-se,
pois, estabelecido o enredo que passa a se caracterizar pela composi�‹o dos
seguintes elementos: jovens apaixonados; oposi�‹o do amor dos familiares;
ruptura entre a proibi�‹o parental; estratŽgia dos amantes em romper a
separa�‹o; aparente morte de um dos amantes; suic’dio do sobrevivente;
consequente suic’dio do amante aparentemente morto. Em todos os casos, o
derramamento do pr—prio sangue caracteriza a express‹o dos amantes, pois viver
sem amor Ž a pior de todas as tragŽdias.
No Oriente, a hist—ria
de Laila e Kais (Laila e Majnun), uma
lenda popular ‡rabe de tradi�‹o oral que remonta ao sŽculo VII, foi registrada
em mais de oito mil versos, pelo poeta Nizami em 1188, por encomenda do
soberano Shirvanshah. A trama conta sobre a paix‹o proibida de dois jovens, as
afli�›es da separa�‹o e a consequente dor da perda. Essa hist—ria de amor da
literatura persa foi amplamente utilizada como fonte de inspira�‹o por
escritores ao longo dos sŽculos, fazendo parte do conjunto de hist—rias
cl‡ssicas de amores condenados que estabelecem rela�‹o com o enredo de Romeu e Julieta.
Seguindo a tradi�‹o
tem‡tica do sofrimento amoroso, na Idade MŽdia, sobretudo na pena
dos trovadores, a ideia do amor cort�s se revelava como a contempla�‹o de um
objeto superior, perante quem o poeta se submete, numa condi�‹o de vassalagem,
experimentando o prazer de amar e sofrer. Acerca disso, Rougemont (1988, p. 63)
escreve:
Que Ž a poesia dos trovadores? A exalta�‹o do amor
infeliz. Em toda a l’rica e na l’rica de Petrarca e Dante h‡ somente um tema: o
amor; n‹o o amor feliz, pleno ou satisfeito (esse espet‡culo nada pode
engendrar), mas, ao contr‡rio, o amor perpetuamente insatisfeito; enfim, h‡
apenas dois personagens: o poeta, que oitocentas, novecentas ou mil vezes
repete seu lamento, e uma bela, que sempre diz n‹o.
Observemos que as tramas com o tema
do sofrer por amor possuem exatamente em seus conflitos a raz‹o de ser da
hist—ria, pois os autores encontrados n‹o representam necessariamente algo
objetivamente insuport‡vel, mas os entes renunciam em nome da felicidade.
Assim, o tema das narrativas de amor contrariado Ž exatamente a separa�‹o dos
amantes, mas em nome da paix‹o e do amor que lhes atormenta, raz‹o pela qual
esse sentimento Ž exaltado e transfigurado, mesmo em preju’zo da felicidade e
da pr—pria vida. As tramas de amor contrariado, ent‹o, retratam amores
correspondidos que enfrentam dificuldades para se concretizarem. Konder (2007,
p.119) destaca, remetendo-se a Agnes Heller que, na obra Shakespeare, os amores
s‹o sempre correspondidos. O estudioso, contudo, destaca que, ao longo da
produ�‹o shakespeariana,
[...] estavam sendo criadas novas condi�›es
hist—ricas, nas quais a abertura para o di‡logo n‹o podia ficar limitada a algo
vis’vel e tinha de admitir a legitimidade da suspeita do cora�‹o na rela�‹o com
os outros, no confronto da minha subjetividade com a subjetividade deles. Nem
os que amavam, nem os que queriam entender o que era o amor podiam recorrer a
esquemas ÒfatalistasÓ. O amor, em especial, passava a exigir a participa�‹o
efetiva dos sujeitos diferentes, movendo-se dos dois lados; ele passava a
exigir o espa�o necess‡rio para que cada sujeito pudesse fazer suas op�›es,
tomar suas iniciativas.
Rougemont v� em Romeu e Julieta, de Shakespeare, a
tragŽdia cort�s que representa a mais bela ressurrei�‹o do mito de Trist‹o e
Isolda, ainda anterior ˆ adapta�‹o da pe�a de Wagner. O estudioso desconsidera, contudo, que a composi�‹o da pe�a shakespeariana possui tr�s
vers›es italianas: Il Novellino, de
Masuccio Salernitano, de 1476, com a novela 33, que descreve a hist—ria de
Mariotto e Giannozza, dois jovens amantes da nobreza, cujo amor Ž proibido pelo
—dio de suas fam’lias; Historia
novellamente ritroata di due nobili amanti, de Luigi da Porto, de 1530, com
tra�os romejulietianos, pois a trama
ocorre em Verona, as fam’lias s‹o chamadas de Montecchi e Cappelletti,
divergindo no fato de que a mo�a se apaixona primeiro e Ž mais oferecida; Romeo e Giulietta, escrita em 1554 por
Matteo Bandello, bispo e poeta do sŽculo XVI, compondo um conjunto de novelas,
cuja escrita se enquadra no que atualmente denominamos conto, visto que o texto
original possui uma escrita corrida, numa narrativa curta de œnico cl’max e
desfecho.
Na Inglaterra, Shakespeare tambŽm n‹o foi o
primeiro a adaptar a narrativa romejulietiana,
pois, em 1559, Arthur Brooke publicou um longo poema com 3020 versos,
intitulado A tr‡gica hist—ria de Romeu e
Julieta. A pe�a de Shakespeare aproveita deste poema a trama da tragŽdia e
informa�›es sobre a It‡lia e os h‡bitos culturais e sociais do pa’s.
Entretanto, faz mudan�as que ultrapassam a transmuta�‹o do enredo, pois Brooke
estabelecia um axioma moralizante de que a desobedi�ncia dos amantes teria sido
a causa de sua tragŽdia, mas o dramaturgo ingl�s retira a responsabilidade
deles e transfere para o —dio das duas fam’lias. Heliodora (2014, p.98)
argumenta:
Copiando a trama muito
fielmente de um poema moralizante do ingl�s Arthur Brooke, que tivera imenso
sucesso, em vez de condenar os dois jovens pelo imperdo‡vel pecado de
desobedi�ncia aos pais, Shakespeare os faz v’timas da luta entre suas fam’lias,
e escreve n‹o apenas uma grande hist—ria de amor como tambŽm uma grave denœncia
contra a guerra civil, ilustradas na pe�a por meio do conflito entre os
MontŽquio e os Capuleto.
Outra diferen�a na
composi�‹o est‡ associada ˆ dura�‹o dos fatos, pois Shakespeare comp›e a a�‹o
em cinco dias – do conhecimento do casal ao suic’dio, ao passo que, no
poema de Brook, o casal permanece casado por seis meses. Quando a vers‹o de
Shakespeare (2017) Ž comparada com a de Bandello (2012), Ž poss’vel perceber
tambŽm significativas distin�›es: no desfecho da novela, Romeu se suicida com
veneno e a jovem apela para a morte e morre repentinamente de dor; por sua vez,
na pe�a shakespeariana, Romeu se envenena e a jovem se suicida com o punhal do
seu amante, aproximando-se da teia significante de P’ramo e Tisbe. Ao final,
tanto Shakespeare quanto Bandello informam da reconcilia�‹o das fam’lias, sendo
que a novela bandelliana prev� que tal paz n‹o durou muito tempo depois. A
vers‹o shakespeariana concebe um final de paz duradoura e a fala do pr’ncipe de
Verona culpa o —dio das fam’lias e a condescend�ncia do poder do Estado.
A
seguir, ent‹o, examinaremos o modo como o romanceiro nordestino se apropriou do
enredo romejulietiano, oferecendo uma
nova composi�‹o adaptada ao cordel.
Adapta�›es de Romeu e Julieta
para os cordŽis nordestinos
Na GrŽcia antiga, os
poetas realizavam releitura dos mitos, com a liberdade de modific‡-los.
S—focles, por exemplo, entre outras mudan�as, altera o nome da m‹e de ƒdipo,
introduz a enigm‡tica esfinge e a peste. Essas inova�›es eram adapta�›es que
chamavam a aten�‹o do pœblico, sem a preocupa�‹o de fidelidade total ao
texto-fonte. Linda Hutcheon (2013, p. 23-24) diz que os adaptadores narram
hist—rias ao seu pr—prio modo, asseverando que:
Eles
utilizam as mesmas ferramentas que os contadores de hist—rias sempre
utilizaram, ou seja, eles tornam as ideias concretas ou reais, fazem sele�›es
que n‹o apenas simplificam, como tambŽm ampliam e v‹o alŽm, fazem analogias,
criticam ou mostram seu respeito, e assim por diante. As hist—rias que contam,
entretanto, s‹o tomadas de outros lugares, e n‹o inteiramente inventadas. Tal
como as par—dias, as adapta�›es t�m uma rela�‹o declarada e definitiva com
textos anteriores, geralmente chamados de Òfontes; diferentemente das par—dias,
todavia, elas costumam anunciar abertamente tal rela�‹oÓ
Adaptar um texto
significa traduzi-lo para um suporte, g�nero ou linguagem diferente. A
deprecia�‹o que ainda nutrimos pelas adapta�›es Ž produto da valoriza�‹o
rom‰ntica da originalidade e do g�nio criativo, bem como do pr—prio apego que
f‹s t�m pela fidelidade ˆs fontes. Contudo, as adapta�›es s‹o fundamentais ˆ
cultura ocidental, de modo que as hist—rias s‹o sempre recontadas por suportes
diferentes. Hutcheon (2013, p. 27) afirma:
Trabalhar com adapta�›es significa pens‡-las
como obras inerentemente ÒpalimpsestuosasÓ [...] assombradas a todo instante
pelos textos adaptados. Se conhecemos esse texto anterior, sentimos
constantemente sua presen�a pairando sobre aquele que estamos experienciando
diretamente. Quando dizemos que a obra Ž uma adapta�‹o, anunciamos abertamente
sua rela�‹o declarada com outra(s) obra(s). ƒ isso que GŽrard Genette (1982, p.
5) entende por um texto em Òsegundo grauÓ, criado e ent‹o recebido em conex‹o
com um texto anterior. Eis o motivo pelo qual os estudos de adapta�‹o s‹o
frequentemente estudos comparados.
ƒ assim que o enredo romejulietiano chega ao Nordeste do
Brasil na pena de cordelistas que assumem o papel de contar para o povo a
cl‡ssica hist—ria de amor adaptada nos versos dos folhetos. Ao menos quatro
cordŽis nordestinos realizaram adapta�›es da narrativa de Romeu e Julieta, em
tempos diferentes, sob os seguintes t’tulos: Romance de Romeu e Julieta (1975),
atribu’do a Jo‹o Martins de Athayde (Para’ba); Romeu e Julieta (2001),
de Maria Ilza Bezerra (Piau’); Romeu e Julieta em cordel (2011), de
Sebasti‹o Marinho (Para’ba); Romeu e Julieta: William Shakeaspere
(2012), de StŽlio Torquato Lima (Cear‡). A recep�‹o no Nordeste do enredo de
amor contrariado lembra os diversos casos no locus sertanejo de conflitos familiares com numerosas mortes.
Assim como Shakespeare,
Bandello e tantos outros foram adaptadores, os poetas populares assumem esse
compromisso, trazendo para o verso as narrativas de outros, fazendo refer�ncia
ou n‹o ˆs fontes de sua composi�‹o. Ariano Suassuna (1973 apud SUASSUNA, 2012,
p.176) comenta esse papel do cantador nordestino:
O cantador
nordestino n‹o se detŽm absolutamente diante dessas considera�›es: apropria-se
tranquilamente dos filmes, pe�as de teatro, not’cias de jornal e mesmo dos
folhetos dos outros. Que importa o come�o, se, no final, a obra Ž sua? Ele,
depois de tudo, acrescentou duas ou tr�s cenas, torceu o sentido de tr�s ou
quatro outras, de modo que a obra resultante Ž nova. N‹o era assim que
procediam Moili�re, Shakespeare, Homero e Cervantes? [...] Os cantadores
procedem do mesmo jeito. H‡ mesmo, uma palavra que entre eles, indica o fato, o
verbo versar, que significa colocar em verso a hist—ria em prosa de outro.
Quando Shakespeare escreveu Romeu e Julieta n‹o fez mais do que versar
as cr™nicas italianas de Luigi Dal Porto e Bandello.
Tradicionalmente, os
cordŽis se apresentam mais atrativos do que os textos em prosa para o pœblico
leitor por serem escritos em versos compostos num padr‹o que favorece as
leituras coletivas em voz alta, pois, conforme Abreu (2004), fazendo refer�ncia
ˆs palavras do poeta Manoel dÕAlmeida Filho, o povo nordestino se acostumou a
ler o verso como quem canta.
Ainda segundo essa
autora, as adapta�›es de textos cl‡ssicos realizadas pela literatura de cordel
n‹o ocorrem aleatoriamente, mas seguem um certo padr‹o que caracteriza a
composi�‹o e a recep�‹o dos folhetos. H‡ um certo padr‹o no processo de
adapta�‹o dos textos eruditos, pois, de modo geral, os cordelistas escolhem
narrativas que sejam pr—ximas do que se convencionou denominar Òromances de cordelÓ,
um subg�nero de folheto nordestino com 24 ou mais p‡ginas, com narrativas
ficcionais, tematizadas entre o amor e a luta, privilegiando hist—rias
semelhantes ˆs narrativas tradicionais da literatura popular.
Os folhetos nordestinos,
publicados desde a segunda metade do sŽc. XIX tornaram os homens pobres na
posi�‹o de autores, leitores, editores e cr’ticos de composi�›es poŽticas,
envolvendo pessoas simples no mundo das letras, pelo viŽs da composi�‹o e
recep�‹o dos versos. Foi assim que Romeu e Julieta, como diversas outras
narrativas can™nicas, chegaram ao Nordeste, pelo viŽs da recep�‹o dos
cordelistas, como destaca Abreu (2004, p. 200):
A
distin�‹o entre a composi�‹o e a recep�‹o de folhetos nordestinos e a produ�‹o
e a leitura de obras liter‡rias eruditas fica clara quando se examinam vers›es
para folheto de narrativas eruditas, fato relativamente comum no interior da
literatura de folhetos, em que h‡ vers›es de A Escrava Isaura, de Bernardo
Guimar‹es, de Ubirajara, Iracema, A Viuvinha, de JosŽ de Alencar, de Amor de
Perdi�‹o, de Camilo Castelo Branco, de Paulo e Virg’nia, de Bernardin de Saint
Pierre, de Romeu e Julieta, de Shakespeare, de O Conde de Monte Cristo, de
Alexandre Dumas, para citar apenas alguns exemplos.
Segundo Abreu (2004), a
recep�‹o e nova composi�‹o dos poetas leva em conta a sele�‹o de narrativas
eruditas com enredos, cujo tema central envolve, basicamente, o amor e a luta,
variando entre os tr�s nœcleos tem‡ticos seguintes: mulheres virtuosas
perseguidas por perversos apaixonados; amores contrariados; e enfrentamentos
entre poderosos e valentes. As adapta�›es romejulietianas
se enquadram, certamente, nos romances de amor contrariado.
Ademais, a estudiosa
afirma que a sele�‹o e adapta�‹o dos textos can™nicos para o cordel segue os
seguintes critŽrios: semelhan�a de enredo com os romances tradicionais dos
folhetos; transposi�‹o da prosa para o verso setiss’labos (padr‹o dos
folhetos); adequa�‹o da sintaxe e do lŽxico; desembara�amento da trama com a
reestrutura�‹o do enredo, reduzindo personagens e a�›es; caracteriza�‹o sucinta
das personagens com poucos atributos f’sicos e morais, basicamente para
identific‡-las no enredo como boas ou m‡s, vil›es ou her—is, etc.; por vezes,
faz-se a altera�‹o do enredo para adequar ao final dos paradigmas do cordel,
qual seja, a felicidade dos apaixonados; apresenta�‹o dos sentimentos mais por
a�›es do que por descri�›es. AlŽm disso, geralmente, os folhetos privilegiam o
tipo de narrador-onisciente, com o papel preponderante de interpretar as atitudes
dos personagens e fazer ju’zo de valor Žtico e moral, pois as hist—rias t�m um
car‡ter exemplar.
Semelhantemente, os
quatro cordŽis romejulietianos
constroem a narrativa de forma l’rica, de modo que Ž poss’vel reconhecer os
aspectos destacados por Abreu (2004). Quando comparados, percebemos que os
cordŽis possuem um enredo cuja estrutura b‡sica pode ser resumida assim:
inimizade entre as proles; amor ing�nuo entre os filhos dos patriarcas; a
igreja como medianeira na reconcilia�‹o; casamento secreto entre os
namorados/rivais; morte do primo de Julieta; ex’lio de Romeu; acordo secreto da
morte de Julieta; m‡ comunica�‹o com Romeu; morte do conde P‡ris; suic’dio dos
jovens.
CordŽis nordestinos: intertextos
de Romeu e Julieta
A produ�‹o liter‡ria
dialoga com outras produ�›es art’sticas, culturais e do pr—prio universo da
literatura. Kristeva (2005) v� o texto como um mosaico de cita�›es, retomando
sempre outros textos, seja pela vincula�‹o, a retomada expl’cita, um ato
leg’timo ou a ilegalidade do pl‡gio.
A intertextualidade
admite a forma�‹o de uma grande rede de textos que sempre retoma produ�›es
anteriores, cujos fios se encontram com outros, formando um grande mosaico
caleidosc—pico e multidimensional. Assim, a cria�‹o art’stica Ž tanto
individual como coletiva, pois a mem—ria do artista tambŽm se comp›e de
cita�›es, lembran�as e esquecimentos involunt‡rios ou n‹o.
Os quatro cordŽis romejulietianos dialogam
intertextualmente com a tradi�‹o europeia da qual s‹o herdeiros, mas, ao
faz�-lo, reconstroem o prototexto original, adaptando ao novo contexto de
produ�‹o. Tal processo de reescritura Ž muito mais percebido sob a pena do
cordel mais antigo de Athayde, devido ao seu v’nculo com a tradi�‹o amparada na
cultura de conflitos parentais do in’cio do sŽculo XX no sert‹o nordestino.
Do ponto de vista do
suporte, Athayde e Ilza Bezerra, mant�m a publica�‹o no modelo tipogr‡fico do
folheto de cordel. Por outro lado, os cordŽis de Marinho e Lima foram
publicados em livros por editoras de divulga�‹o nacional, respectivamente, a
Nova Alexandria e o ArmazŽm da Cultura.
Quanto ˆ fonte de
adapta�‹o, os tr�s cordŽis recentes de Bezerra, Lima e Marinho apresentam-se
claramente identificados com a pe�a de William Shakespeare[26], conforme se pode
perceber, a seguir:
Vasculhando
alfarr‡bios
Desbotados na
gaveta,
Deparei-me com
a obra
Maior de todo
planeta:
ƒ a
shakespeariana
De Romeu e
Julieta (MARINHO, 2011, p.13)
AtravŽs desta
hist—ria
Resgatarei a
leitura
De um drama
muito antigo,
Famoso em sua
candura,
Porque o cordel
Ž arte
E valoriza a
cultura.
As personagens
do drama
Comoveram muita
gente
Por mostrar um
grande amor
Profundo e
contundente,
Criadas por
Shakespeare
Pra se amar
eternamente (BEZERRA, 2011, p.1)
N‹o h‡ em todo
o planeta
Algo que ven�a
o amor,
Que Ž belo qual
borboleta,
Forte qual mar
em furor.
ƒ o que mostra
a historieta
De Romeu e
Julieta.
Shakespeare Ž
seu autor. (LIMA, 2012, p.70)
No
caso do cordel de Athayde, n‹o encontramos nenhuma indica�‹o textual que
relacione o texto com a obra de Shakespeare. Todavia, desde que Ariano Suassuna
(2018) adaptou o cordel de Athayde para sua pe�a A hist—ria do Amor de Romeu
e Julieta: imita�‹o Brasileira de
Matteo Bandello, referenciou,
pelo pr—prio t’tulo, o conto italiano como sendo a fonte usada por Athayde. O texto
de Athayde, porŽm, n‹o nos permite ter tanta certeza disso, embora possamos
inferir, pelas duas primeiras sextilhas, que o autor tenha conhecido a hist—ria
atravŽs do cinema ou de alguma encena�‹o teatral:
Vou
contar neste romance
a
desdita de Romeu
na
sua curta exist�ncia
de
tudo que padeceu
foi a lenda mais tocante
que
a nossa imprensa escreveu
Essa
hist—ria Ž conhecida
em
quase toda na�‹o
no teatro e no cinema
tem
causado sensa�‹o
deixando
amarga lembran�a
no mais brutal cora�‹o. (ATHAYDE, 1975, p.1)
A
poesia de Athayde estabelece uma teia intertextual produtiva que ultrapassa os
limites da linguagem verbal dos textos fundantes e chega a outros universos
semi—ticos, visto que o pr—prio poeta admite que esta hist—ria j‡ foi traduzida
para outras m’dias, como o teatro e o cinema, e j‡ ÒŽ conhecida em quase toda
na�‹oÓ.
Athayde (1975) incorpora
altera�›es significativas, como o ju’zo de valor negativo para a fam’lia
Capuleto (ra�a tirana), em detrimento ˆ descri�‹o positiva da fam’lia MontŽquio
(fam’lia honesta e humana). Assim, esta representa o bem e a honra, valores
exaltados na Žtica nordestina, enquanto aquela retrata a impiedade e o
autoritarismo.
No conto de Bandello,
n‹o h‡ essa dicotomia moralista retratada no romanceiro popular, de modo que um
amigo de Romeu, embora reconhe�a o afeto de MontŽquio pelo filho, descreve a
sua dureza e apego aos bens materiais: Ò[...] voc� Ž – deixe-me ser
sincero – cort�s, virtuoso, am‡vel e de boa cultura, o que muito valoriza
sua juventude. AlŽm disso, œnico filho de um pai cuja grande riqueza Ž de todos
conhecida; Ž poss’vel que ele seja avaro e o repreenda se voc� esbanja os seus
dotesÓ (BANDELLO, 2012, p.19).
O
enredo athaydiano desenvolve o conflito das duas fam’lias, acrescentando uma
tragŽdia n‹o apresentada em nenhuma das tradi�›es romejulietianas. No cordel, MontŽquio foi preso por Capuleto e
assistiu o assassinato brutal de sua esposa, que ainda tinha Romeu nos bra�os.
A composi�‹o deste conflito aumenta o drama, pois n‹o houve qualquer
miseric—rdia do tirano Capuleto:
Montequio inda
pediu
mas ele n‹o
atendeu,
disse o duque a
um carrasco
esse logo
obedeceu
dos bra�os da
propria m‹e,
foi arrancado
Romeu. [...]
Ali tirou um
punhal
Que na cinta
carregava
Cravou-o no
peito da jovem
Dizendo: eu bem
que jurava;
O punhal ia
rangindo
Com a for�a que
ele botava
Disse ela:
senhor duque
seu cora�‹o Ž
perverso
tenha d— do meu
filhinho
que ainda fica
no ber�o;
ele calcou no
punhal
que sumiu-se
atŽ no ter�o (ATHAYDE, 1975, p.4-5)[27]
Na
continuidade da narrativa, MontŽquio retira o punhal da esposa e jura que seu
filho haver‡ de vingar-se do algoz inimigo. Como se n‹o bastasse o assassinato
a m‹o armada, Capuleto arrastou pela cidade o corpo da esposa de MontŽquio e
mandou jog‡-la no mar, privando-lhe atŽ de um enterro digno.
AlŽm disso, a presen�a
de Romeu no baile de m‡scaras da fam’lia Capuleto Ž retratada de forma
diferente. No conto, Romeu Ž reconhecido e tolerado sem troca de ofensas,
sobretudo por ser muito jovem. Na vers‹o de Athayde, o jovem MontŽquio
comparece com o punhal para vingar-se, conforme incumb�ncia do pai. Entretanto,
ao se apaixonar por Julieta, Romeu Ž obrigado a fazer uma escolha entre o amor
de seu pai e o da jovem Capuleto, numa tens‹o cuja escolha pesa a balan�a contra
o c—digo de Žtica nordestino, conforme descreve o poeta:
Por fim falou o
mancebo:
escuta, loura
crian�a
do castelo do
meu pai
vim tomar uma
vingan�a;
e arrastando um
punhal
aos pŽs da mo�a
lhe lan�a
Diante a tua
beleza
eu sinto o
peito chagado
pelos teus
olhos azuis
tornei-me
escravizado
e te confesso
sem pejo
Por ti, vivo
apaixonado
Teu pai matou
minha m‹e
Quando eu era
pequenino,
E eu ving‡-lo
jurei
Mas a for�a do
destino
Fez com que
tudo acabasse
Ante o teu
porte divino
Serei perjuro e
jamais
Ao meu pa’s
voltarei
Aos teus pŽs
palida imagem
Como escravo
viverei
Juro-te em nome
dos cŽus
Que junto a ti
morrerei (ATHAYDE, 1975, p.15,16)
A
decis‹o de Romeu est‡ tomada e n‹o h‡ retorno, raz‹o pela qual o cordelista
emite seu parecer, apresentando um ju’zo de valor com base na Žtica sertaneja
para a qual a desonra ˆ fam’lia Ž uma atitude imperdo‡vel e, diante da qual, o
eu l’rico esquece a abnega�‹o dos jovens apaixonados e execra:
Quem possui este romance
conhece bem o que leu,
a esposa de Montequio
em que condi�‹o morreu
tambŽm conhece a misŽria,
e covardia de Romeu. [...]
Romeu fez como saguim
que se ilude com careta
bastou ver no peito dela
um ramo de violeta
foi perguntar logo seu nome
lhe dissera; Ž Julieta
Nas condi�›es que ele estava
n‹o tinha mais um rodeio
era vingar-se de tudo
fingindo como um passeio
n‹o tinha o que perguntar
quem Ž bonito nem feio
Mas ele n‹o fez assim
depois que se achou na sala
viu Julieta dan�ando
fez tudo pra namor‡-la
inda ela sendo uma deusa
ela devera odi‡-la
Romeu foi falso a seu pai
por isto teve castigo
como faltou-lhe a coragem
para enfrentar o perigo
casou-se com a pr—pria filha
do seu fatal inimigo (ATHAYDE, 1975, p.30,31)
O enredo athaydiano
construiu a imagem de um MontŽquio vitimado para, ao final, emitir um ju’zo de
valor sobre a tomada de atitude de Romeu ao renunciar a vingan�a em nome do
amor ˆ filha do inimigo. A composi�‹o de cordelista certamente considera o
sil�ncio que o enredo bandelliano realiza em rela�‹o ˆ esposa de MontŽquio,
pois, no conto, a fam’lia Capuleto Ž composta por um casal e a sua filha, mas
isso n‹o sucede na fam’lia MontŽquio, em que apenas o pai e o filho s‹o
retratados. Certamente, essa Ž uma das raz›es porque Bandello Ž tido como fonte
de Athayde e n‹o Shakespeare, para quem a m‹e de Romeu morreu devido ao seu
ex’lio em M‰ntua.
Na vers‹o de Athayde,
Romeu n‹o Ž apresentado como um her—i, assim como acontece nas vers›es
cl‡ssicas ou mesmo no romanceiro popular dos outros cordŽis. Aqui, ele Ž
tratado como um traidor dos seus progenitores, alguŽm que renegou o seu sangue.
No dizer de Oliveira (2019, p.1003), Ž o cordel Òassumindo o papel de correia
transmissora de alguns valores culturais nordestinosÓ. O estabelecimento de uma
moral n‹o Ž plena novidade dos romances nordestinos, pois, conforme Oliveira
(2019, p.998), os autores europeus j‡ o faziam:
Brooke pregava
em seu poema que a desobedi�ncia de Julieta foi a causa deflagradora da
tragŽdia dos dois jovens, uma vez que Julieta n‹o quis ouvir os conselhos da
m‹e. Com seu poema, Brooke deixa para os jovens a li�‹o de que o ato de n‹o
obedecer ˆs ordens dos pais pode gerar consequ�ncias amargas e irrevers’veis.
Esse tom moralizante foi relutado por Shakespeare em sua pe�a que retirou a
responsabilidade da tragŽdia das m‹os de Julieta, transferindo-a para as duas
fam’lias nobres e o seu eterno —dio.
No cordel de Lima (2012),
a moral da narrativa Ž pronunciada no in’cio e no final do cordel, exaltando o
poder do amor que une o casal na morte e pacifica a rela�‹o entras fam’lias
rivais:
N‹o
h‡ em todo o planeta
Algo
que ven�a o amor,
Que
Ž belo qual borboleta,
Forte
qual mar em furor.
ƒ
o que mostra a historieta
De
Romeu e Julieta.
Shakespeare
Ž seu autor. [...]
Mas,
no fim, o amor ganhou
pois
o —dio ali morreu
E
a verdade floresceu
Mesmo
sendo borboleta,
Nenhuma
for�a excedeu
Ao
amor, neste planeta
Diz
Shakespeare, n‹o eu,
Na
hist—ria que escreveu
De
Romeu e Julieta.Ó (LIMA, 2012, p.70,74).
Na narrativa de Bezerra
(2011), a moral aparece tambŽm no final do romance, enfatizando as
consequ�ncias do —dio e o modo como a paz selou-se:
E
a que ponto chega o —dio
Ficou
marcado no instante.
A
Maldi�‹o teve o fim
Selou-se
a paz doravante.
Isto
serviu de li�‹o. (BEZERRA, 2011, p.31)
O tempo da narrativa Ž
semelhante em todos os cordŽis, tal como em Shakespeare cuja a�‹o transcorre
num per’odo de cinco dias, quando os jovens se conhecem, se casam, consumam o
amor, Romeu foge e acabam se encontrando no sepulcro com a morte.
No cordel de Lima (2012),
o casal se conhece na festa, com Romeu mascarado e oculto, resolvem se casar e
a morte de Teobaldo n‹o Ž desenvolvida, como um elemento da composi�‹o que
potencializou o conflito das fam’lias, apenas exilando Romeu, sem qualquer
comprometimento de Julieta. Nos folhetos de Bezerra (2011) e de Marinho (2011),
por outro lado, Romeu Ž reconhecido por Teobaldo no baile de m‡scaras, mas
Capuleto reconhece a virtude do jovem MontŽquio e tolera sua presen�a,
orientando o sobrinho a nada fazer, tendo em vista que o rapaz se mostrava
virtuoso e educado. Em todos os cordŽis, Romeu mata Teobaldo apenas ap—s a provoca�‹o
deste, que chega a matar Mercœrio, amigo do jovem MontŽquio.
Entretanto, apenas os
cordŽis de Bezerra (2011) e de Marinho (2011) desenvolvem o drama de Julieta
entre o primo morto e o marido exilado, exaltando ainda mais a natureza do
conflito familiar e desencadeando a angœstia da mo�a. Na vers‹o de Bezerra (2011), a senhora Capuleto, relacionava
o sofrimento de Julieta ˆ morte do Teobaldo, e promete que Romeu pagaria, sem
saber, contudo, que a jovem chorava pela saudade do seu esposo.
Somente no cordel de Marinho (2011), aparece a senhora MontŽquio,
apelando ao pr’ncipe para n‹o estabelecer a pena capital a Romeu devido ˆ morte
de Teobaldo, tal como requeria a senhora Capuleto. Tal constru�‹o estabelece
uma forte distin�‹o do car‡ter narrativo de Athayde, para quem a morte da
senhora MontŽquio no in’cio do folheto Ž elemento fundamental do conflito entre
os rivais.
Cabe ainda registrar que as œltimas estrofes dos cordŽis de Bezerra e
Marinho encerram em forma de acr—stico, um carimbo de autoria caracter’stico do
cordel.
Considera�›es finais
êtalo Calvino (1993, p.11)
define um cl‡ssico como Òum livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha
para dizerÓ. No que pese a diversidade de reescrituras de Romeu e Julieta, Ž
poss’vel consider‡-lo o grande enredo do ocidente, com o qual qualquer narrativa
de amor proibido ser‡ sempre comparada. Sendo assim, n‹o Ž de se estranhar que os poetas populares tenham encontrado raz›es
para ÒtraduzirÓ Romeu e Julieta para
o cordel.
Enfatizamos, porŽm, que as
adapta�›es dos cordŽis demonstram a liberdade dos autores em contar ao seu modo
a trama. Contudo, do ponto de vista do enredo, foi poss’vel perceber muito mais
liberdade no texto de Athayde, sobretudo pela incorpora�‹o de fatos e temas que
permitem a identifica�‹o do pœblico leitor dos folhetos com o texto.
Entretanto, n‹o se percebe o mesmo processo criativo nos demais textos aqui
estudados, que se mostram mais propensos a cristalizar a hist—ria de
Shakespeare.
Refer�ncias
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BonitaÓ - Rela�›es entre Folhetos de Cordel e Literatura Erudita. Horizontes
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[Recebido: 16 ago 21- Aceito: 16 set 21]
[23] Doutorando em Linguagem e
Ensino pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Mestre em Literatura e Interculturalidade pela
Universidade Estadual da Para’ba (2011). Professor efetivo do Instituto Federal de
Educa�‹o, Ci�ncia e Tecnologia da Para’ba (IFPB). Contato: prweberalves@gmail.com
[24] Doutora em Letras
pela Universidade Federal da Para’ba (2005) e P—s-doutorado na ‡rea de Letras
pela Universidade Federal de Pernambuco (2007). Atualmente, Ž professora
Associada da Universidade Federal de Campina Grande (UAEF/PPGCF/PPGLE/UFCG)..
Contato: naelzanobrega@gmail.com
[25] Utilizaremos esse
neologismo para se referir ˆ trama de Romeu e Julieta, considerando as mais
diversas obras medievais que remontam ao mesmo enredo.
[26] A preocupa�‹o em
contar a vers‹o do autor, certamente justifica a pouca modifica�‹o no enredo
por estes autores.
[27] Foi preservada a
escrita original dos cordŽis.