A palavra cantada nos rituais da Uni‹o do Vegetal (UDV): um estudo de poŽticas orais [1]

 

 

The sung word in the rituals of the Uni‹o do Vegetal (UDV): a study of oral poetics

 

 

Neila Tatiane Santana da Cruz Fariello[2]

https://orcid.org/0000-0001-7419-5435

Edil Silva Costa[3]

https://orcid.org/0000-0001-5327-3502

 

 

Resumo: Compondo uma pesquisa mais ampla, o presente artigo pretende estudar as poŽticas orais presentes nos rituais do Centro Esp’rita Beneficente Uni‹o do Vegetal (CEBUDV), a partir do uso da Òmœsica lato sensuÓ. Tal assunto, embora seja de interesse do universo acad�mico, Òtem recebido pouca aten�‹o da literatura atŽ o momentoÓ (LABATE & PACHECO, 2009, p. 14).  Assim mœsica e experi�ncia religiosa instigam esse trabalho, tendo como foco a Uni‹o do Vegetal, que Ž uma religi‹o de fundamenta�‹o crist‹ reencarnacionista, criada na floresta amaz™nica, por JosŽ Gabriel da Costa, que utiliza em seus rituais um Ch‡ de nome Hoasca, tambŽm chamado de Vegetal, considerado sagrado por seus adeptos (outras religi›es ou grupos que fazem uso dessa bebida a intitulam de Ayahuasca, um termo que se popularizou no meio acad�mico e na m’dia). Sob efeito desse Ch‡, durante os rituais, os participantes das Sess›es de Vegetal entram em um estado ampliado de consci�ncia em que podem ter a oportunidade de receber revela�›es, atravŽs de mira�›es ou de um mergulho profundo na mem—ria, poss’veis de provocar transforma�›es em suas vidas. Esses rituais s‹o organizados, desde a origem desta institui�‹o, de forma a privilegiar a tradi�‹o oral, buscando Òdesenvolver a mem—riaÓ. Nesse contexto, a mœsica se faz presente, formando uma antologia pr—pria dessa religi‹o, seja atravŽs das Chamadas — categoria nativa que designa uma espŽcie de c‰nticos sagrados evocados durante os rituais —, seja atravŽs de sele�‹o criteriosa de algumas can�›es do universo popular brasileiro. Para auxiliar nessa empreitada, ser‹o utilizadas, como base te—rica, as ideias de Edil Silva Costa, Hampate BA, Paul Zumthor, Jean-No‘l Pelen, dentre outros que comp›em essa vasta epistemologia sobre as poŽticas orais e sobre as religi›es Ayahuasqueiras.

Palavras-Chave: Uni‹o do Vegetal; Hoasca; Mœsica; Chamadas; Ritual.

Abstract: Composing a broader research, the present article intends to study the oral poetics present in the rituals of the Beneficent Spiritist Center Uni‹o do Vegetal (CEBUDV), from the use of Òlato sensu musicÓ. This subject, although of interest to the academic world, Òhas received little attention in the literature so farÓ (LABATE & PACHECO, 2009, p. 14). Thus, music and religious experience instigate this work, focusing on the Uni‹o do Vegetal, which is a religion with a reincarnationist Christian foundation, created in the Amazon rainforest, by JosŽ Gabriel da Costa, who uses in his rituals a Tea called Hoasca, also called Vegetable, considered sacred by its adherents (other religions or groups that make use of this drink call it Ayahuasca, a term that has become popular in academia and the media). Under the influence of this tea, during the rituals, the participants of the Vegetal sessions enter an expanded state of consciousness in which they can have the opportunity to receive revelations, through mirations or a deep dive into memory, possible to bring about transformations in their lives.           These rituals are organized, since the origin of this institution, in order to privilege the oral tradition, seeking to Òdevelop memoryÓ. In this context, music is present, forming an anthology of this religion, either through the Chamadas - a native category that designates a kind of sacred chants evoked during the rituals -, or through a careful selection of some songs from the Brazilian popular universe. To assist in this endeavor, the ideas of Edil Silva Costa, Hampate BA, Paul Zumthor, Jean-No‘l Pelen, among others that make up this vast epistemology on oral poetics and Ayahuasqueira religions will be used as a theoretical basis.

Keywords: Uni‹o do Vegetal; Hoasca; Song; Chamadas; Ritual.

 

 

ÒNo princ’pio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princ’pio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homensÓ.

Jo‹o 1:1-4

 

A palavra oral, mormente a cantada, Ž fonte de inspira�‹o desse artigo o qual, compondo uma pesquisa mais ampla, visa estudar as poŽticas orais a partir da Òmœsica lato sensuÓ utilizada nos rituais do Centro Esp’rita Beneficente Uni‹o do Vegetal (CEBUDV), doravante Uni‹o do Vegetal, Uni‹o ou UDV.

Sabemos que a literatura oral Ž capaz de expressar e dar manuten�‹o ˆs regras e espa�os de uma comunidade preservando sua mem—ria. Existe um campo epistemol—gico que trata desse assunto e que vem trazendo contribui�›es significativas, ao longo dos tempos, o qual est‡ servindo de referencial para essa pesquisa.

A partir de fatos hist—ricos da Uni‹o do Vegetal, pretende-se apresentar o contexto musical no qual est‡ inserida esta religi‹o, perpassando por elementos estruturantes do rito[4], como as Chamadas — categoria nativa que designa uma espŽcie de c‰nticos considerados sagrados —, atŽ chegar a can�›es do universo popular brasileiro, consideradas elementos suplementares, usados como auxiliar no desenvolvimento dos trabalhos espirituais.

Assim surge o questionamento: qual a natureza, a fun�‹o e o lugar que a palavra cantada (mœsica, canto, voz) ocupa nessa comunidade? Essa e outras quest›es, que surgem no decorrer das leituras, est‹o sendo exploradas nesse trabalho com o objetivo central de analisar as mœsicas e as can�›es como parte do ritual na UDV, do ponto de vista da poŽtica.

A Uni‹o do Vegetal Ž uma sociedade religiosa, cujos ensinamentos e doutrinas s‹o transmitidos por meio oral, atravŽs da pedagogia Ôboca-ouvidoÕ, e que traz em si um rico manancial no que se refere ˆs poŽticas orais. Em seus rituais, os associados, de livre e espont‰nea vontade, bebem o Ch‡ Hoasca[5] com o objetivo de chegar a um estado profundo de concentra�‹o mental.

A UDV foi criada no seringal Sunta, na fronteira do Brasil com a Bol’via, em 22 de julho de 1961, por JosŽ Gabriel da Costa — conhecido por Mestre Gabriel — e sua fam’lia. Mestre Gabriel nasceu em 10 de fevereiro de 1922, no munic’pio de Cora�‹o de Maria, pr—ximo ˆ Feira de Santana, na Bahia. Como muitos outros cidad‹os sobreviventes da seca do nordeste, esperan�osos por um Òfuturo melhorÓ, ele saiu do sert‹o nordestino, em 1944, para se integrar ao ÒexŽrcito da borrachaÓ[6], indo trabalhar em seringais no norte do pa’s, posteriormente seguindo para Porto Velho[7], que era a capital do Territ—rio Federal do GuaporŽ, conhecido hoje como o Estado de Rond™nia. L‡ enfrentou muitos desafios, a Floresta Amaz™nica e o contexto pol’tico e econ™mico pelo qual passava o pa’s, naquela Žpoca, faziam daquele lugar, segundo Patrick Walsh, Òum ambiente hostil e ca—ticoÓ (WALSH, 2017, p.21), entretanto, foi ali onde o Mestre Gabriel iniciou seu trabalho em busca do desenvolvimento espiritual do ser humano. Naquela Žpoca, os seringueiros tambŽm faziam uso do Ch‡, mas com outras finalidades

Naquele per’odo j‡ existia as doutrinas do Daime e da Barquinha em Rio Branco-AC. No entanto, nos seringais onde Mestre Gabriel bebeu o Ch‡ pela primeira vez n‹o existia essas doutrinas. Os seringueiros tinham conhecido e aprendido a fazer o Ch‡ com os ’ndios da regi‹o, mas n‹o seguiam o uso ritual’stico. Muitos deles se referiam aos efeitos do Ch‡ como Òcinema de ’ndioÓ em alus‹o as vis›es provocadas pelos efeitos do Ch‡ (WALSH, 2017, p. 21).

O Mestre Gabriel bebeu o Vegetal pela primeira vez[8], em 1959, das m‹os de um seringueiro chamado Chico Louren�o, a partir da’, junto aos primeiros disc’pulos que o seguiam, iniciou um processo de legaliza�‹o da institui�‹o a fim de superar as persegui�›es policiais que come�aram a surgir por conta do uso do Ch‡ considerado, por muitos, entorpecente. Desde o in’cio, o Mestre Gabriel j‡ buscou organizar o ritual, incorporando, de acordo com as necessidades que se apresentavam, os seus elementos, formando Òo corpo doutrin‡rio b‡sico da Uni‹o do VegetalÓ (LABATE & PACHECO, 2009, p. 53).

Em todas as Sess›es da Uni‹o do Vegetal, desde a origem da institui�‹o, a oralidade Ž a principal forma de transmiss‹o dos ensinamentos deixados pelo Mestre Gabriel. Nesse contexto, a mœsica se faz presente formando uma antologia pr—pria dessa religi‹o, seja atravŽs das Chamadas, seja atravŽs de sele�‹o criteriosa de algumas can�›es do universo popular brasileiro, ou mesmo de mœsicas instrumentais.

 

 

Mœsica e espiritualidade - o despertar de sentimentos

 

ÒSim, a mœsica Ž um afluente da mem—ria, a quem enche de vida e de quem se torna t‹o ’ntima quanto o respirar. Ela traz em si o fino cristal, o lume da recorda�‹oÓ.

Edson Lodi

 

ƒ imemorial o uso da mœsica em rituais religiosos. Do oriente ao ocidente, a grande maioria dos grupos sociais, que busca a espiritualidade, se utiliza dela como elo com o sagrado. O jornalista, poeta e pesquisador de mœsica nos rituais da UDV, Edson Lodi Campos Soares, em seu livro intitulado Cantiga de viola – relic‡rio de sons do sert‹o (2018), escreveu a respeito dessa ancestralidade

Seja em forma de mantras, cantos gregorianos, incaicos, hin‡rios, chamadas, seja em outras manifesta�›es ritual’sticas, de diferentes povos e culturas. De que s‹o exemplo os povos ind’genas que utilizam a Hoasca, aos quais creditamos a preserva�‹o da mem—ria do uso desse sacramento, para que chegasse ˆ idade contempor‰neaÓ. (LODI, 2018, p. 26)

AlŽm disso, diversas ‡reas do saber como a antropologia, a etnomusicologia etc tem observado a exist�ncia marcante da mœsica no universo religioso, bem como a fun�‹o que esta representa. Por sua presen�a em uma grande diversidade de contextos e por despertar amplo interesse de estudos no meio acad�mico, s‹o tambŽm profusos os conceitos que a palavra mœsica possui. Para atender ao que se prop›e nessa pesquisa, valho-me do conceito apresentado pelo pesquisador Tiago de Oliveira Pinto - Diretor do Instituto Cultural Brasileiro na Alemanha – ICBRA, que, ao estudar a mœsica a partir de uma antropologia sonora, diz:

Aqui mœsica n‹o Ž entendida apenas a partir de seus elementos estŽticos, mas, em primeiro lugar, como uma forma de comunica�‹o que possui, semelhante a qualquer tipo de linguagem, seus pr—prios c—digos. Mœsica Ž manifesta�‹o de cren�as, de identidades, Ž universal quanto ˆ sua exist�ncia e import‰ncia em qualquer que seja a sociedade. Ao mesmo tempo Ž singular e de dif’cil tradu�‹o, quando apresentada fora de seu contexto ou de seu meio cultural (PINTO, 2001, p. 223).

Diversos grupos, antigos ou mais contempor‰neos, que fazem uso do Ch‡ Hoasca em seu contexto religioso, utilizam a mœsica em seus rituais conforme observaram Bia Labate e Gustavo Pacheco no livro Mœsica Brasileira de Ayahuasca (2009)

Essa rela�‹o estreita entre mœsica e uso de Ayahuasca pode ser claramente observada nas religi›es ayahuasqueiras brasileiras – Santo Daime (nas vertentes Alto Santo e Cefluris), Barquinha e Uni‹o do Vegetal – que desenvolveram formas espec’ficas de manejar a mœsica na pr‡tica ritual, incluindo a cria�‹o de um vasto repert—rio musical pr—prio composto por hinos (Santo Daime), salmos (Barquinha) e chamadas (Uni‹o do Vegetal). (LABATE & PACHECO, 2009, p. 10)

Dessa forma, a ÒmœsicaÓ utilizada nos rituais da UDV configura parte do uso das poŽticas orais em seus ritos, contribuindo, junto a outros elementos dessa oralidade, para a dissemina�‹o e manuten�‹o de sua cultura, preservando a mem—ria coletiva. Noel Pelen fala da import‰ncia da oralidade para a exist�ncia e perman�ncia de uma comunidade, pois ela Ž o meio mais direto da constru�‹o e manuten�‹o das regras daquele lugar, ÒA literatura oral Ž a express‹o dessas regras, das exig�ncias e saberes da mem—ria da comunidade, e, ao mesmo tempo, Ž ela que as instaura, as ratifica, e Ž ela que Ž a mem—ria.Ó (PELEN, 2001, p. 55).

R. Murray Schafer (1997), em seu livro A afina�‹o do Mundo, fala de dois mitos gregos que apresentam a origem da mœsica: as Doze Odes P’ticas, onde a mœsica se apresenta como Òemo�‹o subjetivaÓ (SCHAFER, 1997, p.21), e o Hino HomŽrico em louvor a Hermes, em que a mœsica ÒŽ resultado da descoberta das propriedades sonoras dos materiais do universoÓ (Ibidem) e diz que todas as teorias de mœsica, a partir da’, est‹o alicer�adas sobre esses fundamentos. A partir dessa origem, o conceito de mœsica de Tiago Oliveira Pinto tambŽm pode ser considerado uma extens‹o desses fundamentos, pois, ao considerar mœsica como Òsom e movimento num sentido latoÓ (PINTO, 2001, p. 22) ele apresenta diversas possibilidades de compreens›es. Aos valores estŽticos e f’sicos que a mœsica possui, ele acrescenta a dimens‹o cultural, que Ž tambŽm subjetiva e diz respeito ˆ manifesta�‹o, manuten�‹o e transmiss‹o de conhecimentos de determinada comunidade. O que, em certa medida, aumenta a complexidade da compreens‹o de mœsica, pois ao passo em que leva em considera�‹o aspectos tradicionais (ao observar, por exemplo, a fun�‹o da mœsica em um ritual, ou numa sociedade ind’gena), considera tambŽm caracter’sticas vol‡teis, quando considerada fora do seu contexto de origem. O pesquisador traz ainda uma contrapartida aos estudos ocidentais tradicionalistas sobre mœsica afirmando que Òpor sua vez, esta vers‹o Òhist—ricaÓ da musicologia se ocupa, primordialmente, da mœsica erudita de cunho ocidental e de suas extens›es em territ—rios n‹o europeus, excluindo manifesta�›es de tradi�‹o oral e mesmo popularÓ (PINTO, 2001, p. 226).

AlŽm desse elo com as divindades, a mœsica, utilizada em ritos religiosos, desperta sentimentos profundos, muitos dos quais esquecidos no cora�‹o humano. ÒQuem jamais guardou em si uma can�‹o?Ó Com essa quest‹o, Edson Lodi nos instiga a pensar sobre o efeito da mœsica na mem—ria, como um instrumento auxiliar de recorda�›es. 

Quem Jamais guardou em si uma can�‹o? Ao ouvi-la, certamente emocionou-se uma vez mais com o caudal de lembran�as que emergem da mem—ria, verdadeiras ilhas que permanecem ao longo dos anos, dŽcadas, e que, a um leve toque, abrem-se em conchas de sonoridade ’mpar, recorda�›es de um tempo que se viveu. E que faz reviver um amor, um lugar, uma paisagem, qualquer coisa preciosa que se guardou para sempre no cora�‹o. (SOARES, 2018, p. 21-2)

A mœsica est‡ presente desde sempre. A natureza, com sua infinitude e exuber‰ncia, comp›e divinas sinfonias. O ar, o mar, as florestas com seus encantos, seus bichos e rios, tudo isso j‡ produzia mœsica mesmo antes do homem come�ar a confeccionar instrumentos que buscassem reproduzir os sons naturais.

            A quest‹o apresentada na introdu�‹o desse trabalho constitui o cerne dessa pesquisa, pois, atravŽs dela, pode-se refletir sobre a rela�‹o entre mœsica, espiritualidade e cultura. Para tentar responde-la, buscarei conceituar alguns elementos b‡sicos presentes nos rituais da UDV. A come�ar pela natureza das Sess›es. Existe uma diversidade de tipos de Sess›es na Uni‹o do Vegetal, as regulares ocorrem nos primeiros e terceiros s‡bados de cada m�s, s‹o as chamadas de Sess›es de Escala, destinadas a todos os s—cios da UDV, iniciam sempre as 20:00h, com a ingest‹o do Ch‡ e paralisam, no m‡ximo, ˆ meia-noite e quinze. T�m-se tambŽm as Sess›es de Escala Anual, tambŽm liberadas para todos os s—cios, as quais celebram datas espec’ficas uma vez por ano, s‹o elas: Sess‹o de Reis, dia seis de janeiro; anivers‡rio do Mestre Gabriel, dia dez de fevereiro; ressurrei�‹o do Mestre, vinte e sete de mar�o; S‹o Jo‹o, vinte e tr�s de junho; recria�‹o da Uni‹o do Vegetal, vinte e dois de julho; S‹o Cosmo e S‹o Dami‹o, vinte e sete de setembro; Confirma�‹o da Uni‹o no astral superior, primeiro de novembro e Sess‹o de Natal, vinte e quatro de dezembro. AlŽm da Sess‹o Instrutiva, as quais ocorrem ao meio dia e onde s— se permite a participa�‹o de s—cios do grau instrutivo, das Sess›es Extras e dos Preparos de Vegetal, ritual que dura em torno de tr�s dias, onde se produz o Ch‡ Hoasca e todos os s—cios est‹o autorizados a participar.

Nas Sess›es de escala (tanto as mensais quanto as anuais), ap—s a ingest‹o do Ch‡ Hoasca por todos os presentes, s‹o lidos documentos (boletins e estatuto) que orientam a conduta do disc’pulo dentro e fora da Uni‹o, nas demais Sess›es, essa leitura n‹o Ž realizada. N‹o obstante, em qualquer tipo de Sess‹o da UDV a mœsica se faz presente, mormente em forma de Chamadas.  As escalas acontecem no templo ou, a depender da quantidade de participantes (em algumas escalas anuais pode acontecer de ter muitos visitantes em um Nœcleo), podem acontecer no barrac‹o. Nesses supracitados casos, tem-se uma mesa grande, geralmente com quatro ou seis cadeiras ladeadas, que s‹o ocupadas por s—cios[9] de diversos graus e uma ao centro, onde senta-se a pessoa respons‡vel por conduzir os trabalhos, chamada de Mestre dirigente, que pode ser homem ou mulher de qualquer grau hier‡rquico dentro da UDV e escolhido pelo Mestre Representante. Cada pessoa que ocupa um desses lugares tem uma fun�‹o espec’fica durante o ritual. A pessoa que senta ao lado direito do Mestre Dirigente, na ÒpontaÓ da mesa, realiza a leitura dos documentos. Ap—s a conclus‹o da leitura desses documentos, o s—cio que est‡ sentado ao lado esquerdo do dirigente, pr—ximo a ele, faz uma breve explana�‹o do que foi lido, na inten�‹o de auxiliar ˆ condu�‹o dos trabalhos. Nesse momento, o Ch‡ que foi ingerido no in’cio do ritual j‡ tem o seu efeito iniciado[10], considerando que cada experi�ncia Ž sempre œnica e individual. Todas as demais pessoas presentes permanecem sentadas durante quase todo o tempo de Sess‹o, levantando-se apenas para fazer alguma pergunta ou para sair do sal‹o, sempre que poss’vel, pedindo licen�a ao Mestre Dirigente para quaisquer a�›es durante o ritual.

Ap—s a explana�‹o, o Mestre Dirigente inicia uma sequ�ncia de Chamadas (as quais n‹o s‹o acompanhadas de instrumentos), que abrem os trabalhos — s‹o as Chamadas de abertura da Sess‹o —. Regularmente as Chamadas de abertura seguem uma ordem que prop›e tanto uma gradua�‹o na apresenta�‹o das for�as que est‹o sendo chamadas, por exemplo, a primeira, intitulada de Sombreia, vem pedindo sombra e luz para auxiliar na chegada da burracheira[11], quanto uma gradua�‹o na compreens‹o dos participantes.

Ap—s a abertura da Sess‹o, feitas as primeiras Chamadas, o Mestre Dirigente d‡ continuidade ao ritual fazendo a liga�‹o da burracheira, perguntando aos presentes se tem burracheira e luz. Trata-se de um momento considerado sagrado, assim como toda a Sess‹o, mas que tem suas particularidades por ser o ve’culo atravŽs do qual se faz a liga�‹o com o superior, abrindo os trabalhos, usando uma categoria nativa, Ž o momento em que se Òabre o orat—rio com o divinoÓ. Assim, os participantes mant�m sil�ncio para poder ÒreceberÓ (outra categoria nativa que quer dizer que a pessoa sente a presen�a de uma for�a superior) a for�a do Vegetal que est‡ sendo evocada naquele momento.

As Chamadas fazem parte do corpo doutrin‡rio da Uni‹o do Vegetal, Ž grande seu valor espiritual. Nessa religi‹o, acredita-se que elas tem origem divina e foram trazidas pelo Mestre Gabriel e as pessoas que recebem uma Chamada se colocam como porta voz desse Mestre, acontece, como disse o professor JosŽ Jorge de Carvalho, ao escrever o pref‡cio do livro Mœsica Brasileira de Ayahuasca, Òum transbordamento espiritual desse limite humano para o fazer musical, pois aprendemos que Ž a pr—pria subst‰ncia preparada com a planta sagrada que ensina can�›es aos Mestres e organiza a mœsica praticada no ritual de bebida e devo�‹oÓ (CARVALHO, Apud Labate e Pacheco. 2009, p. 10). Nesse mesmo livro, Labate e Pacheco afirmam que:

por meio das chamadas, evoca-se o aux’lio das for�as espirituais para o bom andamento da Sess‹o, sendo frequentes os pedidos por luz, for�a, socorro, serenidade, saœde etc. Considera-se que as chamadas t�m origem divina, n‹o sendo, portanto, criadas por alguns indiv’duos, mas sim trazidas – diz-se, por exemplo, Òo Mestre Gabriel trouxe essa chamadaÓ. (LABATE & PACHECO, 2009, p 62).

Em entrevista realizada pelo Mestre Edson Lodi, intitulada ÒUso das Chamadas exige critŽrioÓ, publicada no Informativo Alto Falante de 1996, o Mestre Monteiro (uns dos Mestres integrantes do Conselho da Recorda�‹o dos Ensinos do Mestre Gabriel - CREMG), ao ser questionado sobre a fun�‹o da Chamada, respondeu que ÒH‡ Chamadas cuja fun�‹o Ž conduzir as pessoas na burracheira. H‡ Chamadas que conduzem com a clareza. Outras trazem mais For�a para a Sess‹o, e h‡ outras que fazem a gente viajar no tempoÓ (MONTEIRO, 1996, p.4). Isso mostra o cuidado que se deve ter ao trazer uma Chamada durante uma Sess‹o com o Vegetal, pois ela pode auxiliar a tirar uma pessoa de alguma situa�‹o indesejada, mas pode tambŽm trazer mais for�a para a Sess‹o, aumentando a burracheira, por isso que o uso de Chamadas, durante uma Sess‹o, exige critŽrio. Na Uni‹o do Vegetal, as Chamadas s‹o conhecimentos reservados aos seus s—cios, devendo ser estudadas apenas em rituais religiosos, onde a for�a da burracheira, potencializada pela ingest‹o da Hoasca, permite o adequado estudo e compreens‹o desses e de outros elementos.

Na UDV, assim como em outras religi›es, sejam de matriz africana, rituais ind’genas, crist‹os etc, a palavra tem um lugar especial na (re)liga�‹o do homem como o divino, tanto a palavra falada quanto a cantada. Nessa religi‹o, a palavra cantada funciona como um instrumento auxiliar do Mestre na suplementa�‹o de doutrinas, de ensinos e mesmo para despertar sentimentos profundos muitas vezes esquecidos no cora�‹o humano. Quando se trata de Chamada, conforme j‡ fora apresentado, ela pode ser considerada elemento estruturante dos rituais, considerando que sempre est‡ presente, seja qual for a natureza da Sess‹o. No tocante ˆs demais mœsicas (instrumentalizadas) que s‹o tocadas em rituais, n‹o h‡ obrigatoriedade do seu uso, por isso trata-se de um recurso suplementar do Mestre.

            A partir de pesquisas em documentos do acervo do Departamento de Mem—ria e Comunica�‹o (DMC) do Nœcleo Cora�‹o de Maria (localizado na cidade de Cora�‹o de Maria – BA), o qual eu sou s—cia, e da Sede Geral (localizada em Bras’lia), disponibilizados via site da Organiza�‹o, jornais e informativos antigos, tambŽm a partir de conversas com pessoas mais antigas e observando as minhas pr—prias experi�ncias com a burracheira, ao longo de dez anos, percebo que qualquer mœsica pode ser tocada durante um ritual da Uni‹o do Vegetal, desde a rainha do xaxado – Marin�s -, passando por Roberto Carlos, Elis Regina, Bach, atŽ o pai do rock brasileiro – Raul Seixas, dentre outras. Seja qual for a mœsica escolhida para a composi�‹o do trabalho espiritual, durante a burracheira, o que importa, ao respons‡vel pela sua execu�‹o, Ž ter consci�ncia da natureza, fun�‹o e lugar que ela ocupa no rito. Esses elementos exigem certa sensibilidade e o dirigente de uma Sess‹o, sabendo da import‰ncia deles, procurar‡ propor uma can�‹o que atenda ˆs necessidades apresentadas no ritual a qual, por exigir aten�‹o e critŽrio, dever‡ ser autorizada pelo Mestre Representante. Existe ainda a possibilidade de um participante da Sess‹o, seja qual for o seu grau, sugerir a audi�‹o de alguma can�‹o, isso tambŽm passa pelo crivo do Mestre Representante.

 

 

Considera�›es Finais

 

Considerando a oralidade como importante via na elabora�‹o de pensamento e transmiss‹o de ensinamentos, um dos principais ensinos que venho guardando comigo, desde que iniciei essa pesquisa (de maneira formal), Ž uma 'palavra' que minha orientadora escutou da sua orientadora, Jerusa Pires Ferreira, e transmitiu a mim: ÒninguŽm pesquisa o que n‹o est‡ dentro de si!Ó. Como que trabalhando a minha mem—ria, despertando sentimentos e a�›es, esse valioso ensino vem me impulsionando, me dando for�a e coragem.

Pesquisar um assunto estando dentro dele n‹o Ž tarefa f‡cil, por mais que as mentalidades estejam se transformando e a academia esteja abrindo suas portas, o pensamento cartesiano ainda insiste em querer colocar cada coisa num œnico lugar.

Sob os olhares desconfiados de alguns membros da Institui�‹o em estudo, os quais temem uma exposi�‹o perigosa, e, ainda, sob a cr’tica de algumas elites acad�micas, as quais n‹o acreditam que Ž poss’vel se distanciar para enxergar seu "objeto" sem proselitismo, eu me aventuro nessa t�nue linha de fronteira, me posicionando como pesquisadora nativa.

Assim, esse artigo intencionou apresentar o esbo�o de um trabalho maior, onde a constante busca por mais informa�›es renderam uma disserta�‹o de Mestrado. Espera-se com esse trabalho estreitar os la�os entre a academia e Uni‹o do Vegetal, apresentando e analisando aspectos de seu ritual, a partir das poŽticas orais presentes nesse contexto.

 

 

Refer�ncias

 

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[1] A primeira vers‹o desse artigo foi produzida como trabalho final de disciplina do Mestrado em Cr’tica Cultural da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e trata-se tambŽm de um recorte do projeto de disserta�‹o do referido curso.

[2]  Mestre em Cr’tica Cultural pelo P—s Cr’tica. E-mail: neiletras@gmail.com.

[3] Doutora em Comunica�‹o e Semi—tica pela PUC-SP, professora permanente do P—s Cr’tica.  E-mail: escosta@uneb.br.

[4] rito entendido aqui como Òuma a�‹o que abarca o grupo social, definindo-lhe papŽis funcionais e, ao mesmo tempo, assegurando ao grupo rela�›es tranqŸilizadoras com o outro mundo, a divindade, as for�as diante das quais o homem se sente dependente" (Zumthor, 2005, p. 99).  

[5] Trata-se de uma bebida feita a partir da decoc�‹o de duas plantas de origem amaz™nica: as folhas de um arbusto de nome Chacrona (Psychotria viridis) e um cip— de nome Mariri (Banisteriopsis caapi). A ingest‹o dessa bebida proporciona um estado de consci�ncia ampliada (EAC).

[6] Refere-se a um momento sombrio da hist—ria do Brasil, entre 1942 e 1945, pouco ou nada divulgado, onde, atendendo a interesses bŽlicos, morreram mais de 30 mil dos 55 mil homens que se alistaram para extrair a seringa, que era a matŽria prima utilizada na produ�‹o da borracha empregada na confec�‹o de armas a serem utilizadas durante a segunda Guerra Mundial.

[7] Cf. Centro Esp’rita Beneficente Uni‹o do Vegetal (1989), site oficial da UDV: www.udv.org.br.

[8] Cf. Ruy Fabiano, 2012.

[9] S—cios s‹o os membros da institui�‹o que decidem se associar assumido algumas responsabilidades perante ˆ institui�‹o como zelar pelo nœcleo o qual frequenta, participar regularmente das Sess›es, trajar o uniforme completo nas Sess›es etc.

[10] O efeito do Ch‡ varia de pessoa a pessoa, alŽm de quest›es org‰nicas, existe o mistŽrio espiritual que s— pode ser apreendido dentro da experi�ncia.

[11] Categoria nativa que se refere ao efeito que o Ch‡ provoca em quem bebe - significa For�a Estranha.