| O Voluntariado na Perspectiva de Gênero: Reflexões a partir de uma experiência com a Associação dos Voluntários do Hospital Universitário de Londrina |
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* Assistente Social da Secretaria Municipal de Saúde de Londrina. Mestranda em Serviço Social e Política Social pela UEL dgalhardimotter@yahoo.com.br ** Assistente Social do Hospital Universitário de Londrina. Mestranda em Serviço Social e Política Social pela UEL rosayoko@sercomtel.com.br |
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RESUMO: PALAVRAS CHAVE: Voluntariado. Divisão sexual do trabalho. Cidadania.
ABSTRACT: KEY WORDS: Volunteer work. Sexual division of work. Citizenship INTRODUÇÃO O estudo das relações de gênero, centrado nas relações sociais entre homens e mulheres, teve início na década de 1980, com o objetivo de não apenas focalizar as mulheres como objetos de estudo, mas também, os processos de formação da feminilidade e da masculinidade. Assim, o conceito de gênero tem contribuído para demonstrar que não são propriamente as características sexuais que determinam o que é feminino ou masculino, mas a forma como as mesmas são valorizadas ou representadas, o que depende do momento histórico e de cada sociedade. Embora essas características não sejam as determinantes da feminilidade e da masculinidade, não podemos negar, contudo, que o gênero constitui-se com ou sobre corpos sexuados, ou seja, a biologia não é negada, mas a ênfase recai sobre a construção social e histórica produzida sobre tais características. Dessa forma, para compreendermos as relações de homens e mulheres em uma determinada sociedade, faz-se necessário partirmos não exatamente dos seus sexos e sim, do que se construiu em nome deles. As identidades e os papéis masculino e feminino não são fatores biológicos originados simplesmente da natureza, como a ideologia e o sistema patriarcal quer nos fazer acreditar, mas são historicamente construídos, portanto, passíveis de serem modificados. As pessoas pensam e agem, construindo práticas sociais diferenciadas conforme o sexo, influenciando, mas também se deixando influenciar, sozinhas ou coletivamente. Portanto, famílias, instituições e Estado são constituintes e constituídos de gêneros, na medida em que determinam e, ao mesmo tempo, são permeáveis pelas relações de sexo e de poder, estando sempre presente uma relação de hierarquização, colocando as mulheres em posição de inferioridade aos homens. Compreender e desvelar como se estrutura esse conjunto de relações sociais pode ser um pequeno passo de uma longa jornada, no sentido de contribuir para reflexões que visem mudanças que levem a uma nova reorganização da sociedade, quebrando paradigmas existentes. Nessa perspectiva, o presente estudo toma por base as práticas sociais da Associação dos Voluntários do Hospital Universitário de Londrina (AVHU), formada por mulheres, que desde 1979, vem desenvolvendo atividades filantrópicas e assistenciais. Num primeiro momento, realizamos uma caracterização da AVHU, relatando um pouco de sua história, seu objetivo e suas atividades. Na seqüência, abordamos sobre o voluntariado na perspectiva da divisão sexual do trabalho, demonstrando como a entidade organizou-se a partir dos papéis socialmente atribuídos aos homens e mulheres. Em seguida, apresentamos o voluntariado na dimensão da cidadania, apontando algumas reflexões sobre em que medida as suas práticas vem ou não, contribuindo para o fortalecimento e emancipação das mulheres, no sentido da efetivação de direitos sociais, civis e políticos. E por último, as considerações finais. Ressaltamos que o estudo das relações de gênero só é possível quando também levamos em consideração as relações de etnia, de classe, o momento histórico, os aspectos culturais, políticos, econômicos, enfim, as condições globais das pessoas, pois é nesse engendramento, que gênero surge e se consolida. 1 CARACTERIZAÇÃO DA ASSOCIAÇÃOA Associação dos Voluntários do Hospital Universitário de Londrina - AVHU é uma entidade de natureza privada , sem fins lucrativos , fundada em 1979, com o objetivo de prestar assistência aos pacientes que realizam tratamento no Hospital Universitário de Londrina e cujas rendas ou condições sócio-econômicas não permitem arcar com despesas de tratamento extra-hospitalares. Cabe ressaltar que o referido Hospital atende exclusivamente a população usuária do Sistema Único de Saúde (SUS). O tipo de assistência prestada pela Associação sofreu algumas modificações peculiares à época de sua implantação, mas nesses 26 anos de existência, pode-se afirmar que, regra geral, caracterizou-se por fornecer hospedagem com pensão completa para pacientes e/ou familiares oriundos de outras cidades e estados, medicamentos, aparelhos de órteses e próteses (para uso do paciente após a alta hospitalar); cestas básicas; além de participar na realização de festas para pacientes, através de donativos diversos. A Associação é constituída atualmente por vinte e dois membros, todas mulheres , a maioria idosa e com uma média de 15 anos de vínculo à mesma, não havendo mudanças significativas em termos de fluxo de entrada e saída de novos integrantes no período mencionado. São todas voluntárias, ou seja, doam o seu tempo, o seu trabalho, os seus conhecimentos e, principalmente os seus "cuidados", sem qualquer contrapartida financeira. A Associação realiza reuniões quinzenais, com uma média de 10 a 12 participantes, sendo geralmente sempre as mesmas pessoas. As demais têm atuações pontuais em eventos específicos, como por exemplo, na promoção de chás beneficentes, bazares e festas. A Associação mantém-se através de doadores particulares, campanhas e promoções diversas, não dispondo de recursos governamentais. Como se percebe, a atuação da Associação tem sido consolidada na esfera da filantropia e benemerência, seguindo a trajetória das associações filantrópicas tradicionais, nos quais o forte é "assistir a quem necessita", principalmente através do acolhimento e de doações. 2 O VOLUNTARIADO NA DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHOAs relações sociais de classe e gênero permeiam toda a sociedade , apoiadas na divisão social e sexual do trabalho . É no campo das relações sociais que para Kergoat (1996, p 24 ) "se organizam, denominam e hierarquizam as divisões da sociedade privado / público , trabalho manual / trabalho intelectual , capital / trabalho , divisão internacional do trabalho , etc " ( grifo nosso ). A hierarquia social estabelecida entre os sexos a partir das relações sociais de gênero , apoia-se na divisão sexual do trabalho . Isto faz com que haja atribuições construídas socialmente de forma diferenciada para homens e mulheres . Neste sentido , a sociedade vem organizando historicamente a distribuição das tarefas entre os grupos de sexo , dividindo atividades entre homens e mulheres numa dimensão sexuada , pautada na dicotomia entre o poder e o saber , hierarquizando socialmente o masculino e o feminino e estabelecendo a inferioridade e a subordinação do segundo pelo primeiro . Assim, numa sociedade de tradição patriarcal, capitalista, as práticas sociais conservam tarefas masculinas e femininas, criam modalidades de divisão social e sexual das tarefas, como se pretendesse, segundo Carrasco (2003, p.16).
As diferenças valorativas que socialmente se estabeleceram entre as tarefas desenvolvidas pelo masculino e pelo feminino estão, no âmbito da esfera pública , onde se insere o trabalho do homem na produção e, no âmbito da esfera privada caracterizado pelo trabalho da mulher na reprodução . Muito embora haja uma imbricação entre estas esferas, a sociedade capitalista não valoriza as atividades da esfera privada, ou seja, da mão-de-obra que administra a vida cotidiana fora do âmbito da produção. As ações do campo privado, segundo Carrasco (2003, p. 17),
Como a característica predominante das ações das voluntárias é o cuidado com os vulneráveis e sob a ótica de que as atribuições com relação aos cuidados foram socialmente delegadas às mulheres , pode-se compreender os contornos eminentemente femininos que a AVHU assumiu desde a sua origem . A AVHU foi idealizada e organizada por uma assistente social do Hospital, que à época, convidou apenas mulheres da sociedade londrinense, através de cartas-convite (anexo), enfatizando a necessidade de ajuda à prestação de um serviço público. O referido convite chama a atenção para o momento histórico e político da década de 70, quando o movimento das organizações civis eclode na América Latina, em resposta à profunda crise econômica e aumento dos déficits públicos. Este processo obriga o Estado a reorganizar os serviços sociais, de forma a transferir parte significativa de sua responsabilidade para as comunidades, famílias e as organizações filantrópicas. Desta forma, as organizações não-governamentais, como é o caso da AVHU, passam a desempenhar um papel importante neste cenário, funcional à lógica da economia, ou seja, uma via de potencialização de expansão de atividades do capitalismo em crise. É nessa direção que as ações da AVHU estão voltadas para suprir as necessidades materiais dos pacientes em conseqüência das lacunas existentes nas políticas públicas, principalmente nas áreas de Saúde e Assistência Social. As organizações de cunho tradicional, conservador, geralmente as de caridade e beneficência operam como instrumentos complementares às ações do Estado, ou seja, atuam no espaço público com ações que deveriam ser cobertas pelas políticas públicas, de forma a dar condições efetivas de saúde como um direito do cidadão e dever do Estado. As voluntárias passam a assumir as tensões geradas pela pobreza, sobrecarregando-se com novas atribuições que vão encarando como "naturais" da mulher. Continuam reproduzindo o que "apreenderam" ao longo dos anos: "cuidar do outro", disponibilizando sua mão-de-obra e seu tempo imprescindíveis à esfera da produção. Um tempo voluntário que segundo Carrasco (2003, p.36), não é reconhecido socialmente, Em uma sociedade capitalista regida pelo objetivo da maximização do lucro, somente o tempo mercantilizado - aquele que pode ser transformado em dinheiro - é reconhecido socialmente. Esse tempo é dedicado a trabalho de mercado. Os tempos restantes - em particular, os chamados "tempos geradores da reprodução", que incluem os tempos de cuidados, afetos, gestão e administração doméstica, relações e ócio, que não são pagos, mas vividos, doados e gerados [1] - "se constituem na sombra da economia do tempo dominante, baseada no dinheiro" não tem nenhum reconhecimento e, em conseqüência, tendem a se tornarem invisíveis. Portanto, a sociedade capitalista em um Estado liberal, apropria-se do tempo que a mulher destina aos cuidados, desconsiderando a possibilidade de mercantilizá-lo e, sobretudo, de reconhecê-lo como um tempo empregado para o desenvolvimento humano. Lavinas (1997, p.174) contextualiza o trabalho feminino de caráter privado como invisível para a sociedade, mas essencial para complemento às ações do Estado nacional, referindo:
Desta maneira confirma-se, através do teor do convite que originou a AVHU, a ideologia que perpassava as instituições e a sociedade naquele momento com relação ao grupo de sexo que deveria corresponder àquele apelo , já que os convites foram encaminhados apenas às mulheres , pressupondo que a resposta favorável só poderia vir das mesmas, em razão do seu altruísmo , de sua sensibilidade e tempo disponível . Isso foi tão verdadeiro que durante mais de 20 anos , a Associação denominou-se " Associação das Senhoras Voluntárias do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná ", só ocorrendo a nova denominação " Associação dos Voluntários do Hospital Universitário ", após várias reuniões e por fim , uma assembléia deliberativa. Mesmo assim , essa mudança ficou registrada apenas no papel , uma vez que as práticas sociais continuam sendo materializadas pelas mulheres e notadamente expressivas com relação a divisão sexual das tarefas . Durante os 26 anos de existência a AVHU, essencialmente composta por mulheres, atuou ativamente na captação de recursos, nos cuidados relativos aos pacientes (apoio material e espiritual), na administração e funcionamento da casa de apoio, enquanto alguns poucos maridos ou ex-maridos das próprias voluntárias, atuaram na função de motoristas, carregando peso e transportando os pacientes para partidas de futebol. Por constituírem-se em atividades pontuais, não eram considerados voluntários, apenas "quase voluntários", na concepção do grupo. São as mulheres que estão à frente da organização, como se fosse aptidão natural da mulher o "cuidar do outro" sem nada esperar em troca. Sobre essa vocação "feminina para o cuidar", Faria e Nobre (1997, p.14) referem:
O espaço de atuação das voluntárias da AVHU é marcado pelo conjunto de representações das atribuições construídas socialmente para o feminino: a sensibilidade, principalmente com os mais necessitados, a maternagem, o amparo, o provimento da sobrevivência, o auxiliar sem nada receber em troca; enfim, uma série de atributos que refletem a continuidade do âmbito doméstico, o lugar do feminino, da subjetividade. E para reforçar ainda mais esta situação considera-se que em função da idade e do estado civil, as voluntárias "estariam mais disponíveis" para cuidar dos enfermos, das pessoas que se encontram em situação de dependência, assumindo as funções do Estado com relação aos cuidados que deveriam fazer parte da rede de proteção social. A possibilidade de inserção nesse grupo social, talvez tenha se dado pelo fato de que a maioria são viúvas, inclusive já possuíam este estado civil quando ingressaram na Associação. Dentre as nove voluntárias entrevistadas, curiosamente, mas não por acaso, constata-se que apenas uma era casada. As demais, sete viúvas e uma solteira, de onde infere-se que a ausência de maridos possa ter tido influência direta na disponibilização de tempo e, principalmente, na autonomia dessas mulheres, no sentido de poderem programar uma agenda própria fora do espaço doméstico. Esta situação remete também, à reflexão sobre a condição de subserviência da mulher, que para ter o direito à agenda própria, necessita antes de tudo, submeter-se às demandas dos membros da família e dar conta das tarefas domésticas. Com relação à fonte de renda, das nove voluntárias da AVHU entrevistadas, contatou-se: 05 são pensionistas por motivo de viuvez, 02 aposentadas e 02 não possuem renda própria, ou seja, são dependentes economicamente do marido e de familiares. Constata-se que nenhuma delas investiu paralelamente ao trabalho voluntário, em suas carreiras profissionais, mesmo aquelas cujos vínculos com o sistema de previdência social na qualidade de trabalhadoras, figuram como titulares e não como dependentes. Saraceno (1995) relaciona o vínculo do sistema de previdência social com o estatuto de trabalhador, que produz desigualdades de classe em relação aos direitos sociais entre trabalhadores e não trabalhadores; trabalhadores estáveis e não estáveis. Este sistema reforça as relações de poder e de dependência existentes dentro da família, entre as gerações e entre os sexos, com prejuízo aos mais velhos e às mulheres. A mesma autora registra que "as mulheres idosas, tanto as titulares de pensões da velhice originadas de contribuições próprias como as que têm uma pensão relativa aos vínculos com um marido, caso mais freqüente, têm acesso a rendimentos adicionais mais baixo que os homens" como conseqüência das desigualdades sociais produzidas pela divisão sexual do trabalho. Acrescenta ainda, que "as mulheres idosas estão muito mais presentes que os homens idosos tanto entre as prestadoras de assistência às pessoas idosas dependentes (maridos, pais ou sogros), como entre os necessitados de assistência, dada à diferente longevidade de homens e mulheres" (p 225). A AVHU retrata o exposto, como demonstra a situação de estado civil das voluntárias, a faixa etária e a prevalência absoluta de mulheres. Levando-se em consideração o que foi discutido até aqui, questiona-se a que noção de cidadania se vincula o voluntariado. 3 A DIMENSÃO DA CIDADANIASaraceno (1995) fala de um longo período, onde de um lado, excluiu-se as mulheres do processo de construção da cidadania e, de outro, inversamente e ao mesmo tempo, construiu-se os homens-cidadãos. Aquelas não eram capazes de cidadania porque eram construídas socialmente como esposas e mães de cidadãos. Reconhecer suas necessidades e direitos individuais colocaria em risco a própria unidade familiar, na medida em que concorreriam com os seus pares masculinos no espaço fora do âmbito doméstico. Como conseqüência desse processo histórico, a família torna-se espaço primário de reprodução social e reprodução de desigualdades entre homens e mulheres. Atribui-se às mulheres, a responsabilidade pela assistência e pela unidade familiar, cujos membros passam a depender desta disponibilidade. Se de um lado elas são responsabilizadas pelo sustento da unidade familiar, de outro, esta mesma disponibilidade as impedem do acesso à cidadania, entendida aqui, na concepção de direitos civis, políticos e sociais. As relações privadas passam a prevalecer sobre as necessidades sociais, excluindo-as do processo de construção da cidadania que se dá no espaço público onde ocorrem às interações sociais. Ao mesmo tempo em que são oferecidas todas as condições para que os homens (maridos e filhos) possam exercitar todas as dimensões de cidadania. As voluntárias da AVHU refletem esse processo histórico, reproduzindo em seu espaço, as desigualdades construídas entre homens e mulheres. Elas apresentam relativa independência econômica, pelo fato da maioria possuir renda própria, como aposentadas ou pensionistas. Todavia esse fato não garante a cidadania econômica, uma vez que elas ainda apresentam restrições nos seus direitos quanto a: local de moradia, meios de locomoção (muitas dependem de transporte coletivo ou "caronas" para participarem das atividades voluntárias), como usufruir o seu lazer (algumas raramente tiram férias). Saraceno (1995, p. 228) faz uma relação entre a assistência praticada por mulheres na esfera familiar e a cidadania, que pode ser perfeitamente vinculada também às atividades voluntárias:
A ação voluntária é interessante na medida em que promove a solidariedade , a dignidade do ser , valoriza as necessidades sociais , ao invés de negá-las, porém até o limite onde não haja a sobrecarga individual em relação às questões sociais e a desresponsabilização do Estado . Observa-se que o acúmulo e a sobrecarga de atividades domésticas com as do voluntariado, não fazem as mulheres dividi-las nem com os maridos, nem com a coletividade. Passam a cuidar das necessidades sociais dos outros, quando as próprias são relevadas enquanto direitos à saúde, à assistência, à previdência, uma vez que o Estado é muito precário em relação a seguridade social. Isso as obriga a, inversamente, pagar por aquilo que elas doam: medicamentos, alimentos, casa etc. Ou seja, existe um custo para aqueles que pagam pela assistência, porém ele desaparece para quem a pratica porque esse custo não é socialmente reconhecido, ou seja, não se trata de ações contabilizadas, mercantilizadas, valorizadas no sistema capitalista. A autonomia com relação à família no que tange a disponibilização de horários também é relativa, em função da responsabilidade que assumem em relação aos afazeres domésticos e assistenciais dentro da própria família. O espaço público que as voluntárias alçaram através da Associação, onde estão unidas pela "associação de idéias, pela caridade, confraternização, pela necessidade de servir, sofrer junto com os que sofrem" parece não tê-las liberado dos afazeres no espaço doméstico, já que continuam responsáveis pelas tarefas de cuidar da casa, dos filhos e dos netos, levando à realização de uma dupla jornada de trabalho. A autonomia da AVHU em relação ao Hospital, de onde recebe as demandas sociais que mobilizam o seu atendimento, circunscreve-se na capacidade de liberar ou não, os recursos necessários para determinada solicitação. Não se observa uma movimentação política no sentido de questionar, debater ou propor novas ações, com novas perspectivas e diretrizes, que avancem em busca de novos referenciais de prática e de cidadania, em razão, possivelmente, da própria origem atrelada prioritariamente a uma necessidade institucional e não, das próprias voluntárias. Desta forma, as voluntárias ainda se distanciam da idéia da dimensão de cidadania emancipatória, ativa, no âmbito da qual elas se inter-relacionariam "por meio dos recursos do discurso e da persuasão", descobririam suas identidades e decidiriam coletivamente (ARENDT apud SOARES, 2002, p.101), ou seja, extrapolariam interesses individuais, pontuais e deliberariam assuntos de interesse coletivo, com interferência no espaço das decisões políticas. A divisão sexual do trabalho, as relações de gênero, as separações entre o público e o privado, oferece um modelo de cidadania social, que ainda não permitem a essas voluntárias uma relativa autonomia, seja com relação a família ou na participação política efetivamente. Lavinas (1997, p. 184) demonstra que pouco se tem conseguido avançar:
No caso da AVHU, a qualidade do espaço público ocupado, ainda não lhes oportuniza transpor a condição já construída socialmente às mulheres, nem tampouco a efetiva participação política no debate, no planejamento das ações vinculadas às demandas sociais, nas Conferências Municipais, nas deliberações das políticas públicas. 4 CONSIDERAÇÕES FINAISEsta breve exposição sobre o trabalho das voluntárias da AVHU na perspectiva das atividades realizadas por homens e mulheres permite enfatizar alguns pontos já abordados à luz de alguns conceitos teóricos. A AVHU tem sido um espaço notadamente marcado por práticas sociais historicamente atribuídas ao feminino. O grupo iniciou exclusivamente com a participação de mulheres, à época, chamadas por um órgão Estatal, para contribuir de forma voluntária com uma política pública, na prestação de serviços às pessoas pobres e doentes. O perfil de atuação dessas mulheres denota a estrutura capitalista e patriarcal do Estado liberal que se apropria do trabalho das mulheres para sua manutenção ao mesmo tempo em que delimita a estas as tarefas na divisão sexual do trabalho. Vale ressaltar que com relação aos objetivos inicialmente propostos, a AVHU vem se configurando num significativo e reconhecido grupo de apoio ao Hospital e à comunidade, porém com a sua prática mais acentuada no "fazer" do que a participação política ao nível decisório, seja no âmbito hospitalar ou a nível comunitário. Suas práticas deveriam pertencer a uma rede de proteção social sob a responsabilidade do Estado. No entanto, desqualificá-las significa negar qualquer valor social às necessidades de assistência e solidariedade (SARACENO, 1995), o que reforçaria ainda mais a divisão sexual do trabalho, na medida em que vincularia a ação da mulher a algo sem valor, sem mérito, invisível, sem reconhecimento. E esta concepção interessaria à lógica do capitalismo, pois o Estado isenta-se de suas responsabilidades, transferindo-as para a sociedade, através dos indivíduos, famílias e redes de voluntariado.
BIBLIOGRAFIA TEIXEIRA, M. et al. Trabalho e cidadania para as mulheres : desafios para a política pública . São Paulo: Coordenadoria Especial da Mulher , 2003. CARRASCO , C. A sustentabilidade da vida humana : um assunto de mulheres ? In: FARIA, N.; NOBRE , M. (Org.) A produção do viver . Ensaios de Economia Feminista . São Paulo: Sempreviva Organização Feminina , 2003. ( Cadernos Sempreviva). DIETZ, M. G. O contexto é o que conta : feminino e teorias da cidadania . Cidadania e feminismo . Edição Especial . México: Productos Culturales, 1999. FARIA, N; NOBRE . M. O que é ser mulher ? O que é ser homem ? In: ______. Gênero e desigualdade , São Paulo, p. 11-14, 1997. ( Cadernos Sempreviva). KERGOAT, D. Relações sociais de sexo e divisão sexual do trabalho . In: LOPES, M.; MEYER, D. ; WALDOW, V. .(Org.). Gênero e saúde . Porto Alegre : Artes Médicas, 1996. LAVINAS, L. Gênero , cidadania e políticas urbanas. In: RIBEIRO ; L.C.Q.; SANTOS JUNIOR, Orlando (Org). Globalização , fragmentação e reforma urbana : o futuro das cidades brasileiras na crise . Rio de Janeiro : Civilização Brasileira , 1997. p 174. MALTEMPI, M. A.C. S. Quatro anos de trabalho voluntário junto ao Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná . Trabalho de Conclusão de Curso ( Graduação em Serviço Social )- Universidade Estadual de Londrina, 1984. SARACENO, C. A dependência construída e a interdependência negada: estruturas de gênero e cidadania . In: BONACHHI, G. E; GROPPI, A. (Org.) O dilema da cidadania . São Paulo: Editora UNESP, 1995. SILVEIRA , M. L. Políticas públicas de gênero : impasses e desafios para fortalecer a agenda política na perspectiva da igualdade . Revista Presença de Mulher , v. 6, n.45, out./2003. SOARES , V. Projeto Vila Bairro : impacto nas relações de gênero . In: SPINK, P.; CAMAROTTI, I. (Org.). Governo local e desigualdades de gênero . São Paulo: Annablume, 2002. ANEXO A
"Serviço Social do Hospital Universitário de Londrina, está formando um grupo de voluntários, de pessoas como você dotadas de forte altruísmo, consciente dos problemas humanos. Este grupo de voluntários servirá como ponto de apoio básico para a recuperação de pessoas e famílias surpreendidas pela doença e que muitas vezes não têm condições sociais, econômicas e emocionais de continuarem o tratamento fora do hospital, ou seja, quando recebem alta. Sabemos que você compreende estas situações e que muitas vezes já sentiu desejo de ajudar, mas não sabe como. Convidamos você para participar de uma reunião informal dia 13 de novembro (terça-feira) às 15:00 horas no Hospital Universitário, quando então irá conhecer o hospital e as pessoas que precisam de você. Londrina, 08 de novembro de 1.979."
Notas [1] Essas idéias desenvolvidas pelo pensamento feminista se encontram recolhidas em diversos artigos , em livros como os de Borderías et al. (1994), Folbre (1995), Himmelweit (1995). |