Vozes poŽticas e (re)exist�ncias quilombolas do Grupo Ra’zes do Samba de Tocos de Ant™nio Cardoso - BA

 

Poetic voices and quilombola (re)existences of the Ra’zes do Samba de Tocos Group by Ant™nio Cardoso – BA

 

Renailda Ferreira Cazumb‡[47]

https://orcid.org/0000-0002-3396-1962

 

Eliziane Santos e Santos[48]

https://orcid.org/0000-0001-9685-0066

 

 

Resumo: A vida e as hist—rias dos mestres e mestras, sambadores e sambadeiras do grupo Ra’zes do Samba de Tocos de Antonio Cardoso - BA resguardam um precioso manancial poŽtico e narrativo corporificado em sambas e hist—rias tradicionais do grupo. Nesse sentido, este artigo pretende visibilizar a intera�‹o e a recolha das vozes do repert—rio cultural oral e os referenciais ancestrais afro-brasileiros a partir do levantamento e registro do seu repert—rio oral. Fruto das a�›es da pesquisa ÒVozes ancestrais quilombolas em contos e narrativas do grupo Ra’zes do Samba de Tocos de Antonio Cardoso – BAÓ, este estudo concentra-se em acessar as narrativas de cunho oral e autobiogr‡ficas dos mestres do samba rural. O aporte te—rico-metodol—gico se fundamenta na teoria de Benjamin (1994), nas concep�›es de Costa (2015) acerca dos narradores tradicionais, em Ferraroti (1988), sobre o mŽtodo autobiogr‡fico, e nas concep�›es de HampatŽ B‰ (1977) a respeito da tradi�‹o oral em comunidades africanas. O manancial narrativo insere os sambadores/sambadeiras do Ra’zes do Samba de Tocos dentre os guardi›es das vozes ancestrais que reencenam as (re)exist�ncias negras no interior da Bahia.

 Palavras-Chave: Ra’zes do Samba de Tocos; Vozes poŽticas tradicionais; (Re)exist�ncias.

 

Abstract: The life and stories of mestres and mestras, sambadores and sambadeiras of the group Ra’zes do Samba de Tocos by Antonio Cardoso - BA traditional knowledge constitute precious poetic and narrative source embodied in sambas and traditional stories by the group. In this sense, this article intends to make visible the interaction and collection of the voices of the oral cultural repertoire and the Afro-Brazilian ancestral references from the survey and registration of their oral repertoire. It is the result of the research actions of the project Cacimba de hist—rias: vidas e saberes dos contadores de hist—rias tradicionais de cidades do interior da Bahia, (UEFS/ UFSB/UNILAB), study focuses on accessing the oral and autobiographical narratives of the masters of rural samba. The theoretical and methodological contribution is based on Benjamin's theory (1994), on Costa's (2015) conceptions about traditional narrators, Ferraroti's (1988) theory about the autonomy of the autobiographical method, and HampatŽ B‰'s (1977) conceptions about oral tradition in African communities. The narrative source inserts the sambadores/sambadeiras of the Ra’zes do Samba de Tocos among the keepers of ancestral voices that re-enact black (re)existences in the interior of Bahia.

Keywords: Ra’zes do Samba de Tocos. Traditional poetic voices. (Re)existences.

 

 

Introdu�‹o

 

Neste artigo socializamos parte dos resultados da pesquisa ÒVozes ancestrais quilombolas em contos e narrativas do grupo Ra’zes do Samba de Tocos de Antonio Cardoso - BAÓ (FAPESB/2019-2020), na qual realizamos o levantamento do repert—rio cultural de cunho oral advindo dos mestres e mestras sambadeiras integrantes do Grupo Ra’zes do Samba de Tocos, da comunidade quilombola situada no munic’pio de Ant™nio Cardoso, estado da Bahia. Interessadas em investigar a preserva�‹o e a visibiliza�‹o dos saberes populares provindos dos narradores tradicionais do Rec™ncavo Baiano, interagimos com o grupo por reconhecermos o processo de silenciamento e marginaliza�‹o desse conhecimento no ‰mbito da educa�‹o formal, assim como o poss’vel apagamento desse acervo cultural na sociedade moderna.

Neste sentido, focalizamos as vozes poŽticas das sambadeiras e sambadores, por meio do interc‰mbio de saberes entre a comunidade tradicional, que Ž o campo emp’rico da nossa pesquisa, e os espa�os acad�micos envolvidos. Neste percurso, interagimos com o Mestre Saturnino Dias Neri, de cognome Mestre Satu, e com as sambadeiras Ant™nia Neri e Valdemira Sena de Almeida, Dona Mira, integrantes do grupo de samba tradicional na comunidade quilombola de Tocos, atravŽs da Entrevista Narrativa. Tais a�›es resultaram no levantamento e registro das hist—rias contadas – vers›es originais de contos populares e de sambas rurais – de forma individual e coletiva pelos sambadores, situados no estudo como narradores tradicionais e que revelaram um manancial poŽtico tradicional a ser reconhecido como repert—rio das reexist�ncias negras no contexto das comunidades quilombolas do interior da Bahia.

O mestre e as sambadeiras, atores da pesquisa em quest‹o, foram situados a partir da concep�‹o de narradores tradicionais, adotada durante o processo de investiga�‹o. Para tanto, essa movimenta�‹o fundamentou-se na teoria de Walter Benjamim a respeito de quais tra�os caracterizam um narrador tradicional. Segundo o fil—sofo alem‹o:

Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os s‡bios. Ele sabe dar conselhos: n‹o para alguns casos, como o provŽrbio, mas para muitos casos, como o s‡bio. Pois pode recorrer ao acervo de toda uma vida (uma vida que n‹o inclui apenas a pr—pria experi�ncia, mas em grande parte experi�ncia alheia. O narrador assimila ˆ sua subst‰ncia mais ’ntima aquilo que sabe por ouvir dizer). Seu dom Ž poder contar sua vida; sua dignidade Ž cont‡-la inteira. O narrador Ž o homem que poderia deixar a luz t�nue de sua narra�‹o consumir completamente a mecha de sua vida (BENJAMIM, 1994, p. 221).

AlŽm da defini�‹o da figura do narrador tradicional, que popularmente conhece e possui o acervo dos saberes, buscou-se, de antem‹o, compreender qual a funcionalidade desse indiv’duo para a sociedade. Segundo Edil Costa (2015, p.06): ÒO papel dos narradores tradicionais Ž o de interpreta�‹o e recria�‹o da mem—ria ancestral que herdaram e, a seu modo, preservamÓ. Sendo assim, chegamos atŽ Mestre Satu, Dona Ant™nia e Dona Mira, um trio de anci›es que representam a sua comunidade e resguardam saberes coletivos. Ouvimos e aprendemos com o mestre e as sambadeiras sobre a import‰ncia da preserva�‹o desse manancial cultural, pois que tais saberes, segundo esses sujeitos, est‹o se tornando raros na contemporaneidade.

 

A perspectiva metodol—gica autobiogr‡fica

 

O Grupo Ra’zes do Samba de Tocos Ž liderado pelo Mestre Satu e se constitui como grupo h‡ cerca de 16 anos, a partir dos encontros entre vizinhos, amigos e familiares que se reuniam de forma frequente a fim de celebrar as datas religiosas como as novenas, a festa de Reisado (o Rei, segundo denominam) e as festas para os caboclos – manifesta�›es estas sempre regadas com rezas, cantigas e sambas que variam em suas mœltiplas modalidades, como o samba coco, o cantado e o pisado. O grupo Ž formado principalmente por camponeses e camponesas que vivem na regi‹o da antiga fazenda de Tocos, munic’pio de Ant™nio Cardoso, no interior da Bahia, a 30 km de Feira de Santana, o qual tem como principal atividade econ™mica a produ�‹o agr’cola, especialmente do fumo, milho e feij‹o (SESC, 2014). Para alŽm do l’der, integram esse coletivo Roque da Viola, Afonso das Virgens, Ant™nio Luiz, Manoel Concei�‹o, Dona Ant™nia, Dona Edilma e Dona Maria de Lourdes.

Mestre Satu, Dona Ant™nia e Dona Mira participam desta pesquisa por integrarem especialmente uma comunidade afro-brasileira, na qual est‡ concentrada a cultura negra ancestral de forma muito potente atravŽs, sobretudo, da mem—ria e da oralidade. Esse aspecto torna-se relevante ao considerarmos a concep�‹o do etn—logo e fil—sofo malin�s Amadou HampatŽ B‰ sobre a rela�‹o da oralidade com a forma�‹o das sociedades africanas, a saber:

Quando falamos de tradi�‹o em rela�‹o ˆ hist—ria africana, referimo-nos ˆ tradi�‹o oral, e nenhuma tentativa de penetrar a hist—ria e o esp’rito dos povos africanos ter‡ validade a menos que se ap—ie nessa heran�a de conhecimentos de toda espŽcie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a disc’pulo, ao longo dos sŽculos. Essa heran�a ainda n‹o se perdeu e reside na mem—ria da œltima gera�‹o de grandes deposit‡rios, de quem se pode dizer s‹o a mem—ria viva da çfrica (HAMPATE Bå, 1977, p. 1).

A contribui�‹o de um dos maiores pensadores africanos do sŽculo XX para que a oralidade fosse reconhecida como uma fonte significativa e especialmente leg’tima de circula�‹o de conhecimento hist—rico foi a fundamenta�‹o indispens‡vel para o desenvolvimento desta pesquisa. Pensar na hist—ria e na cultura pertencentes aos diversos povos africanos Ž falar de oralidade e mem—ria e, portanto, n‹o haveria via mais simb—lica para nosso estudo do que a de adentrar em uma comunidade quilombola afro-brasileira atravŽs das manifesta�›es de cunho oral em toda a sua multiplicidade, a fim de acessar e fazer o levantamento dos seus saberes presentes nas mem—rias do grupo.

Ao se referir ao saber tradicional dos narradores enquanto um acervo resultante de toda a trajet—ria de vida desses indiv’duos, o autor supracitado Walter Benjamim (1944) nos apresenta um importante recurso para a gera�‹o de dados de pesquisa: os relatos autobiogr‡ficos.

A fim de alcan�ar estes materiais, adotamos a perspectiva metodol—gica autobiogr‡fica e nos embasamos nas concep�›es do soci—logo Franco Ferraroti em rela�‹o ˆ autonomia do mŽtodo (auto)biogr‡fico, com base na etnografia, e considerando as pr‡ticas e saberes de alguns dos integrantes do grupo Ra’zes do Samba de Tocos. Segundo aquele que foi descrito como pai da sociologia italiana moderna: Ò(...) o nosso sistema social encontra-se integralmente em cada um dos nossos atos, em cada um dos nossos sonhos, del’rios, obras, comportamentos. E a hist—ria deste sistema est‡ contida por inteiro na hist—ria da nossa vida individualÓ (FERRAROTTI, 1988, p. 26). Dessa forma, tencionamos partir da investiga�‹o das hist—rias individuais do Mestre Satu, da Dona Ant™nia e da Dona Mira a fim de, para alŽm dos relatos de suas viv�ncias, abranger narrativas que dialoguem com a mem—ria de Tocos enquanto uma coletividade. Para isso, foi utilizado um dispositivo de produ�‹o e an‡lise de dados de pesquisas, qual seja, a Entrevista Narrativa:

 

Idealizada por Fritz SchŸtze como um dispositivo para compreender os contextos em que as biografias foram constru’das, os fatores que produzem mudan�as e motivam ˆs a�›es dos portadores da biografia, essa entrevista produz textos narrativos sobre as experi�ncias das pessoas, expressando maneiras como os seres humanos vivem o mundo por meio de hist—rias pessoais, sociais e coletivas. Ela tem como objetivo incentivar a produ�‹o de uma narrativa pelo depoente (MOURA; NACARATO, 2017, p. 17).

Este dispositivo tende, na verdade, a promover uma ruptura com o padr‹o de entrevistas estruturadas ou semiestruturadas e oferta uma maior flexibilidade para que o entrevistado tenha a fluidez necess‡ria para transitar por diversos temas de seu interesse, sem que uma sequ�ncia de perguntas limite suas narrativas. Ademais, propicia n‹o apenas o levantamento de hist—rias pessoais como tambŽm a an‡lise do contexto no qual o indiv’duo est‡ inserido, considerando os atravessamentos de idade, g�nero, ra�a, etnia, classe social e momento hist—rico.

Dessa forma, a nossa entrevista narrativa ocorreu de forma coletiva e on-line no dia 26 de maio de 2021, atravŽs da plataforma digital Google Meet, assim configurando as adapta�›es que j‡ estavam previstas desde o in’cio da pesquisa devido ˆs restri�›es consequentes da pandemia de COVID-19. De antem‹o, foi elaborado um material com algumas quest›es disparadoras apenas para nos guiar durante a entrevista, mas o conteœdo real foi conduzido pelos mestres e pelas mestras que, com pouco tempo de grava�‹o, j‡ se sentiam ˆ vontade para fazer da mem—ria o seu principal orientador. Em sequ�ncia ao trabalho de intera�‹o com os mestres da comunidade de Tocos, o movimento foi registrar todo o material coletado, que variou desde os relatos autobiogr‡ficos atŽ vers›es de contos populares e letras de samba.

No processo de entrevista aos mestres h‡ muitos detalhes da performance oral e narrativa que, infelizmente, apenas a escrita n‹o Ž capaz de captar. Os corpos desses contadores tradicionais narram significativamente, bem como o olhar, os gestos, o riso e outros elementos contribuem para uma compreens‹o mais ampla do que est‡ sendo narrado e cantado. Portanto, dentro de todas as limita�›es dos textos escritos, buscamos transpor para as letras algumas dessas manifesta�›es, decis‹o que tornou o processo de transcri�‹o um dos mais ‡rduos de toda a pesquisa. Traremos, no corpo da an‡lise, trechos das narrativas com o mestre e sambadeiras, a fim de potencializar o texto escrito com a riqueza do manancial poŽtico-narrativo do grupo.

 

 

As vozes poŽticas do Ra’zes do Samba de Tocos: ancestralidade e reexist�ncia

 

Nossa inten�‹o n‹o Ž a de dar voz ao grupo de sambadores e narradores tradicionais, pois cremos que nosso percurso se concentra em dialogar e aprender com o grupo, ponderando que a voz j‡ pertence aos narradores e s‹o sua fonte de vida e reexist�ncias. A Entrevista Narrativa coletiva concedida a n—s pelo Mestre Satu, pela Dona Ant™nia e pela Dona Mira foi organizada de forma a promover a socializa�‹o de narrativas, ap—s pedirmos licen�a para adentrar ao espa�o da ancestralidade do grupo. Nas conversas, os sambadores nos revelaram, no primeiro momento, a sua identidade enquanto indiv’duos; em sequ�ncia, como sujeitos imersos em um determinado grupo e, por fim, enquanto mestres da tradi�‹o popular do Rec™ncavo Baiano. A t’tulo de exemplo desse movimento tem-se o relato do Mestre Satu acerca da origem do seu nome, portanto, do come�o da sua hist—ria de vida: 

Saturnino Dias Neri, meu apelido Ž Satu, Mestre Satu e meu nome Ž Saturnino Dias Neri. Meu pai me contou um neg—cio do nascimento era que os pai pra registrar os fi tinha que v� um livro, um almanaque de pensamento que era pra escolher o nome dos meninos quando nascia, ai escolhia, fulano nasceu nim tal m�s ai botava o nome, quer dizer que era um pensamento que as pessoa tinha, iai botaram meu nome Satu, Saturnino e botaram o apelido Satu e Ž, acho que Ž bem pouco que tem aqui no munic’pio porque  o povo n‹o, hoje tudo Ž pensando como eles quer fazer, antes dos meninos nascer j‡ t‡ com nome marcado nŽ: Òvou botar fulano de tal, isso e aquilo outroÓ. Papai e mam‹e se reuniram e botaram Saturnino (Mestre Saturnino Neri).

Nascido e criado no munic’pio de Ant™nio Cardoso, o Mestre Satu Ž filho de Jovina Neri de Souza e Is’dio Dias de Souza, e possui oito irm‹os, dentre os quais sete s‹o mulheres e um homem. A mem—ria muito viva Ž um dos tra�os que nos saltaram aos olhos durante a intera�‹o com o Mestre Satu, no auge dos seus 79 anos: cantador, contador e rezador, ele nos narrou hist—rias completas da sua inf‰ncia e juventude, per’odo este marcado especialmente pelo trabalho manual nas ro�as:

Era tudo devagar, mas dava pra passar, dava pra divertir, a gente ia trabalhava mais os pais, mais as m‹es, a vaidade era passear mais os amigo. j‡ era tudo marcado e a ida era marcada, ali a gente n‹o podia sair pra ir pra canto nenhum, era tudo dominado, escravizado. Quando terminava o servi�o iam pra ro�a, ia pisar milho, catar baxeiro, sentar pra amarrar fumo, era um bocado de coisa. Iai quando terminava de tarde Ž: Òv‹o pra ro�a fazer a rocinha de voc�sÓ, ai a gente vinha fazer a rocinha da gente, prantava um feij‹ozinho, prantava um pezinho de fumo, n‹o tinha munturo naquele tempo, a gente ia pros matos, pros morros pra pegar folha de Gravat‡ pra fazer os munturo, a gente n‹o podia sair numa estrada se n‹o fosse acompanhado que naquele tempo a pol’cia pegava, os inspeto pegava (sinal de lavar as m‹os) e ajeitava l‡, ai ia levar pros pais chegava l‡ entregava pros pais. Mai, mai! eu n‹o tenho tristeza por isso n‹o, gostei muito, eu prantava meu fumo, prantava meu feij‹o, n‹o vendia, mas dava pra gente cumer, quando eu peguei a me entender, a’ eu peguei, plantei minha ro�a, prantando minha farinha e levando pra Anguera pra vender pra eu comprar roupa pra vestir, chapŽu sapato... (Mestre Saturnino Neri).

A mem—ria da inf‰ncia e juventude do Mestre Satu demonstra como a explora�‹o pode ser relativizada no meio das comunidades afro-brasileiras. Apesar de reconhecer a grande sobrecarga de trabalho presente no seu cotidiano e no dos seus pares, ao empregar termos como ÒescravizadosÓ e ÒdominadosÓ, o mestre afirma que n‹o sente remorsos ou tristeza ao se recordar do passado, e que dava para se divertir. Dessa forma, podemos refletir que, apesar de em nenhum momento o Mestre ter abordado de forma literal as quest›es raciais, esse discurso se revelou atravŽs da sua fala e do relato de como os seus corpos foram estruturalmente controlados e destinados, quase que integralmente, ao labor e ˆ subsist�ncia – enquanto o lazer, as brincadeiras e o aspecto lœdico, que deveria predominar durante sua inf‰ncia, foram elementos distantes da realidade desse sujeito e das outras crian�as do seu entorno.

Na vida do Mestre Satu essa problem‡tica n‹o se restringe aos primeiros anos de sua vida, mas segue ao longo de sua trajet—ria, visto que ele afirma, nos desdobramentos finais da entrevista, n‹o dominar a linguagem escrita devido ˆs suas jornadas de trabalho. Essa tem‡tica surgiu enquanto fal‡vamos da literatura de cordel, muito bem representada na comunidade por Ant™nio Ribeiro da Concei�‹o, nacionalmente reconhecido como Mestre Bule-Bule. Outras poss’veis literaturas poderiam ter feito parte das suas vidas e da mem—ria do grupo, conforme Dona Mira nos revela: ÒVou dizer, eu n‹o sei l�, n‹o sei l�, guardo tudo na minha cabe�aÓ. Essa declara�‹o ensejou o mestre a contar tambŽm a sua experi�ncia e a forma com que a necessidade de trabalhar para sustentar seus doze filhos o impediu de dedicar o seu tempo aos estudos, ˆ escrita e aos livros:

Meu tempo n‹o dava pra eu l� esse neg—cio de cordel, meu cordel era rancar toco pra criar meus fio, aqui em Cruz das Almas pra c‡, eu rancava toco ai em S‹o Gon�alo, Santa Matibiri, Concei�‹o de Feira, esses pau tudo, a gente sa’a daqui com uma mochila nas costas pra ir trabalhar, rancar toco, cortar lenha pra poder criar os filhos, mas gra�as a Deus meus fi ta criado e eu tambŽm n‹o perdi a minha disposi�‹o, a minha vontade, sou feliz, hoje eu sou o que eu n‹o esperava, meus filho n‹o me d‡ dor de cabe�a, todo mundo tem seu trabalhozinho pra trabalhar, todo mundo tem seu larzinho pra colocar, tem seu motorzinho, ent‹o eu tenho alegria (Mestre Saturnino Neri).

Ainda nesse contexto Ž poss’vel trazer para a discuss‹o os relatos das viv�ncias da Ant™nia Lima Neri, sambadeira e companheira do Mestre Satu h‡ mais de cinco dŽcadas, alŽm de m‹e de doze filhos que, segundo ela, foram criados com muito esfor�o e trabalho: Ò(...) tudo nesses bracinhos capinando terra, prantando mandioca, batata, fumo, pisando milho pra fazer cuscuz, mucunz‡ pra criar, criei. Gra�as a Deus eu t™ reagindo ainda, pareceu um sambinha a’ nois samba nŽ, gra�as a Deus, t™ arrependida n‹oÓ. Em rela�‹o aos estudos, Dona Ant™nia afirma que tambŽm n‹o domina as letras, entretanto, lista uma sŽrie de outros saberes que ela possui: Ò(...) sei fazer um caruru, um vatapazinho de S‹o Cosme, sambar, trabalhar de enxada, fazer beiju no forno, isso a’ eu sei ne, e passearÓ.

Ademais, tambŽm conseguimos fazer o levantamento das narrativas da Valdemira Sena de Almeida, filha de Valeriana Sena e Firmino Gon�alves, viœva de Adolfo Paulino dos Santos e que se apresenta pelo apelido Dona Mira. As falas dessa sambadeira nos trouxeram resultados bastante enriquecedores, pois, ao fazer relatos de sua inf‰ncia, ela estabeleceu um panorama do modo com o qual tanto ela como seus pares foram introduzidas no samba e nas tradi�›es populares da comunidade quilombola de Tocos:

A gente ia pro samba, minha m‹e botava a gente pra ir pra uma reza, a gente ia mais ela, chegava l‡ o pessoal botava uma esteira no ch‹o, as m‹es falava "voc�s tem que ficar aqui comigo, atŽ terminar a reza" a gente ficava l‡, quando terminava a reza ia cantar o rei, ia cantar o rei a gente ficava l‡ de junto do Rei tambŽm cantando, parmeando e tudo, a’ as amiga falava Òo samba n‹o d‡ pra gente que o povo t‡ sambando caboclo, bora cantar roda, a gente saia pra cantar rodaÓ (Dona Mira Almeida).

O munic’pio de Ant™nio Cardoso possui antigas tradi�›es populares e de refer�ncia africana que s‹o indispens‡veis para a preserva�‹o da cultura sertaneja no estado da Bahia, sendo estas, muitas vezes, pautas da nossa entrevista narrativa. De acordo com Edil Costa (2016, p. 54): ÒSendo a Bahia um forte reduto de afrodescendentes, sabemos que a contribui�‹o de povo africanos na nossa forma�‹o cultural Ž ineg‡velÓ. Assim, o mestre e as sambadeiras autoras da nossa pesquisa expuseram relatos das celebra�›es e fazeres culturais, como as rodas de Samba Rural, a festa do Reisado, as cantigas que nascem e circulam nesses meios festivos, assim como as comidas t’picas que fazem parte do saber ancestral das mulheres da comunidade e os contos populares que tambŽm comp›em o acervo da cultura oral e de cunho afrodescente.

A respeito de sua inser�‹o no universo do samba, o Mestre Satu confirma que, na comunidade de Tocos, isso ocorre de forma muito natural (assim como narrado acima pela Dona Mira), j‡ que a maior parte das crian�as se inicia na pr‡tica acompanhando os pais e, dali em diante, elas n‹o deixam mais a roda. Ademais, o Mestre ainda traz em sua coloca�‹o uma cr’tica ˆs novas gera�›es que, segundo ele, n‹o se interessam mais por aprender as tradi�›es como em seu tempo de juventude:

A dan�a a gente mesmo aprende, s— bastava o vento tocar, marminino! O samba tambŽm, hoje que ninguŽm quer nada mais, (...) n‹o aguentava v� um camarada tocar. Eu fazia samba aqui (...) eu fazia samba esse mundo todo. Em Feira de Santana meu mestre foi Gon�alo Barbosa, cumpanheiro, os dois cumpanheiros de encontro era Francisco e Jo‹o Quente, e a’ a gente ia fazendo festa nesse Brasil todo, daqui a gente cantava, eu e Jo‹o cantava, Francisco tocava viol‹o e eu tocava o pandeiro e Jo‹o tocava o pandeiro, naquele tempo n‹o tinha marca�‹o. O primeiro sanfoneiro que tinha aqui era Simpl’cio e tinha o Roque Gasparino que era violeiro tambŽm, tocava viola e esse Mudesto e o Simpl’cio era quem fazia as festas da gente e era direto! A gente n‹o passava um s‡badu dendi casa n‹o, pouca hora ele chamava, ou muntado ou andando. Era reza direto e samba, era samba atŽ 8 hora atŽ 9 hora do dia (Mestre Saturnino Neri).

A festa de Reisado tratava-se do movimento mobilizador da comunidade e partia de um grupo formado, geralmente, pelos familiares, amigos e vizinhos que se organizavam com o objetivo de visitar, de surpresa, a casa um dos outros e festejar com mœsica, dan�a e bebidas – a�‹o denominada por eles de Òroubar reisÓ. Essa tradi�‹o integra o repert—rio das Festas Natalinas e Ž realizada em um per’odo que se estende do dia 24 de dezembro atŽ o dia 6 de janeiro. Dona Mira relata como era a experi�ncia da festa de Reis:

ƒ mintira que o Rei era l‡ em sua casa, a gente marcava que era longe pra voc� n‹o ir, (...) quando era de noite a gente fazia, pegava as coisas botava no saco: era bolacha, a�œcar, cafŽ, bibida, xarope. [...]. Num tinha um dia, todo santo dia a gente cantava rei na casa do povo, hoje quetou por causa dessa impidemia, tudo caro, e a gente sambava sabe como era que a gente sambava? Era sanfona e rapa culŽ e o prato de fronte que a gente fazia rei. Os homi com uma foice fazendo ten ten ten terenren tocanu (som dos instrumentos) com a foice, culŽ, enxada, tudo que viesse a gente pegava tudo, prato de pranta (...) a’ que era um samba gostoso, a gente sambava atŽ de manh‹ (Dona Mira).

Para alŽm do relato acima, tanto o Mestre como as sambadeiras entoaram versos e cantaram as cantigas que comumente faziam parte dessa festividade, no momento da chegada e da sa’da do Reis, respectivamente, os quais alegravam a festividade:

Dona da Casa vim lhe ver, vim lhe ver, vim lhe ver

Uma garrafa de cacha�a/ Pra me dar pra eu beber

 

Oh Dona da casa me d� licen�a

Que eu vou sambar na varanda

Com um chapŽu na cabe�a/ E meu fac‹o numa banda

 

Oh gente vamos embora

Que aqui n‹o fica ninguŽm

S— fica o dono da casa

Encostado com seu bem

 

S‹o Cosme e S‹o Dami‹o

Sua casa cheira 

Cheira cravo e cheira rosa

Cheira a flor de laranjeira

Diante desse cen‡rio, considerando a pot�ncia das manifesta�›es corp—reas e musicais nas comunidades quilombolas em um ‰mbito geral, e especificamente na comunidade investigada, torna-se vi‡vel estabelecer as poss’veis rela�›es entre o samba rural e a arte de contar hist—rias. Segundo Vivian Rocha:

A mœsica Ž uma linguagem art’stica universal porque, ainda que expressa em diferentes idiomas, tem a capacidade de produzir sensa�›es nos ouvintes: de enlevo, de medo, de suspense, de alegria, de tristeza (...). ƒ uma forma de comunica�‹o que se utiliza de sons. Os elementos constituintes da linguagem musical: o ritmo, a melodia, o timbre e a harmonia s‹o utilizados para comunicar ideias, sentimentos e sensa�›es aos ouvintes (ROCHA, 2010, p. 209).

Dessa forma, a pesquisa em quest‹o buscou demonstrar qual o papel das letras dos sambas e da corporeidade na difus‹o e perpetua�‹o das hist—rias, das viv�ncias e das tradi�›es do grupo Ra’zes do Samba de Tocos. Neste caminho, interessou-nos a pesquisa de Paul Zumthor (2010) sobre a predomin‰ncia da vocalidade das narrativas tradicionais; o autor enfatiza que foi por meio de lendas, mitos, hist—rias, contos e reminisc�ncias que determinados povos se situaram e se estabeleceram no/com o mundo. A partir dessa abordagem, Ž poss’vel ent‹o acessar o patrim™nio cultural e os saberes da tradi�‹o afro-brasileira, especialmente das suas cantigas, sendo algumas delas registradas a seguir:

O sapato que eu usei/ No lixo eu j‡ joguei/ N‹o importo que tu use/ Daquele que eu j‡ usei/ Meu anel de trinca trinca/ Bateu na pedra trincou/ Quem achar n‹o jogue fora/ Quebre- se dizia amor

Oh Deolina, oh Deolina, oh Deolina/ Qual Ž a mo�a que n‹o pode namorar? (2x) / Mulher bonita voc� vai se casar (2x) / J‡ me casei deixei pra namorar (2x) / Oh Deolina, oh Deolina, oh Deolina

A partir das letras dessas cantigas supracitadas, foi poss’vel compreender a relev‰ncia dessas manifesta�›es musicais para a circula�‹o e resguardo da cultura/tradi�‹o de cunho oral da comunidade de Tocos. ƒ muito comum em alguns espet‡culos de conta�‹o de hist—rias, ou atŽ mesmo em determinados contos, haver a presen�a da mœsica em meio ˆs narrativas. No caso desse grupo Žtnico em quest‹o, os sambas n‹o apenas se fundem ˆ conta�‹o, como s‹o a pr—pria conta�‹o. A t’tulo de exemplo, tem-se a primeira cantiga, que, segundo Dona Mira, nasceu como uma forma de afronta ou resposta ˆs jovens que ÒroubavamÓ os parceiros umas das outras, e atŽ mesmo o quarto samba, que apresenta uma verdade abertamente disseminada durante a entrevista em rela�‹o ao matrim™nio.

Na casa do Mestre Satu, cen‡rio no qual os mestres se encontravam no per’odo em que a entrevista narrativa se desenvolveu, e apesar das limita�›es da imagem devido ao formato adotado durante a ida a campo (on-line, via Google Meet) foi poss’vel notar a presen�a de imagens de diversos santos do Catolicismo, simbologia essa que foi confirmada pelo Mestre Satu e pela Dona Ant™nia que se declararam cat—licos praticantes. Nesse ’nterim, tornou-se bastante relevante ponderar as cren�as dos sujeitos entrevistados e perceber que o sincretismo religioso Ž presente na comunidade de Tocos.

Dona Mira n‹o se autodeclarou praticante de nenhuma religi‹o espec’fica, no entanto, ao longo de suas falas foi poss’vel constatar que a fŽ da sambadeira incorpora, em concomit‰ncia, elementos pertencentes tanto ˆs pr‡ticas cat—licas como aos rituais advindos das religi›es afro-brasileiras. A t’tulo de exemplo, h‡ o relato da anci‹ sobre uma promessa feita aos santos g�meos S‹o Cosme e S‹o Dami‹o: ÒCosme e Dami‹o Ž um menino que cura todas as feridas, se ele prometer, ele d‡. Eu fui me operar, me operei me peguei, oh eu n‹o sabia se eu tinha vida, me operei pedi a Bom Jesus da Lapa e a Santa B‡rbara que era pra eu chegar nos pŽs dele, de joelho, pra cumprir minha promessaÓ.

AlŽm da forte fŽ nos santos cat—licos, Dona Mira tambŽm demonstrou ser iniciada na Umbanda ao relatar receber Caboclo n‹o s— nas rodas de samba, mas tambŽm em atividades cotidianas e no trabalho na ro�a. Ademais, a sambadeira tambŽm narrou, com detalhes, um ritual de purifica�‹o do qual fez parte. No entanto, nessa ocasi‹o, as letras do Samba de Caboclo n‹o foram expostas, pois tanto Mestre Satu como Dona Ant™nia julgaram melhor n‹o entoar os cantos. Sobre isso, Adil Costa (2016, p. 57) chama a aten�‹o de que Ò(...) atŽ hoje, assumir a publicamente sua perten�a ao candomblŽ Ž tabu para os iniciadosÓ. Assim, ficamos atentas aos sentidos estabelecidos pelo grupo, mas sem impor a nossa vis‹o. A fus‹o de elementos pertencentes a variadas cren�as em um indiv’duo dialoga tambŽm com a concep�‹o de Edil Costa acerca da multiplicidade presente nas culturas que emergem a partir da influ�ncia de outras: Ò[...] pois quando se trata de culturas mesti�as, como Ž o caso da cultura afrodescendente, inevitavelmente se est‡ abordando produ�›es culturais fronteiri�as (Ibidem, p. 51).

No decorrer desta pesquisa, nos interess‡vamos muito a coleta, o registro e a cataloga�‹o dos poss’veis contos populares que nos fossem narrados; no entanto, os mestres se estenderam na conta�‹o das hist—rias autobiogr‡ficas. O Mestre Satu afirma que seu pai n‹o lhe contava hist—rias, pois Òa gente era mais andeiro, tinha reza a gente sa’a pra rezar, chegava l‡ ensinava as meninas cantar roda e tal, os meninos oiando e a gente rezando, terminava de rezar fazia uma roda de samba ia tomar uma birinight e prontoÓ. J‡ Dona Mira enfatiza que n‹o conhece muitas hist—rias, mas que o seu falecido marido detinha um repert—rio vasto que, inclusive, foi transmitido a um dos seus filhos.

Entretanto, para alŽm dos sambas que s‹o hist—rias musicalizadas, coletamos quatro contos que, segundo a classifica�‹o do folclorista brasileiro Lu’s da C‰mara Cascudo (1898-1986), enquadra-se como causos. Segundo a classifica�‹o do Sistema Aarne-Thompson, que divide os contos em tr�s grandes grupos (a saber: contos de animais, contos de fadas propriamente ditos e facŽcias e anedotas, sendo todos esses subdivididos em demais categorias), as narrativas coletadas durante a entrevista com os narradores populares da comunidade de Tocos s‹o classificadas como contos com opositor sobrenatural, que est‡ englobado no segundo grupo supracitado. A seguir h‡ o registro da transcri�‹o original:

Eu fui numa festa na Pedra Branca e vim de l‡ pra c‡ de noite, eu Francisco e Jo‹o Quente, cheguei l‡ em Margarida, l‡ na casa de Arlindo, ali encostado a Jo‹o de Luca. Tinha um pŽ de caju denda baixada e a gente vinha de l‡ de Lourdes, tr�s pra quatro horas da manh‹ que a gente n‹o amanheceu o dia, e vem dois p‡ssaro branco de l‡ pra c‡, a’ Francisco disse ÒŽ a cavalaÓ, a’ ela gritou: Òcavala, cavala, cavalaÓ. Oh nossa senhora, minha gente, pelo amor de Jesus que eu n‹o t™ contando mentira. A gente disparou, ela no ar desapareceu, e eu cheguei em casa bati na porta, bati na porta, vea j‡ tava dormindo, deu trabalho de abrir a porta e Francisco mais Jo‹o eu n‹o sei aonde foi parar (Mestre Saturnino Nery).

 

Ele some, o lobisomem Ž uma pessoa. Minha m‹e j‡ viu e eu j‡ vi tambŽm, quando eu tava parida desse menino a’ oh, de Paulo. A’ eu tava com a panela no fogo, e eu fui que a casa era pequenininha, s— tinha uma, assim, uma parede e o fog‹o era assim de junto. A’ Adolfo saiu eu fui botar um Andu no fogo e fui oiar essa panela. Quando eu fui oiar a panela eu vi um neg—cio e fez vup, quando fez vup eu fechei a porta, quando eu fechei a porta o lobisomem saiu de debaixo do fog‹o, dirrubou a panela do andu, aonde eu achei mais comida pra comer? Quando ele chegou e perguntou o que foi ele viu l‡ no ch‹o a panela no ch‹o, quebrou e ficou sem comer, foi dormir com fome e quando Ž no outro dia de manh‹ cedo que ele levanta vai ver o pelo do lobisomem l‡ no arame (Dona Mira).

 

Minha m‹e tambŽm contava que o lobisomem dirrubou ele com um tacho de beiju na cabe�a com o menino no bra�o. Ele veio da casa de farinha com um chalŽ vermei, que antigamente tinha esses chalŽ, pegava o chale e jogava em cima do menino, pegava o tacho e botava na cabe�a e sa’a e ia embora umas dez hora da noite sozinha, a lua bonita que lobisomem gosta de lua bonita. Ela saiu e ÒOh cumadi, eu vou pra casa que fulano de tal ta me esperando e eu t™ com os meninos em casa, a’ ela pegou o tacho botou na cabe�a, o beiju, pegou o menino jogou no ombro e foi se embora. Quando chegou adiante o lobisoni mutuo ela e ela pegou o tacho do beiju e jogou na cabe�a do lobisomi e o lobisomi querendo lascar ela e quederrei quederrei quederrei, gente! a’ saiu um homem: ÒOh fulana de tal ta ali gritando vai ver o que ta acontecendoÓ. Quando falou vou pegar o fac‹o e a faca de cortar fumo, oxe! ele se mandou. Quando ela chegou, que ela j‡ sabia que era um lobisomi, quando ela chegou na casa do candidato o’a o dente com o chale, com um peda�o da coisa do chale no dente. Ai a mulher disse assim ÒOh cumadi ValŽria o que a senhora vem fazer uma hora dessa aqui? ÒN‹o, eu vim ver um neg—cio que me pegou ontem di noite, fulano de tal t‡ ai? T‡, t‡ deithado. Chama ele a’ pra eu ver, pra conversar com ele. A’ quando ele levantou ela oiou, ela oiou e viu o dente do cara com um peda�o de chale na boca. Dest‡ camarada, eu vou te pegar no caminho ainda de novo, tu me dirrubo, mai tu j‡ ta marcado, vai me pagar. Quando foi quatro dia ele morreu (Dona Mira).

 

 

Considera�›es finais

 

A intera�‹o com os mestres e mestras, sambadores e sambadeiras pertencentes ˆ comunidade de Tocos permitiu percebermos que a vocalidade e a mem—ria s‹o os principais propiciadores de circula�‹o das tradi�›es populares. Na localidade quilombola de Tocos permanece o reconhecimento de que a tradi�‹o dos sambas, festas e celebra�›es tradicionais esteja passando por um processo de escassez, caso estas sejam comparadas com outras Žpocas em que eram mais cultivadas, sobretudo, entre os mais jovens.

De tal modo, ressaltamos a import‰ncia do levantamento e do registro feitos atravŽs da pesquisa de recolha das cantigas e dos contos, assim como das hist—rias de vida de tr�s anci›es atravŽs da Entrevista Narrativa. O legado poŽtico e cultural do grupo indica uma contribui�‹o importante para as gera�›es mais jovens, que podem aprender com os sambas, com os cantos e com as hist—rias tradicionais reencenadas no presente. 

 

 

Refer�ncias

 

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BENJAMIM, Walter. O narrador: considera�›es sobre a ora de Nikolai Leskov. In: Magia e tŽcnica, arte e pol’tica: ensaios sobre literatura e hist—ria da cultura. S‹o Paulo: Brasiliense, 1994, p. 197-221.

 

COSTA, Adil Silva. Tradi�›es orais e afrodescend�ncia. In: Sete estudos de literatura e cultura popular. Salvador: EDUNEB, 2016, p. 49-78.  

 

DE MOURA, J—nata Ferreira de; NACARATO, Adair Mendes. A entrevista narrativa: dispositivo de produ�‹o e an‡lise de dados sobre trajet—rias de professoras. Cadernos de Pesquisa, S‹o Lu’s, v. 24, n. 1, p. 15-30, jan./abr. 2017.             

 

FERRAROTTI, Franco. Sobre a autonomia do mŽtodo biogr‡fico. In: NîVOA, Ant—nio; FINGER, Matthias (Orgs.) O mŽtodo (auto)biogr‡fico e a forma�‹o. Lisboa: MinistŽrio da Saœde. Depart. de Recursos Humanos da Saœde/Centro de Forma�‹o e Aperfei�oamento Profissional, 1988, p. 17-34.

 

ROCHA, Vivian Munhoz. Aprender pela arte a arte de narrar: educa�‹o estŽtica e art’stica na forma�‹o de contadores de hist—rias. 2010. 343f. Tese (doutorado em Artes) – Escola de Comunica�›es e Artes da Universidade de S‹o Paulo, S‹o Paulo, 2010. 

 

SESC Santana Catarina - Ra’zes do Samba de Tocos (BA) circula SC no Sonora Brasil. Dispon’vel em: https://www.sesc-sc.com.br/blog/cultura/raizes-do-samba-detocos--ba--circula-sc-no-sonora-brasil. Acesso em: 02 mai.  2021.

 

ZUMTHOR, Paul. Introdu�‹o ˆ poesia oral. Tradu�‹o Jerusa Pires Ferreira, Maria Ines de Almeida, Maria Lucia Diniz Pochat. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

 

 

[Recebido:16 ago 21 - Aceito: 16 set 21]



[47] Doutorado em Mem—ria pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Brasil(2016). Professora Adjunta A - Dedica�‹o Exclusiva da Universidade Estadual de Feira de Santana.

[48] Acad�mica do Curso de Licenciatura em Letras com L’ngua Portuguesa, ofertado pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em PoŽticas Orais na UEFS, com participa�‹o no Projeto de Pesquisa Cacimba de Hist—rias:vidas e saberes dos contadores de hist—rias tradicionais de cidades do interior da Bahia. Comp›e a atual gest‹o do Diret—rio Acad�mico de Letras JosŽ Jer™nimo de Moraes como diretora de viagens e eventos.