Notas sobre o ensino de "informática" nos cursos de Serviço Social
Evaristo Colmán
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            Assistente Social - PUC/SP, Mestre em Serviço Social -PUC/SP, Doutor em História pela Unesp, Professor do Curso Serviço Social da UEL. colman@uel.br  

RESUMO:
Este artigo discute a recomendação de  "ensino de informática" acrescentada às diretrizes curriculares desde 2001 para os cursos de Serviço Social e defende a incorporação de outras abordagens tais como Tecnologias de Informação e Sistemas de Informação. O artigo justifica esta ampliação pelo impacto das tecnologias nos processos de trabalho do Serviço Social, e propõe o ensino mediante a elaboração experimental de sistemas aplicados às atividades profissionais.

PALAVRAS CHAVE : Processos de trabalho, Informática, Tecnologias de informação, Sistemas de informação.

ABSTRACT:
This work discusses present official guidelines for the teaching of "informatics"for social work courses. It proposes the use of new technologies, such as "information technologies" and "Information Systems" for those courses. This proposal is based on the convergence between technologies and the activities proper of the social work, and it recommends teaching this subject applied to the professional activities.

KEY WORDS: Work processes, Informatics, Information technologies, Information systems.


Discutimos neste artigo a questão do ensino de informática nos cursos de Serviço Social. Com o processo de revisão curricular iniciado em 1994 muitos cursos de Serviço Social do país introduziram em seus currículos uma disciplina, uma oficina ou um tópico de conteúdo sobre informática, No entanto, o ensino dessa matéria tem se limitado ao treinamento de alguns programas mais populares como editores de texto e planilhas eletrônicas, o que nos remete a algumas reflexões que achamos de fundamental importância.

Inicialmente, pode se afirmar que a inclusão do ensino de informática nos cursos de graduação em Serviço Social, não responde apenas às recomendações das diretrizes curriculares, mas, à crescente importância dos recursos informáticos no mundo do trabalho e da cultura em geral.

O parecer CES 492/2001 do MEC [1] prescreve a utilização dos recursos da informática como um requisito para o exercício de atividades técnico-operativas no quadro das habilidades e competências gerais. Entretanto, não nos parece estar aí a razão principal da inclusão do seu ensino nos cursos de serviço social.

A parcimônia da recomendação (apenas 5 palavras) indica, ao nosso ver, mais o reconhecimento da importância das tecnologias, do que uma proposta de abordagem ou delimitação de conteúdos para esta "habilidade". É uma reação ao impacto que as novas tecnologias provocam. Contudo, os cursos de Serviço Social, ao definir os conteúdos, não podem se limitar a uma postura reativa, principalmente num campo que afeta os processos de trabalho em geral, e, certamente já interfere nas formas do agir profissional dos assistentes sociais.

A escolha da nomenclatura já demonstra certa timidez na expectativa que se tem acerca deste campo, pois, "informática", designa genericamente os equipamentos (computadores, impressoras, periféricos diversos) e os softwares mais populares (editores de texto, planilhas eletrônicas e softwares de apresentação). Limita-se, com esta designação, o alcance das novas tecnologias, que abarca recursos imensos hoje utilizados nos processos de trabalho em diversas áreas.

Não estamos propondo, entretanto, uma discussão semântica. O que está colocado para os responsáveis por este ensino é a construção coletiva de conteúdos que deve contemplar o "ensino da informática". Nesse sentido, impõe-se a necessidade de ampliarmos a apropriação deste campo, e passar a considerar as várias visões que estão sendo utilizadas, com as terminologias que lhes são características, tais como TI (tecnologias de informação), TICs (tecnologias de informação e comunicação), NTICs (novas tecnologias de informação e comunicação), SI (Sistemas de informação), e outras.

Por ora, não se trata de definir qual dessas terminologias melhor se adequa a nossas necessidades. No estágio que nos encontramos basta-nos considerá-los enquanto termos que designam diversos arranjos e práticas em curso. Entretanto, é preciso reconhecer que o uso dessas terminologias nas diversas áreas da atividade econômica, social, política e cultural para designar as aplicações tecnológicas, lhes confere concretude suficiente a ponto de justificar uma prolífica literatura [2] que já vem sistematizando as experiências. Mais do que isso, explica a oferta de disciplinas em cursos de formação de administradores, engenheiros e outras profissões.

Na medida em que o Serviço Social está começando a se apropriar destas, torna-se imperativo o conhecimento das várias abordagens e a aplicação crítica aos processos de trabalho próprios de nossa profissão. Somente neste processo concreto de apropriação das novas tecnologias aos nossos objetos de trabalho é que formularemos com segurança os conceitos mais aproximados à nossa realidade.

O que deve ficar claro é que tecnologias de informação ou tecnologias de informação e comunicação, por exemplo, implicam a combinação de mais elementos e têm um alcance muito mais abrangente do que simplesmente "informática", sem eliminar o conteúdo dela. Vejamos alguns exemplos. Castells (2000) define as tecnologias de informação como sendo: "... o conjunto convergente de tecnologias em microeletrônica, computação (software e hardware), telecomunicações/radiodifusão, e optoeletrônica". (pág. 49)

Nesta definição de Castells ressalta o caráter convergente das diversas tecnologias que conferem ao conjunto um conteúdo mais amplo daquele que teria simplesmente o que ele chama de "computação" e que as nossas diretrizes curriculares designam como "informática". Preocupação semelhante anima Bianchetti (2001) quando afirma que:

No amplo espectro de tecnologias que compõem as novas TICs [Tecnologias de Informação e Comunicação], as telecomunicações ocupam um espaço ou desempenham funções amplamente destacadas. Produção, difusão, recepção seriam funções definitivamente comprometidas caso não se contasse com um sistema e meios de transmissão à altura das possibilidades atuais. (Pág. 31).

E para explicitar esta ideia, o mesmo autor condiciona a pertinência de se falar em TICs à unificação de duas tecnologias [a microeletrônica e as telecomunicações] criadas por caminhos próprios, mas que por opções políticas "convergiram de forma inexorável, a partir da revolução provocada pela invenção do transistor em substituição às válvulas". (Pág. 31) .

Esta convergência, entendida aqui no sentido da gradativa diluição de fronteiras entre tecnologias e setores, veio se tornando tão intensa que a plena realização da informática e das telecomunicações só é alcançada quando deixam de existir fronteiras entre ambas, como demonstram a literatura especializada. (Pág. 31).

É precisamente a ideia de diluição de fronteiras, de interpenetração de tecnologias, que se perde de vista quando se restringe à informática o ensino nos cursos de serviço social. Perde-se de vista, por exemplo, que a internet é a principal plataforma tecnológica contemporânea – é o resultado da convergência da microinformática e das telecomunicações.

Mais ampla do que a ideia de Tecnologias de Informação é a ideia de Sistemas de Informação que vem ganhando espaço no mundo do trabalho, na gestão pública e em outros setores. Dentre as obras dedicadas ao tema escolhemos, como exemplo, a dos professores Kenneth e Jane Laudon, responsáveis pela disciplina Sistemas de Informação da Stern School of Business da New York University e da Columbia University. Eles definem sistemas de informação como:

.... um conjunto de componentes inter-relacionados trabalhando juntos para coletar, recuperar, processar armazenar e distribuir informação com a finalidade de facilitar o planejamento, o controle, a coordenação, a análise e o processo decisório em empresas e outras organizações. (LAUDON, 1999, pág. 4).

A esta definição abstrata do que seria qualquer sistema de informação, eles acrescentam ainda que estes, "transformam a informação em uma forma utilizável para a coordenação de fluxo de trabalho de uma empresa", ajudando a tomar decisões, analisar e visualizar assuntos complexos e resolver outros tipos de problemas. Quanto aos sistemas de informação computadorizados eles destacam que,

... captam dados de fora ou de dentro de uma organização [...] e os colocam diretamente em um sistema de computadores através de um teclado ou um outro dispositivo. [...] Durante o processamento, os dados são organizados, analisados e manipulados através de cálculos, comparações, resumos e classificações, objetivando uma forma de disposição mais significativa e útil. As atividades de saída transmitem os resultados do processamento a locais onde serão usados para tomada de decisões, projeto, inovação, coordenação ou controle. (Pág. 4).

Pode se observar nesta breve definição, a abrangência maior dos sistemas de informação, que abarcam a "informática" como pressuposto técnico, mas, a supera amplamente. A ênfase está posta na "utilidade" do tratamento da informação que nos aproxima a processos de trabalho muito familiares na atividade dos assistentes sociais envolvidos na gestão de serviços sociais. Planejamento, coordenação, controle, tomada de decisões, etc., são ações típicas de assistentes sociais nas organizações e instituições que empregam seu trabalho.

Num outro registro, localizam-se as preocupações que incidem sobre o significado sociológico e político da chamada "revolução informacional". Este tema remete a uma abordagem crítica do papel desempenhado pelas tecnologias de informação na sua articulação com as formas que o capital adota para enfrentar a sua crise contemporânea. Jean Lojkine problematiza precisamente o caráter das tecnologias de informação no âmbito da chamada revolução informacional – questão, aliás atravessada por controvérsias–, tratando-as como parte das forças produtivas. Para ilustrar um dos questionamentos que envolve o nosso tema, reproduzimos o posicionamento de Lojkine sobre as tecnologias de informação.

.... a noção de forças produtivas contrapõe-se à concepção neutra, passiva, da "tecnologia" como simples reflexo de uma relação social – "força" implica, de fato, uma ação; "produtiva" implica uma ação de transformação da natureza material. Ora, a objetivação crescente de funções intelectuais nas tecnologias de informação não suprime, em absoluto, como veremos, seu caráter de forças produtivas. Um computador, realmente não é uma pura "tecnologia intelectual", um simples instrumento de "representação" do mundo, como postula uma parte dos cognitivistas; antes, ele é um instrumento de transformação do mundo, material e humano. Produto sócio-histórico (o computador atual nasceu, por exemplo, de uma precisa demanda do complexo militar-industrial norte-americano ao fim da segunda guerra mundial), o computador é também uma condição material essencial para a elevação da produtividade do trabalho em todas as esferas de atividade. (Lojkine, 1995, Pág. 49) Sublinhado nosso.

A leitura de Lojkine é uma das que se insurgem claramente contra a onda de interpretações "pós-modernas" que, extrapolando as alterações efetivamente provocadas pelas novas tecnologias, estendem essas mudanças para um plano macro-societário, para o plano das relações de produção e forçam algumas conclusões muito convenientes para o capital.

Basicamente, a intenção de muitas abordagens "pós-modernas" é a de negar a materialidade e centralidade do trabalho na organização da sociedade capitalista de modo a eliminar o sujeito da negação desse modo de produção: o proletariado. Desse modo, pode se ter ideia de uma outra dimensão da questão que envolve a discussão das tecnologias de informação, dimensão extremamente fecunda, que seria inacessível se limitássemos o nosso horizonte ao "uso da informática".

Em síntese, o ensino da informática nos cursos de Serviço Social não pode se limitar ao treinamento dos softwares mais populares (editores de texto, planilhas eletrônicas e softwares de apresentação). O manuseio destes softwares é hoje uma condição semelhante a que era, em tempos remotos, o domínio da técnica de datilografia ou do uso de calculadoras. Os cursos de graduação não podem limitar-se ao conhecimento destas ferramentas básicas.

A abordagem das tecnologias de informação, tecnologias de informação e comunicação e sistemas de informação permitem pensar na aplicação dos novos recursos tecnológicos para potencializar a intervenção dos assistentes sociais nas agências onde trabalham, pois incidem sobre os processos de trabalho.

Processos de trabalho do Serviço Social

A evidência que alcançaram os "processos de trabalho do Serviço Social" no nosso meio profissional contemporâneo é o resultado do debate realizado durante os anos 1980 e 1990. Este debate se deu em torno às dificuldades enfrentadas pelas escolas no ensino da "metodologia do Serviço Social", que havia substituído as "metodologias" de caso/grupo/comunidade no currículo mínimo de 1982.

Durante toda a década de 1980 e parte da de 1990, o conteúdo da "metodologia do Serviço Social" era extremamente diversificado, variando de escola para escola, muitas vezes na mesma região, como atesta a pesquisa realizada pela ABESS em 1987/88 [3]. A ABESS organizou diversos seminários e eventos sobre este tema, com a participação das vanguardas mais esclarecidas da profissão e, nestes foi possível superar - ao menos do ponto de vista da compreensão teórica - a tradição da "metodologia" herdada do passado profissional.

Esta superação, no entanto, não resolveu os problemas de "implementação" da nova abordagem (a inaugurada em 1982), o que foi reconhecido na XXVIII Convenção Nacional da ABESS realizada em Londrina – PR, que deliberou pela deflagração do processo da revisão curricular.

O que interessa destacar é que foi durante os debates e estudos do processo do qual surgiu o Currículo Mínimo de 1996 – posteriormente transformado em Diretrizes Curriculares – é que se chegou, de forma cada vez mais clara à compreensão do Serviço Social como trabalho, e o seu exercício, como processos de trabalho. O texto do currículo mínimo afirma explicitamente que:

As mediações necessárias a essa articulação [da questão social no âmbito da reprodução da vida] consideram a prática do Assistente Social como trabalho e seu exercício profissional como processo de trabalho. Este, entendido em seus elementos universais sem perder de vista as particularidades desta especialização do trabalho na sociedade. (ABESS/CEDEPES. Currículo Mínimo para o Curso de Serviço Social). [Destaque nosso].

E ainda que:

O processo de trabalho do Serviço Social é determinado pelas configurações estruturais e conjunturais da questão social e pelas formas históricas de seu enfrentamento, permeadas pela ação dos trabalhadores, do capital e do Estado, através das políticas e lutas sociais. (ibidem).

A explicitação da ementa desta disciplina deixa claro que é mediante esta disciplina, ou mais ainda, através desta concepção que se pretende superar os problemas de implementação que deram origem à revisão curricular:

Processo de Trabalho do Serviço Social: O trabalho como elemento fundante do ser social. Especificidade do trabalho na sociedade burguesa e a inserção do Serviço Social como especialização do trabalho coletivo. O trabalho profissional face às mudanças no padrão de acumulação capitalista e regulação social. Os elementos constitutivos do processo de trabalho do assistente social considerando: a análise dos fenômenos e das Políticas Sociais; o estudo da dinâmica institucional; os elementos teórico-metodológicos, ético-políticos e técnico-operativos do Serviço Social na formulação de projetos de intervenção profissional; as demandas postas ao Serviço Social nos espaços ocupacionais da profissão, nas esferas pública e privada e as respostas profissionais a estas demandas. O assistente social como trabalhador e o produto do seu trabalho. Supervisão do processo de trabalho e o Estágio. (Currículo Mínimo).

É somente no âmbito da discussão sobre os processos de trabalho do Serviço Social e na compreensão de nossa profissão como trabalho, que se pode avançar na delimitação dos nossos modos operativos específicos, condição ineludível para conquistar uma legitimação ameaçada pela flexibilização das formas do trabalho, no atual ciclo do capital conhecido como neoliberalismo. Trata-se de um processo que, no limite, pode levar a desaparição de algumas profissões e que, no caso do Serviço Social, tem pressionado no sentido de diluir suas fronteiras, haja vista as alterações na nomenclatura de funções outrora exclusivas de assistentes sociais, como vem ocorrendo em empresas privadas, por exemplo.

E é também neste âmbito que se coloca o problema dos conteúdos de "informática" nos cursos de graduação, uma vez que, se aceita a ampliação da visão aqui proposta, a sua apropriação incidirá diretamente sobre os processos de trabalho do Serviço Social. Esta incidência tem um interesse teórico na medida em que pode nos aproximar de determinações mais precisas da especificidade profissional, ou, do que distingue esta profissão e justifica a sua existência na divisão social do trabalho. Mas também tem um interesse operativo cuja urgência nunca será supérfluo enfatizar.

O que ensinar?

Para avançarmos na direção do que ensinar, pode ser útil partir de uma característica das novas tecnologias apontada por Castells. Ele afirma que

Os usos das novas tecnologias de telecomunicações nas duas últimas décadas passaram por três estágios distintos: a automação de tarefas, as experiências de usos e a re-configuração das aplicações. Nos dois primeiros estágios, o progresso da inovação tecnológica baseou-se em aprender usando, de acordo com a terminologia de Rosenberg. No terceiro estágio, os usuários aprendem a tecnologia fazendo. (2000, Pág. 51).

Esta é uma constatação muito importante, cuja fecundidade coincide com algumas experiências, por nós realizadas, no desenvolvimento de aplicativos voltados ao Serviço Social. Apoiando-nos na autoridade do autor comentado, queremos reforçar a ideia de que a forma mais adequada de nos apropriarmos das novas tecnologias é elaboração de aplicações, o que Castells denomina de "re-configuração", ou de, aprender fazendo.

Para fins de ilustração dessa ideia comentaremos algumas experiências que tivemos com colegas assistentes sociais no desenvolvimento de aplicações na região de Londrina.

O primeiro software comercial para o Serviço Social desenvolvido no Brasil foi o AGDAS – Agenda do Assistente Social, resultado de uma colaboração entre estudantes do curso de ciência da computação e professores do curso de Serviço Social da UEL, no âmbito do projeto Gênesis, com apoio do CNPq.

Este software constituiu-se basicamente em um banco de dados que permite o registro dos atendimentos organizados pelo usuário principal, ao qual ficam vinculados os seus dependentes, os atendimentos e encaminhamentos. Os atendimentos por seu turno podem ser classificados pelo tipo da demanda, e posteriormente recuperados na forma de relatórios estatísticos, gráficos e listagens. Além da classificação pelo tipo de demanda, pode-se também recuperar a informação por variáveis socioeconômicas. Inclui, ademais, algumas outras funções configuráveis como o cadastro dos prestadores de serviços sociais, ou, agenda de recursos.

A utilização deste aplicativo por assistentes sociais provocou a necessidade de adaptações. Na sequência, a equipe que desenvolveu o AGDAS foi acionada para fazer os ajustes sugeridos pelos profissionais que assumiram, nas suas organizações, a tarefa de implantar sistemas de informação e de reorganizar suas rotinas de trabalho incorporando nelas a utilização de computadores e redes.

Das várias adaptações propostas, destacam-se algumas cujas propriedades mostram precisamente que é na elaboração dos aplicativos, no momento de sua ideação e desenho, que os profissionais se apropriam da tecnologia.

Uma primeira reformulação foi o incremento das "demandas" configuráveis. Na primeira versão, estas eram limitadas a onze alternativas apenas e, se fosse necessário acrescentar uma nova demanda além das primeiras onze, teria que se eliminar alguma já em uso, com o consequente prejuízo na hora de se elaborar os relatórios estatísticos. A realidade da aplicação mostrou que no atendimento efetivo da sua clientela, as demandas são sempre expansíveis, ou seja, o quadro de necessidades da população é muito grande e, o sistema de informação deve permitir o reflexo dessa necessidade.

Vinculado a este item – das demandas– acrescentou-se também nas versões posteriores um campo para registrar se a demanda havia sido atendida ou não. Este acréscimo respondia à necessidade dos profissionais mensurarem não apenas as demandas atendidas, mas, principalmente as que não podiam atender por falta de recursos. A preocupação de muitos profissionais era de que limitando os registros exclusivamente às demandas atendidas, estariam facilitando aos administradores públicos a possibilidade de fazer demagogia com os atendimentos. Ao passo que, se ao lado das demandas atendidas se registrassem – e contabilizassem - também as não atendidas, teriam um quadro bem mais aproximado da realidade, sem falar na utilidade dessa informação para planejamento e elaboração de propostas.

Outra adaptação solicitada pelos profissionais foi a automatização de algumas funções e cálculos. Na elaboração de sistemas de registros dos atendimentos, pode se acrescentar, sem grandes complicações técnicas, a execução automática de alguns cálculos, a partir de dados dos usuários, por exemplo, da renda, número de dependentes, quantidade de moradores por cômodos, etc. Pode se combinar estes dados numa fórmula e fornecer um indicador de seleção socioeconômica para concessão de benefício ou auxílio. A inclusão ou não dessa função dependeu das condições concretas em que se aplicaram os sistemas. Em alguns lugares foi uma ajuda para agilizar o serviço, mas em outros, foi considerado uma ingerência na autonomia do profissional que normalmente decide pela concessão ou não.

Uma consideração das mais relevantes na elaboração de sistemas de informação é a de quem vai operar o sistema. Esta questão tem implicações práticas decisivas, uma vez que sempre há que se perguntar qual o compromisso da pessoa que opera o computador, para alimentar o sistema com a necessária fidedignidade. Frequentemente, os profissionais menos experientes têm a tentação de colocar todas as informações que imaginam ser relevantes sem se importar com a extensão ou complexidade da aplicação, e nem com a capacidade de quem vai operar o sistema. A experiência mostra que toda vez que isso ocorre, ajustes são necessariamente feitos mais adiante, com o consequente custo e diminuição da sua efetividade.

Relacionado a esta problemática, se coloca também o impacto que o desenho dos sistemas de informação tem sobre os processos de trabalho. Da mesma forma que num banco a implementação de rotinas informatizadas pode levar à diminuição do número de bancários, algumas aplicações podem provocar também a redução de assistentes sociais empregados. A percepção dessa possibilidade, quando os assistentes sociais se envolvem, colocou-se sempre como uma alternativa a ser evitada. Daí ressaltar a importância de, ao se desenhar aplicações que afetam nossas áreas, contar com a participação ativa dos assistentes sociais envolvidos.

Mas, o perigo de perder empregos é apenas um dos impactos sobre os processos de trabalho. Outra questão grave é a escolha de procedimentos e rotinas que permitem ampliar a participação dos usuários, defender seus direitos e tornar mais público e transparente o desempenho dos nossos serviços. Em oposição a procedimentos que tenham como única preocupação a de fornecer apenas informações para os dirigentes decidirem, informações exclusivamente gerenciais, e, consequentemente, menos democráticas.

Estas foram algumas das preocupações que embasaram as adaptações feitas nos bancos de dados elaborados para registrar atendimentos e que exemplificam a ideia de que é fazendo que se aprende a dominar as novas tecnologias de informação.

Este breve relato tem a finalidade de fundamentar o que consideramos deve ser o conteúdo principal do "ensino da informática" nos cursos de graduação. Quer dizer, deve propiciar aos estudantes a oportunidade de treinar a elaboração de aplicações – mesmo que em condições de laboratório–, para que façam as necessárias conexões das potencialidades tecnológicas com as determinações da profissão, com os objetos, com as estruturas burocráticas, com os sistemas de decisão e com o conjunto de funções administrativas afetadas pelas rotinas informatizadas. É desta maneira que os estudantes poderão, quando demandados pelo mercado em situação profissional, intervir criticamente na elaboração de sistemas de informação que preservem os valores profissionais. Do contrário, não poderão intervir na sua implementação, ficando à mercê dos leigos que, estes sim, terão todo o apoio dos dirigentes para elaborar sistemas calcados apenas na lógica produtivista e gerencial.

A modo de resumo dos apontamentos pretendidos gostaríamos de enfatizar:

1. Que a inclusão do ensino de informática nos cursos de Serviço Social é um passo importante como reconhecimento do papel que as novas tecnologias têm nos ambientes de trabalho mas, é nossa tarefa, enquanto responsáveis pela formação profissional, propor conteúdos que qualifiquem a apropriação das tecnologias de informação e os sistemas de informação pela nossa profissão. Nesse sentido, amplia-se necessariamente o sentido dado à "informática" pelas diretrizes curriculares.

2. Que a importância desta ampliação se justifica pela convergência deste campo do fazer e do pensar com os processos de trabalho do Serviço Social. A apropriação das modernas tecnologias de informação pode contribuir na delimitação dos processos de trabalho do Serviço Social, avançando na legitimação e afirmação profissionais.

3. Por último, que a forma mais adequada de se "ensinar informática" é fazendo os estudantes passarem pela vivência de elaborar aplicações. A experiência tem mostrado e a literatura especializada defende que a melhor maneira de nos apropriarmos das tecnologias de informação e dos sistemas de informação é fazendo-os.

Bibliografia

ABESS. Ensino de Metodologia nos Cursos de Serviço Social. Cadernos ABESS no 3. São Paulo: Cortez, 1995.

ABESS/CEDEPSS. Currículo Mínimo para o Curso de Serviço Social. Cadernos ABESS no 7. Formação Profissional: Trajetória e desafios. São Paulo: Cortez, 1997.

BIANCHETTI, Lucídio. Da Chave de Fenda ao Laptop. Tecnologia digital e novas qualificações: Desafios à educação. Petrópolis: Vozes, 2001.

CASTELLS, Manuel. A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura. Vol. 1 A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

LAUDON, Kenneth C. e LAUDON, Jane Price. Sistemas de Informação. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

LOJKINE, Jean. A Revolução Informacional. São Paulo: Cortez, 1995.

MATTOS, Antonio Carlos M. Sistemas de Informação: Uma visão Executiva. São Paulo: Saraiva, 2005.

OLIVEIRA, Jayr Figueiredo de. Sistemas de Informação versus Tecnologias de Informação: Um impasse empresarial. São Paulo: Érica, 2004.

 

Notas

[1] O Parecer 492/2001 do Conselho Nacional de Educação/Câmara Superior de Educação, que determina as DIRETRIZES CURRICULARES PARA OS CURSOS DE SERVIÇO SOCIAL define no seu segundo item, as Competências e habilidades dos profissionais. Dentre estas, as primeiras são as Competências e habilidades gerais que ficaram assim definidas:

 "2. Competências e Habilidades

A) Gerais

A formação profissional deve viabilizar uma capacitação teórico-metodológica e ético-política, como requisito fundamental para o exercício de atividades técnico-operativas, com vistas à

         compreensão do significado social da profissão e de seu desenvolvimento sócio-histórico, nos

         cenários internacional e nacional, desvelando as possibilidades de ação contidas na realidade;

         identificação das demandas presentes na sociedade, visando a formular respostas profissionais para o enfrentamento da questão social;

         utilização dos recursos da informática." (destaque nosso) http://portal.mec.gov.br/sesu/arquivos/pdf/49201FHGSCCLBAM.pdf

[2] Só a modo de ilustração mencionaremos aqui alguns títulos: Sistemas de Informação. Uma visão executiva de Antonio Carlos M. Mattos; Sistemas de Informação versus Tecnologias de Informação de Jayr Figueiredo de Oliveira; A Sociedade em Rede de Manuel Castells; Da chave de fenda ao laptop de Lucídio Bianchetti; A revolução informacional de Jean Lojkine; Sistemas de Informação de Kenneth e Jane Laudon, de entre tantos outros.

[3] Ensino de Metodologia nos Cursos de Serviço Social. CADERNOS ABESS n. 3. São Paulo, Cortez, 1995.

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