Intertextos de Romeu e Julieta nos folhetos nordestinos

 

 

Intertexts of Romeo and Juliet in northeastern leaflets

 

 

Weber Firmino Alves[23]

https://orcid.org/0000-0001-9012-9112

 

            Naelza de Araœjo Wanderley[24]

            https://orcid.org/0000-0002-3622-7317

 

Resumo: As adapta�›es constituem um fen™meno longevo que remonta ˆ GrŽcia antiga, quando os poetas iniciaram a pr‡tica da releitura dos mitos, com a liberdade de modific‡-los e introduzir inova�›es. Semelhantemente, os cordelistas nordestinos, ao adaptarem narrativas can™nicas para os versos populares dos folhetos, assumiram o papel de ÒtradutoresÓ de uma tradi�‹o liter‡ria que passa a ser escrita em uma linguagem mais pr—xima do povo. Assim, o presente artigo discute a presen�a do intertexto de Romeu e Julieta em folhetos nordestinos, incorporando adapta�›es dos textos-fonte. A leitura dos textos estabelece uma compara�‹o com os intertextos desse amor contrariado nos cordŽis de Jo‹o Martins de Athayde, Maria Ilza Bezerra, Sebasti‹o Marinho e StŽlio Torquato Lima, a partir das ideias de Abreu (2004), Hutcheon (2013), Kristeva (2005), Rougemont (1988), entre outros. Faz-se uma avalia�‹o da constru�‹o do enredo de Romeu e Julieta na tradi�‹o liter‡ria, com vistas a perceber nas adapta�›es para o romanceiro nordestino, suas diverg�ncias e semelhan�as, compreendendo-se que as adapta�›es n‹o s‹o c—pias, mas funcionam como produ�›es distintas, assumindo importantes fun�›es sociais no contexto da cultura-alvo, principalmente a de socializar um texto universal para a cultura local.

Palavras-Chave: Amor contrariado; Romeu e Julieta; Literatura; Cordel.

 

Abstract: Adaptations are a long-lived phenomenon that dates back to ancient Greece, when poets began the practice of re-reading myths, with the freedom to modify them and introduce innovations. Similarly, Northeastern poets, by adapting canonical narratives to the popular verses of the leaflets, assumed the role of ÒtranslatorsÓ of a literary tradition that is now written in a language closer to the people. Thus, this article discusses the presence of the Romeo and Juliet intertext in northeastern leaflets, incorporating adaptations from the source texts. Reading the texts establishes a comparison with the intertexts of this forbidden love in the cordel booklets of Jo‹o Martins de Athayde, Maria Ilza Bezerra, Sebasti‹o Marinho and StŽlio Torquato Lima, based on the ideas of Abreu (2004), Hutcheon (2013), Kristeva (2005), Rougemont (1988), among others. An evaluation of the construction of the plot of Romeo and Juliet in the literary tradition is made, with a view to realizing in the adaptations for the Northeastern flyers, their divergences and similarities, understanding that the adaptations are not copies, but function as distinct productions, assuming important social functions in the context of the target culture, mainly that of socializing a universal text for the local culture.  

Keywords: Forbidden love; Romeo and Juliet; Literature; Cordel booklets.

 

 

Introdu�‹o

 

A hist—ria de Romeu e Julieta Ž conhecida como a grande narrativa ocidental do amor rom‰ntico e retrata o sentimento puro de afei�‹o entre dois jovens de fam’lias rivais que se apaixonam e p›em em xeque a tradi�‹o de —dio entre suas fam’lias. Embora seja conhecida muito mais pela pe�a de Shakespeare, a constru�‹o dessa hist—ria ocorreu ao longo de v‡rios sŽculos atŽ tomar a forma proposta pelo bardo ingl�s. Entretanto, as adapta�›es do enredo n‹o se encerraram na literatura inglesa, pois continuam sendo (re)elaboradas atravŽs de recontos que s‹o apresentados ao pœblico em diferentes suportes e linguagens.

Entre esses recontos encontram-se as adapta�›es elaboradas por cordelistas nordestinos, os quais tambŽm se interessaram pela tem‡tica da hist—ria desses amantes, sobretudo pelo aspecto de contrariedade da realiza�‹o amorosa. Em um processo de recorte, inven�‹o e adapta�‹o, estes ÒtradutoresÓ do povo colocaram no papel o produto de suas leituras, adaptando a trama ao contexto da regi‹o e ˆ linguagem de seu pœblico leitor.

 

 

Romeu e Julieta e a tem‡tica do sofrimento amoroso

 

A palavra amor Ž um substantivo cuja defini�‹o evoca conceitos diversos, seja devido ˆ diversidade do objeto a quem o dirigimos, ou mesmo devido ˆs inten�›es de quem o experimenta. O verbo amar, seu derivado, pode designar, no uso cotidiano, desde o sentimento de afei�‹o por um familiar, um carinho fraterno, ou mesmo a atra�‹o er—tica. A literatura se apropriou deste sentimento como tema de suas produ�›es art’sticas porque, enquanto manifesta�‹o do fazer humano, a arte reflete nossas experi�ncias.

A cl‡ssica hist—ria de Romeu e Julieta remonta a uma tradi�‹o liter‡ria que tematiza o amor a partir de suas contrariedades, sendo herdeira de diversos enredos cuja trama culmina na morte dos amantes, sob a Žgide de que ÒŽ melhor morrer do que n‹o amarÓ. Na tradi�‹o latina, temos ci�ncia do poema P’ramo e Tisbe, de Ov’dio, publicado na sua Metamorfoses, uma hist—ria que se acredita fazer parte do conjunto de narrativas que inspiraram a composi�‹o romejulietiana[25].

Esse mito latino explica a cor avermelhada da amora em face de que, perante uma amoreira plantada junto ao sepulcro do rei Nine, matou-se pelo amor um casal de jovens apaixonados. Os jovens s‹o vizinhos na Babil™nia, se apaixonam e fazem votos de casar, mas os seus pais pro’bem o enlace amoroso, impedindo-os atŽ de conversarem. Diante disso, trocam apenas gestos e olhares, atŽ descobrirem uma fenda no muro de suas casas, por onde secretamente trocam declara�›es de amor e sentem o h‡lito um do outro. Ent‹o, pela fenda, os amantes marcam um encontro noturno no sepulcro do rei Nino. Tisbe chegou primeiro, mas acabou se escondendo numa gruta pr—xima diante da chegada de uma leoa ainda com o sangue da presa na boca, em dire�‹o ˆ fonte para saciar sua sede. A fera rasgou o len�o ca’do da jovem, deixando-o embebecido de sangue. Ao chegar na fonte, P’ramo entendeu que sua amada teria sido tragada por uma fera e resolveu tirar sua pr—pria vida com sua espada, culpando-se da morte de Tisbe. Por sua vez, chegando junto ˆ amoreira, estranhando a mudan�a na cor da amora que, de branca se tornara escura como o sangue, gritou ao ver o corpo de P’ramo. Desesperada, a jovem decide tambŽm se juntar na morte ao seu amado, conforme registra Ov’dio (2016, p.120):

Teu amor, tua m‹o te h‹o dado a morte!
Eu tambŽm tenho m‹os (exclama a triste),
Eu tambŽm tenho amor capaz de extremos,
Que esfor�o me dar‡ para seguir-te.
Sim, eu te seguirei, serei chamada
Da tua desventura a causa, a s—cia.
Ai! S— podia a morte separar-nos...
Mas n‹o, nem ela mesma nos separa.
î v—s, dai terno ouvido ˆs preces de ambos,
M’seros pais de m’seros amantes,
Que une por lei do Fado Amor, e a Morte;
Deixai que o mesmo tœmulo os encerre.

E tu, ‡rvore, tu, que est‡s cobrindo
Agora um s— cad‡ver miserando,
Logo dois cobrir‡s. Sinais conserva
Da tragŽdia que v�s, e por teus frutos
Difunde sempre a cor de luto, e m‡goa,
Monumento fatal do negro caso.

            A composi�‹o dram‡tica do poema constr—i um clima de sensibilidade e pureza entre os amantes, despertando no leitor a compreens‹o de que, em face do imposs’vel, quando contrariado, o puro amor n‹o teme e prefere a morte. De tristeza, os alvos frutos da amoreira se tornaram rubros de negra cor, umedecidos pelo sangue dos amantes para nunca mais serem como antes. Finalmente, os pais do casal aceitam reunir as cinzas dos dois numa mesma urna e, apenas na morte, o casal termina junto.

            Encontra-se, pois, estabelecido o enredo que passa a se caracterizar pela composi�‹o dos seguintes elementos: jovens apaixonados; oposi�‹o do amor dos familiares; ruptura entre a proibi�‹o parental; estratŽgia dos amantes em romper a separa�‹o; aparente morte de um dos amantes; suic’dio do sobrevivente; consequente suic’dio do amante aparentemente morto. Em todos os casos, o derramamento do pr—prio sangue caracteriza a express‹o dos amantes, pois viver sem amor Ž a pior de todas as tragŽdias.

No Oriente, a hist—ria de Laila e Kais (Laila e Majnun), uma lenda popular ‡rabe de tradi�‹o oral que remonta ao sŽculo VII, foi registrada em mais de oito mil versos, pelo poeta Nizami em 1188, por encomenda do soberano Shirvanshah. A trama conta sobre a paix‹o proibida de dois jovens, as afli�›es da separa�‹o e a consequente dor da perda. Essa hist—ria de amor da literatura persa foi amplamente utilizada como fonte de inspira�‹o por escritores ao longo dos sŽculos, fazendo parte do conjunto de hist—rias cl‡ssicas de amores condenados que estabelecem rela�‹o com o enredo de Romeu e Julieta.

Seguindo a tradi�‹o tem‡tica do sofrimento amoroso, na Idade MŽdia, sobretudo na pena dos trovadores, a ideia do amor cort�s se revelava como a contempla�‹o de um objeto superior, perante quem o poeta se submete, numa condi�‹o de vassalagem, experimentando o prazer de amar e sofrer. Acerca disso, Rougemont (1988, p. 63) escreve:

Que Ž a poesia dos trovadores? A exalta�‹o do amor infeliz. Em toda a l’rica e na l’rica de Petrarca e Dante h‡ somente um tema: o amor; n‹o o amor feliz, pleno ou satisfeito (esse espet‡culo nada pode engendrar), mas, ao contr‡rio, o amor perpetuamente insatisfeito; enfim, h‡ apenas dois personagens: o poeta, que oitocentas, novecentas ou mil vezes repete seu lamento, e uma bela, que sempre diz n‹o.

Observemos que as tramas com o tema do sofrer por amor possuem exatamente em seus conflitos a raz‹o de ser da hist—ria, pois os autores encontrados n‹o representam necessariamente algo objetivamente insuport‡vel, mas os entes renunciam em nome da felicidade. Assim, o tema das narrativas de amor contrariado Ž exatamente a separa�‹o dos amantes, mas em nome da paix‹o e do amor que lhes atormenta, raz‹o pela qual esse sentimento Ž exaltado e transfigurado, mesmo em preju’zo da felicidade e da pr—pria vida. As tramas de amor contrariado, ent‹o, retratam amores correspondidos que enfrentam dificuldades para se concretizarem. Konder (2007, p.119) destaca, remetendo-se a Agnes Heller que, na obra Shakespeare, os amores s‹o sempre correspondidos. O estudioso, contudo, destaca que, ao longo da produ�‹o shakespeariana,

[...] estavam sendo criadas novas condi�›es hist—ricas, nas quais a abertura para o di‡logo n‹o podia ficar limitada a algo vis’vel e tinha de admitir a legitimidade da suspeita do cora�‹o na rela�‹o com os outros, no confronto da minha subjetividade com a subjetividade deles. Nem os que amavam, nem os que queriam entender o que era o amor podiam recorrer a esquemas ÒfatalistasÓ. O amor, em especial, passava a exigir a participa�‹o efetiva dos sujeitos diferentes, movendo-se dos dois lados; ele passava a exigir o espa�o necess‡rio para que cada sujeito pudesse fazer suas op�›es, tomar suas iniciativas.

Rougemont v� em Romeu e Julieta, de Shakespeare, a tragŽdia cort�s que representa a mais bela ressurrei�‹o do mito de Trist‹o e Isolda, ainda anterior ˆ adapta�‹o da pe�a de Wagner. O estudioso desconsidera, contudo,  que a composi�‹o da pe�a shakespeariana possui tr�s vers›es italianas: Il Novellino, de Masuccio Salernitano, de 1476, com a novela 33, que descreve a hist—ria de Mariotto e Giannozza, dois jovens amantes da nobreza, cujo amor Ž proibido pelo —dio de suas fam’lias; Historia novellamente ritroata di due nobili amanti, de Luigi da Porto, de 1530, com tra�os romejulietianos, pois a trama ocorre em Verona, as fam’lias s‹o chamadas de Montecchi e Cappelletti, divergindo no fato de que a mo�a se apaixona primeiro e Ž mais oferecida; Romeo e Giulietta, escrita em 1554 por Matteo Bandello, bispo e poeta do sŽculo XVI, compondo um conjunto de novelas, cuja escrita se enquadra no que atualmente denominamos conto, visto que o texto original possui uma escrita corrida, numa narrativa curta de œnico cl’max e desfecho.

Na Inglaterra, Shakespeare tambŽm n‹o foi o primeiro a adaptar a narrativa romejulietiana, pois, em 1559, Arthur Brooke publicou um longo poema com 3020 versos, intitulado A tr‡gica hist—ria de Romeu e Julieta. A pe�a de Shakespeare aproveita deste poema a trama da tragŽdia e informa�›es sobre a It‡lia e os h‡bitos culturais e sociais do pa’s. Entretanto, faz mudan�as que ultrapassam a transmuta�‹o do enredo, pois Brooke estabelecia um axioma moralizante de que a desobedi�ncia dos amantes teria sido a causa de sua tragŽdia, mas o dramaturgo ingl�s retira a responsabilidade deles e transfere para o —dio das duas fam’lias. Heliodora (2014, p.98) argumenta:

Copiando a trama muito fielmente de um poema moralizante do ingl�s Arthur Brooke, que tivera imenso sucesso, em vez de condenar os dois jovens pelo imperdo‡vel pecado de desobedi�ncia aos pais, Shakespeare os faz v’timas da luta entre suas fam’lias, e escreve n‹o apenas uma grande hist—ria de amor como tambŽm uma grave denœncia contra a guerra civil, ilustradas na pe�a por meio do conflito entre os MontŽquio e os Capuleto.

Outra diferen�a na composi�‹o est‡ associada ˆ dura�‹o dos fatos, pois Shakespeare comp›e a a�‹o em cinco dias – do conhecimento do casal ao suic’dio, ao passo que, no poema de Brook, o casal permanece casado por seis meses. Quando a vers‹o de Shakespeare (2017) Ž comparada com a de Bandello (2012), Ž poss’vel perceber tambŽm significativas distin�›es: no desfecho da novela, Romeu se suicida com veneno e a jovem apela para a morte e morre repentinamente de dor; por sua vez, na pe�a shakespeariana, Romeu se envenena e a jovem se suicida com o punhal do seu amante, aproximando-se da teia significante de P’ramo e Tisbe. Ao final, tanto Shakespeare quanto Bandello informam da reconcilia�‹o das fam’lias, sendo que a novela bandelliana prev� que tal paz n‹o durou muito tempo depois. A vers‹o shakespeariana concebe um final de paz duradoura e a fala do pr’ncipe de Verona culpa o —dio das fam’lias e a condescend�ncia do poder do Estado.

            A seguir, ent‹o, examinaremos o modo como o romanceiro nordestino se apropriou do enredo romejulietiano, oferecendo uma nova composi�‹o adaptada ao cordel.

 

 

Adapta�›es de Romeu e Julieta para os cordŽis nordestinos

 

Na GrŽcia antiga, os poetas realizavam releitura dos mitos, com a liberdade de modific‡-los. S—focles, por exemplo, entre outras mudan�as, altera o nome da m‹e de ƒdipo, introduz a enigm‡tica esfinge e a peste. Essas inova�›es eram adapta�›es que chamavam a aten�‹o do pœblico, sem a preocupa�‹o de fidelidade total ao texto-fonte. Linda Hutcheon (2013, p. 23-24) diz que os adaptadores narram hist—rias ao seu pr—prio modo, asseverando que:

Eles utilizam as mesmas ferramentas que os contadores de hist—rias sempre utilizaram, ou seja, eles tornam as ideias concretas ou reais, fazem sele�›es que n‹o apenas simplificam, como tambŽm ampliam e v‹o alŽm, fazem analogias, criticam ou mostram seu respeito, e assim por diante. As hist—rias que contam, entretanto, s‹o tomadas de outros lugares, e n‹o inteiramente inventadas. Tal como as par—dias, as adapta�›es t�m uma rela�‹o declarada e definitiva com textos anteriores, geralmente chamados de Òfontes; diferentemente das par—dias, todavia, elas costumam anunciar abertamente tal rela�‹oÓ

Adaptar um texto significa traduzi-lo para um suporte, g�nero ou linguagem diferente. A deprecia�‹o que ainda nutrimos pelas adapta�›es Ž produto da valoriza�‹o rom‰ntica da originalidade e do g�nio criativo, bem como do pr—prio apego que f‹s t�m pela fidelidade ˆs fontes. Contudo, as adapta�›es s‹o fundamentais ˆ cultura ocidental, de modo que as hist—rias s‹o sempre recontadas por suportes diferentes. Hutcheon (2013, p. 27) afirma:

Trabalhar com adapta�›es significa pens‡-las como obras inerentemente ÒpalimpsestuosasÓ [...] assombradas a todo instante pelos textos adaptados. Se conhecemos esse texto anterior, sentimos constantemente sua presen�a pairando sobre aquele que estamos experienciando diretamente. Quando dizemos que a obra Ž uma adapta�‹o, anunciamos abertamente sua rela�‹o declarada com outra(s) obra(s). ƒ isso que GŽrard Genette (1982, p. 5) entende por um texto em Òsegundo grauÓ, criado e ent‹o recebido em conex‹o com um texto anterior. Eis o motivo pelo qual os estudos de adapta�‹o s‹o frequentemente estudos comparados.

ƒ assim que o enredo romejulietiano chega ao Nordeste do Brasil na pena de cordelistas que assumem o papel de contar para o povo a cl‡ssica hist—ria de amor adaptada nos versos dos folhetos. Ao menos quatro cordŽis nordestinos realizaram adapta�›es da narrativa de Romeu e Julieta, em tempos diferentes, sob os seguintes t’tulos: Romance de Romeu e Julieta (1975), atribu’do a Jo‹o Martins de Athayde (Para’ba); Romeu e Julieta (2001), de Maria Ilza Bezerra (Piau’); Romeu e Julieta em cordel (2011), de Sebasti‹o Marinho (Para’ba); Romeu e Julieta: William Shakeaspere (2012), de StŽlio Torquato Lima (Cear‡). A recep�‹o no Nordeste do enredo de amor contrariado lembra os diversos casos no locus sertanejo de conflitos familiares com numerosas mortes.

Assim como Shakespeare, Bandello e tantos outros foram adaptadores, os poetas populares assumem esse compromisso, trazendo para o verso as narrativas de outros, fazendo refer�ncia ou n‹o ˆs fontes de sua composi�‹o. Ariano Suassuna (1973 apud SUASSUNA, 2012, p.176) comenta esse papel do cantador nordestino:

O cantador nordestino n‹o se detŽm absolutamente diante dessas considera�›es: apropria-se tranquilamente dos filmes, pe�as de teatro, not’cias de jornal e mesmo dos folhetos dos outros. Que importa o come�o, se, no final, a obra Ž sua? Ele, depois de tudo, acrescentou duas ou tr�s cenas, torceu o sentido de tr�s ou quatro outras, de modo que a obra resultante Ž nova. N‹o era assim que procediam Moili�re, Shakespeare, Homero e Cervantes? [...] Os cantadores procedem do mesmo jeito. H‡ mesmo, uma palavra que entre eles, indica o fato, o verbo versar, que significa colocar em verso a hist—ria em prosa de outro. Quando Shakespeare escreveu Romeu e Julieta n‹o fez mais do que versar as cr™nicas italianas de Luigi Dal Porto e Bandello.

Tradicionalmente, os cordŽis se apresentam mais atrativos do que os textos em prosa para o pœblico leitor por serem escritos em versos compostos num padr‹o que favorece as leituras coletivas em voz alta, pois, conforme Abreu (2004), fazendo refer�ncia ˆs palavras do poeta Manoel dÕAlmeida Filho, o povo nordestino se acostumou a ler o verso como quem canta.

Ainda segundo essa autora, as adapta�›es de textos cl‡ssicos realizadas pela literatura de cordel n‹o ocorrem aleatoriamente, mas seguem um certo padr‹o que caracteriza a composi�‹o e a recep�‹o dos folhetos. H‡ um certo padr‹o no processo de adapta�‹o dos textos eruditos, pois, de modo geral, os cordelistas escolhem narrativas que sejam pr—ximas do que se convencionou denominar Òromances de cordelÓ, um subg�nero de folheto nordestino com 24 ou mais p‡ginas, com narrativas ficcionais, tematizadas entre o amor e a luta, privilegiando hist—rias semelhantes ˆs narrativas tradicionais da literatura popular.

Os folhetos nordestinos, publicados desde a segunda metade do sŽc. XIX tornaram os homens pobres na posi�‹o de autores, leitores, editores e cr’ticos de composi�›es poŽticas, envolvendo pessoas simples no mundo das letras, pelo viŽs da composi�‹o e recep�‹o dos versos. Foi assim que Romeu e Julieta, como diversas outras narrativas can™nicas, chegaram ao Nordeste, pelo viŽs da recep�‹o dos cordelistas, como destaca Abreu (2004, p. 200):

A distin�‹o entre a composi�‹o e a recep�‹o de folhetos nordestinos e a produ�‹o e a leitura de obras liter‡rias eruditas fica clara quando se examinam vers›es para folheto de narrativas eruditas, fato relativamente comum no interior da literatura de folhetos, em que h‡ vers›es de A Escrava Isaura, de Bernardo Guimar‹es, de Ubirajara, Iracema, A Viuvinha, de JosŽ de Alencar, de Amor de Perdi�‹o, de Camilo Castelo Branco, de Paulo e Virg’nia, de Bernardin de Saint Pierre, de Romeu e Julieta, de Shakespeare, de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, para citar apenas alguns exemplos.

Segundo Abreu (2004), a recep�‹o e nova composi�‹o dos poetas leva em conta a sele�‹o de narrativas eruditas com enredos, cujo tema central envolve, basicamente, o amor e a luta, variando entre os tr�s nœcleos tem‡ticos seguintes: mulheres virtuosas perseguidas por perversos apaixonados; amores contrariados; e enfrentamentos entre poderosos e valentes. As adapta�›es romejulietianas se enquadram, certamente, nos romances de amor contrariado.

Ademais, a estudiosa afirma que a sele�‹o e adapta�‹o dos textos can™nicos para o cordel segue os seguintes critŽrios: semelhan�a de enredo com os romances tradicionais dos folhetos; transposi�‹o da prosa para o verso setiss’labos (padr‹o dos folhetos); adequa�‹o da sintaxe e do lŽxico; desembara�amento da trama com a reestrutura�‹o do enredo, reduzindo personagens e a�›es; caracteriza�‹o sucinta das personagens com poucos atributos f’sicos e morais, basicamente para identific‡-las no enredo como boas ou m‡s, vil›es ou her—is, etc.; por vezes, faz-se a altera�‹o do enredo para adequar ao final dos paradigmas do cordel, qual seja, a felicidade dos apaixonados; apresenta�‹o dos sentimentos mais por a�›es do que por descri�›es. AlŽm disso, geralmente, os folhetos privilegiam o tipo de narrador-onisciente, com o papel preponderante de interpretar as atitudes dos personagens e fazer ju’zo de valor Žtico e moral, pois as hist—rias t�m um car‡ter exemplar.

Semelhantemente, os quatro cordŽis romejulietianos constroem a narrativa de forma l’rica, de modo que Ž poss’vel reconhecer os aspectos destacados por Abreu (2004). Quando comparados, percebemos que os cordŽis possuem um enredo cuja estrutura b‡sica pode ser resumida assim: inimizade entre as proles; amor ing�nuo entre os filhos dos patriarcas; a igreja como medianeira na reconcilia�‹o; casamento secreto entre os namorados/rivais; morte do primo de Julieta; ex’lio de Romeu; acordo secreto da morte de Julieta; m‡ comunica�‹o com Romeu; morte do conde P‡ris; suic’dio dos jovens.

 

 

CordŽis nordestinos: intertextos de Romeu e Julieta

 

A produ�‹o liter‡ria dialoga com outras produ�›es art’sticas, culturais e do pr—prio universo da literatura. Kristeva (2005) v� o texto como um mosaico de cita�›es, retomando sempre outros textos, seja pela vincula�‹o, a retomada expl’cita, um ato leg’timo ou a ilegalidade do pl‡gio.

A intertextualidade admite a forma�‹o de uma grande rede de textos que sempre retoma produ�›es anteriores, cujos fios se encontram com outros, formando um grande mosaico caleidosc—pico e multidimensional. Assim, a cria�‹o art’stica Ž tanto individual como coletiva, pois a mem—ria do artista tambŽm se comp›e de cita�›es, lembran�as e esquecimentos involunt‡rios ou n‹o.

Os quatro cordŽis romejulietianos dialogam intertextualmente com a tradi�‹o europeia da qual s‹o herdeiros, mas, ao faz�-lo, reconstroem o prototexto original, adaptando ao novo contexto de produ�‹o. Tal processo de reescritura Ž muito mais percebido sob a pena do cordel mais antigo de Athayde, devido ao seu v’nculo com a tradi�‹o amparada na cultura de conflitos parentais do in’cio do sŽculo XX no sert‹o nordestino.

Do ponto de vista do suporte, Athayde e Ilza Bezerra, mant�m a publica�‹o no modelo tipogr‡fico do folheto de cordel. Por outro lado, os cordŽis de Marinho e Lima foram publicados em livros por editoras de divulga�‹o nacional, respectivamente, a Nova Alexandria e o ArmazŽm da Cultura.

Quanto ˆ fonte de adapta�‹o, os tr�s cordŽis recentes de Bezerra, Lima e Marinho apresentam-se claramente identificados com a pe�a de William Shakespeare[26], conforme se pode perceber, a seguir:

Vasculhando alfarr‡bios

Desbotados na gaveta,

Deparei-me com a obra

Maior de todo planeta:

ƒ a shakespeariana

De Romeu e Julieta (MARINHO, 2011, p.13)

 

AtravŽs desta hist—ria

Resgatarei a leitura

De um drama muito antigo,

Famoso em sua candura,

Porque o cordel Ž arte

E valoriza a cultura.

As personagens do drama

Comoveram muita gente

Por mostrar um grande amor

Profundo e contundente,

Criadas por Shakespeare

Pra se amar eternamente (BEZERRA, 2011, p.1)

 

N‹o h‡ em todo o planeta

Algo que ven�a o amor,

Que Ž belo qual borboleta,

Forte qual mar em furor.

ƒ o que mostra a historieta

De Romeu e Julieta.

Shakespeare Ž seu autor. (LIMA, 2012, p.70)

            No caso do cordel de Athayde, n‹o encontramos nenhuma indica�‹o textual que relacione o texto com a obra de Shakespeare. Todavia, desde que Ariano Suassuna (2018) adaptou o cordel de Athayde para sua pe�a A hist—ria do Amor de Romeu e Julieta: imita�‹o Brasileira de Matteo Bandello, referenciou, pelo pr—prio t’tulo, o conto italiano como sendo a fonte usada por Athayde. O texto de Athayde, porŽm, n‹o nos permite ter tanta certeza disso, embora possamos inferir, pelas duas primeiras sextilhas, que o autor tenha conhecido a hist—ria atravŽs do cinema ou de alguma encena�‹o teatral:

Vou  contar  neste  romance

a  desdita  de  Romeu

na  sua  curta  exist�ncia

de  tudo  que  padeceu

foi a lenda mais tocante

que  a  nossa  imprensa  escreveu

Essa  hist—ria  Ž  conhecida

em  quase  toda  na�‹o

no teatro e no cinema

tem  causado  sensa�‹o

deixando  amarga  lembran�a

no mais brutal cora�‹o. (ATHAYDE, 1975, p.1)

            A poesia de Athayde estabelece uma teia intertextual produtiva que ultrapassa os limites da linguagem verbal dos textos fundantes e chega a outros universos semi—ticos, visto que o pr—prio poeta admite que esta hist—ria j‡ foi traduzida para outras m’dias, como o teatro e o cinema, e j‡ ÒŽ conhecida em quase toda na�‹oÓ.

Athayde (1975) incorpora altera�›es significativas, como o ju’zo de valor negativo para a fam’lia Capuleto (ra�a tirana), em detrimento ˆ descri�‹o positiva da fam’lia MontŽquio (fam’lia honesta e humana). Assim, esta representa o bem e a honra, valores exaltados na Žtica nordestina, enquanto aquela retrata a impiedade e o autoritarismo.

No conto de Bandello, n‹o h‡ essa dicotomia moralista retratada no romanceiro popular, de modo que um amigo de Romeu, embora reconhe�a o afeto de MontŽquio pelo filho, descreve a sua dureza e apego aos bens materiais: Ò[...] voc� Ž – deixe-me ser sincero – cort�s, virtuoso, am‡vel e de boa cultura, o que muito valoriza sua juventude. AlŽm disso, œnico filho de um pai cuja grande riqueza Ž de todos conhecida; Ž poss’vel que ele seja avaro e o repreenda se voc� esbanja os seus dotesÓ (BANDELLO, 2012, p.19).

            O enredo athaydiano desenvolve o conflito das duas fam’lias, acrescentando uma tragŽdia n‹o apresentada em nenhuma das tradi�›es romejulietianas. No cordel, MontŽquio foi preso por Capuleto e assistiu o assassinato brutal de sua esposa, que ainda tinha Romeu nos bra�os. A composi�‹o deste conflito aumenta o drama, pois n‹o houve qualquer miseric—rdia do tirano Capuleto:

Montequio inda pediu

mas ele n‹o atendeu,

disse o duque a um carrasco

esse logo obedeceu

dos bra�os da propria m‹e,

foi arrancado Romeu. [...]

Ali tirou um punhal

Que na cinta carregava

Cravou-o no peito da jovem

Dizendo: eu bem que jurava;

O punhal ia rangindo

Com a for�a que ele botava

Disse ela: senhor duque

seu cora�‹o Ž perverso

tenha d— do meu filhinho

que ainda fica no ber�o;

ele calcou no punhal

que sumiu-se atŽ no ter�o (ATHAYDE, 1975, p.4-5)[27]

            Na continuidade da narrativa, MontŽquio retira o punhal da esposa e jura que seu filho haver‡ de vingar-se do algoz inimigo. Como se n‹o bastasse o assassinato a m‹o armada, Capuleto arrastou pela cidade o corpo da esposa de MontŽquio e mandou jog‡-la no mar, privando-lhe atŽ de um enterro digno.

AlŽm disso, a presen�a de Romeu no baile de m‡scaras da fam’lia Capuleto Ž retratada de forma diferente. No conto, Romeu Ž reconhecido e tolerado sem troca de ofensas, sobretudo por ser muito jovem. Na vers‹o de Athayde, o jovem MontŽquio comparece com o punhal para vingar-se, conforme incumb�ncia do pai. Entretanto, ao se apaixonar por Julieta, Romeu Ž obrigado a fazer uma escolha entre o amor de seu pai e o da jovem Capuleto, numa tens‹o cuja escolha pesa a balan�a contra o c—digo de Žtica nordestino, conforme descreve o poeta:

Por fim falou o mancebo:

escuta, loura crian�a

do castelo do meu pai

vim tomar uma vingan�a;

e arrastando um punhal

aos pŽs da mo�a lhe lan�a

Diante a tua beleza

eu sinto o peito chagado

pelos teus olhos azuis

tornei-me escravizado

e te confesso sem pejo

Por ti, vivo apaixonado

Teu pai matou minha m‹e

Quando eu era pequenino,

E eu ving‡-lo jurei

Mas a for�a do destino

Fez com que tudo acabasse

Ante o teu porte divino

Serei perjuro e jamais

Ao meu pa’s voltarei

Aos teus pŽs palida imagem

Como escravo viverei

Juro-te em nome dos cŽus

Que junto a ti morrerei (ATHAYDE, 1975, p.15,16)

            A decis‹o de Romeu est‡ tomada e n‹o h‡ retorno, raz‹o pela qual o cordelista emite seu parecer, apresentando um ju’zo de valor com base na Žtica sertaneja para a qual a desonra ˆ fam’lia Ž uma atitude imperdo‡vel e, diante da qual, o eu l’rico esquece a abnega�‹o dos jovens apaixonados e execra:

 

Quem possui este romance

conhece bem o que leu,

a esposa de Montequio

em que condi�‹o morreu

tambŽm conhece a misŽria,

e covardia de Romeu. [...]

Romeu fez como saguim

que se ilude com careta

bastou ver no peito dela

um ramo de violeta

foi perguntar logo seu nome

lhe dissera; Ž Julieta

Nas condi�›es que ele estava

n‹o tinha mais um rodeio

era vingar-se de tudo

fingindo como um passeio

n‹o tinha o que perguntar

quem Ž bonito nem feio

Mas ele n‹o fez assim

depois que se achou na sala

viu Julieta dan�ando

fez tudo pra namor‡-la

inda ela sendo uma deusa

ela devera odi‡-la

Romeu foi falso a seu pai

por isto teve castigo

como faltou-lhe a coragem

para enfrentar o perigo

casou-se com a pr—pria filha

do seu fatal inimigo (ATHAYDE, 1975, p.30,31)

O enredo athaydiano construiu a imagem de um MontŽquio vitimado para, ao final, emitir um ju’zo de valor sobre a tomada de atitude de Romeu ao renunciar a vingan�a em nome do amor ˆ filha do inimigo. A composi�‹o de cordelista certamente considera o sil�ncio que o enredo bandelliano realiza em rela�‹o ˆ esposa de MontŽquio, pois, no conto, a fam’lia Capuleto Ž composta por um casal e a sua filha, mas isso n‹o sucede na fam’lia MontŽquio, em que apenas o pai e o filho s‹o retratados. Certamente, essa Ž uma das raz›es porque Bandello Ž tido como fonte de Athayde e n‹o Shakespeare, para quem a m‹e de Romeu morreu devido ao seu ex’lio em M‰ntua.

Na vers‹o de Athayde, Romeu n‹o Ž apresentado como um her—i, assim como acontece nas vers›es cl‡ssicas ou mesmo no romanceiro popular dos outros cordŽis. Aqui, ele Ž tratado como um traidor dos seus progenitores, alguŽm que renegou o seu sangue. No dizer de Oliveira (2019, p.1003), Ž o cordel Òassumindo o papel de correia transmissora de alguns valores culturais nordestinosÓ. O estabelecimento de uma moral n‹o Ž plena novidade dos romances nordestinos, pois, conforme Oliveira (2019, p.998), os autores europeus j‡ o faziam:

Brooke pregava em seu poema que a desobedi�ncia de Julieta foi a causa deflagradora da tragŽdia dos dois jovens, uma vez que Julieta n‹o quis ouvir os conselhos da m‹e. Com seu poema, Brooke deixa para os jovens a li�‹o de que o ato de n‹o obedecer ˆs ordens dos pais pode gerar consequ�ncias amargas e irrevers’veis. Esse tom moralizante foi relutado por Shakespeare em sua pe�a que retirou a responsabilidade da tragŽdia das m‹os de Julieta, transferindo-a para as duas fam’lias nobres e o seu eterno —dio.

No cordel de Lima (2012), a moral da narrativa Ž pronunciada no in’cio e no final do cordel, exaltando o poder do amor que une o casal na morte e pacifica a rela�‹o entras fam’lias rivais:

N‹o h‡ em todo o planeta

Algo que ven�a o amor,

Que Ž belo qual borboleta, 

Forte qual mar em furor.

ƒ o que mostra a historieta

De Romeu e Julieta.

Shakespeare Ž seu autor. [...]

Mas, no fim, o amor ganhou

pois o —dio ali morreu

E a verdade floresceu

Mesmo sendo borboleta,

Nenhuma for�a excedeu

Ao amor, neste planeta

Diz Shakespeare, n‹o eu,

Na hist—ria que escreveu

De Romeu e Julieta.Ó (LIMA, 2012, p.70,74).

Na narrativa de Bezerra (2011), a moral aparece tambŽm no final do romance, enfatizando as consequ�ncias do —dio e o modo como a paz selou-se:

E a que ponto chega o —dio

Ficou marcado no instante.

A Maldi�‹o teve o fim

Selou-se a paz doravante.

Isto serviu de li�‹o. (BEZERRA, 2011, p.31)

O tempo da narrativa Ž semelhante em todos os cordŽis, tal como em Shakespeare cuja a�‹o transcorre num per’odo de cinco dias, quando os jovens se conhecem, se casam, consumam o amor, Romeu foge e acabam se encontrando no sepulcro com a morte.

No cordel de Lima (2012), o casal se conhece na festa, com Romeu mascarado e oculto, resolvem se casar e a morte de Teobaldo n‹o Ž desenvolvida, como um elemento da composi�‹o que potencializou o conflito das fam’lias, apenas exilando Romeu, sem qualquer comprometimento de Julieta. Nos folhetos de Bezerra (2011) e de Marinho (2011), por outro lado, Romeu Ž reconhecido por Teobaldo no baile de m‡scaras, mas Capuleto reconhece a virtude do jovem MontŽquio e tolera sua presen�a, orientando o sobrinho a nada fazer, tendo em vista que o rapaz se mostrava virtuoso e educado. Em todos os cordŽis, Romeu mata Teobaldo apenas ap—s a provoca�‹o deste, que chega a matar Mercœrio, amigo do jovem MontŽquio.

Entretanto, apenas os cordŽis de Bezerra (2011) e de Marinho (2011) desenvolvem o drama de Julieta entre o primo morto e o marido exilado, exaltando ainda mais a natureza do conflito familiar e desencadeando a angœstia da mo�a. Na vers‹o de Bezerra (2011), a senhora Capuleto, relacionava o sofrimento de Julieta ˆ morte do Teobaldo, e promete que Romeu pagaria, sem saber, contudo, que a jovem chorava pela saudade do seu esposo.

Somente no cordel de Marinho (2011), aparece a senhora MontŽquio, apelando ao pr’ncipe para n‹o estabelecer a pena capital a Romeu devido ˆ morte de Teobaldo, tal como requeria a senhora Capuleto. Tal constru�‹o estabelece uma forte distin�‹o do car‡ter narrativo de Athayde, para quem a morte da senhora MontŽquio no in’cio do folheto Ž elemento fundamental do conflito entre os rivais.

Cabe ainda registrar que as œltimas estrofes dos cordŽis de Bezerra e Marinho encerram em forma de acr—stico, um carimbo de autoria caracter’stico do cordel.

 

 

Considera�›es finais

 

êtalo Calvino (1993, p.11) define um cl‡ssico como Òum livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizerÓ. No que pese a diversidade de reescrituras de Romeu e Julieta, Ž poss’vel consider‡-lo o grande enredo do ocidente, com o qual qualquer narrativa de amor proibido ser‡ sempre comparada. Sendo assim, n‹o Ž de se estranhar que os poetas populares tenham encontrado raz›es para ÒtraduzirÓ Romeu e Julieta para o cordel.

Enfatizamos, porŽm, que as adapta�›es dos cordŽis demonstram a liberdade dos autores em contar ao seu modo a trama. Contudo, do ponto de vista do enredo, foi poss’vel perceber muito mais liberdade no texto de Athayde, sobretudo pela incorpora�‹o de fatos e temas que permitem a identifica�‹o do pœblico leitor dos folhetos com o texto. Entretanto, n‹o se percebe o mesmo processo criativo nos demais textos aqui estudados, que se mostram mais propensos a cristalizar a hist—ria de Shakespeare.

 

 

Refer�ncias

 

ABREU, M‡rcia. ÒEnt‹o se Forma a Hist—ria BonitaÓ - Rela�›es entre Folhetos de Cordel e Literatura Erudita. Horizontes Antropol—gicos, Porto Alegre, ano 10, n. 22, p. 199-218, jul./dez. 2004. Dispon’vel em: <http://www.scielo.br/j/ha/a/QL9WD9 8KHC5wQFZY7CZ6LMK/?lang=pt.> Acesso em: 27 maio 2021.

 

ATHAYDE, Jo‹o Martins de. Romance de Romeu e Julieta. Juazeiro do Norte: Jo‹o Martins de Athayde, 1975.

 

BANDELLO, Matteo. Romeu e Julieta. S‹o Paulo: Paulus, 2012.

 

BEZERRA, Maria Ilza. Romeu e Julieta. 3. ed. S‹o Paulo: Editora Luzeiro Ltda., 2011.

 

CALVINO, Italo. Por que ler os cl‡ssicos. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 1993.

 

HELIODORA, Barbara. Shakespeare: o que as pe�as contam: tudo o que voc� precisa saber para descobrir e amar a obra do maior dramaturgo de todos os tempos. Rio de Janeiro: Edi�›es de Janeiro, 2014.

 

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KONDER, Leandro. Sobre o amor. S‹o Paulo: Boitempo, 2007.

 

KRISTEVA, Julia. Introdu�‹o ˆ seman‡lise. 2. ed. S‹o Paulo: Perspectiva, 2005.

 

LIMA, StŽlio Torquato. Primas em cordel: vers›es rimadas de 12 cl‡ssicos da literatura universal. Fortaleza: ArmazŽm da Cultura, 2012.

 

MARINHO, Sebasti‹o. Romeu e Julieta em Cordel. S‹o Paulo: Nova Alexandria, 2011.

 

NIZAMI , Laila e Majnun: A Cl‡ssica hist—ria de amor da literatura persa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2003.

 

OLIVEIRA, Elin�s de A. V. e. Romeu e Julieta na Hist—ria da Literatura Ocidental. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2019. Dispon’vel em: <https://editora.pucrs.br/edipucrs/acessolivre/ Ebooks/Web/978-85-397-0198-8/Trabalhos/29.pdf> Acesso em: 06 ago. 2021

 

OVêDIO, Pœblio Naso. Metamorfoses. Porto Alegre: Concreta, 2016.

 

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SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. S‹o Paulo: Peixoto Neto, 2017.

 

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SUASSUNA, Ariano. A compadecida e o romanceiro nordestino. In: ______. Almanaque Armorial. 3. ed. Rio de Janeiro: JosŽ Olympio, 2012.

 

 

[Recebido: 16 ago 21- Aceito: 16 set 21]



[23] Doutorando em Linguagem e Ensino pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).  Mestre em Literatura e Interculturalidade pela Universidade Estadual da Para’ba (2011). Professor efetivo do Instituto Federal de Educa�‹o, Ci�ncia e Tecnologia da Para’ba (IFPB).  Contato: prweberalves@gmail.com

[24] Doutora em Letras pela Universidade Federal da Para’ba (2005) e P—s-doutorado na ‡rea de Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (2007). Atualmente, Ž professora Associada da Universidade Federal de Campina Grande (UAEF/PPGCF/PPGLE/UFCG).. Contato: naelzanobrega@gmail.com

[25] Utilizaremos esse neologismo para se referir ˆ trama de Romeu e Julieta, considerando as mais diversas obras medievais que remontam ao mesmo enredo.

[26] A preocupa�‹o em contar a vers‹o do autor, certamente justifica a pouca modifica�‹o no enredo por estes autores.

[27] Foi preservada a escrita original dos cordŽis.