
O
maravilhoso amaz™nico, uma poŽtica da alteridade
The Amazonian Marvellous,
Poetics of Alterity
Sylvia Maria Trusen[12]
https://orcid.org/0000-0003-4248-929X
Resumo:
De modo geral, as pesquisas em torno das narrativas tradicionais de
fundo maravilhoso assentam-se sobre a dicotomia real x fabuloso, natural x
sobrenatural, veross’mel x inveross’mel,
conforme lemos nas postula�›es de Todorov (1975), Bessi�re
(1974), Max LŸthi (1992), Hetmann
(1982), dentre outros. Contudo, quando tais teoriza�›es s‹o confrontadas com o
corpus narrativo de tradi�‹o m’tica e oral, recolhido na Amaz™nia Paraense,
elas revelam-se insuficientes para tratar da recep�‹o do maravilhoso neste
territ—rio, uma vez que tais narrativas n‹o se escoram na antinomia assinalada
acima. Partindo de tal constata�‹o,
elegeu-se a categoria da alteridade, conforme proposi�‹o de Victor Bravo,
sugerindo, assim, poss’vel clave para o estudo do que nomeia-se aqui maravilhoso
amaz™nico. Desse modo, revistando os textos consagrados em torno do g�nero,
tais como o Introdu�‹o ˆ literatura
fant‡stica (T. Todorov), Das europŠische VolksmŠrchen (M. Luthi), Le rŽcit fantastique (I. Bessi�re), por um lado, e, por outro, a recolha de
narrativas da Amaz™nia paraense efetivada pelo Projeto O Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares
da Amaz™nia Paraense, o artigo destaca a
categoria da alteridade como termo de import‰ncia central para a leitura de
tais narrativas.
Palavras-Chave: Maravilhoso,
Alteridade, Amaz™nia
Abstract: In general, the research of the
traditional narratives with a background of the Marvellous
are based on the real dichotomy x fabulous, natural x supernatural, verossimel x unlikely, as we read in the postulations of
Todorov (1975), Bessi�re
(1974), Max LŸthi (1992), Hetmann
(1982), among others. However, when such theories are confronted with the
narrative corpus collected in the Amazon Region of Par‡, they are insufficient
to deal with the reception of the marvellous in this
territory, since such narratives do not stand in the antinomy indicated above.
Starting from this observation, the category of alterity was chosen, according
to Victor Bravo's proposition, thus suggesting a possible key to its study. Thus, reviewing the established texts
around the genre, such as Introduction to fantastic literature (T.
Todorov), Das europŠische VolksmŠrchen (M. Luthi), Le rŽcit
fantastique (I. Bessi�re), on the one hand, and, on the other, another, the
collection of narratives from the Par‡ Amazon carried out by the Project O
Imagin‡rio nas Formas Oral Narrativas Populares da Amaz™nia Par‡, the
article highlights the category of alterity as a term of central importance for
the reading of such narratives.
Keywords: Marvellous, Alterity, Amazon
O t’tulo dado a este trabalho coloca a
quem o escreve e, possivelmente, a quem o l�, diante de pelo menos duas
indaga�›es – o que o autor deste texto compreende por maravilhoso
amaz™nico, e qual o elo vislumbrado com o que se denomina poŽtica da
alteridade.
O termo maravilhoso, recorrente na
teoriza�‹o que se debru�a sobre as fronteiras da literatura do fant‡stico
(TODOROV, 1975) ou, de modo mais
abrangente, do ins—lito (GARCIA, 2012) Ž frequentemente invocado para tratar de
uma multiplicidade de formas art’sticas – n‹o s— liter‡rias (SCHUHL,
1969) – que por si s— demandaria uma vasta revis‹o bibliogr‡fica,
inexequ’vel nos limites de um artigo. Schuhl (1969)
j‡ o anotou, advertindo que para dar conta de sua magnitude haveria que se
enveredar por sendas t‹o diversas como as do maravilhoso religioso, feŽrico,
ut—pico, m’tico, cient’fico, etc. Todorov (1975), de modo mais conciso,
referiu-se a tr�s modos de representa�‹o do maravilhoso na literatura – o
ex—tico, o hiperb—lico e o intelectual – ao passo que I. Chiampi (1980) teorizou acerca do realismo maravilhoso
estabelecendo as balizas para a distin�‹o do realismo m‡gico.
Face ˆ amplitude dos estudos e diante das
mœltiplas configura�›es que o g�nero pode assumir, importa aqui ater-se apenas
aos trabalhos cuja leitura torna-se necess‡ria para compreens‹o do que se
designa maravilhoso amaz™nico. Inevit‡vel no percurso deste texto Ž o Introdu�‹o ˆ literatura fant‡stica, obra
na qual o fant‡stico Ž descrito como g�nero evanescente, provisoriamente
sustentado sobre as hesita�›es das personagens (e, por extens‹o, do leitor
impl’cito), diante de uma realidade, tornada a seus olhos inveross’mil ou
inacredit‡vel. O maravilhoso, por conseguinte, constituiria g�nero, em que se
encena o sobrenatural sem que os fen™menos descritos despertem qualquer rea�‹o
de assombro por parte do leitor.
No
fim da hist—ria fant‡stica, o leitor, quando n‹o a personagem, toma, contudo,
uma decis‹o, opta por uma ou outra solu�‹o saindo desse modo do fant‡stico. Se
ele decide que as leis da realidade permanecem intactas e permitem explicar os
fen™menos descritos, dizemos que a obra se liga a um outro g�nero: o estranho.
Se ao contr‡rio, decide que se devem admitir novas leis da natureza pela quais
o fen™meno pode ser explicado, entramos no g�nero maravilhoso. (TODOROV, 1975,
p. 42)
Para Todorov, portanto, o maravilhoso,
como g�nero liter‡rio delimitado pelo fant‡stico, depende da presen�a ou
nega�‹o da credulidade (por parte da personagem e/ou leitor) diante de fen™meno ins—lito.
Tal descri�‹o do fant‡stico, vale
assinalar, deve bem mais ao ensaio freudiano, ÒO EstranhoÓ (FREUD, 1996a), do
que admite seu tratado. Conquanto o linguista e pensador bœlgaro fa�a
refer�ncia expl’cita ao artigo de 1919, a men�‹o pouco revela do fato de que
boa parte de sua fundamenta�‹o erige-se sobre este trabalho de Freud. Com
efeito, deve-se primeiramente ao psicanalista, em seu estudo sobre a novela de
Hoffmann, a diferencia�‹o entre o maravilhoso feŽrico e o estranho, tomando por
base o contraste com a realidade constru’da pelo leitor. Assim, se o texto
freudiano j‡ assinalara que Òo reino da fantasia depende, para seu efeito, do
fato de que o seu conteœdo n‹o se submete ao teste de realidade Ò (FREUD, 1996,
p. 266), ele antecipa muito das proposi�›es de Todorov. Em ambos, entretanto, a descri�‹o do
maravilhoso comparece sob a clave do fabuloso, extraordin‡rio, daquilo que n‹o
se submete aos critŽrios de veracidade - aspecto que pode ser lido em uma
variedade de textos te—ricos produzidos a respeito, particularmente no
continente europeu. Assim tambŽm, por exemplo, o do su’�o Max LŸthi ao distinguir os elementos constitutivos do conto
maravilhoso (MŠrchen)[13],
que observa.
No
conto maravilhoso (MŠrchen),
o her—i que encontra um animal, planta, ou astro falante, n‹o demonstra nem
medo nem espanto. Isto, n‹o porque o animal ou planta falante lhe fosse
familiar; eles n‹o integram seu habitat natural. Nada indica que ele soubesse
da exist�ncia de tais animais falantes. Mas ele n‹o se admira, e n‹o teme: o
sentimento para o extravagante lhe falta. Para ele, tudo parece pertencer ˆ
mesma dimens‹o. (1992, p. 10) [14]
Assim, no�›es tais como fabuloso,
extraordin‡rio, sobrenatural s‹o termos recorrentes na literatura que aborda
esse g�nero descrito na regi‹o lim’trofe do fant‡stico, como se l� tambŽm,
dentre outros, em Hetmann (1982) e Bessi�re (1974).
O problema, porŽm, como j‡ se assinalou
anteriormente (TRUSEN, 2015) Ž que tais categorias operam a partir de conven�›es
extremamente vari‡veis e cada vez mais deslizantes na contemporaneidade. Se a
vasta literatura medieval, com suas ilhas venturosas, seus objetos m‡gicos e
protetores sugerem em seu amplo espectro a cren�a fincada no mirabilia (LE
GOFF, 1994), a compila�‹o de narrativas amaz™nicas, no outro extremo temporal e
geogr‡fico, igualmente testemunha a incorpora�‹o do maravilhoso ao mundo
prosaico e cotidiano.
Assim, considera�›es como as de Hetmann que, citando a Polivka e Bolte afirma que o conto maravilhoso (MŠrchen) Òs‹o hist—rias
extraordin‡rias n‹o ancoradas nas condi�›es de vida real, e que ouvimos com
maior ou menor prazer, embora as consideremos inacredit‡veisÓ (1982, p. 12),
conquanto sejam apropriadas no contexto europeu, pouco auxiliam na compreens‹o
das narrativas do maravilhoso amaz™nico.
A imprecis‹o de seus termos deriva
basicamente de dois fatores – o primeiro deles porque se referem a um
conjunto de textos que passou por percurso que se vem assinalando, em outros
trabalhos (TRUSEN, 2012), como processo de domestica�‹o e alijamento do
maravilhoso ao ‰mbito dos lares burgueses quando, a partir do surgimento do
pensamento ilustrado, assiste-se a crise da cosmologia crist‹ que ter‡, como
efeito mais imediato, a emerg�ncia do sujeito racional como entidade
privilegiada para o conhecimento das coisas no mundo. Efetivamente, pontua,
igualmente a respeito, David Roas:
A
rejei�‹o ao sobrenatural se traduziu tambŽm em condena�‹o de seu uso liter‡rio
e estŽtico. As perspectivas ilustradas da segunda metade do sŽculo XVIII
enalteceram os conceitos de verossimilhan�a e mimese como armas fundamentais
para desterrar a presen�a do sobrenatural e do maravilhoso dos textos
liter‡rios. (ROAS, 2006, p. 24) [15]
Explica-se, assim, que as teoriza�›es em
torno do ins—lito terminem, majoritariamente, a referir-se ao conto
maravilhoso, mediante sua identifica�‹o e circunscri�‹o a —rbita do
moralizante, anotando nele fei�‹o resignat—ria.
Ele
[o conto maravilhoso] usa o universo dos fantasmas e da n‹o-coincid�ncia do acontecimento
com a realidade evidente, n‹o para romper nossos v’nculos com essa realidade,
mas para nos assegurar (nos tranquilizar) da nossa capacidade e da validade dos
meios (a moral, as leis da conduta e do conhecimento de nosso dom’nio pr‡tico)
(BESSIéRE, 1974, p. 57)
A afirma�‹o parece, como visto,
respaldar-se em certa compreens‹o do maravilhoso que o vincula muito fortemente
ˆ fun�‹o que o g�nero desempenharia. Nesse sentido, ele estaria voltado n‹o
tanto para a ruptura com o que rodeia e ordena o mundo para o homem –
algo que, segundo a autora, seria bem mais percept’vel na literatura fant‡stica
– mas destinado ˆ harmonizar, ou melhor, a ajustar o indiv’duo ao seu
meio ambiente.
Postura bem similar Ž a que lemos no
ensaio de Rosie Jackson:
As fantasias que penetram no reino do ÔmaravilhosoÕ s‹o as
œnicas que tem sido toleradas e que tem alcan�ado uma ampla dissemina�‹o
social. A cria�‹o de mundos secund‡rios atravŽs do mito religioso, a magia ou a
fic�‹o cient’fica se baseia em mŽtodos ÔlegalizadosÔ - a religi‹o, a magia, a
ci�ncia – para o estabelecimento desses outros mundos, que s‹o
compensat—rios, pois preenchem uma
lacuna a partir de uma apreens‹o da atualidade como algo desordenado e insuficiente
(...). Sua base novelesca d‡ a entender que o universo Ž, em œltima inst‰ncia,
um mecanismo autorregulado no qual a bondade, a estabilidade e a ordem acabar‹o
por impor-se. Essas fantasias,
pois, servem para estabilizar a ordem social ao minimizar a necessidade de
interven�‹o humana em um mecanismo c—smico organizado segundo um principio de
benevol�ncia. (JACKSON, 2002, p. 144)
ƒ, pois, nesse sentido que se vem
sustentando ser necess‡rio distinguir entre o uso, vale dizer, a
instrumentaliza�‹o que a cultura ocidental, em muitos momentos, empreendeu do
maravilhoso, e a poŽtica que lhe Ž pr—pria. Assim, por exemplo, a an‡lise da
compila�‹o, realizada pelos Irm‹os Grimm, evidencia que o emprego do g�nero a
servi�o de uma dada concep�‹o de lar, implicou n‹o s— a domestica�‹o do
maravilhoso, mas que, igualmente, significou, muitas vezes, redu�‹o da pot�ncia
que lhe Ž pr—pria. Em outros termos, resultou no confinamento de um conjunto de
procedimentos criativos, cuja ordena�‹o Ž de ordem inversa ao cogito racional,
a um territ—rio frequentemente relacionado ao Òera uma vezÓ dos contos
recolhidos e ajustados ˆ mentalidade burguesa crist‹, nos moldes da fam’lia dos
sŽculos XVIII e XIX.
Essa observa�‹o cr’tica a certa
teoriza�‹o sobre o maravilhoso, se Ž talvez pertinente no contexto europeu,
faz-se t‹o mais urgente quando confrontada com certo repert—rio de narrativas
amaz™nicas, igualmente atravessas pelo mirabilia.
A urg�ncia dessa releitura resulta,
porŽm, de um segundo fator. A conceitua�‹o do maravilhoso identificando-o, ora
a um tempo perdido, ora ao aparecimento do que n‹o se subjuga ˆ esfera do que
se concebe por natural, pouco ou nada se coaduna com as narrativas ouvidas e/ou
lidas em textos que transcrevem para o impresso o repert—rio do imagin‡rio
amaz™nico. A refer�ncia aqui Ž particularmente aos relatos coligidos pelo
projeto integrado IFNOPAP (O Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares
da Amaz™nia Paraense), nas cole�›es SantarŽm
conta...., Abaetetuba conta...., BelŽm conta...., Bragan�a conta.... , dentre outras, realizado na regi‹o norte do
pa’s. Com efeito, ao leitor que se disponha a folhear algumas delas, logo se
evidenciar‡ a dificuldade para o estudioso brasileiro de manejar tais
narrativas a partir de claves de leitura t‹o pouco afeitas como as forjadas no
continente europeu. N‹o s— a indefini�‹o de tempo e lugar Ž revertida em favor
da localiza�‹o geogr‡fica do que se narra, mas sobretudo a oposi�‹o real x
irreal, natural x sobrenatural Ž completamente suspensa em prol da alian�a
entre termos considerados antag™nicos, pelo pensamento ocidental moderno.
Que quando a minha m‹e saiu do quarto. A’, ela apareceu
gr‡vida, s— que j‡ nasceu j‡ diferente, j‡ um pouco, sabe? Muita coisa ela j‡
trouxe. Eu queria que tu o visses, rapaz (..). Era jito
aquele, aquela [boquinha] [16]
digo, boquinha, sabe. Tinha tudo, aqueles leros do
boto, aquele jeito, tudo . (SIMÍES;
GOLDER, 1995, p. 24)
O fragmento acima, retirado da narrativa
contada por Manoel da Fonseca foi transcrito por Concei�‹o Vasconcelos e
encontra-se na colet‰nea Abaetetuba
conta....., que reœne causos, relatos, em narrativas do nordeste paraense,
no munic’pio de Abaetetuba, localidade situada ˆs margens do rio Maratau’ra, afluente do Tocantins. Nela, se leem os
ind’cios da gravidez de mulher seduzida por figura recorrente nas hist—rias da
regi‹o, que, como a Cobra Grande, emprenha as mulheres. Se aqui a concep�‹o
pelo golfinho Ž sugerida com naturalidade, em outras, a palavra do narrador
certifica a veracidade do relato.
Bom, ent‹o a minha palavra que eu vi, Ž isso (...) . Agora,
os antigos diziam que existia esse navio encantado, entre vŽspera de S‹o Jo‹o,
[que o navio aparecia]. Muita gente, teve gente que quis atirar, mas n‹o teve
coragem, porque dizem, assim, se atirassem desencantava. Mas, temiam n‹o
desencantar, nŽ? (SIMÍES; GOLDER,
1995, p. 99)
Ambos os fragmentos servem para ilustrar
n‹o s— o fŽrtil imagin‡rio da regi‹o, mas tambŽm para sublinhar a recorrente
marca de testemunhos – amigos, familiares, o pr—prio narrador –
e/ou locais e situa�›es, de modo a
certificar o ouvinte e prov‡vel leitor de que o narrado corresponde ˆ verdade dos
fatos. Contudo, se o registro da autenticidade se faz necess‡rio, Ž porque ele
se tece na fronteira com a suposta (in)credulidade do interlocutor. Resulta da’
um curioso liame entre a percep�‹o de que aquilo que se narra Ž extraordin‡rio,
porŽm cr’vel, dado que Ž verdadeiro, como asseguram seus narradores. De todo
modo, invocada a confiabilidade, tais narrativas parecem contradizer a
literatura sobre o maravilhoso que opera a partir das antinomias aqui
assinaladas.
Esta rela�‹o peculiar entre o campo do
natural e do sobrenatural faz assomar ˆ mem—ria certa descri�‹o do maravilhoso
na literatura do continente americano. No pr—logo do El reino de este mundo, Carpentier postula sua teoria do
maravilhoso americano em que se entretece uma dada percep�‹o do continente,
cedida pelos primeiros cronistas, com uma reinven�‹o da escrita latino
americana, como bem o anotou o estudo de Irlemar Chiampi (1980). Com efeito, no manifesto, Carpentier
procurando definir os meandros dessa elabora�‹o sincrŽtica, tra�ada a partir da
conjun�‹o da hist—ria haitiana com o universo do mirabilia, tambŽm prop›e as
balizas para uma escritura para o continente, demarcada pelo encontro entre o
pr—prio e o alheio.
Havia respirado a atmosfera criada por Henri Christophe,
monarca de incr’veis realiza�›es, muito mais surpreendentes que as de todos os
surrealistas, muito afeitos a tiranias imagin‡rias, ainda que n‹o padecidas. A
cada passo encontrava-me com o real
maravilhoso [grifo do autor]. Mas, pensava, ademais, que essa presen�a e
vig�ncia n‹o era privilŽgio œnico do Haiti, sen‹o patrim™nio da AmŽrica inteira
(É). (CARPENTIER, 1975, p. 55) [17]
Tentador, portanto, resgatar a
conceitua�‹o do escritor cubano para compreender as narrativas da regi‹o
amaz™nica brasileira, em que se nota a indistin�‹o entre o terreno do
excepcional e do ordin‡rio, entre o fabuloso e o ver’dico. Contudo, um r‡pido
exame logo identificar‡ a impossibilidade do nexo. O conceito proposto por
Carpentier deriva de uma proposta ontol—gica para a AmŽrica, n‹o s— resultante
do entrela�amento entre mito e hist—ria, como tambŽm deriva de perspectiva
realista, cedida pelo extraliter‡rio (o real maravilhoso caracter’stico da
realidade haitiana (CHIAMPI, 1980. p. 37 e passim). As narrativas a que se faz
alus‹o aqui n‹o encenam a conjun�‹o pleiteada por Carpentier entre mito e
hist—ria – embora suspendam as rela�›es de antinomia – tampouco
constituem elabora�›es ficcionais de um escritor particular, mediatizadas por
uma dada perspectiva do real. Parece-lhe, todavia, ser caracter’stica a
presen�a de elementos do maravilhoso, fortemente fincadas em figuras m’ticas
(Boto, Cobra Grande, Matintaperera, Nau encantada, dentre outros) que revelam
uma rela�‹o espec’fica com o espa�o – a floresta e os rios.
Outrossim, essas narrativas que aqui nomeia-se maravilhoso
amaz™nico denotam marcas de testemunho em relatos que admitem, como forma
discursiva inversa ˆ racionalidade moderna, a rela�‹o harmoniosa, isto Ž, n‹o
excludente entre contr‡rios, mediante metamorfoses que assumem ora a forma
humana, ora a animal.
E, finalmente, um terceiro aspecto a ser
considerado Ž que muitas das figuras m’ticas a’ presentes situam-se na
intersec�‹o entre natureza e civiliza�‹o, a exemplo da Cobra Grande e do Boto,
resultante de sua natureza errante entre rios e vilarejos.
A dire�‹o da argumenta�‹o aqui, conduz,
como se v�, ˆ no�‹o de alteridade, operador com que o pensamento filos—fico do
sŽculo XX e a psican‡lise, a partir de Freud, e sobretudo desde Lacan
(SPIELMANN, 2000), t�m destacado a rela�‹o n‹o excludente entre pares
contr‡rios (Mesmo/Outro, Civiliza�‹o/Natureza, Raz‹o/Loucura, Dentro/Fora,
Masculino/Feminino, Natural/Sobrenatural). Efetivamente, se o termo oriundo do
latim altarǐtas aponta para as rela�›es de contraste (HOUAISS,
2001) ele designa n‹o s— o que Ž diverso, mas sobretudo a rela�‹o entre
dois seres ou entidades distintas ou supostas como tal. Nesse sentido, a Òalteridade Ž o contr‡rio da
identidade, como o outro Ž o contr‡rio do mesmo. Poder-se-ia fazer disto um
princ’pio: toda coisa sendo id�ntica a si mesma (princ’pio da identidade) Ž
tambŽm diferente de todas as outras (princ’pio da alteridade)Ó.
(COMTE-SPONVILLE, 2011, p. 53). [18]
Donde, a no�‹o de alteridade, significando e abrangendo a ideia da diferen�a
efetiva-se dialogicamente – isto Ž, na rela�‹o entre termos opostos, mas
n‹o excludentes, uma vez que o Outro s— pode ser apreendido como tal em rela�‹o
ao Mesmo. Compreendida a alteridade, portanto, como categoria imprescind’vel
para o entendimento das rela�›es humanas no campo inter
e intrasubjetivo, ela passou a ocupar lugar central
n‹o somente entre os cientistas sociais, mas tambŽm no meio psicanal’tico e nos
estudos liter‡rios. Concernente a esses œltimos, cabe aqui assinalar os nomes
de Octavio Paz e o de Victor Bravo, com os quais pretende-se, por fim,
estabelecer o la�o final entre o que se designou maravilhoso amaz™nico e uma
poŽtica pr—pria, enunciadora da alteridade humana e liter‡ria.
O cr’tico liter‡rio venezuelano em obra
que est‡ ainda aguardando tradu�‹o para o portugu�s e urgente reedi�‹o,
partindo da no�‹o de alteridade dada pelo poeta e pensador mexicano, bem como
dos estudos de Foucault, observa que a cultura judaico-crist‹ operou, no
Ocidente, por um sistem‡tico repœdio ˆs formas culturais que se antagonizaram ˆ
raz‹o, ou para usar a terminologia do autor, ˆs formas do Mesmo. Com efeito, na
obra citada por Bravo, Conjunciones y Disyunciones,
O. Paz, tratando das polival�ncias abrigadas sob a picardia, aponta para o
problema da met‡fora e as faces que a comp›e – o lugar da civiliza�‹o e o
princ’pio da realidade, por um lado, e, por outro, o territ—rio do desgoverno,
e o princ’pio do prazer. Nesse sentido, anota o poeta e ensa’sta mexicano, a
picardia, e a gargalhada, que dela resulta, ordenam uma s’ntese que traduz duas
caras – o Eu e o Outro [19]
– que nos (des)governam. Nesse sentido, a
picardia desvelaria e simultaneamente mascararia os segredos, face ao nosso dia-a-dia
do mundo civilizado.
L�-lo
Ž participar de um segredo. Em que consiste este segredo? Este livro nos ensina
nossa outra cara, a oculta e inferior. O que digo deve entender-se
literalmente: falo da realidade que est‡ abaixo da cintura e que a roupa nos
cobre. Refiro-me a nossa cara animal, sexual: ao cu e aos —rg‹os genitais (PAZ,
1969, p. 12) [20]
Se Ž bem verdade que o problema foi
abordado bem anteriormente por Freud, em Os
chistes e sua rela�‹o com o inconsciente, este enlace p›e em relevo a articula�‹o
Mesmo/Outro, Civiliza�‹o/Natureza, indicando a din‰mica de alteridade, a mesma
que serve ao cr’tico Victor Bravo para pensar a literatura do fant‡stico e do
maravilhoso.
O
drama de toda cultura Ž o intento de reduzir o irredut’vel, a alteridade, ˆ
tranquilidade ideol—gica do Mesmo, da Identidade. A alteridade parece ser o
insuport‡vel. A ordem que toda cultura de alguma maneira sacraliza Ž a inten�‹o
de reduzir a alteridade ˆs formas do Mesmo.
(BRAVO, 1985, p. 16) [21]
Assim, se a alteridade assinala a rela�‹o
n‹o excludente entre pares antin™micos, ela aponta igualmente para a din‰mica
subjacente ˆ dolorosa experi�ncia humana de saber-se racional, sujeito da
cultura, e, simultaneamente, Outro – ser primitivo, intuitivo,
desgovernado - malgrado os ditames da raz‹o.
H‡, todavia, assinala o Los poderes de la ficci—n (BRAVO, 1985) formas liter‡rias que p›em a
descoberto, de modo mais ou menos flagrante, tanto a alteridade humana, como
aquela que constitui o pr—prio discurso liter‡rio, em seu processo mimŽtico de
reproduzir e simultaneamente desrealizar o mundo
emp’rico. Com efeito, se o texto liter‡rio sobrevive no t�nue liame entre a
representa�‹o especular das coisas circundantes e a encena�‹o de sua pr—pria
espessura liter‡ria, o fant‡stico e o maravilhoso, para Bravo, constituem os
modos discursivos que mais evidenciam a alteridade pr—pria do homem e das
narrativas por ele produzidas. Dito em outros termos, se a literatura vive da
complexa e tensa rela�‹o com a realidade que lhe Ž exterior, entre
representar-se a si pr—pria e o representar o mundo, o texto fant‡stico Ž o que
exp›e de modo mais inquietante a possiblidade de transgress‹o entre essas
fronteiras. Contudo, como pondera o venezuelano em seu debate com o Introdu�‹o ˆ literatura fant‡stica de
Todorov, se o fant‡stico deriva da experi�ncia lim’trofe entre esses
territ—rios, o maravilhoso Ž o lugar da alteridade como espet‡culo.
Quando
o limite persiste e um ‰mbito outro se p›e em cena sem atender ˆs
verossimilhan�as das certezas do real e sem penetrar estas certezas e question‡-las,
quando o limite persiste deslindando o ‰mbito outro do ‰mbito do real, estamos
em presen�a do maravilhoso. Poderia dizer-se que no fant‡stico o outro Ž uma
irrup�‹o, e, no maravilhoso, um espet‡culo. [22]
(Bravo, 1985, p. 244)
Nesse
sentido, a no�‹o de fronteira, como eixo no qual se deparam no�›es tidas como
antag™nicas e apartadas pela civiliza�‹o - por exemplo, natural e sobrenatural,
real e fabuloso, ver’dico e inverid’co – adquire relev‰ncia na
argumenta�‹o de V. Bravo que eleva o problema da alteridade como conceito a
partir do qual Ž poss’vel pensar esses g�neros liter‡rios. Nesta outra proposi�‹o, o maravilhoso Ž
redimensionado e pensado para alŽm dos antagonismos constatados nas teoriza�›es
forjadas pelo pensamento europeu.
Assim,
se o maravilhoso Ž o tema do mundo ˆs avessas, universo outro que desde o
per’odo medieval manifesta-se como pot�ncia de insurrei�‹o, o maravilhoso que se
apresenta em narrativas m’ticas ao norte do pa’s, que aqui nomeamos como
maravilhoso amaz™nico, ao suspender as rela�›es de antinomia
pr—prias da ciliviza�‹o moderna, que reduzem e solapam a alteridade humana sob as
formas do Mesmo, deve ser pensado sob a clave da alteridade. Suas narrativas, efetivamente,
conciliando o sobrenatural e o natural, o animal e o humano, a natureza e a
civiliza�‹o, tecidas que s‹o para alŽm da fronteira, representam uma poŽtica da
alteridade. E, para n‹o encerrar, poder-se-ia ademais acrescentar que, em sendo
o inconsciente o lugar por excel�ncia da alteridade – pois nele os
contr‡rios n‹o se excluem (FREUD, 1996b)-, tais narrativas encenam a
resist�ncia do inconsciente ˆ toda forma de subjuga�‹o. Mas isso j‡ Ž outra
hist—ria.
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em: 03 maio 2018.
[Recebido:
20 dez 21 – Aceito: 20 jan 21]
[12] Doutorado em Letras pela
Pontif’cia Universidade Cat—lica do Rio de Janeiro, Brasil(2006). Professor
Associado II da Universidade Federal do Par‡ , Brasil
[13]
Em outros
trabalhos, j‡ se anotou os problemas envolvidos no traslado do termo MŠrchen, algumas vezes traduzidos para o
portugu�s por conto de fadas,
outras, por conto maravilhoso. Optou-se por esta œltima variante, em raz‹o da
etimologia do termo. (TRUSEN, 2012)
[14] Trad nossa de ÒIm MŠrchen
zeigt der Held, der sprechenden Tieren, Winden oder Gestirnen begegnet, weder
Verwunderung noch Angst. Dies nicht, weil ihm das sprechende Tier oder Gestirn
von Haus aus vertraut wŠre; es gehšrt durchaus nicht zu der ihm gewohnten
Umwelt, nichts deutet an, dass er von der Existenz solcher sprechenden Tiere
auch nur gehšrt hat. Aber er verwundert sich nicht, und fŸrchtet sich nicht:
das GefŸhl fŸr das Absonderliche fehlt ihm. Ihm
scheint alles zur selben Dimension zu gehšren.Ò
[15] Trad nossa de
ÒEl rechazo de lo sobrenatural se tradujo tambiŽn en la condena de su uso
literario y estŽtico. Las perspectivas ilustradas de la segunda mitad del siglo
XVIII enarbolaron los conceptos de verosimilitud y m’mesis como armas fundamentales
para la presencia de lo sobrenatural y lo maravilloso de los textos literarios.Ó
[16] Conforme nota explicativa,
o projeto procurou manter tanto quanto poss’vel os ’ndices de oralidade,
utilizando-se, quando necess‡rio, dos colchetes para indicar express›es ou
palavras que suscitaram dœvida por parte do transcritor.
[17]
Trad nossa de :
Hab’a respirado la atmosfera creada por Henri
Christophe, monarca de incre’ble empe–os, mucho m‡s sorprendente que todos los
reyes inventados por los surrealistas, muy afectos a tiran’as imaginarias,
aunque no padecidas. A cada paso
hallaba lo real maravilloso [grifo do
autor]. Pero pensaba, adem‡s. que esa presencia y vigencia de lo real
maravilloso no era privilegio œnico de Haiti, sino patrimonio de la AmŽrica
entera (...)Ó
[18]
Trad. nossa de CÕest le contraire de lÕidentitŽ, comme lÕautre est le contraire du m�me.
On pourrait en faire un principe : toute chose Žtant identique ˆ soi
(principe dÕidentitŽ) est aussi diffŽrente de toutes les autres (principe dÕaltŽritŽ).
[19] No original, ÒLa
carcajada es un s’ntesis (provisional) entre el alma y el cuerpo, el yo y el otro.Ó(PAZ, 1969, p. 15)
[20] Trad. nossa de ÒLeerlo
es participar en el secreto. ÀEn quŽ consiste ese secreto? Este libro nos
ense–a nuestra otra cara, la oculta e inferior. Lo que digo debe entenderse
literalmente: hablo de la realidad que est‡ debajo de la cintura y que la ropa
cubre. Me refiero a nuestra cara animal, sexual: al culo y los —rganos
genitales. Ò
[21]
Trad. nossa de ÒEl
drama de toda cultura (....) es el intento de reducir lo irreductible, la
alteridad, hacia la tranquilidad ideol—gica de lo Mismo, de la Identidad. La
alteridad parece ser lo insoportable. El ÔordenÕ que toda cultura de alguna
manera sacraliza, es el intento de reducir la alteridad hacia las formas de lo
Mismo.Ó
[22] Trad nossa de ÒCuando el limite persiste y un ‡mbito ÔotroÕ se pone
en escena sin atender a las verosimilitudes de las certezas de lo real, y sin
penetrar estas certezas y cuestionarlas, cuando el l’mite persiste deslindando
el ‡mbito otro del ‡mbito de lo
real, estamos en presencia de lo maravilloso. Podr’a decir-se que en lo
fant‡stico lo otro es una irrupci—n y, en lo maravilloso, un espect‡culo. Ò